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Dillaz | Dissecação

Sentado, com um cigarro na boca, o maço de Lucky Strike em cima da mesa e um copo de balão na mão. Cinzeiro cheio no meio do vazio enquanto as ruas da Madorna eram a sua vista, o seu mundo. Enquanto o dia não passava, ficava ele na sua desgraça, a sonhar e a fazer desenhos no pó …

“Nascido no Zambujeiro, desenvolvido na Madorna. Dillaz para os ouvintes, Chapz para os do bairro, André para os chegados, filho para a minha mãe.” É assim que o rapper de 25 anos se apresenta. Se haviam dúvidas de quem estávamos a falar, ficam agora dissipadas.

A “Dissecação” é um conjunto de artigos que pretende dar a conhecer as origens dos artistas através das suas letras e, neste caso, não seria possível de outra forma. Dillaz “é rapper não é estrela” e não liga nada… a entrevistas. São poucos os dados biográficos que se conhecem e que o artista revela.

“Aquilo que eu te vou dizer, ouve que é coisa secreta. Tu nunca desconfies duma lágrima de um poeta.” – A Nossa Vida

Piruka, conhecido rapper também criado na Madorna, afirma que este é reservado. Certamente, que já todos reparámos que se contam pelos dedos das mãos as entrevistas cedidas. Mesmo a um convite feito por Rui Unas para o seu conhecido programa, “Maluco Beleza”, Dillaz deu uma nega dizendo que não se sente confortável. Não chega ao extremo do poeta português Herberto Hélder, mas podemos dizer que é também um “poeta oculto”.

“Acredito que já não rimam como há 10 anos e tal, mas não digas que não há rap se só ouves mini-mal” – Falas de Má Língua

Desde pequeno que a música o apaixona e o influencia. O surgimento dos Mind da Gap e de Dealema é fulcral para Dillaz se decidir pelo mundo do Hip Hop. No entanto, muitos outros estilos o moldam. O fado sempre esteve presente na sua vida, não fosse o seu pai guitarrista deste género. E o próprio conta que com apenas “oito aninhos” viu ao vivo “Gabriel, o Pensador” “numa aldeola de Lisboa”. Num dia tanto ouve puro rap americano como Alfredo Marceneiro – fadista português. As suas influências, contudo, não se ficam por aqui. Valete, Fuse, Sam the Kid e Sabotage têm grande importância para o artista. Este último tem um peso maior. Mas sonharia ele alguma vez que passados apenas 3 anos desde o lançamento da sua primeira mixtape, viria a partilhar palco, no Hard Club, com os outros três monstros referidos primeiramente.

“Vou arrancar e marcar boy, um “M” na lua” – Igual Aos Outros

Dillaz entra neste mundo com o grupo M75. Vulto e Zeca acompanham-no e continuam juntos, até aos dias de hoje. No início da segunda década do presente século, saem para a rua os volumes I e II da Mixtape “Sagrada Família”. Pretende mostrar o que as pessoas vêm no seu dia-a-dia, mas que não dão importância, seja por culpa da rotina, da pressa ou de outras barreiras.

“Aqui no bairro nada muda, quem muda é a gente” – Sr. Presidente

Com um flow fiel à velha escola e com uma simples, mas poderosa batida, flui a letra que se torna íntima para cada um dos ouvintes. Temas pessoais – desabafos do rapper – mas nos quais cada um de nós se revê. O segundo volume vem afirmar e abrir caminho para o rapper lusitano. Temas como “Pedras no meu sapato”, “Caravanas passaram” e “Não sejas agressiva” explodem no panorama do Hip Hop português. Ainda de salientar “A Carta” e “Sr. Presidente”. Esta última mostra bem a importância da Madorna para o artista e de como este quer elevar o seu nome, marcando a cidade no mapa.

“Até o ferro a chuva emperra. Não é seres patrão é só não seres mais um balão que sobe com medo da terra” – Copo de Balão

Há dois anos, surge em cena o EP Dillaz & Spliff que mostra bem a grandeza do rapper e consolida a legião de fãs. Tanto apresenta temas bem irónicos – “Gangsters à Sexta-Feira” e “Bocas Falam Tudo” – como bastante sensíveis, com uma lírica impressionante parecendo mesmo que se está a dirigir a cada um de nós, tendo uma conversa connosco – tais como “Copo de Balão” e “Não é só chorar”.

São poetas de cantigas todos escrevem todos ditam, mete o rap nas urtigas conta quantos é que ficam” – Mo Boy

Mais recentemente lança o seu primeiro álbum “Reflexo”, produzido totalmente por si. Se com os anteriores consolidava uma pequena legião de fãs, com este ganha decididamente lugar no Hip Hop português como um dos melhores da Nova Escola – se não mesmo o melhor. As visualizações no Youtube falam por si: a faixa “Mo Boy” chega quase às sete milhões de views e metade das músicas deste álbum passam o milhão.

“Tu tens a arte no organismo e não te dão valor, como tu que viraste arquiteto e querias ser pintor” – Protagonista

Sentimos, claramente, uma evolução avassaladora. E, por outro lado, todas as suas influências vêm à tona. O fado e a musicalidade da guitarra, que em criança nas ruas desconhecidas da Madorna certamente ecoava e influenciava o pequeno Chapz, sente-se agora em músicas como “Sonhar nesta vida” ou “Saudade”. Surge um contraste perfeito entre sons e letras tipicamente da velha guarda – mais agressivas, de disputa – e de temas que atingem qualquer um e que são de grande fragilidade – como a saudade, a tristeza e a perda.

“Quem sente saudade, não sente saúde meu boy” – Saudade

A biografia de Dillaz é fácil e não precisa de ser o próprio a contá-la: as letras falam por si, os beats dão ritmo ao seu discurso e oferecem, a qualquer pessoa, espaço para sonhar. Em tempos, possivelmente, esteve sentado, com um cigarro na boca, o maço de Lucky Strike em cima da mesa e um “copo de balão” na mão. “Cinzeiro cheio no meio do vazio” enquanto as ruas da Madorna eram a sua vista, o seu mundo. E enquanto o dia não passava, ficava ele na sua desgraça, a sonhar e a “fazer desenhos no pó” …

Mas como “sonhar nesta vida não chega”, vemos hoje que Chapz se levantou e tornou-se o “protagonista” – dando voz ao seu sonho.

Escrito por: Nuno Mina