Hip Hop Rádio

David expõe o “Ónus da Prova”: “Não basta auto-apelidar-me de artista, preciso de prová-lo significativamente”

1º álbum de David com participação de Sofia Lessa, Xeg, Spliff e Charlie Beats.

Depois de lançar três mixtapes (“596“, “Liberdade” e “Sinais“), David coloca Vila Real no mapa com, o seu primeiro álbum, “Ónus da Prova“. Este projeto carrega “três anos de sangue, empenho e muito tempo” dedicado. O artista respondeu a algumas perguntas da Hip Hop Rádio e falou-nos sobre o processo de criação deste novo álbum, as suas influências (e o peso de Dillaz como fonte de inspiração) e ainda sobre o estado do Hip Hop em Trás-os-Montes.

Como nasce o “Ónus da Prova” e o que pretendes transmitir com ele?

O conceito do álbum é bastante simples de explicar. Licenciei-me em Direito em Junho deste ano e escolhi esta expressão precisamente por ser um termo jurídico. De forma simplificada e sucinta, o ónus da prova é a obrigação que recai sobre nós de provar aquilo que alegamos. Neste contexto, para mim próprio, serviu como forma de eu realmente me levar a sério enquanto artista e enquanto músico. Não basta idealizar, é preciso concretizar. Este primeiro disco de originais é a prova que eu estou a cumprir essa “obrigação”. Desde a produção, à pós-produção, à mistura até às letras, tentei ser o mais exigente possível comigo próprio para fazer um disco sério, não basta auto-apelidar-me de artista, preciso de prová-lo significativamente. Por outro lado, serve como exclamação para aqueles que me ouvem, sublinhando que depende exclusivamente da nossa vontade provar e atingir aquilo que dizemos e queremos ser.

Tens a participação de dois grandes nomes nacionais: Xeg e Charlie Beats. Como surgiram essas participações?

Os nomes da produção estão diretamente ligados ao conceito do disco, foi uma das formas de atingir aquilo que eu pretendia com este álbum. Para além do Xeg e do Charlie, tenho ainda instrumentais produzidos pelo Antik e pelo Spliff. Para além da produção, a pós-produção ficou a cargo de vários músicos super talentosos que vêm de uma formação mais clássica. A Carolina Correia no violoncelo, o Fábio Meneses no clarinete e ainda a Sofia Lessa na voz e na guitarra. Todas estas participações surgiram de forma bastante natural. Em relação ao Charlie, tive a oportunidade de conhecê-lo há 3/4 anos em Vila Real quando ele andava na estrada com o Piruka, numa festa de hip hop que organizei com alguns amigos. O Charlie estava a trabalhar como técnico de som, além de ser um excelente profissional e o produtor genial, é uma pessoa super tranquila e positiva. Na primeira oportunidade que tive comprei-lhe o beat. 

Corro o risco de acertar ao lado, mas noto algumas parecenças e influências de Dillaz na tua música (nomeadamente, na música “Dúvidas” deste álbum e, por exemplo, em “Noite de um beto de 16 anos”). Falhei redondamente ou é um nome que te é bem conhecido?

Não sei se parecenças e influências serão críticas ou elogios, mas o que posso dizer é que o Dillaz é o artista que eu mais consumo e admiro. Não só a nível musical mas também a nível da construção da sua imagem, que comporta uma aura de enigma fazendo dele uma espécie de profeta. Desse modo, não escrevo nem produzo os meus sons de forma a obter um resultado semelhante a determinado estilo, mas estou convicto que todos nós, ainda que inconscientemente, quando criamos, somos sempre influenciados por aquilo que consumimos. É engraçado teres encontrado semelhanças especificamente nessa faixa porque foi precisamente essa a faixa produzida pelo Spliff. Eu estudei 12 anos violino no Conservatório por isso consumi e consumo também bastante música clássica. A nível de rap Virtus, Regula, Keso, Slow J.

“Um beat, um microfone e eu fico à vontade”. A sonoridade boom bap é a tua praia?

Poderia responder-te com o habitual clichê que eu não me meto em gavetas para definir o meu estilo, mas na verdade eu continuo à procura do verdadeiro espaço onde me sinta realmente livre e eu próprio. O projeto que antecedeu este álbum, o EP Liberdade, é mais próximo de uma onda trap, enquanto este álbum é assumidamente boom bap. As coisas têm funcionado por fases e não raciono nem me limito pelo estilo do instrumental, o que eu tiver a sentir é o que será, e agora estou a atravessar uma fase boom bap. Vou parar uns tempos para aprimorar os meus conhecimentos técnicos a nível de produção de forma a conseguir encontrar a autonomia e o meu espaço próprio, quer a nível de escrita quer a nível de produção instrumental. 

Como vês o panorama do rap nacional e, mais concretamente, em Trás-os-Montes?

Por um lado, o rap nacional está vivo e de óptima saúde, por outro, está a tornar-se um círculo bastante restrito, não só por causa da entrada das grandes editoras no jogo, mas também pela crescente quantidade de artistas que vão surgindo. Em Trás-os-Montes o rap está a viver uma fase mesmo muito boa, há cada vez mais artistas a lançar projetos com qualidade e aos poucos as festas de rap começam a aparecer com mais frequência. A única coisa que ainda vai faltando é a igualdade na projeção e visibilidade comparativamente a outras zonas do país, mas acho que mais tarde ou mais cedo isso vai chegar.

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