Hip Hop Rádio

DIA DA MULHER: 8 de março, 4 mulheres do rap, 5 perguntas

Hoje celebra-se o dia da mulher e como não poderia deixar de ser viramo-nos para o Rap no feminino. Para tal decidimos conversar com 4 mulheres que participam ativamente na cena do Hip-Hop em Portugal.

Máry M, Russa, Fábia Maia e Lendária em discurso direto sobre o que é ser mulher no mundo do Hip-Hop.


Por Daniel Pereira e Diana Reis


Como surgiu o teu interesse pelo Hip-Hop?


Máry M 

As palavras sempre tiveram um peso gigante na minha vida, já muito antes de eu saber se quer o que era o Hip-Hop. Acredito que essa minha ligação às palavras tenha influenciado bastante, porque no rap acima de tudo aquilo que conta é aquilo que tu estás a dizer e a forma como o estás a dizer. Isso e o facto de ser um estilo onde existe total liberdade para se formular frases e para se dizer o que se sente e o que se vive, isso apaixonou-me desde o dia em que ouvi rap pela primeira vez.

Russa  

Já referi noutras entrevistas que na minha casa não se ouvia música (estou a parecer uma rapper muito aborrecida haha).
Os meus pais não ouviam música, tive o meu primeiro rádio talvez por volta dos 11 anos e um pouco mais tarde o meu pai ofereceu-me um discman (que eu ainda tenho).
Só ouvia o que passava na TV (com 4 canais) e já durante a minha adolescência comecei a ouvir algumas músicas nos MP3 de amigas minhas. Aí conheci alguns sons de STK e Boss AC.
Aliás o meu primeiro CD foi o RAP de BOSS AC.
Não tive qualquer contacto com as outras vertentes da cultura HipHop até me mudar para Lisboa aos 18 anos. Até então só conhecia algum Rap.

Lendária  

O meu interesse pelo Hip-Hop surgiu já em tenra idade. Lembro-me que a primeira vez que ouvi algo relacionado com Hip-Hop, não foi diretamente uma banda desse movimento, refiro-me á música “In the end “ dos Linkin Park.
Foi aí que reparei numa sonoridade diferente , pela parte do Mike Shinoda, e tive interesse em aprofundar mais , posteriormente, a cultura Hip-Hop.

Fábia Maia 

O meu interesse no hip hop surgiu após o término duma relação menos boa, onde as músicas de hip hop eram recorrentes em momentos de transição para uma fase melhor. Cantar temas de hip hop, foi a única maneira que encontrei em aliviar o que sentia, e também de dizer que sentia saudades dum passado melhor.


Achas que o movimento Hip-Hop ainda está predominantemente moldado pelos homens ou que a mão feminina tem vindo a “embelezar” este mundo tanto musical como cultural?


Máry M 

É evidente que os homens predominam nas quatro vertentes, e é evidente que ainda há muitas letras e videoclips de rap (e não só) em que a mulher surge objetificada, como troféu ou como forma de um artista se superiorizar face a outros, basta abrir a internet e os exemplos multiplicam-se. E também é evidente que o consumo, legitimação, apoio e partilha desse tipo de mensagem é que faz com que ela seja tão comum e aceite.

Não sei o que queres dizer propriamente com mão feminina, mas se essa mão feminina for passar uma ideia mais próxima da realidade, ou seja, que as mulheres têm força, vontade, atitude, talento e têm coisas a dizer e a fazer, então só pode ser positivo a todos os níveis.

Russa 

Sejamos sinceros. A maior parte das pessoas que conheço e que não são hiphop heads, não conhece nenhuma rapariga que seja rapper. Algumas pessoas já vão conhecendo a Capicua, mas mesmo assim, o que acabei de referir já me parece bastante identificativo da falta de rappers do sexo feminino.
Ainda somos muito poucas e claro que podemos enriquecer a cultura. Não pelo simples facto de sermos mulheres, mas sim por poder mostrar aos ouvintes que rap não se limita a um ou dois tópicos. O facto de haver rappers ricos e pobres, homens e mulheres, activos e sedentários (etc) abre caminho à criação de temas que acabam por abranger o quotidiano de muito mais pessoas. Isso só pode enriquecer a música e a cultura hiphop.

Lendária 

Não acho que o movimento Hip-Hop estivesse em momento algum moldado pelos homens , apenas as Mulheres não tinham tanta determinação para falar e aparecer.
Homem que é homem, seja nesta cultura ou em qualquer outra (incluindo a vida) , não se tenta sobrepor ou superiorizar-se em relação a uma Mulher. Quem olha para sexos como competição , geralmente não está muito seguro de si mesmo, nem tem amor próprio (seja de homem para mulher, ou vice-versa).
Apenas foram postos rótulos e estereótipos , de que uma “Mulher” não se deveria comportar de forma rude , ou cara podre. Deveria então preencher requisitos de “gostar de hiphop porque é super sexy” , mas mantendo o lugar dela nas backs do Homem.
Finalmente conseguimos quebrar esse estigma , e ter uma voz mais ativa na front em vez de ser nas backs!
As mulheres sempre fizeram parte da cultura hiphop, contudo não tinham oportunidade de partilhar o que sentiam, por diversos motivos. Não só porque “os homens não deixavam”.
As mulheres começaram a embelezar o movimento a partir do momento em que iniciaram um processo de auto-aceitação e auto-confianca ! Isso faz com que qualquer Mulher embeleze tudo a sua volta.

Fábia Maia 

Eu muitas vezes pergunto-me em que circunstâncias as mulheres se encontram neste momento. Às vezes também me pergunto porque singrar é tão difícil sendo mulher no mundo do hip hop. Não existem mulheres que queiram fazer parte? Existem mulheres que querem fazer parte mas não são ouvidas? O público não sente? Já pensei muito sobre isto, muito mesmo. Também me pergunto porque é que a Mulher está sujeita a tanto escrutínio, a um padrão de “bitch” e de “bitch dos meus boys”, e porque as mulheres se sujeitam a isso. Gostamos de ser bitches? É o que somos e então cantamos? Ou a moda é ser bitch? Eu acredito piamente que a antítese nestes casos deve existir. Mulheres que lutem por um estatuto de igual para igual, mulheres que se defendem uma à outra sem competição. Não estou a dizer que não gosto do que vejo, estou a dizer que, tem que existir o contrário. Uma resposta, uma imagem, uma imagem que todas se sintam Mulheres de verdade e que se identifiquem num movimento que também as proteja!


Qual foi a tua maior influência no Hip-Hop e se alguma vez o género te influenciou na hora de quereres fazer parte do movimento.


Máry M 

A minha resposta a essa pergunta é sempre a mesma, a minha maior influência, referência e inspiração no Hip-Hop e na vida é a Capicua. Acredito que com o exemplo dela tenha sido mais fácil para mim e para tantas outras miúdas, porque ela foi uma das primeiras mulheres a chegar-se à frente, se não houvesse uma Capicua não estou certa que pudesse existir uma Máry M., ou pelo menos não existiria ainda. Sempre fui aos concertos de rap, sozinha ou acompanhada e aí sinceramente nunca passei por nenhum constrangimento, até porque há muitas mulheres nos concertos de rap, só quem nunca foi a nenhum é que pode ter uma ideia contrária.

Em relação ao fazer rap, eu demorei muito tempo até ter coragem de me expor e de assumir perante os outros que é isto que eu gosto de fazer e é isto que eu quero fazer, foi uma luta interior muito grande e é possível que o facto de ser mulher tenha pesado bastante, porque é claro que a esse receio e a essa falta de confiança estão associadas muitas outras questões. Porque há pouca representatividade de mulheres no rap, porque o espaço público foi-nos negado durante tanto tempo que ainda há muitas coisas que prevalecem interiorizadas na nossa memória coletiva e que têm repercussões diretas naquilo que são as nossas ações e comportamentos.

Russa 

Como referi anteriomente, o facto de não ter grande acesso a música quase até ir para a faculdade não me permite apontar uma grande referência.
Ao contrário da maior parte das pessoas da minha geração, eu só tive internet em casa quando já tinha uns 16 anos. Praticamente não conhecia nada em termos musicais fosse de que género fosse.
Conhecia STK e Boss AC, mas ao longo dos últimos anos tenho vindo a morar no YouTube. Oiço muita música, mas não sinto que tenha uma referência mais expressiva.
Quanto à segunda pergunta, o facto de ser rapariga não me influenciou em nada na hora de querer fazer parte deste movimento.

Lendária 

A minha maior influência no HipHop é a minha própria vida, as minhas histórias, os meus erros, as minhas vitórias. Assim como as Mulheres com garra, espírito lutador, e beleza interior. Todas têm uma história, todas têm um episódio na vida que as marcou. E a minha inspiração foi ser a voz de muitas mulheres que vivem caladas massacrando-se diariamente, sem terem coragem de falar, sem saberem ao certo como explicar a alguém o que sentem, pois nem elas mesmas sabem expor tal sentimento por palavras certas. Eu entendo-as e nunca estarão sozinhas.
Eu não acho que faça parte de um movimento, mas sim de um conceito artístico mais liberal.
A poesia está sempre interligada no meu rap, nunca vi isto como movimento, mas sim como forma de podermos evoluir todos juntos, de nos ajudarmos , de ultrapassarmos os nossos próprios demónios partilhando-os com outra pessoa que até pode sentir-se ou já ter sentido da mesma forma, usando a mais bela arma de todas… a palavra. Seja para dizer asneiras, calão , ou mesmo formalidades … tudo é terapia, tudo é poesia.

Fábia Maia 

Quem mais me influenciou foi o Valete. É o brilho no que diz e no knowlagde. O Slow J porque canta o que acredita sem fireworks. Eu gosto disso. Simplicidade sem esperar nada em troca. Eu percebi que podia fazer também sem esperar nada em troca.

 


O que achas que podes trazer para o movimento? E porquê?


Máry M 

Antes de me chegar à frente enquanto MC já fiz outras coisas dentro do movimento do hip-hop português, já fiz parte de plataformas, já fotografei (ou tentei ahah), já escrevi artigos, já criei conteúdo digital, etc. Aquilo que eu vou continuar a trazer é aquilo que sempre trouxe até aqui: muita paixão. Porque de facto, o rap é uma dimensão da minha vida muito importante, faz parte da minha identidade. Enquanto rapper é claro que vou trazer sempre aquilo que são as minhas ideias, os meus pensamentos e sentimentos, mas é claro que também trago bandeiras e hei de trazer outras tantas questões. Isso é o que podem esperar da minha música. Da minha postura, podem esperar sempre muito respeito pelo Hip-Hop.

Russa 

Quando oiço o meu CD (que sai este mês) não me acho parecida a nenhuma outra MC em Portugal. Acho que isso já é um ponto positivo. Quanto mais diversidade houver mais ouvintes vão deixar de rotular o rap.
Por outras palavras, quanto mais MCs distintos tiveres a fazer rap mais dificil é para alguém dizer “isto é rap de branco”, “isto é rap de gaja”, “isto é rap de pobre”. E podia dar mais mil exemplos.
Se tiveres uma única mulher a fazer rap, os ouvintes vão considerar aquilo como O rap feminino. Se tiveres 1000 gajas diferentes a fazer rap, naturalmente terás 1000 personalidades e histórias de vida distintas que vão começar a destruir essas barreiras.
Acho que sou das primeiras MCs em Portugal a trazer trap.
Além disso, mesmo falando em rappers masculinos, acho que o trap está muito associado a temas fúteis.
Eu vou trazer temas mais conscientes em beats mais “bangers” e acho que essa vertente ainda não está muito explorada no nosso país.
Quero trazer algo de novo ao rap e não apenas ao rap feminino.

Lendária 

Trago a voz que todos nós temos a habitar em loop no nosso subconsciente. É como se tivesses um amigo imaginário, pensando que mais ninguém teria e que consequentemente tinhas algum problema mental, e no fim descobres que alguém assumiu perante o mundo inteiro que também tinha, vários até, e que é perfeitamente normal, mudando-te a perspectiva exagerada e negativa que tinhas sobre ti mesmo ! Já não te sentes sozinho nem incompreendido.
Porque, a meu ver, o movimento não é para ser levado com competição, mas sim com sentimento e inter-ajuda ! Se temos a arma mais forte de todas nas mãos , não a vamos usar de forma errada, vamos usá-la para melhorar as pessoas! Para nos soltarmos das correntes que prendemos a nós mesmos.
E se para isso tiver de dizer verdades nuas e cruas, que seja! Ao menos ninguém me calou.

Fábia Maia 

Eu acredito que eu posso ser um dia a antítese que falo em cima. Acredito que muitas mais virão, atrás de capicua, quem sabe atrás de mim um dia, e também vão ouvir aquilo que temos para dizer. A diversidade é a coisa mais bonita que existe. Não quero erguer bandeiras. Quero que as pessoas ouçam o que tenho para dizer, de igual para igual.

 


Quais são as expetativas para um próximo nível “mental” no Hip-Hop? Estão mentes a ser moldadas ou ainda vai continuar a ser um “mundo” moldado por homens?


Máry M 

É uma pergunta um pouco complicada de responder. Na verdade, se queremos que o rap seja um mundo mais paritário temos de fazer por isso todos os dias. Eu tenho várias questões relativas a isso que não passam apenas pelas letras e videoclips sexistas, que também se devem combater. Passam pelos apoios às MC’s que estão aí, passam pela nossa própria atitude e abertura também, passam por repensar a ideia que ainda me parece existir que se tratam de duas ligas diferentes, que existe um rap masculino separado do feminino. É comum vermos edições de rap feminino nas várias plataformas que existem e aí normalmente surge um artigo inteiro ou um dia inteiro dedicado a mulheres que fazem rap, mas nos outros dias todos quase não somos incluídas nas playlists.

É preciso mais mulheres no rap, mais representatividade, que elas tenham coragem de lutar por aquilo que elas gostam e querem, não tenham medo de ser quem são e de se mostrarem. Há muitos homens que estão connosco na luta e que o demonstram nas músicas, também é preciso dar visibilidade a essas mensagens.

Russa 

O meu sonho não é apenas fazer disto vida. O meu sonho não é apenas ser a melhor rapper. O meu sonho é fazer o melhor rap, que enquanto obra artistica não dependa de um género ou classe social.
Que a minha arte seja vista como arte e não como arte feminina. Esse é o sonho para o futuro do hip-hop.
Enquanto não houver mais diversidade dentro do nucleo de MCs femininas, este vai continuar a ser um mundo moldado por homens.
Damas, façam a vossa cena! Quebrem barreiras! Mostrem a vossa personalidade! Boraaaaa

Lendária 

Não é no hiphop que as mentes têm de ser melhoradas/moldadas. Mas sim, na vida. No dia a dia. Na educação, no respeito, na ajuda, na compreensão, paciência e amor.
Porque se começarem a melhorar as bases, o telhado torna-se mais consistente para todo o granizo que caia.
As pessoas (homens e mulheres) têm de começar a colocar-se um pouco mais na pele dos outros.
Neste caso, os homens, têm de começar a fazer uma auto-análise profunda, sempre que apontarem um dedo a uma Mulher, ou insultarem uma, ou fizerem coisas bem piores. Certamente que não iriam ficar satisfeitos se o mesmo acontecesse á sua mãe , irmã , etc.
Por isso, tudo isto que se passa no movimento hip-hop (machismo) , tem de ser cortado á nascença, na evolução educativa de cada um como ser humano social.
Se gostas, bacano. Se não gostas : alt+F4 e deixa as miúdas fazerem o que sentem!
Aqui ninguém tá a mijar nos postes a ver quem tem mais metros quadrados de território!
Para mim, o rap nunca foi um mundo de homens ! Para mim o rap é o meu mundo! E eu vivo nesse mundo como eu quiser, não vai ser um homem que me fará parar, muito menos por eu ser Mulher, e ele não ter amor próprio suficiente, para aceitar e respeitar isso!
Só precisamos de um mic, o resto é poesia!
Fábia Maia 

Eu sempre ouvi dizer que a homofobia se luta pelas pessoas e se combate, pelas mesmas que se sentem discriminadas. Se existe um meio moldado por homens, na minha opinião é porque não existe a diferença, e o que existe não bate diretamente com o meio em que nos sujeitam a uma imagem menos boa. A fórmula resultou lá fora e aqui também, por isso é que ninguém se importa de dizer que sou uma mulher que se deixa chamar e sujeitar pelo meio masculino. Acredito do fundo do coração, que surgirá alguém, nomeadamente uma mulher que será pioneira , e que vai chocar com o sistema. É isso que desejo.

E aí… as mentes vão abrir para coisas novas. Eu acho que o público quer as mulheres no mesmo patamar. Quando isso acontecer, vai ser lindo de se ver e ouvir. Vai dar vida.

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