Hip Hop Rádio

Valete | Dissecação

 

Início dos anos noventa, Damaia. Um quarto com livros de Marx e Pepetela escondidos nas prateleiras. A voz de Zeca Afonso a vaguear baixinha nesta divisão enquanto folhas soltas de parágrafos de Nelson Mandela e Luther King enchem este pequeno mundo.

 

O puto Keidje Lima chega da escola. Atira com a mochila e veste a camisola dos Utah Jazz. Com o número 32 e o nome de Malone nas costas pega na bola de basketball e sai do quarto. Trancadas ficam todas as inspirações que mais tarde virão a sobressair em si. Para já, aproveita “os melhores anos” da sua vida.

“Anos 90, tempo da minha adolescência, tempos de imprudência sem pensar em consequências” – Os Melhores Anos

Os relógios avançam. Ao mesmo tempo que dança ao som de “Vanilla Ice” e “MC Hammer”, fica a conhecer, por influência de um primo, alguns sons de “Public Enemy” – puro rap americano dos anos 80 e 90. Nas, KRS-One, 2Pac e “as jams do Eminem” servem também de grande inspiração. Estabelece assim contacto com os dois lados desse mundo.

Keidje, já com dezasseis anos, tranca-se no quarto. Absorve todo aquele ambiente e começa a entrar na batida. O miúdo não quer ser um herói convencional – humanista, mas ingénuo. Quer ser um anti-herói. Mais tarde fará jus ao seu nome e demonstrará que as suas letras não se deixam cair em cantigas. É Hip Hop underground, mas com conteúdo acima da média.

“Fotografias das ruas estão nas canetas destes poetas. Enquanto tu vives às cegas, levas e nem protestas.” – Nossos Tempos

Enquanto isto, as cartas estão lançadas: estamos em pleno nascimento do Hip Hop em Portugal. O rap nacional tem uma boa mão inicial, mas falta-lhe uma carta. Uma que não se deixe cair em truques. No mundo do ilusionismo diz-se que o valete é a carta do azar para os ilusionistas. Há a ideia mítica de que quando esta sai num truque de cartas, este não vai resultar. Como se o valete não se deixasse cair em ilusões. É esta a razão do miúdo fechado no quarto saltar do baralho de influências em que está metido e virar Valete.

“Eu trago versos que me perpetuam como nobel da literatura. Matemáticas que deixariam Einstein baralhado numa calculadora.” – Liricistas

1997, é “um puto já todo hiphopiano”. Boss AC, Dealema e Mind da Gap explodem no panorama nacional. Enquanto isso, juntamente com Adamastor e Bónus forma o “Canal 115” e, posteriormente, a Horizontal Records. Com apenas 16 anos, conhece Sam The Kid com quem grava algumas músicas e é convidado a entrar em mixtapes dos DJs Bomberjack e Cruzfader. Começa assim “a escrever rimas de forma alucinante”, sempre acompanhado pelo “dicionário da rua”. O seu nome ganha visibilidade pelo incrível flow que transparece. Na altura, contudo, diz-se que lhe falta intelecto.

“Queriam que fosse Alexandre Herculano? Que cuspisse knowledge com apenas 17 anos?”. A Melhor Rima De Sempre

Durante dois anos, dá shows por todo o país sintonizado no Canal 115. Contudo, após um concerto totalmente fracassado, em Almada, com casa cheia, ao lado dos “Next”, Valete sai destroçado e faz um interregno nessa vida para se dedicar aos estudos. Licencia-se em Ciências da Comunicação. Em 2001 regressa “às barras”, já com outra bagagem, e apesar de sair desiludido do curso, torna-se um autêntico “repórter dos subúrbios”. No ano seguinte, rebenta em solo nacional o álbum “Educação Visual” – produzido de forma independente – mostrando que o Valete é uma carta bem importante do Hip Hop português.

“Deus descansa e deixa a sua voz inativa. E o vaticano aproveita e faz masturbação coletiva” – A noite

Apresenta um álbum de peso com participações bem distintas – Fuse, Ace, Sam The Kid e Bónus. As faixas “Liricistas” e “Pseudo MCs” destroem completamente os rappers que são só fogo de vista. Nota-se, porém, em outras músicas um maior conteúdo da sua parte, ainda que apenas se limite, maioritariamente, ao que se passa nos subúrbios, nas ruas. Ainda assim, começa a tentar educar-nos. Passados quatro anos, Valete apresenta – um autêntico – “Serviço Público”. Este álbum vem estabelecê-lo como um dos melhores rappers portugueses. Política e religião são alguns dos temas de peso que predominam. Letras em que precisamos de ter o Google aberto, onde somos iluminados com autênticas aulas de história.

“Na escola distraem-te com conjunções e anaforismos. Serias revolucionário se te ensinassem o neoliberalismo” – Oligarquismo

“Viris” traz conteúdo inigualável ao Hip Hop português, aprofundando o seu interior. É puro rap de intervenção com temas que realmente importa discutir. A fama associada ao rap de ser composto por álcool, drogas e discussões entre ruas é destruído. Valete é a melhor carta que podemos usar para demonstrar que o rap tem muito para dar e, muito a ensinar, se for bem usado. A letra de “Revelação” são puros 6 minutos de questionamentos a Deus. “Anti-Herói” ressuscita nomes como Luther King, Saramago e Gandhi. Entre as passagens das músicas podemos ouvir discursos de Hugo Chávez, antigo militar e presidente Venezuelano.

“O Hip-hop ensinou-te que só o sangue é que tem cor. O Homem é o seu interior, o resto é só vapor.” – Não pára

Após estes álbuns, saíram apenas mais duas mixtapes para as ruas – e alguns sons independentes de grande peso como “Não pára”, “Oligarquismo”, “Os melhores anos”, entre outros. Desde, sensivelmente, 2010 que o rapper promete um novo álbum intitulado de “Homo Libero”. A espera prolongada é diariamente questionada. O rapper em algumas entrevistas vem dizendo que teve alguns problemas de saúde que o afastaram do mundo “hiphopiano” e, mais recentemente, afirmou que fez uma paragem na criação do álbum para aprender música.
O quarto do puto Keidje deu lugar ao estúdio no qual estará, nos dias de hoje, trancado e em luta constante pela construção do “Homo Libero”. Não sabemos quanto mais tempo demorará a sair este álbum para as ruas – mas este é o lugar a que pertence.

“Eu sou filho de Salazar e Antero de Quental. Uma nação, duas caras, eu sou Portugal.” – No meio das labaredas (Homo Libero)

Valete “não pára”. Veio desenterrar Gandhi, Saramago, Zeca Afonso e Jorge Amado. Desabrochou “Almeida Garrett em cada mic aberto.” Não quer fama, nem glória. Trocou a camisola de Malone por uma de Che Guevara e, trazendo no olhar a mesma obstinação com que Luther King abalou, continua, ainda hoje, na procura incessante da melhor rima de sempre.