Hip Hop Rádio

E.se: “Escrever músicas em que consegues iluminar os outros com a tua escuridão é para mim a maior inspiração”

Carlos Alves, mais conhecido por E.se, acaba de lançar o seu primeiro single “Casulo”, pós-produzido por Virtus. Médico de profissão e natural de Almada, a sua relação com o hip-hop surgiu com o fascínio pelo graffiti que, desde pequeno, descobria nos murais que eram feitos na sua zona por writers designados, que apelavam de uma forma crua à liberdade criativa, sem regras. Desde aí tem vindo a explorar cada vez mais a cultura e deseja que a sua música seja um espaço de reflexão para si e para quem ouve.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

Por volta dos 14-15 anos comecei a perceber que era capaz de ouvir durante horas uma música que tivesse um determinado loop e aí o Endtroducing do DJ Shadow foi talvez o primeiro disco que me prendeu com o som “Midnight In A Perfect World”, que descobri para aí em 2006.

Paralelamente o Rap que nessa fase me surgia, o dos anos 2000, era mais vibrante e pujante e para mim não tinha tanta riqueza em samples de Jazz e Funk e talvez por isso só mais tarde passei a consumir Rap de forma mais intensa. Estava na faculdade e ouvia música sempre que estudava e fui descobrindo álbuns desde A Tribe Called Quest, a Outkast, a MF DOOM, a Kendrick Lamar.

Num espaço de seis anos, e principalmente de 2012 a 2015, consumi obsessivamente álbuns e mixtapes. Se descobria uma Label ou um coletivo ouvia os álbuns/mixtapes dos vários artistas e ia compilando numa playlist. Como ouvia música enquanto estudava tinha dificuldade em conseguir ouvir Rap português porque me distraía com a palavra, mas acabei por fazer o mesmo processo com os álbuns do Sam, NBC, Sir Scratch, Mind da Gap.

O que te levou a aventurares-te na música?   

Em 2015 comecei a reparar que quando ouvia álbuns de instrumentais, como o Beats Vol.1 – Amor do Sam The Kid dava por mim a improvisar aqui e ali, a descobrir métricas, mas era algo momentâneo e inconsistente. Em 2017/2018 comecei a reparar que acabava as noites em minha casa com amigos em sessões de improviso e era capaz de ficar até de manhã nesse registo.

As coisas mudaram quando no início de 2019 comecei a perceber que tinha mesmo o gosto em pôr coisas cá fora e comecei a pô-las primeiro no papel e ver se o resultado seria diferente, mais refinado, do que o que saía nos freestyles. Em julho de 2019 enviei a minha primeira música gravada em casa para mistura e masterização com o Johnny Virtus e ele foi um gajo incrível porque me deu logo imensos conselhos, sobre como melhorar a qualidade das gravações de forma ao resultado final ficar com um nível melhor.

Foi aí que conheci o ONUNO que é um OG de Almada e capta e mistura os álbuns de muita da malta de Almada desde o TOM, ao Blasph, Beware Jack, aos MAC e foi aí que senti o maior crescimento nas minhas músicas, quando comecei a gravar com ele e mais tarde também com o Johnny Virtus no Porto.

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Lancei no dia 14/7 o meu primeiro single, “Casulo”, e o feedback tem sido muito porreiro. É um tema onde acho que se conseguiu um bom equilíbrio entre flow e conteúdo, com um instrumental refrescante. Foi captado, misturado e masterizado pelo ONUNO num beat do NK com pós-produção do Johnny Virtus e o suporte visual ficou ao encargo do Chikolaev.

De certa forma ambicionei uma certa versatilidade no meu projeto e estou-me a tentar não agarrar para já muito ao feedback que me tem sido dado, embora tenha sido maioritariamente positivo, porque ainda é pouco representativo daquilo que já fiz. É só uma música tirado do projeto e não quero condicionar a direção que tinha pensado para as restantes com o feedback que recebi desta.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Tenho de começar por falar no Mac Miller. A versatilidade dele enquanto producer (nos projectos de Larry Fisherman, Larry Lovestein, Faces) e como rapper (especialmente no Faces, GOOD:AM e Watching Movies), foram um combustível enorme para mim. Ver que se conseguia ser tão honesto com as tuas falhas e com isso escrever músicas em que consegues iluminar os outros com a tua escuridão é para mim a maior inspiração e algo que sem dúvida me move.

Depois teria de mencionar diversos rappers de diferentes gerações que para mim foram moldando os limites do Rap num sentido que me cativou. Fora do país seriam o Andre 3000, MF DOOM, os Pharcyde, ATCQ, Biggie, Kendrick Lamar, J. Cole, Joey Bada$ e o Isaiah Rashad. No território nacional tenho sempre de mencionar primeiro o Sam The Kid porque de facto a escrita dele há muitos anos que está à frente de tudo o que se fazia a nível nacional (já para não falar enquanto producer que se equipara aos grandes lá fora como o Preemo ou o Pete Rock), depois o Maze, Johnny Virtus, SP Deville e Slow J.

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Primeiro de tudo gostava de chegar aos outros. Comecei por fazer isto para me libertar de problemas e trabalhar receios que guardava cá dentro e cujo peso me puxava para trás. Se puder ajudar alguém a chegar a um espaço de reflexão, de auto-aceitação, seria para mim a maior retribuição que podia tirar da minha música. Claro que não serão todas músicas de auto-aprendizagem, de aceitar a outra face, também vai haver bounce e vibe, mas sem dúvida que um grande foco do meu trabalho é o crescimento individual.

Consegues revelar algum projeto que esteja para sair, se é que estás a pensar nisso?

Posso revelar que este primeiro single faz parte do meu LP de estreia que tem um conceito próprio, traçando o meu trajeto desde a adolescência até ao início da vida adulta. O meu objetivo é lançar o LP em breve após lançar mais umas faixas, nem todas incluídas no LP.

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