Em sonhos, é sabido, não se morre. Aliás, essa é a única vantagem.
Em 2015, juntava-se a DEZ, ainda na Andromeda Records, para lançar o seu primeiro projeto, Odisseia. Quatro anos depois, Ventre e Inacabado saiam nas plataformas digitais em formato de curta-duração, para carimbar a entrada do rapper na Think Music. No ano de 2023, lançava Latência, o seu primeiro álbum de estúdio.
O rapper de Ourém entrou para o hip-hop como uma das canetas mais bem polidas do país há mais de uma década, e deixa-nos hoje com o seu segundo álbum: em sonhos, é sabido, não se morre. Com direito a referência ao trabalho de Sérgio Godinho, Francisco Santos explora as palavras do artista portuense para as usar como mote criativo do seu projeto.
A Hip-Hop Rádio esteve com o artista da MunnHouse para ficarmos a saber mais sobre o album.
em sonhos, é sabido, não se morre. Claramente, alusivo ao Lisboa Que Amanhece, do Sérgio Godinho. Queria-te perguntar se trazes esta frase com o sentido que ele quis passar ou fazes uma análise que tens, diferente do que é o sonho? Da minha perspetiva, sinto que foste buscar o que para ti é o sonho artístico – quase como um objetivo – e depois a finitude como uma analogia à eternidade da expressão artística.
Eu acho que tocaste no ponto. Basicamente, e concretamente, essa frase sempre me fez pensar muito, sempre que ouvia o Lisboa Que Amanhece. Quando estava numa fase de absorver tudo à minha volta para encontrar o que seria o nome do álbum – que foi numa fase já muito avançada, onde tinha já o álbum todo fechado – ouvi essa música nos meus fones e a frase, pela primeira vez na minha vida, teve outro sentido: esse mesmo do meu sonho ser viver da música. Eu estava a passar por uma circunstância onde pensei desistir da música e estava desmotivado, exatamente no meio do processo deste álbum, e essa frase atirou-me imediatamente para aí e fez-me logo bué sentido. Noutras alturas, o que eu sacava dessa frase era mais o questionamento de: será que em sonhos não se morre? Ficava a fazer essa ginástica na minha cabeça. Mas depois no sentido concreto, de facto, sempre que vais morrer no sonho acordas. O sonho que comanda a minha vida, como se costuma dizer, é a música, e eu tentei morrer por esse sonho – ou tive quase. Mas pronto, é sabido que é impossível morrer em sonhos, e este álbum foi a prova disso, porque veio mesmo no meio de uma tempestade gigante.
No Latência tu acabavas por brincar um bocado com o título do projeto, com a cena de demorar a sair e estares sempre a adiar. Para este álbum, como é que sentes que foi o processo? Foi mais fácil chegares às ideias finais e depois ter a certeza que eram as certas?
Foi mais fácil no sentido que este teve um processo laboral bastante concreto e eu consigo situá-lo todo. Pela primeira vez na minha vida fiz writing camps para a minha música, juntei as pessoas que eu gosto e as que fazem arte que eu gosto numa casa a fazer música para mim. No sentido de demorar, demorou na mesma, entre o primeiro camp que nós fizemos e o dia em que o álbum é lançado, passam cerca de dois anos, um bocadinho mais.
Isto já vem depois da Berço então? Ou a Berço já fazia parte destes camps?
Os camps já vêm depois da Berço e nós ainda ponderámos incluí-la, uma beca à imagem do Latência, por exemplo, onde acabámos por incluir a Marfim, que já tinha saído, e a Android. Nós estávamos a pensar se a Berço fazia sentido neste leque estético e narrativo do álbum e acabámos por concluir que não. Este projeto foi uma coisa que nós fizemos de raiz e já sabíamos desde o primeiro camp que queríamos fazer um álbum, e dá para situá-lo aí. O Latência não foi feito assim, foi muito mais tentar colar coisas que estavam soltas enquanto neste foi se criando a narrativa e foi se construindo desde raiz com as mesmas pessoas.
Estás a falar nessas pessoas, no “nós”, quem é essa equipa que está por detrás do álbum? Ui, então, além da MunnHouse toda, que inclui Lunn, Beiro, Kidonov, Billy, o Henrique, o L-ALI, João Maia Ferreira, obviamente. São também os meus amigos de Ourém, Guilherme Simões, Tomás Martin, Samuel Louro, que eu inclui sempre desde a base porque já sabia que os queria incluir para fazer música, porque até lá não criávamos juntos, só íamos para a estrada. Depois, no interlúdio temos o Pedro do Vale a Bia Maria. Pronto, basicamente são esses nomes. Depois entrou o Luar, que foi uma pessoa que também conheci por causa da Avalanche e por andar na estrada com a Bia Maria. E pronto, acho que não me está a faltar ninguém, digo eu.
O projeto tem 16 faixas, tens ideia de quantas é que ficaram de fora?
Ui, imagina, só do primeiro campo nós tínhamos quase 50 demos. O álbum podia ter na boa 20 faixas, mas nós decidimos que se calhar já haviam faixas que estavam a repetir um bocado a ideia de outras.
É um álbum que tematicamente viaja muito pelo amor. Tendo o peso que tem a forma como tu pões este sentimento aqui, escrever sobre isto é fácil para ti, algo natural, ou foi algo que tentaste puxar para servir como uma espécie de refúgio?
Não, pá, escrever sobre amor e sobre as minhas vivências no geral é a minha forma de escrita, é desabafo, e acaba por ser muito natural eu escrever sobre aquilo que passo e vivo. O amor é uma parte fundamental da minha vida e no processo deste álbum, passei por coisas que marcaram muito, tendo nascido daí também a inspiração para escrever sobre isso. Nada foi forçado, acho que sempre tive alguma plasticidade para escrever sobre amor de forma bastante genuína.
É um projeto muito melódico, tu cada vez apresentaste-te mais a cantar. É um lado que procuras arriscar cada vez mais?
Nem é arriscar, é consoante o que as músicas pedem, e sim, ultimamente tenho abordado mais isso, porque cada vez menos o meu processo inclui menos rappers, então acabo por gravitar para um universo se calhar menos rap, sem que isso também saia de mim.
Sim, a Alecrim Freestyle e a Kintsugi mantêm esse registo.
Sim, tu vês sempre aí essa veia. Depende muito de como é que a faixa é criada, por exemplo, faixas tipo Felismina, que foi criada em banda, é normal que eu parta para uma coisa mais melódica – se bem que ainda poderei meter lá um verso mais rap, mas depois achamos que ficava bonito como estava. Eu vou sempre atrás de impulsos criativos, estás a ver? Como uma música me chama para fazer é o que eu faço. Caso concretos como estavas a mencionar, o beat já estava a gravitar muito para essa cena boombap, meio drumless, e aí fazia-me todo o sentido meter barras em cima daquilo, então meti. Nunca é uma cena mega ponderada, é seguir impulsos criativos, em todas as faixas.
Falaste da Felismina, o que é que quer dizer Felismina? Porque eu tentei procurar o significado e só me aparecia como feminino de Felismino, e depois Felismino não me aparecia com nenhum significado.
[Risos]Felismina é o nome da minha avó e a música é sobre ela. É basicamente sobre vários desabafos que ela teve comigo, e é essencialmente sobre a nossa relação, que era muito feita à base de ela falar e eu a ouvir – sobre eu não dar sequer vestígios que já tinha ouvido as histórias mais que uma vez- Sempre achei que essa relação seria um mote bonito para uma música, e pronto, acabou por surgir. Depois faço a desconstrução do nome no refrão, “Felismina-me a tristeza”. Acabou por assentar bem nessa música, e acabou por ser uma bonita homenagem, porque ela já nos deixou, infelizmente, no meio do processo do álbum. Essa música nem estávamos a pensar em incluí-la, mas depois quando ela faleceu pareceu óbvio incluir.Parece que há aqui uma onda de música de intervenção, não pelos melhores motivos. Tu achas que os artistas têm cada vez mais responsabilidade de intervir?
Eu acho que, para já, os artistas são pessoas, e as pessoas têm o direito de se expressarem artisticamente da forma que querem. Eu nunca tive uma urgência em intervir, mas, como eu disse há bocado, se o impulso criativo me leva para dar opiniões, sejam políticas, sejam sociais, isso de mim normalmente nunca parte de uma vontade enorme de agora começar a fazer música de intervenção e exaltar muito a minha opinião sobre o que quer que seja. Mas se eu sigo um impulso criativo que vai para esse sítio e se dá aquilo que eu acho que é boa música, e boa música para expor ao meu público, faço – que é o caso do Assunto Meu e do Dividir. Tenho outras coisas que podem ser interpretadas como críticas políticas e sociais, em letras que até são muito sobre mim, estás a ver? Mas nunca partiu mesmo de uma urgência de eu querer ser o porta-voz de uma certa visão política e social. Se eu acho que é importante e se eu acho que os artistas têm responsabilidade? Eu não sei se os artistas têm responsabilidade, mas os artistas têm uma plataforma maior que maior parte das pessoas, e isso pode acabar por trazer a tal parte da responsabilidade.
Esta paixão que tens pelo trabalho do Sérgio Godinho, achas que vem dessa vertente e ajuda a fermentar este tipo de letras?
Sim, sim, pá, isso obviamente, tudo o que tu bebes vai acabar por alimentar aquilo que tu crias. Tendo o Sérgio Godinho como grande referência, como tenho, por exemplo, dessa época o José Mário Branco, o Fausto, o Luís Cília… obviamente que acabaram por também moldar o meu pensamento durante a minha adolescência.
Este tipo de música foi algo que foste explorando sozinho ou de alguma forma te foi embutido?
Imagina, o meu pai é uma pessoa de esquerda e que gosta deste tipo de música. Ele nunca foi de dizer «olha, senta-te e ouve isto», mas tinha um CD do Sérgio Godinho no carro, e eu gostava bastante. Quando era miúdo, e mesmo sem perceber metade do que ele queria dizer, acho que também fui muito movido pela estética e pela fonética das brincadeiras de palavras, e certos sons que ele faz – achei que era diferente de tudo o que eu já tinha ouvido naquela altura. Gostei, e a partir daí fiz eu a minha pesquisa. O teu conhecimento é movido por interesse, se tu te interessas, tu vais pesquisar, tu vais aprofundar, vais escavar, e vais acabar por abrir fontes onde bebes. Então, aí é muito possível que eu, a certa altura, ter escrito sobre a nossa condição social ou política ou quer que seja, teve raízes nesses artistas, sem dúvida, sim.
Quero tocar na Assunto Meu, porque até parece coincidência, mas ele reflete-se muito bem no que se vive agora, no centro do país, graças às tempestades e ao individualismo que nós temos visto. Tu esperas que esta música toque nas pessoas como tocou a ti, se calhar, o Sérgio Godinho?
É assim, eu não quero meter essa carga toda em cima da minha música [risos]. Eu exponho e depois fico à espera que as pessoas se relacionem ou gostem de alguma forma do que eu estou a fazer. Algumas pessoas que se calhar, gostam muito do refrão, não entendem o que é que o resto da música quer dizer, e por mim também está tudo bem, cada pessoa tem direito a interpretar da sua forma, e gostar da música mesmo que não a perceba. Não quero meter um peso assim tão grande na minha música. Mas em relação ao teu primeiro ponto, sim, acabou por calhar mesmo numa altura em que aconteceu o que aconteceu na minha zona e nas zonas próximas também. Viu-se muita inação por parte do governo, quase um «não é assunto meu», «não me tocou a mim». E sim, pensei nisso muitas vezes, sem dúvida, parece que foi quase de propósito, se bem que podíamos adaptar isto a qualquer outra situação. Até achei, entre muitas aspas, mais piada o facto de eu ter lançado um som chamado vento, e depois ter sido arrasado por uma ventania que me levou muitas telhas de minha casa.
Tu no álbum dizes: “ser artista é ser o bobo da corte”. Sentes que o artista é alguém que diz as verdades sem nunca ser totalmente levado a sério, ou alguém que está cá só para entreter?
Sinto que muitas vezes somos tratados como pessoas que têm a obrigação de entreter, e entreter da forma que as pessoas querem. Muitas vezes sinto-me, sem dúvida, bobo da corte, até pela forma como tratam a classe artística. Concretamente em Portugal, eu acho que é um tratamento pobre e que não faz uso a todo o trabalho que nós fazemos, que parte de uma posição mega privilegiada, por conseguir, eventualmente, chegar a um patamar em que sou pago para dar concertos e em que tenho um bom número de pessoas a ouvir a minha música. Eu tenho amigos que têm full-time jobs e não largam a música por nada. Se eles pudessem, provavelmente estariam no meu lugar, e aí sinto alguma responsabilidade em dar voz àquela que é a minha classe, que é a classe artística
Queria também falar da capa do álbum. Estás em Lisboa, a chamar um táxi, pelo que parece, à noite. Que mensagem é que tem esta capa?
Esta capa, olha, foi mais uma vez inspirada no Sérgio Godinho, que, como me referiste há bocado bem, o nome, “em sonhos é sabido, não se morre”, é uma frase do Lisboa Que Amanhece, que está incluída num álbum que se chama Na Vida Real. A capa é exatamente ele nessa rua.
Eu já conhecia a música e ela nunca me apareceu nesse álbum, portanto, nem tinha reparado nisso. É um toque giro.
Pois, porque ele, entretanto, tem mil e uma versões de Lisboa Que Amanhece, e a versão que eu ouço mais vezes também não é a que tem essa capa.
É aquela dele ao pé de uma publicidade, uma capa branca?
Ah, pois, essa até é de um álbum que acho que é o Escritor de Canções.
Exatamente, com muitas versões ao vivo.
Ya, eu adoro essa versão também. Mas pronto, a capa foi mais uma referência ao álbum dele.
O que é a Casa do Vale?
A Casa do Vale, olha, é a casa de um amigo meu que é o Pedro do Vale.
Artista de Ourém também, certo?
Artista de Ourém, sim. Ele cresceu em Caxarias, mesmo na minha freguesia e essa casa é lá. Basicamente, ele tem essa casa mesmo no meio do nada, que parte do videoclipe do Assunto Meu até foi filmado lá. Ele promove residências artísticas, e numa dessas residências, que foi a da Iolanda, surgiu o tal Interlúdio da Casa do Vale. Foi gravado no Dictafone, como eu estava a dizer há bocado em off. O Kidonov meteu a gravar quando nós estávamos a tocar uma letra que eu tinha acabado de escrever para uma guitarrada do Samuel Louro, que eu estava a curtir bué, e depois a malta acabou por se juntar. Está lá a Bia Maria, o Pedro do Vale, o Samuel a tocar, estamos nós a cantar essa letra, e até no início ouve-se eu a dizer “isto é o interlúdio do álbum”. E, pronto, acabou por ser um momento engraçado que reflete bué os nossos convívios, que são muito assim. Tipo, alguém surge com uma guitarrada e depois ou estamos a tocar músicas já muito conhecidas e todos a cantar, ou então surgem coisas novas, e acabamos por estar ali numa comunhão bonita. Nós já andávamos há bué tempo à procura de um interlúdio e quando não estávamos concretamente à procura é que o encontrámos. Acabou por ser engraçado.
Ed, Iolanda, L-ALI e João Não. Com o L-ALI e com a Iolanda já tinhas trabalhado – com o L-ALI em Terra:Aura, Eclipse, e certamente tem outros projetos, com a Iolanda no Olha P’ra Ela, mas penso que seja a primeira vez que trabalhas com o João Não, e se não estou em erro, com o Ed também. Como é que eles entram aqui no projeto?
São amigos, basicamente. As quatro pessoas que mencionaste são pessoas que eu nutro muita amizade e carinho, são pessoas que eu admiro muito musicalmente, e fez-me todo o sentido de convidá-las. As vezes que eu trabalhei com o João Não e com o Ed foram vezes que não passaram cá para fora ainda: com o João já tinha gravado uma música com ele para o que seria na altura um EP ou um álbum do Beiro, que depois acabou por não sair, e com o Ed já o tinha ajudado a escrever, e acho que estivemos numa sessão de estúdio também com uma fadista em que nos juntámos os dois para escrever uma letra para ela. Com a Iolanda foi a primeira vez que eu trabalhei com ela já depois de alguns anos de amizade. Mencionaste o Olha Para Ela e também hão de sair mais músicas do álbum dela em que eu participei. Pronto, e o Hélder é meu amigo já há muitos anos – começou por ser uma pessoa que eu admirava musicalmente e que queria muito conhecer. Conheci-o há cerca de 10 anos depois de lançar a Odisseia, e desde então que… aliás, a colaboração com o Hélder até demorou muito tempo a nascer, porque já nos conhecemos há muito tempo, e só passado não sei quantos anos é que fizemos o Eclipse – que foi a primeira malha em que saiu a nossa primeira collab. Mas, epá, diria que essas colaborações surgiram porque são meus amigos, queria trabalhar com eles e queria-os no meu álbum.
Dia 11 de março vais estar a pisar o palco do Capitólio, para apresentar o álbum. O que é que podemos esperar para essa noite?
Podem esperar ouvir o meu álbum todo, com os meus amigos Samuel Louro na guitarra, Guilherme Eugénio no baixo, o Billy que está aqui connosco, na flauta, a orientar o projeto e a lançar o autotune para eu soar bem [risos]. O Pedro Antunes nas drums e o Tomás Martins no saxofone, prodigioso saxofonista da minha terra também. Podem esperar um show bastante orgânico, bastante à imagem daquilo que foi o álbum, porque estas pessoas acompanharam de perto e participaram no álbum, o que para mim é uma cena muito importante e que eu queria realizar há muito. Podem esperar alguns clássicos que eu não vou deixar tocar, pelo menos a Éden, acho fixe tocar sempre, e a Marfim também – são músicas que para mim fazem sentido – e podem esperar uma boa celebração da minha carreira.







