Hip Hop Rádio

Dissecação | Mike El Nite

O mestre dos trocadilhos e da ironia do Hip-Hop português introduz-se logo com um nome simples, mas genial, que manifesta essa sua habilidade inigualável: Mike El Nite, O Justiceiro. Desde a referência à “efemeridade, não só das carreiras musicais como da vida e da noite” (palavras do próprio) à referência de Michael Knight, daí a sua alcunha de justiceiro; Miguel Caixeiro apresenta-se desta forma.

“Astro Records city bitch e tu na plateia triste, o único que não grita zona T finest!” – oliude

Criado em Lisboa, mais propriamente Telheiras, principia a sua atividade no hip-hop enquanto DJ e ainda hoje toca em festas e em nightclubs pela capital e arredores.

Como MC é um ex-ASTROnauta: a sua ascensão começou com a ASTROrecords, junto de titãs como ProfJam, Vilão e Phoenixx MG (atual Fínix MG, agora na Think Music de Profjam). Principiou por lançar “Rusga em concerto para G menor” com a editora e foi por aí que a sua caminhada começou rumo ao esplendor do rap nacional.

“Não mãe, deixa-me comer na mesa de mistura” – Transparênteses

É um “workaholic”, um verdadeiro viciado no trabalho, mas sempre foi bastante apoiado pelos pais e não é o único da família a enveredar por este meio. O seu pai também teve uma carreira musical, popularizando-se com o nome “Quinzinho Portugal” e tendo produzido maioritariamente música de intervenção, que foi uma clara inspiração para Miguel. Assim, desde criança que viu na música um veículo para transmitir ideias e mensagens.

“Será que vai haver volume dois?” – INTRO

A mixtape “Trocadalhos do Carilho” foi o primeiro trabalho de Mike El Nite. Com esta, o rapper pretendeu transmitir música com um nível de humor elevado, mostrando a sua genialidade e o potencial que o mesmo hoje conseguiu cumprir. O artista logo na intro transparece a possibilidade de haver um segundo volume e, apesar de ainda não ter surgido, nunca foi anulada a chance de o mesmo existir no futuro.

“Eu sou o Mike El Nite/You know what I mean” – mambo nº1

Em relação a projetos completos o seu EP de estreia foi lançado em 2013 denominado de “Rusga para concerto em g menor”. É assim que Mike o abre, apresentando-se. A obra surge com temas muito diferentes e criativos do habitual, com uma ironia violenta ao longo da sua totalidade. Teve assim um grande impacto, criando clássicos como “Mambo nº1” em colaboração com ProfJam. As outras faixas “F.E.N.A”, “Mel & Cólicas” e “Tou cá tou lá” exibem elas todas a inteligência e o “wordplay” fantástico do artista.

Mas quem é o Mike El Nite? Um “hipster” que incorpora a sua faceta de justiceiro e veste o preto, com o seu “dad cap” e óculos escuros. É um gamer e um apaixonado por BD e desenhos animados, daí o seu curso de cinema de animação – como a faixa 2p refere numa homenagem ao mundo “nerd”. Por fim, não só atrás do ecrã se esconde Miguel Caixeiro, mas também na bicicleta – “ride a bike anywhere”.

Em relação a influências musicais, refere-se a Odd Future e A$AP Rocky como “lifechanging”. Também passou por uma onda de Daft Punk, Boys Noize, Justice, Modeselektor. Nota especial para os Limp Bizkit: o rapper apreciava a forma como misturavam o metal com o rap.

“A sua casa vai dar nas vistas” – intro

Seguidamente, surgiu “Vaporetto Titano”, a obra que conta com a participação de Da Chick na faixa “Só badalhocas” e com a produção de Razat em “F.E.N.A II”. Neste segundo EP, o rapper não foge ao seu estilo irónico. Este faz uma brincadeira entre a publicidade e a promoção de um produto que se faz, por exemplo, na televisão, com uma promoção de um álbum ou EP de um artista.  Assim, Mike ironiza o facto de alguns artistas se venderem bastante para tentarem ser comerciais.

“Mas lembra te que a preguiça e a cobiça de ser o primeiro podem abalar a premissa do justiceiro” – A Justa

O último EP do “Justiceiro”, intitulado após a sua alcunha, é o culminar da sua arte. Mike partilha as rédeas do projeto, tendo DWARF como o seu produtor. O projeto foi como uma brisa de ar fresco e toda a música tem um aspeto interventivo. Com várias samples de artistas portugueses, aqui ele relaciona o seu estilo musical de nova escola com canções populares. Revitalizando os Santamaria na faixa homónima, Mike dá um novo significado ao clássico. Outro exemplo é, novamente, Horizontes da Memória do programa de José Hermano Saraiva.

Nos últimos versos, despede-se, concluindo o álbum, e deixando bem clara a ideia que pretendia transmitir ao longo do mesmo. Refere que sempre lhe foi dito que a justiça é a “coisa mais bonita que há no mundo”; por isso, encoraja os ouvintes para que façam por serem ouvidos, para exporem as suas ideias. Mas também alerta para não serem gananciosos e que façam tudo com pés e cabeça, de forma a não apressarem nada; de forma a não distorcerem a verdade e abalarem a premissa do justiceiro – fazendo aqui mais uma referência a Michael Knight, que combatia o crime, ajudando os inocentes num mundo de criminosos que tentavam operar acima da lei.

“Eu odeio odiadores e odeio-me por já ter odiado” – cena do ódio 3.0

Da controvérsia surge o “hate”. Esse existe pelo conteúdo musical criativo e fora da caixa. O rapper possui uma ode inspirada em Almada Negreiros, mais propriamente na “Cena do Ódio” do mesmo. José Almada Negreiros dedicou a sua obra a Álvaro de Campos, enquanto que a versão de Mike foi direccionada aos seus haters. Ele critica-os por seguirem modas e aceitar tudo como certo, sem se questionarem.

 “Queres entrar na festa mas não tens convites”- Mambo nº1

É impossível falar em Mike El Nite e não referir as festas Gin & Juice. A Gin & Juice TALENT é atualmente uma parte da Match Attack, a agência de Mike El Nite, que conta com o mesmo, havendo uma por semana na MusicBox.

Já trouxe vários convidados de renome para se juntarem à festa, como por exemplo OG Maco, Rincon Sapiência e os DJ’s Monster Jinxs.

“Futuro é tão óbvio…” – F.E.N.A. II

Ou será? Após um recente acidente de bicicleta, o rapper afirma no podcast “3 pancadas” que esta paragem lhe deu um grande espaço de tempo para ficar de fora a assistir ao hip-hop mundial; às mudanças que ocorreram ao próprio e o que ele planeia fazer de futuro.

Ele abre o jogo dizendo que há uma possibilidade de fazer uma transição para uma onda mais rock, o qual o mesmo aposta que é para onde o “cloud trap” se irá virar. No entanto, com nada confirmado, só nos resta esperar para ver.

 

Escrito por: Diogo Henriques

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