Hip Hop Rádio

Entra na batida, mesmo que a agulha te salte

“Abram alas, equipa de salvamento, 100% pelo hip-hop eu represento”, diziam os Sindicato Sonoro no final da primeira década do século XXI. Se vocês, como eu, leram esta linha a cantar, podem imaginar do que vos vou falar. Afinal, o hip-hop nacional está vivo e bem representado, o público está cada vez mais ativo, mais consciente, mais verdadeiro. A cultura cresce, o graffiti é cada vez mais aceite (fruto do bom trabalho que tem crescido em várias cidades do país), o “apadrinhamento” de Slow J ao b-boy Speedy ou o reconhecimento internacional dos Momentum Crew abriu também a visão dos fãs ao breakdance, um dos pilares do hip-hop que nunca se afirmou, de verdade, entre o público nacional. O DJing não é exceção: Lhast, Oseias, Fumaxa, Here’s Johnny, Holly, Spliff – produtores que vão, a pouco e pouco, alcançando o topo. Fazemos do hip-hop o ar que respiramos, todos os dias, quando metemos os fones na viagem de autocarro ou quando bombamos as colunas com “malhas” que saem todos os dias, para nosso gáudio.

E, como todos os movimentos, evolui. Move-se. Cresce. O hip-hop e a sua vertente social também muda, avança, altera-se. Assim como o contexto em que é produzido. O rap de intervenção, “sujo”, como disse Valete, sempre foi uma constante e uma mais-valia, expondo os problemas de uma sociedade minoritária que lutava todos os dias para sobreviver, trazendo à tona as questões do racismo, da desigualdade, da xenofobia, do que é marginal, posto à parte. Porque era isso que quem cantava, na altura, vivia, e quem canta o que vive canta muito melhor. Alguns espelhavam a sua ideologia política ou as suas ideias de “abstenção”. Outros criticavam o “suor do trabalho escravo”. Outros falavam de crime, da propensão violenta das ruelas da cidade, das “drogas e bottles”. O gangsta rap falava da rua e era na rua que se fazia, fruto da rebeldia dos que bebiam as palavras dos seus ídolos. Sem censura – é assim a maneira mais rápida para descrever o hip-hop. É o que é, sem medos, sem receios, diz o que interessa dizer. Um pouco como serviço público, embora a maioria do público não o compreendesse. E, novamente, foram-se aflorando novas tendências: os sons de amor, como se diz por aí, o storytelling inteligente que contava romances, aventuras, experiências de vida. É inegável que todo o género musical é propenso a mudar. E o conteúdo e mensagem desenvolveu-se muito, ao longo dos anos. O que não implica que a forma não possa mudar também.

Já não é só o boombap que nos vem à cabeça quando se fala de rap. A batida trap, acompanhada do “blink blink” e da fama, do sucesso, da ideia que um rapper é o novo rockstar, com o seu jeito deslocado e coloquial, já é uma constante em Portugal e no rap tuga – com tendência a evoluir cada vez mais. Profjam, por exemplo, assim como a sua label – Think Music – ou a dinâmica musical e o aparato lírico da Superbad. são os pioneiros da nova escola no que toca à vertente mais superficial (sem qualquer conotação negativa). As duas labels não podem ser comparadas, é claro, falo somente desta nova dinâmica musical. Holly Hood, por exemplo, seguiu as pisadas do padrinho Don Gula com o seu rap atrevido e explosivo, o toque de bad bitches e Money. Prof ou L-Ali trouxeram algo diferente nesta nova escola, também. A batida mais trap que o habitual a encantar as faixas é um exemplo disso, assim como L-Ali se desdobra em participações com VULTO, Pesca ou Secta com as suas fonéticas temíveis e beats underground.

Infelizmente, é isso que vem trazendo a discórdia aos fãs. Contextualizando tudo até aqui: estas recentes mudanças têm irritado profundamente o público. E foi Valete que lançou a controvérsia, com “Rap Consciente”. Os que antigamente talvez até adorassem o MC, agora apontam-lhe o dedo à falta de moral (dez anos sem álbum a provocar a ira dos mais ansiosos) e ainda ao facto de tentar voltar com o mesmo rap com que “saiu”: o “rap de combate”, a criticar e a julgar os restantes MC’s da tuga, que se apoiaram em Prodígio na sua nova música – “manos em 2017 ainda vendem revolução?” – com a ideia que o rap de revolta contra o sistema já está obsoleto. É essa a maior crítica que se aponta a Keidje Lima: os tempos que se vivem já não pedem tanta revolução como antigamente, e a mensagem que ele passa pode ser demasiado forçada. Do outro lado, vivem os fãs incondicionais do boombap, que criticam por seu lado o trap e a sua associação ao hip-hop. De fora, observam os “restantes”.

Esta discussão provoca, cada vez mais, alterações ao conceito de “bom rap”. Vou generalizar. Colocando Valete na prateleira de cima, juntamente com quem partilha da sua opinião de rap sujo e revoltoso, e colocando Profjam, a sua label e quem prefere o rap trap na prateleira de baixo (claro que não falo só de Valete e Prof, mas uso-me de ambos como exemplo neste argumento), temos uma estante recheada de talento. Em ambas as prateleiras se pode ver talento e amor ao game. Em ambas as prateleiras existe cultura, knowledge, respeito. Há quem diga o contrário, mas eu gosto de falar de factos e, embora este seja um artigo exclusivo da minha opinião, factos devem ser expostos e discutidos. E o único facto que está presente é a qualidade dos dois MC’s e respetivas “etiquetas”, respetivas prateleiras. Valete vai lançar “Homo Libero” e Profjam vai lançar um novo projeto. Valete diz “está de volta ao rap de combate” e “à arte de iluminar”, Profjam traz batidas trap com mortalhas de conhecimento e “está no topo do seu game”. Ambos (e relembro, mais uma vez, que estou a generalizar para melhor entendimento – não falo especificamente de nenhum dos dois, mas sim do que simbolizam) trazem coisas novas (e menos novas, talvez, mas com um novo ressurgimento, sem dúvida) e atitude.

O rap evolui, e ainda bem. Afinal, como eu comecei por explicar, cada um canta aquilo que vive, e é assim que se canta melhor. Os “restantes”, que acompanharam a passagem dos tempos, apreciam, cada um à sua maneira, a beleza que nasce nas variações e hip-hop e no florescimento de novas experiências, novas misturas, novos contextos. Porque é o contexto que mais importa: “para onde vou, com que estive, com quem estou, de quem fui, de quem sou”, como já os Dealema diziam. No hip-hop, e na música em geral, nada é intocável. Tudo se pode misturar e cruzar, passar a novidade, tocar pessoas diferentes. As batidas vêm e vão. O orgulho de pertencer ao movimento é uma constante. E daí, há mau rap e bom rap? Revolução versus Fama, Luta versus Status. Boombap versus Trap, Velha Escola versus Nova Escola. Será que estas discussões beneficiam alguém? É importante não confundir o conceito de conteúdo e forma. É importante apreciar o hip-hop no seu estado mais natural, seja sobre uma beat trap ou boombap. E é importante apreciar a mensagem de revolução que nos é transmitida, mas ainda mais importante manter o apreço que se tem pela mensagem de rebeldia face aos problemas da sociedade e do sistema. E é importante saber também que o rap espampanante, “javardo” (como já ouvi dizer) e virado para a ascensão à fama e vida de excessos é também rap, e está já vincado no movimento – sempre seguindo o exemplo dos states, afinal, em Portugal tudo chega com atraso.

O hip-hop tuga está vivo. Metam os braços no ar, levantem-se do sofá, vão para a rua partilhar melodias em forma de rap, mostrem aos vossos pais, irmãos, amigos. Façam parte deste movimento que nunca deixa ninguém de fora, independentemente do que preferirem ouvir. Critiquem o que têm a criticar. Formem a vossa opinião. E ouçam com o coração.

ARTIGO ESCRITO POR: BRUNO SOUSA

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