Hip Hop Rádio

“Cocó é Tabú” mas o rap de Mike Lyte não devia ser


Por Daniel Pereira


Na passada sexta-feira (8 de junho) desloquei-me até ao Musicbox em Lisboa para ver o “Crocodildo” de Mike Lyte que prometia apresentar-se ao vivo a partir das 22h. Cheguei perto das 22h20 e à porta da famosa sala do Cais do Sodré era possível ver um público bastante jovem mas também alguns pais que acompanharam os seus filhos para os levar ao concerto de rap que acredito ter sido, para muitos, o primeiro. Um público maioritariamente entre os 16 e os 18 anos portanto, algo que não me espantou de maneira nenhuma porque muito daquele público faz parte de uma geração que assiste bastante a plataforma YouTube.

Mike Lyte é o nome de rapper de Miguel Luz, figura incontornável (penso que não é demasiado utilizar esta bonita expressão) do YouTube nacional visto que foi dos primeiros YouTubers portugueses a ter uma grande notoriedade. Não sei se estão a par mas faz parte daquela primeira geração de YouTubers como Nurb, Diogo Sena, Pakistan, entre outros que produziam conteúdo geralmente de cariz humorístico. Estes jovens (que hoje rondam entre os 20 e 22 anos) eram os mais conhecidos antes e se os compararem com os homónimos atuais com maior notoriedade, vêem que há algo que não bate certo, pois apesar de idades semelhantes o conteúdo produzido é claramente mais infantil e com menos substância, sem desprimor claro está para os criadores de conteúdo portugueses da plataforma de hoje em dia pois estes só tentam agradar ao público que os vê e segue tanto no YouTube como nas várias redes sociais.

Podem ter a certeza que tal como o rap, o YouTube também mudou muito (em aspetos bastante semelhantes até) nos últimos tempos mas isso não me diz respeito, estou aqui para falar da cultura de que tanto gostamos.

 

 

Já dentro do Musicbox não encontrei uma sala cheia no entanto estavam uns bons 3/4 da sala preenchida. O palco estava vazio mas isso não tardou a mudar, passados 5 min de eu ter entrado, Pryde, amigo de longa data de Mike Lyte subiu a palco. Era com ele a primeira parte do espetáculo em que o main event era a apresentação do álbum “Crocodildo” lançado no final do ano de 2017, que viria a seguir. Uma atuação sólida de cerca de 20-25 min deste novo rapper que tocou os seus temas já lançados mas também temas novos ainda por lançar.

 

Tenho medo de não me fazer entender no que vou dizer a seguir, ou pior, que concordem com o que vou dizer.

Após a atuação de Pryde este infeliz pensamento (ou algo do género) passou pela minha cabeça: “Ora, afinal hoje vim cá ver rap a sério, deixa lá ver a seguir”. É que naquela altura, ou seja, momentos antes da atuação de Mike Lyte começar, havia algo que me impedia de olhar para este como um rapper “a sério”. À data que escrevo este artigo, já depois de ter visto o concerto reconheço que esse algo prende-se exclusivamente por o rapper ter um conteúdo assumidamente humorístico, o que para mim não é um argumento válido (repararam como acabei de me contradizer a mim mesmo?).

Pois bem, eu conhecia já o teor das letras portanto sabia para o que ia… Pensava eu que sabia! Mal Mike Lyte entrou em palco foi como uma chapada de luva branca e neste momento tinha já Sam The Kid a passar-me pela cabeça e a dizer-me “Não percebes o hip-hop”. Mike Lyte fez-se acompanhar de Pryde que aqui fez de backvoice e o primeiro tema tocado foi precisamente “Crocodildo”, a primeira faixa do álbum e estava lá tudo, métrica, flow, dicção, presença em palco, empatia com o público. Ah, e de salientar que o beats também são todos dele.

Foi ali que percebi que não vinha ver nenhum meeting com um YouTuber mas sim um concerto de rap, o tal rap “a sério” que considero-o assim, apesar de ser de cariz humorístico.

 

 

Um concerto de cerca de 50 min em que as 13 músicas do “Crocodildo” foram percorridas e em que os destaques foram o público em completo uníssono nas faixas “MILF” e “Alguém”, o moshpit em “COTA”, uma roda de improviso em que vários participaram inclusivé elementos do público, a reflexão sobre um dos maiores tabús da humanidade que meteu todos a pensar  durante a faixa “Cocó é tabú” e o encore com a faixa “Pastel De Nata” que contou com crowdsurfing de Mike Lyte e com arremesso por parte do mesmo para o público de… pastéis de nata.

Para mim este foi um concerto que deu para cantar, vibrar e rir e não podia sair de lá mais satisfeito… e surpreendido.


 


Se tivesse que definir o Miguel numa palavra essa seria “criatividade” pois é o que não falta de maneira nenhuma no seu trabalho já apresentado.

Para quem está a par das letras sabe que ele bem diz que veio para pôr “todos os putos a pensar e os adultos a tremer” e que “seja a sério ou a gozar eu vou sempre ser eu”. Acho que é o que todo o público que esteve presente no Musicbox lhe pede e por mim é muito bem-vindo ao “rap game” da tuga pois estamos perante um YouTuber que vem, não para se servir do Rap numa fase em Portugal em que é moda mas sim para servir a ele.

A Sátira é uma arte que Miguel domina. Seja como Miguel Luz através de vlogs e sketches ou como Mike Lyte através do rap. E deverá este tipo de rap ser marginalizado ou não ser considerado “real” quando é feito com qualidade? A minha resposta é claramente não pois considero importante a diversidade no rap desde que seja diferente para melhor e contribua para a evolução da cultura seja no beat, na atuação ao vivo ou no que é passado para o ouvinte.

Bem, e no que toca à palavra, é preferível falar sobre assuntos parvos, e fazê-lo bem do que falar sobre assuntos sérios, e fazê-lo mal.


Mais fotos do concerto:

1 thought on ““Cocó é Tabú” mas o rap de Mike Lyte não devia ser”

  1. “Criatividade” é a palavra chave para descrever Miguel Luz. Daniel Pereira acertou em cheio! Algures, li que este foi um dos melhores momentos da vida dele. Parece que sim, viu reconhecido o seu trabalho. “Cócó é tabu” é uma música que, efectivamente, põe os adultos a tremer, mas que também revela que Mike Lyte tem um sentido de critica social muito apurado, nada melhor para o transmitir do que o transformar em hip hop, que é “o que está a dar”. Como diz a malta, o concerto “foi do caralho” e a vossa reportagem também. Parabéns.

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