Hip Hop Rádio

Dissecação | Regula

“Como eu não sei quando é que o tecto cai-me em cima,
Eu juro, por mais guita que eu faça do rap eu não saio da esquina”

Independente, irreverente, dono de personalidade artística vincada e singular. Foi (também) com a edição de Gancho que o rap se tornou uma potência musical no nosso país, fruto das novas sonoridades e estilo que Tiago Lopes implantou. A tendência inverteu, o rap popularizou-se e novas estéticas sonoras surgiram. Até à data, o hip-hop era um movimento underground. Regula, “nascido nos Olivais, criado no Catujal”, inverteu a balança mediática, vendeu centenas de cópias e arrecadou milhares de visualizações | Por Bruno Fidalgo de Sousa

“Eu não nasci num berço d’ouro, vi muita merda e rezei tanto gastei o terço todo”

Bellini “já girava nos blocos, ainda era um meia foda”. Foi precisamente no Catujal (“sabes qual é o local/ onde todos vendem material como se fosse legal”), em Loures, que cresceu e descobriu o ninho do qual nunca saiu. Do mesmo modo que a “Catuja” se tornou um palco para a arte de Regula e uma referência em várias das faixas do – extenso – portefólio do MC português, tornou-se também o palco que o viu evoluir e destacar-se nas battles da escola – e nas posteriores.

“No bules eu varro o salão e chamam-me patrão a mim?
Devem tar a falar da battle. Heavy metal.
Pa’ postura da altura eram dicas heavys né’ram?”

“A primeira vez que ouvi rap português, é que eu decidi que queria ser MC”, explica Don Gula no seu documentário. Em 1996, depois de longas horas a ouvir Black Company e Da Weasel (“eu ouço o Pacman desde os tempos dele no Casal”), forma os Duke Skill. A primeira música chamava-se “Fim do Mundo”, mas foi com o 1ª Jornada (editado pela Encruzilhada Records, do DJ Cruzfader) que o – ainda – Bellini cravou raízes num movimento em expansão. Com ele rimaram NBC e Sam The Kid (com quem já tinha participado em Sobre(tudo)) e o videoclip de “Especial” passou por várias vezes na SIC Radical e na extinta Sol Música.

“Desde a 1ª Jornada vi aparecer haters do nada
a tentar destruir uma carreira formada
até me verem com a algibeira jardada”

Ao mesmo tempo, Valete, Xeg, DJ Bomberjack, Tekilla, Madvision ou Kacetado marcavam posição no game com as suas primeiras mixtapes, algumas das quais com a presença de Don Gula. Também as participações com os (à data) veteranos Cool Hipnoise, New Max ou SP & Wilson lhe granjearam algum reconhecimento. Mas foi mais precisamente em 2005, com o apoio de STK e com as rimas ágeis de Xeg, que o Tira-Teimas saiu para a rua. E, com ele, a expansão: nos quatro anos que se seguiram houve tempo para duas mixtapes que engrossaram o leque musical de Regula, alguns freestyles e uma escrita crua e braggadocious: Kara Davis (2007) e Kara Davis Vol.2: Lisa Chu (2009), ambas mixadas por DJ Kronic. Foi a Horizontal Records – guiada por Valete – que deu o mote e o MC do Catujal não vacilou, vendendo cerca de mil cópias no primeiro mês.

“Valete diz que eu ’tou no auge da minha carreira
e já me pôs 10,000 paus na minha carteira”

Simultaneamente a cumprir uma carreira de MC e de barbeiro (na Vasco’s Barbershop), foi preciso chegar a 2013, quatro anos depois de Lisa Chupara Don Gula passar a atuar para multidões e não para nichos. Foi com a edição de Gancho, pela Superbad., que temas como “Casanova” ou “Cabeças de Cartaz” se tornaram músicas obrigatórias para os vários hip-hop heads que acompanharam a expansão do movimento – seja no palco, na Internet ou na rádio. Moisés Regalado descreve o álbum na perfeição: “Em Gancho não há pérolas escondidas ou momentos secundários — como acontece na esmagadora maioria dos álbuns — e todos os temas se tornaram imediatamente icónicos, assumindo o estatuto de singles sem que o fossem e até de clássicos instantâneos.”

“Eu vivo a vida num auge máximo, depois de umas quantas bottles sou um alvo fácil”

Casca Grossa (2015) e 5-30 (2014) foram os trabalhos que se seguiram. No primeiro, voltou a “apadrinhar” Holly-Hood (o seu antigo hypeman), com quem já tinha rimado anteriormente (Lisa Chu e Gancho) e colaborou com STK, Valete ou Blaya num projeto bastante eclético que dividiu opiniões. Pretendia, à maneira de Regula, criticar a comercialização do rap e o “rap que bate”, com ajuda de videoclips realizados pelo próprio.

O “Toni do Rock” não colocou o álbum à venda em grandes centros (“Sa’foda os royalties nem o da FNAC bate”), mas sim na sua barbearia (Pente Fino, nos Olivais, que abriu portas quase na mesma altura em que lançou Casca Grossa) e tatuadoras conhecidas. De facto, o bairrismo de Gula sempre fez parte da sua lírica. O próprio afirma-o em entrevista ao jornal PÚBLICO, quando da edição do álbum: “Sou bairrista. Até posso dar um grande salto em termos de sucesso, mas nesse caso faço uma vivenda aqui nos Olivais. (…)Não é por acaso que a minha empresa se chama Stay Local. Isto tem a ver com a minha identidade.”

Identidade essa que se manteve presente nas várias colaborações e em 5-30, álbum homónimo do grupo que compôs com Carlão e Fred Ferreira (Orelha Negra). Com temas marcantes (“Vício”, “Chegou A Hora” ou “Pitas Querem Guito) na cena musical da altura, o projeto teve um êxito inegável e imediato. Juntar Don Gula, um Pacman renascido e o primogénito de Kalu (Xutos e Pontapés) num super-grupo é arte – ainda que o coletivo tenha ficado por aí. No ano anterior, foi com “Solteiro”, tema dos Orelha Negra, que os versos de Regula chegaram – novamente – a todo o país.  É quase certo poder afirmar que literalmente todos os ouvintes de hip-hop reconhecem a resposta para o o clássico “E em homenagem à Amy”…

“reflito numa bula enquanto o Gula me apara” – STK

“Passaram-se anos, eu ainda ’tou a gastar grana do Gancho”

Ouro Sobre Azul já conta com cinco singles e uma colaboração (Dillaz, em “Wake n’ Bake”). O lançamento pode estar para breve: já passam três anos de Casca Grossa e as cinco faixas “cá fora” agoiram o (já) habitual: um Regula com novas sonoridades (trap à Gula na ementa), mas com o mesmo egotripping, bairrismo, a mesma competitividade (“Mas quem é que disse que tu bates? É preciso ter tomates”), ostentação e autenticidade. Como – e bem – se mantém durante tantos anos.

“Eu não espero um Globo d’Ouro
boy, eu quero o globo todo
Porque mesmo quando eu estava na merda
Nadava no topo do lodo”

“Baralho azul e roxo como se fosse do Barça”

Tiago Lopes é, indiscutivelmente, um dos mais prolíficos MC’s nacionais. Não só pela maneira genuína como encara o seu rap e a sua pessoa, como pela importância que teve enquanto umas das principais figuras do movimento: seja pelo portefólio de renome, pautado com projetos pioneiros e álbuns de relevo na cena musical nacional, como pelo impacto que o seu hip-hop e R&B deixou, números que não se contam, qualificam-se em singles bangers, concertos e vendas. Don Gula contribuiu com novas estéticas e sonoridades, manteve-se fiel ao seu humor característico e à sua personalidade vincada que tanto se traduz em música.

“Quando era puto, metia o dinheiro debaixo do colchão
Agora eu saio do banco a rir, com dois maços no blusão”

Fotografias de Arquivo

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