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The Big Banger Theory

Crítica | The Big Banger Theory

2014 viu nascer a primeira mixtape do “tipo que vive num beat”, o “prof dos putos da nova gen”: a “teoria” de Mário Cotrim alcançou a prática com a criação de um universo musical muito próprio – à data (e convém lembrar que apenas cinco anos se passaram) a expressão do trap em Portugal era quase nula, com algumas pontadas acutilantes – Força Suprema e Mike El Nite com alguns projetos nessa direção – mas pouca difusão. Se, hoje, e com a edição de #FFFFFF, o hip-hop e o trap parecem responder cada vez mais por um só nome – e ainda bem – muito o devemos às batidas sintéticas e à linha estética e versátil de The Big Banger Theory, o primeiro disco a introduzir ProfJam a uma nova geração de ouvintes ao seu muito característico e singular registo musical que, cinco anos volvidos, se instalou na “tuga” com o devido reconhecimento.

Foi editado a 6 de junho de 2014, pela extinta ASTRORecords. Ao longo de cerca de 1h e 12 minutos, TBBT traduz-se em singles e bangers, produções ambiciosas e todo um conjunto de rimas e melodias construídas para cantar e entusiasmar. Se “Frank Einstein” é, até hoje, a minha faixa de eleição de ProfJam, muitos dos seguintes temas não lhe ficam atrás: “Money”, com Papillon, é uma malha angustiada sobre a precaridade e a crise económica, “Viciada”, remix de “All The Time”, de Jeremih, Lil Wayne & Natasha Mosley ou “Missão” vestem alguns dos melhores versos do MC de Telheiras e, claro, o potencial clássico, “Mambo nº1”, que também já tinha sido editado em Rusga para Concerto em G Menor, de Mike El Nite, é, indiscutivelmente, um dos grandes temas da dupla e uma das faixas com mais sucesso dos respetivos discos. para

Tida como rampa de partida para a vigente carreira de sucesso, esta mixtape de estreia de ProfJam é, contudo, motivo de discussão quando, inevitavelmente, os fãs a tentam comparar aos seus discos sucessores: Mixtakes, de 2016, e #FFFFFF, de fevereiro deste ano. É, obviamente, difícil e, quiçá, impossível, categorizar todas as opiniões, mas a trincheira parece dividir-se quando o assunto é The Big Banger Theory – se uma grande maioria consegue apreciar toda a discografia de Mário Cotrim, uns, saudosistas, criticam a atual vocalização sintética, a utilização do autotune – instrumento não tão utilizado em TBBT, mas que, ainda assim, deixa a sua marca no disco (ouça-se “Dope Boy”, por exemplo, etiquetada como “Auto-Tune Freestyle”, ou o refrão de “O Jogo”). Para melhor compreender este efeito, note-se a companhia artística de ProfJam nos respetivos projetos: em TBBT conta com 25 (!) produtores diferentes, número reduzido na mixtape seguinte e, por fim, trabalha quase em exclusivo com Lhast para o primeiro álbum de estúdio. A mesma lógica permanece ao microfone: em TBBT, rima com Vilão, Papillon, Magboy e Fínix MG (com o nome Hugo Phoenixxx, em “Drogas & Bottles”), para em 2016 apenas contar com a voz extra de Hypnotic no skit e, em #FFFFFF, voltar a ter apenas Fínix MG como convidado. Pese a presença da Think Music no background de todo o processo, esta “solidão” gradual representa o caminho de Mário Cotrim no mundo do rap, cada vez mais consciente, mais único, com uma maior representação vocálica, novas cadências e melodias – provenientes do uso desse mesmo auto-tune – e, no fundo, a consolidação do músico que, em 2014, disse ser um “HydroGénio”, longe do que diz ser a atual “Água de Coco”: “o expectável, o contido, algo frutado, que se bebe mas não bate”.  

Diferente, com produções versáteis, já percorrendo paisagens sonoras fora do boombap, e um “Super Mário” inquisitivo nas rimas e ágil no flow, as 22 faixas que a compõem não atingirão o nível que temas posteriores como “Queq Queres” ou “Tou Bem” prometem atingir, ainda que muitas delas só não apresentem esse potencial por falta de exposição.

The Big Banger Theory foi, para os ouvidos mais atentos, uma entrada a pés juntos no rap nacional. Cinco anos depois, continua um disco empolgante e singular. É o começo da aula. O sumário a giz branco apontado no quadro negro. Uma parelha de barras ácidas disparadas sem receio – uma aula que não precisa de campainha. Os bons alunos chegam sempre a horas. 

The Big Banger Theory [TBBT], de ProfJam, 2014
8/10
Fotografia de Daniel Pereira

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