Hip Hop Rádio

Crítica | L.E.V.

Ainda durante o ano passado, Praso anunciou L.E.V., acrónimo que já residia num ou dois temas no YouTube. Livre e Espontânea Vontade tem direito a lançamento no mesmo em dia em que se celebram 45 anos da revolução dos cravos, 45 de anos de, como o povo diz, liberdade, quase meio século após o término de uma ditadura onde a música de Daniel Jones não seria, certamente, permitida.

“E se eu disser que me sabe a pouco?”, inicia o primeiro tema, chavão para o que está por vir: uma fome insaciável de fazer música, o oposto ao comum “podia ser pior” e, ao mesmo tempo, uma tentativa de contextualizar todo este disco – vamos por partes. “Raiva de Ontem” é uma ode à desatenção individual, um aviso ainda sem destinatário ou complemento. Uma crítica, como “Nunca Será Justo”. O tema é dedilhado a guitarra e beatbox, guitarra essa que volta em Quasar, uma das estrelas – e perdoem-me o trocadilho fácil – do álbum, ombreando com “Sentir Bem” e “Até Virar Pó” no estatuto que, noutros discos, “Tempo, Amor e Saúde” ou “Equilíbrio” alcançaram – fruto também da melodia que o cantor e a cantora emprestam aos respetivos temas e, não os querendo etiquetar de “canções de amor”, são, definitivamente, uma declaração. E, ainda assim, que música de Praso não o é? (que música não o é?) É um álbum, como o próprio diz, feito de “Livre e Espontânea Vontade”, e isso é, inegavelmente e por si só, um mote, e é aí que a experiência de Daniel Jones lhe serve as armas necessárias à combinação de instrumentais variados, ora voltando ao jazz, ora atravessando sonoridades mais modernas, com a mistura temática de uma mensagem interventiva com as suas já estilizadas rimas ricas em boémia e descontração. É um statement (pardon my french) existencial, onde também há espaço para a crítica a Portugal, no tema homónimo, uma chamada de atenção à necessidade de agir – assinalando mais um 25 de abril de celebração e, agora sim, deparamo-nos com o tema central do disco: a liberdade.

A certeza num arbítrio livre e a esperança de mudar percorrem todas as faixas, a vontade de “encontrar uma saída, fazer o que se ama para o resto da vida”, ao mesmo tempo que se encontram as vicissitudes da vida, muitas vezes também pelos versos de Subtil ou de Montana: é de notar o elenco de luxo que Praso convidou para ombrear rimas, como o dealemático Maze, Stag One, Tom, Uno, Splinter ou os brasileiros Bk e Sain (em “A Praga“, com videoclip), uma bonita moldura musical que tão bem se destacam nas melodias inventadas e sampladas (como a canção de Aaron Neville, “How Could I Help But Love You” ou o conhecido tema da saga Missão Impossível) que vão compondo um álbum criado sem compromissos periféricos – cujas temáticas se vão encaixando e replicando, com dois skits – registo comum nos discos de Praso – e alguns singles. Atravessando as paisagens sonoras a que já está habituado com a habilidade do costume, transporta consigo motes como “é o dia-a-dia de um gajo à deriva, a ver se há sorte na roleta, a vida é muito curta e nada acontece já, já que a maior parte do tempo andamos ao deus-dará”, no tema “Porque é Que Não Dá?”, ou “a música acaba e voltamos à mesma luta”, da última faixa de L.E.V., que, nunca resumindo o disco, enquadram Daniel Jones no placo onde tem permanecido, no limiar dos holofotes e dos bastidores, ainda que seja um dos mais importantes elementos do hip-hop alentejano e com uma grande pegada no hip-hop nacional: o homem que faz música por paixão e arte, com a perícia do tradicional ARTESANACTO e permanecendo numa linha musical já definida e, cada vez mais, polida e pensada.

 “Mal-Acompanhado” e “Overdose” são os bangers, os últimos temas, nascidos para ver mexer o público – como já se provou em dezembro com a companhia de Tom, Uno, Subtil e Beware Jack. O segundo tema conta ainda com scratch de Dj Gijoe e rimas de Jugador, Prizko, N.o.B., Silva G e Stag One, o tradicional tema de punchline, já a chegar ao fim, com aroma à velha escola e barras da “nova”, acompanhadas por um verso e refrão de Praso. E “Quando a Música Acaba”?

LEV continua. É um disco que continua a elevar a fasquia pessoal de Daniel Jones, que infelizmente continuará sem o devido reconhecimento. Um álbum que se declara livre – num dia feito para se celebrar esse mesmo direito. E a música, como provou “E depois do Amor” ou “Grândola, Vila Morena”, pode ser um dos principais canais nessa jornada pela liberdade. Ou, como o MC e produtor sineense rima – “Mas é isso que nos alimenta, ter nada e querer tudo e sem tempo ter talento para mudar o mundo.”

 

Livre e Espontânea Vontade [L.E.V.], de Praso, 2019
8/10

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