Hip Hop Rádio

Opinião

Sendo assim, obrigado

Sendo assim, só resta uma forma de concluir esta crónica.

Escrevo, enquanto oiço pela oitava vez seguida a nova música de Sam The Kid. E foi precisamente no dia 8 que “Pratica(mente)” foi lançado. Mas porquê falar desse tempo?

“Tá tudo inverso e o mundo diverte-se, é um dissabor
Como nunca houvesse quem visse o verso e ouvisse a cor”

“Sendo Assim” tem uma sonoridade familiar. A primeira vez que se ouve não parece ser a primeira. É tal e qual aquela sensação que temos quando vemos uma cara conhecida na rua, mas não fazemos ideia nenhuma quem essa pessoa é. Andamos depois horas e horas a pensar nisso, sem chegar a nenhuma conclusão.

(Assim sendo, o melhor é ativar o repeat).

Esta música parece ser de outro tempo – apesar de, paradoxalmente, cimentar que Sam the Kid é de todos os tempos. “Sendo Assim” podia muito bem estar em “Pratica(mente)”. Tal como qualquer das músicas desse álbum poderia ser lançada neste momento que não estaria fora do seu tempo. “Sendo Assim” comprova o génio e consolida o nome de Sam The Kid como o de melhor MC português de sempre. Simplesmente, por uma razão: ser intemporal.

Este som é uma chapada de luva branca. É um redirecionar do Hip Hop – ou devia ser. É um acalmar da correria em que a cultura andava e um redirecionar da visão que temos do futuro da mesma. No meio de tanta guerra, tanto “beef”, de tanto cardume aos berros, surge uma voz de calma. Um raio de luz que nos indica o caminho. A pressão da aceitação, da aderência, a pressão de tornar tudo “trap” “porque é o que bate” é aqui desmistificada. Sam the Kid deixa uma mensagem bem simples, mas que parece por muitos esquecida.

“Faço algo que eu adoro e ignoro o prazer ruim
Eu não quero ser o melhor eu melhoro a fazer de mim”

Que este Sam que só quer ser o melhor dele, inspire a que outros façam o mesmo. Que voltem a escrever para eles e não para o público. Que voltem a sentar-se no seu bairro a fazer desenhos no pó e a escrever, enquanto a única coisa que levanta são eles e não o seu copo de balão. Que os bandidos velhos permaneçam nos seus quintais e nos mostrem o quão belos são os jardins do mundo. Que, a partir deles, continuem a querer furar a atmosfera e elevar o rap tuga. Que se escrevam mais serenatas e se promova mu(n)dança.
Nós estaremos cá para os ouvir.

“Com a Sony Digital ganhei a noção da lente
Para um dia ser imortal como a nação valente”

(Já conseguiste, Samuel. És tu quem lidera os mil e noventa e nove soldados que marcham todos os dias).

Sendo assim, obrigado.

Lil Generation

Para seres sapo grande tens que passar por girino, Dillaz, em “Igual aos Outros”

O muito conhecido Spotify anunciou este verão um pequeno grande facto que não pode passar despercebido na atual geração do rap : foi registado o oitavo milésimo (8000º) artista com Lil no nome. 8000 Lils.

“Se fizesse rap por moda, brother eu ia para estilista” – Dillaz, em Falas de Má Língua

Chegámos a uma generalização que roça o ridículo.

Obviamente que muitos Lil têm uma qualidade notória e certo é que todo o artista pequeno ambiciona crescer.

Mas, no mundo em que vivemos, se queremos singrar não podemos ser só mais um peixe no oceano. Até porque o oceano está cheio de tubarões (“avisa os tubarões que o lago tem crocodilos”). Ceder à sociedade e ao estereótipo traça um caminho exigente rumo ao sucesso muito difícil onde o artista apenas chegará ao destino com uma capacidade  lírica e musical muito acima da média.

Neste oceano, é necessário ter ousadia. É necessário agarrar num “Jurássico Barco” e zarpar rumo a um horizonte desconhecido com imenso por descobrir. É necessário “nadar sem gravidade às vezes rumo a nenhum futuro”.

Por vezes ponho-me a pensar numa questão que me deixa em profunda reflexão. Daqui a uns breves anos, esta geração vai ser “old school”. O que diriam 2pac, The Notorious Big, Eazy-E, Nas e outros tantos rappers que certamente todos juntos seriam bem menos que 8000? O que acharia a (g)old school destes “pequenos” rappers?

A música está em constante evolução. Ritmos, letras, beats. Mas nem tudo muda para melhor. Deixo-vos uma comparação entre a lírica de 2pac e de Lil Pump. Tirem as vossas ilações.

2-pac – Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z

Never surrender, it’s all about the faith you’ve got

Don’t ever stop, just push it til you hit the top

And if you drop, at least you know you gave your all

Be true to you, and that way you can never fall

 

Lil Pump – Gucci gang

Gucci gang, Gucci gang, Gucci gang, Gucci gang

Gucci gang, Gucci gang, Gucci gang, Gucci gang

Spend ten racks on a new chain

My bitch love do cocaine,

I fuck a bitch, I forgot her name

 

Certo é que cada um tem a liberdade de escolher o nome que quiser e fazer rap sobre o que bem lhe apetecer. Mas sei que falo por muitos quando afirmo que “pirosos do caralho” há muitos e que os amantes deste tão prestigiado estilo de música estão receosos com o grande pequeno impacto com a imagem que o hiphop está a passar.

Felizmente, no rap português , temos recebido “Comida” para matar a nossa “Fome” de rappers com grande qualidade que vivem de “Impulsos” e arriscam ir mais “Além“, mesmo que tal não seja fácil.

Fica o desejo de uma grande mudança no hip-hop internacional.

Enquanto liam isto, outro Lil surgiu…

Opinião de Tomás Fernandez

Façam o futuro à vossa imagem, STK em “Juventude é Mentalidade”

Beat Fest: um marco na história, uma herança para o futuro

No Alto Alentejo não há rede. Pelo menos, não em Ribeira da Venda. Não há como estar online e só durante as tardes – para quem viajou de carro – é que é possível deslocar-se aos aglomerados vizinhos em busca daquele traço a mais, na tentativa de carregar as instastories gravadas na véspera. Assim, as fotografias e entrevistas ficam para depois. Por agora, é tempo de tomar um banho, descansar e, porventura, ler este ensaio e esta reflexão sobre o que o Beat Fest foi, o que criou e representa | Por Bruno Fidalgo de Sousa

A equipa da Hip Hop Rádio esteve em Portalegre para assistir à primeira edição do certame que prometia muito: os nomes de Piruka, Slow J e a dupla de veteranos STK e Mundo Segundo eram cabeças de um cartaz recheado de rap e batidas portuguesas. Agora que a tenda está arrumada e o calor alentejano ficou para trás, é hora de afirmar que a consagração do hip-hop nacional já tem nome e marca. O festival que se orgulha – e com todo o direito – da sua programação exclusiva de rappers e DJ’s e da sua identidade singular chegou ao fim, depois de quatro dias de temperaturas elevadas, durante a tarde no campismo, à noite em palco.

Falar das infraestruturas é redundante, falar das condições é supérfluo. Contar os braços que, para cima e para baixo e vice-versa se agitavam na multidão é missão impossível. Mais fácil seria contar as horas de calor extremo que os campistas superaram, ávidos pelo próximo concerto. Hoje, muitos hip-hop heads podem sentir-se orgulhosos de ter estado na primeira edição de um certame feito para durar e que, das mais variadas formas, se distingue dos demais.

Há muito que os festivais deixaram de ser festivais de música para passar a ser festivais de verão. É inegável o quão rentável para as organizações é a aposta nos nomes mais conhecidos das massas, nos nomes que se colocam no topo de vendas em Portugal e não só. Já não é só pela programação que se vai a um festival. É pelo espírito, pela festa, pela moda ou pelo que quer que seja. Quando falamos do Beat Fest, não podemos falar em festival de verão ou em festival de música. Falamos em festival de hip-hop. Não de rap, mas de hip-hop. E isso – seja para os veteranos e pioneiros, seja para os recém-chegados a esta cultura – é, não só um prazer, mas uma vitória. Porque o espírito, em Comenda, Gavião, era muito mais do que aquele que se esperava: “aquele sabor e toque das old school hip-hop parties”.

Obviamente que esse sabor e toque já não são os mesmos, também por culpa da própria evolução do movimento. Se faltava alguma coisa, seria o breakdance, a única vertente sem representação – Youth One, um dos pioneiros do graffiti nacional, esteve durante os três dias oficias de festival encarregue das tintas. Também um cypher à moda antiga se enquadraria, ou até mesmo um confronto de turntablism (sugestões para as próximas edições?). Mas, se hoje em dia esta cultura se pode orgulhar de ter um festival exclusivo, muito se deve à aproximação do público, cada vez mais numeroso.

(Relembro-me do meu primeiro festival, de todos os outros que vieram por contágio, das festas de hip-hop e das festas caseiras com a coluna de mão a vibrar. A diferença entre todas essas sessões musicais está no público, na forma como sentem o que cantam e na forma como, todos juntos, sentem o hip-hop. Phoenix RDC contou à Antena 3 que só no Hard Club sentira o mesmo ambiente que em Comenda. Isso é de louvar.)

O Beat Fest tem agora espaço para deixar uma herança pesada às próximas gerações. É um marco no movimento, como quase todos os que passaram pelo palco nestes últimos dias afirmaram. É o fator exclusividade: um festival de hip-hop, organizado por malta do hip-hop para malta do hip-hop – quando digo “malta”, refiro-me a todos os hip-hop heads e a todos os fãs que marcaram presença e não arredaram pé durante as horas de concertos, refiro-me à malta que cá caminha desde o início. E, quando falo em exclusividade, falo do quão única é esta arte. Se, antigamente, havia a “malta do rock”, a “malta do metal”, “a malta do funk”, hoje – e já há alguns anos – podemos falar da “malta do hip-hop” e da forma como, a pouco e pouco, se vai conquistado cada vez mais espaço, seja em boombap ou trap, seja nova ou velha escola.

Foram quatro duros dias – muito sol, demasiado calor e bastantes horas de pé. Foram muitos braços no ar e muitas rimas e batidas levadas pelos mais eclécticos artistas dentro daquilo que é o rap e, acima dele, o hip-hop: do freestyle de Eva RapDiva e Sangue Bom (MC do coletivo Alcool Club), aos mosh pits incentivados pelos GROGNation, por Kappa Jotta ou Holly Hood, aos refrões de Phoenix RDC ou Dillaz, cantados do fundo do peito pelo público, aos pratos de Nel’Assassin, Gijoe, Kwan, à guitarra de Slow J ou à vibe de Mishlawi ou Cálculo.

O hip-hop nacional está mais vivo do que nunca – o hip-hop nacional esteve em peso em Comenda e o Beat Fest tem tudo para continuar. E, como a última frase do set de Stereossauro que encerrou a festa, a mensagem de despedida só podia ser esta: “se é para morrer, morremos de pé”.

Fotografia de Bruno Fidalgo de Sousa

Um ano de “Rap Consciente”, anestesia lírica e um baralho de cartas


Foi há precisamente um ano que “Rap Consciente” e “Poder” fizeram retornar um Valete do “abismo sem retorno”. Neste baralho de cartas mutável e inconstante que é o rap, onde o melhor MC está sempre à mercê da justiça poética de cada um e as rimas são ora moda, ora abalos progressivos na estrutura dita “normal”, o MC da Damaia – que já foi rei – estagnou e, agora, nem rei, nem valete, nem dama. Nem joker. | Por Bruno Fidalgo de Sousa

O “dono” de Educação Visual Serviço Público – trabalhos dos quais me lembrarei sempre com muito carinho – teve pouco mais que algumas participações e um projeto de super-grupo: editou o ano passado Língua Franca, com Capicua, Emicida e Rael. E agora, Valete? Onze anos, doze anos? Onde pousa o prometido Homo Libero? Pronto para sair do nevoeiro em força, ou sob anestesia lírica?

Reforço esta ideia: “anestesia lírica”. Se me permitem, vou cunhar este conceito e será, então, um amenizar da influência da mensagem (e não da lírica em si) ou do termo apropriado: contexto, perspectiva, reflexão. Uma pausa na relevância do que é dito (ou como é dito, lembrando-me agora de alguns MC’s nacionais cuja fórmula é repetida até à exaustão, uma fórmula já gasta). Será que é mais importante criticar o trap – que é disso mesmo que se trata – ou a nova vaga de rappers que em tanto diferem da velha escola do que, de facto, criar?

As duas faixas a celebrar o primeiro adversário nada acrescentaram ao portefólio de Valete. “Poder” é apenas uma lista de referências, em nada intelectuais, como seria suposto. “Rap Consciente” é um desbravamento infantil pelas novas tendências do rap, um olhar algo imaturo sob o futuro. Não foi um regresso, foi fogo de primeira-vista, porque o Valete de 2006 dizia, efectivamente, algo de único e diferente. Neste momento, a curiosidade em perceber qual o patamar de Valete e o que mudou com a sua ausência é maior do que a curiosidade em ouvir o futuro “melhor álbum” do hip-hop nacional.

Se existir um rei neste baralho, mora em Chelas. A posição de valete e dama é constantemente desafiada. O joker é demasiado lento para contar neste baralho de hip-hop (felizmente). E esta é a minha justiça poética. Homo Libero nas ruas ainda em 2018? Seria uma resposta, no mínimo, digna de aplauso.

44 anos de liberdade: entre samples e hinos de revolução

“Às vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos (22H55) do dia 24 Abr 74 será transmitida pelos “Emissores Associados de Lisboa” uma frase indicando que faltam cinco minutos para as vinte e três horas (23H00) e anunciado o disco de Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus””.

“Entre as zero horas (00H00) e a uma hora (01H00) do dia 25 Abr 74, através do programa da Rádio Renascença, será transmitida a seguinte sequência: Leitura da estrofe do poema “Grândola Vila Morena” (…) Transmissão da canção do mesmo nome interpretada por José Afonso”.

Há 44 anos, iniciou-se assim um dos passos mais importantes na história do nosso país. Duas músicas ditaram o destino de um povo que saiu à rua e brandiu cravos nas espingardas, que exigiu a sua independência e a sua negada liberdade. Duas músicas apenas colocaram em marcha uma nação e fizeram ocupar as ruas de resistentes, como fio condutor de uma inusitada forma de progresso.

É verdade que a música e o povo caminham de mãos dadas. Podemos também dizer que a revolução e o povo acabam sempre por se encontrar. Se a música e a revolução estão tão próximas das gentes, são quase companheiras dos ouvidos atentos e das discussões de café, não podemos também dizer que música é intervenção? A resposta é: não só, mas também.

Rap não é, de facto, só mensagem. É intervenção e orgulho, respeito, memória. A celebrar os 44 anos da Revolução dos Cravos, a Hip-Hop Rádio não passa “Grândola Morena” ou “E Depois do Adeus”. Mas inicia aqui um caminho, tão menos penoso que o caminho inevitável de dia 25 de abril de 1974. Caminhamos por nove faixas nacionais que, de alguma forma, estão intimamente ligadas à à revolução, à crítica social e ao progresso, que, num registo interventivo, se dediquem à luta pela justiça e liberdade. Com essa liberdade, vem também a liberdade de expressão que nos permite continuar a defender um jornalismo isento e de referência. Uma data a celebrar ininterruptamente.

 

[“Portugal Surreal (Fado, Fátima e Futebol)”, Dealema, 2008]

Foi em 2008 que os Dealema, através da Banzé, editaram V Império. “Portugal Surreal”, décima faixa do álbum, é uma crítica feroz ao fraco apoio do estado à cultura (que ainda hoje é tema de debate), à política, à corrupção, ao sistema de justiça. É um apelo, traduzido pelo mote “Fado, Fátima e Futebol”, que tanto se ouviu pelas ruas portuenses, à ruptura na ilusão de “um povo constantemente explorado”.
“Portugal Surreal” não tem qualquer referência à revolução dos cravos. Tem, contudo, uma mensagem que trespassa décadas e séculos e ressurge sempre: o urgir pela inquietude e pelo pensamento crítico. A tentativa, que músicos outrora ousaram compor, de abrir a mente do povo.

“Mas não há problema enquanto houver a vinhaça
Não há stress enquanto houver uma passa
E haverá dinheiro sujo enquanto houver uma brasa”

 

[“Fora da Lei”, Bezegol, 2011]

Se Bezegol prestou a sua homenagem a Zeca Afonso com o cover de “A Morte Saiu À Rua”, encarou – novamente – o papel de mau da fita em “Fora da Lei”. A faixa do Monstro EP (2011) é mais uma história das ruas, um retrato do proletariado empobrecido e uma crítica adaptada à voz áspera do MC portuense. A chamada do povo às ruas, a exaltação: “Será que nos vamos aguentar/ Ou virar uns fora da lei?”. A rudeza de Bezegol será sempre um indicativo do que algo está errado.

“Ó pai tramado o que nos está a acontecer?
Tanta glória passada e tanto lixo a aparecer
Como vamos explicar à próxima geração
Os espinhos que vivem nos cravos da revolução?

 

https://youtu.be/2D40-NSS-FU

[“Eles Comem Tudo”, Chullage, 2012]

Os “vampiros”, aqui, são os “glutões, gananciosos, sanguinários, assassinos, ladrões, expropriadores de indígenas, violadores de túmulos de povos anciãos, traficantes de necessidades induzidas e de remédios para males por eles criados”, diz Chullage. Em “Eles Comem Tudo” (Rapressão, 2012), onde sampla “Os Vampiros” de Zeca Afonso, a crítica social tem uma componente intransigente (aliás, como em todo o trabalho dele) e o flow rápido e o beat alucinante traduzem a mensagem contra a opressão do MC da velha guarda em versos habilmente dedilhados.

 

[“Portugal aos Portugueses”, Chullage, 2012]

Na verdade, Chullage é duplamente representado nesta lista. “Portugal aos Portugueses”(produção de P!), do álbum Repressão – Rap, Ruas e Resistência, representa o português, independentemente de credo ou raça, imigrante ou emigrante, filho de Portugal. O refrão, que dá título à faixa, é uma chamada antagónica de um dos maiores intervencionistas do hip-hop nacional. Um “abre-olhos” face à discriminação, uma comparação entre “um Portugal homossexual e outro chamado normal e hetero”.

“Cidadãos do mundo,
Há vários Portugais,
Mas podia haver só um,
O outro Portugal é possível se a luta for comum.”

 

[“Portugal”, Dillaz, 2014]

Não só da revolução se faz a democracia. Mas, com a democracia, consegue-se ter, no mínimo, um conceito de livre-arbítrio, uma esperança de liberdade. “Portugal”, faixa do EP Dillaz & Spliff, é quase uma reportagem do Chapz: as consequências e conclusões da agenda política, da emigração, da degradação da cidade (“todos os ricos sorriam, todos os pobres choravam“). O rapper da Madorna diz ainda que “eu perguntei pela miséria/ E todos os dedos me apontaram a Portugal”. Uma luta constante.

“País à beira mar plantado e enfeitiçado pelo que eu sei
Quero viver como quis, porque eu pertenço ao país
País não pertence a ninguém”

 

[“Voz de Abril”, CharlieBeats x MarcosBest, 2015]

Em 2015, CharlieBeats samplou “Era de Noite e Levaram”, de Zeca Afonso, no tema “Voz de Abril”, um projeto da MalAmados. Tinha – e tem – o objetivo de homenagear o cantautor e ativista português, uma das vozes da revolução. “Eu tenho mais  de vinte e tal/ e um desejo bem normal/ter uma casa e uma família/ tornar o meu sonho real/ eles levaram os meus sonhos/ a minha visão do futuro/ deixaram uma vela apagada para ver no escuro” canta MarcosBest. E, pelos versos finais (laminados por X-Ato), “são músicas, são canções” e são, de facto, músicas e canções que, de certa forma, fazem rodar o mundo.

 

[“Terra Prometida”, CharlieBeats x Papillon, 2016]

No ano seguinte, em “Terra Prometida”, com Papillon, sampla “O Pastor de Bensafrim”. O MC dos Grognation narra a história de um emigrante recém-licenciado. Narra, enfim, uma história comum a muitas realidades, inclusive a sua, uma história paradoxal onde a “Terra Prometida” não é ir embora. “É pensar em infinitas possibilidades/
Viver baseado nos “ses” da vida só te deixa condicionado” canta o autor de Deepak Looper, em homenagem não só a Zeca, como a muitos como ele. É uma comum história de vida, marcada com um rápido e atroz final. Nota ainda para a referência a Pedro Passos Coelho (“Até vi o Primeiro-Ministro na televisão a falar para a população/ Incentivando a emigração”).

 

https://www.youtube.com/watch?v=J_2SKk5FV-o

[“Bravos”, CharlieBeats x HipnoD, 2017]

“Eu só quero ser feliz/ A viver nesta terra do mal/ és tão pequeno mas tão grande portugal” fecha o refrão de “Bravos” que sampla uma canção homónima de, novamente, Zeca Afonso. HipnoD e CharlieBeats, juntos para publicar esta faixa no 25 de abril do ano passado. Novamente numa exaltação à liberdade e à terra natal, uma manifestação de vontade e memória (“Ordenadas pelas ordens/ Esquecem os nossos avós/ Vozes por ti ficam nós).

“A vida chama liberdade/
Pois liberdade chama-se vida”

 

https://www.youtube.com/watch?v=5OwKw2uG8-Y

[“Cobradores de Impostos”, Allen Halloween, 2017]

Allen é Allen. Um resistente, um storytelller, um velho sábio das ruas. Em “Cobradores de Impostos”, Halloween critica, com as suas palavras que tão bem se fazem visualizar, o governo (“Eles vêm como aqueles pássaros que vêm e passam e tudo o que vêem comem/ Eles comem do bom pedaço e bebem bagaço e o suor dum homem”). Num tributo a Zeca Afonso, quem mais, ele que dá capa ao tema no YouTube, Allen faz referência à passagem bíblica “Dai a Cesar o que é de Cesar, dêem a Deus o que é de Deus” numa metáfora à injustiça judicial e aos impostos, e a mãe receberá apenas “o seu corpo”.

 

https://www.youtube.com/watch?v=r-wdGyr5J3o

 

“É importante que não deixemos murchar o Cravo que abril floriu.”

 

Por Bruno Fidalgo de Sousa

 


Nunca foram precisas regras para fazer mossa

Tinha, como título original desta crónica, “Hip-Hop sem leis”, numa tentativa frustrada de comparar o atual panorama do rap português a um western de Sergio Leone – ainda que a banda sonora não seja de Ennio Morricone, mas sim de tantos outros MC’s e produtores nacionais. Os tiros de som ambiente estão, contudo, presentes em ambos os cenários.

“Hip-Hop sem leis” não resultou. Quando se tenta comparar tudo isto a tudo aquilo, verificamos que o género western foi ultrapassado, gasto, deixado no deserto entre cowboys e índios, caçadores de recompensas e palha seca a cruzar o plano. Por outro lado, estou cada vez mais certo que é com Tarantino que se deve teorizar, um pouco mais, este nosso hip-hop. “A vida não presta e ninguém merece a tua confiança” – imaginem qualquer filme do realizador norte-americano e coloquem este conhecido verso no meio: encaixa que nem uma luva. O toque bizarro de Quentin evolui ao longo dos seus dez filmes.

Espero que conheçam o filme “Inglourious Basterds”. Podem precisar desse conhecimento prévio para entender esta crónica. Ou de imaginação.

Imaginem então, se forem audazes para tal, que o general Ed Fenech não é nada mais que Profjam, comandando a tropa de elite sem escrúpulos. De um lado, Oseias, Benji Price, Osémio Boémio, Fínix MG, Rkeat, Ice Burz, L-Ali. Do outro, Donny Donowitz, Hugo Stiglitz, Wilhelm Wicki, Smithson Utivich, Archie Hicox, Aldo Raine.

Profjam tem como missão “matar o game”. Os bastardos inglórios tinham como missão, simplesmente, “matar nazis”. O game não é certamente a mesma coisa que “nazis”, mas o enfoque está na beleza da jornada.

E, não deixando totalmente de fora a ideia (genial, pensava eu) do “Hip-Hop sem leis”, conseguimos perceber isso tanto no ecrã de cinema como no ecrã de qualquer jovem ingénuo que grava um concerto do It’s A Trap em vez de aproveitar o moshpit. Nem os bastardos nem os pensadores se guiam por quaisquer regras pré-definidas e politicamente corretas.

Gson afirma em “Voar” que, permitam-me parafrasear, não é a nova escola e sim a nova escala. Esse tema ficará para a próxima. O que interessa retirar deste texto é que a nova escola não é mais que a mudança do jogo em si, a difusão do hip-hop como movimento maior na cena musical portuguesa, a sua deliberada inovação e frescura. E isso, como todos podemos observar, revê-se nas batidas trap que esta Think Music se serve para renovar o game. Se, como os bastardos fizeram, precisar de o matar, parece-me que irá fazê-lo. Podem não colocar o seu jogo numa nova escola, como o MC dos Wet Bed Gang. Mas fazem esse jogo à sua maneira, avançando a passo rápido na “conquista” nacional como um todo, uma label.

Donny Donowitz brandava tacos de basebol nas cabeças adversárias, Hugo Stiglitz assassinava chefes militares alemães à socapa, Aldo Raine marcava os oponentes com suásticas na testa. Mais uma vez, nunca foram precisas regras para fazer mossa.

Mas quem será o coronel Hans Landa desta história? Não sei se interessa assim tanto. No fim, todos morrem.

Por Bruno Fidalgo de Sousa
Fotografia de Arquivo

 

Crónica | Quem matou Ronald Opus?


“Eu nunca vou querer ganhar nada onde não há nada para ganhar”,

disse-nos ontem Holly Hood. Inicia assim a sua carta de suicídio. “Cala a Boca” e “Não Faz Isso” foram subtis crescendos de punchlines e abanões, e nas passadas duas semanas era esperada uma resposta no que deve – ou devia? – acabar por aqui.

Afinal, a primeira estrofe de uma grande música, assim como a primeira cena de um grande filme, tem uma importância intrínseca. O que seria o mundo sem a cena inicial do The Dark Knight onde nos é revelado o melhor vilão da sétima arte, o que seria o mundo sem a beleza de

“Pareceu-me que pretendias agradar-me embora não me conhecesses…”?

Grandes estrofes abrem grandes músicas. Neste “R.I.P” “não há nada para ganhar”. Encerra-se assim este caso, como o caso fictício do suicida Ronald Opus, num justo desenlace e momento iluminado do médico legista. É o fim?

Se – e é – difícil rimar contra a mais recente faixa do assassino de Golias, quero e espero que pelo menos se tente. Porque, e no fim, é esta cultura que se agita e aplaude, que faz o hip-hop vivo. E que vontade tinha a tuga de um bife à portuguesa…  O suicídio, mesmo que descargo de consciência, deve ser evitado pelo bem do hip-hop português. É bom ver boa música, é bom ver novo hip-hop todos os dias. Respostas e diss tracks? Que bem que soa esta rivalidade.

(aguardemos para que seja uma justa competição, agora que a fasquia subiu a pique)

Ontem, os cães ladraram e a caravana pode nem vir a passar. Holly Hood não é Ronald Opus. Piruka não é o homem com a arma. Quem é o suicida, afinal? Metam mais carne no assador.

Texto escrito por: Bruno Fidalgo de Sousa

O hip-hop é tudo e mais alguma coisa

Hoje comemora-se o dia mundial do hip-hop e podemos notar que o número de rappers em Portugal tem vindo a aumentar ao longo dos anos. No entanto, uma questão que tem vindo a ser muito falada entre os apreciadores de rap é se o hip-hop está a perder o seu valor ou se está simplesmente a evoluir. Primeiro devemos pensar no que é que o hip-hop defende e se existe de facto alguma evolução no âmbito da qualidade das letras das músicas, instrumental destas, na produção ou mesmo no sentimento de quem quer passar a sua mensagem.

O hip-hop é inclusivo

Hoje em dia, a facilidade com que se produz um tema é muito maior comparativamente com há uns anos. Atualmente, apenas com um computador conseguimos fazer uma música, produzir um instrumental. Esta facilidade faz com que cada pessoa possa aspirar a ser rapper. Verificamos que começam a surgir muitos mais artistas, dando-nos a conhecer outros estilos ou, por se dedicarem mais à escrita, mostram uma realidade completamente diferente devido a tudo o que já experienciaram.

O hip-hop é livre

O rap cresceu nas ruas, não se pretende que fale de assuntos básicos que não nos causem qualquer impacto mas sim que continuem a surgir estilos diferentes e também maneiras de pensar diferentes para que possamos sentir o que o artista nos transmite. Resume-se tudo ao sentimento e à vontade de pertencer à cultura, se achas que tens algo de novo a acrescentar ou que podes mudar certas mentalidades com a tua música, porque é que não haverás de o fazer? Se há paixão pela arte que é escrever rimas ou produzir um beat, o artista será sempre fiel à sua música e não vai apenas  “vender” o tema.

O hip-hop é consciente

O rap ensina, leva a uma reflexão maior. Quando o ouvimos pela primeira vez não conseguimos captar toda a mensagem devido aos seus múltiplos sentidos. Deste modo, sempre que voltamos a escutar uma música com atenção percebemos mais um pouco do que o artista nos quer transmitir. Isto torna-se interessante porque os artistas “brincam” muito com a língua e com as palavras de modo a que os temas possam ter várias interpretações. Um exemplo muito simples é quando Sam the Kid escreve: “Sem saber que o sócio ainda gama mais que o Vasco” em “Recado”. Este verso tanto é uma descrição de um rapaz que rouba, como acaba por ser uma referência a Vasco da Gama.

O hip-hop é de todos

Atualmente o cartaz de quase todos os festivais de verão dá lugar a pelo menos um rapper português, sendo um estilo que está em constante crescimento pois também o número de concertos de rap tem vindo a aumentar, não só na capital mas por todo o país. O rap evolui e adapta-se à atual sociedade, incentivando à reflexão sobre diversos assuntos. Ouvir e perceber o rap é uma experiência pessoal pois cada interpretação de uma música é diferente e, por isso, é algo que nos faz pensar e perceber outros pontos de vista e opiniões. Se consegues contribuir para a cultura fazendo o que gostas, fá-lo pela arte e serás reconhecido e apreciado por isso.

Ensaio por: Carolina Costa

Entra na batida, mesmo que a agulha te salte

“Abram alas, equipa de salvamento, 100% pelo hip-hop eu represento”, diziam os Sindicato Sonoro no final da primeira década do século XXI. Se vocês, como eu, leram esta linha a cantar, podem imaginar do que vos vou falar. Afinal, o hip-hop nacional está vivo e bem representado, o público está cada vez mais ativo, mais consciente, mais verdadeiro. A cultura cresce, o graffiti é cada vez mais aceite (fruto do bom trabalho que tem crescido em várias cidades do país), o “apadrinhamento” de Slow J ao b-boy Speedy ou o reconhecimento internacional dos Momentum Crew abriu também a visão dos fãs ao breakdance, um dos pilares do hip-hop que nunca se afirmou, de verdade, entre o público nacional. O DJing não é exceção: Lhast, Oseias, Fumaxa, Here’s Johnny, Holly, Spliff – produtores que vão, a pouco e pouco, alcançando o topo. Fazemos do hip-hop o ar que respiramos, todos os dias, quando metemos os fones na viagem de autocarro ou quando bombamos as colunas com “malhas” que saem todos os dias, para nosso gáudio.

E, como todos os movimentos, evolui. Move-se. Cresce. O hip-hop e a sua vertente social também muda, avança, altera-se. Assim como o contexto em que é produzido. O rap de intervenção, “sujo”, como disse Valete, sempre foi uma constante e uma mais-valia, expondo os problemas de uma sociedade minoritária que lutava todos os dias para sobreviver, trazendo à tona as questões do racismo, da desigualdade, da xenofobia, do que é marginal, posto à parte. Porque era isso que quem cantava, na altura, vivia, e quem canta o que vive canta muito melhor. Alguns espelhavam a sua ideologia política ou as suas ideias de “abstenção”. Outros criticavam o “suor do trabalho escravo”. Outros falavam de crime, da propensão violenta das ruelas da cidade, das “drogas e bottles”. O gangsta rap falava da rua e era na rua que se fazia, fruto da rebeldia dos que bebiam as palavras dos seus ídolos. Sem censura – é assim a maneira mais rápida para descrever o hip-hop. É o que é, sem medos, sem receios, diz o que interessa dizer. Um pouco como serviço público, embora a maioria do público não o compreendesse. E, novamente, foram-se aflorando novas tendências: os sons de amor, como se diz por aí, o storytelling inteligente que contava romances, aventuras, experiências de vida. É inegável que todo o género musical é propenso a mudar. E o conteúdo e mensagem desenvolveu-se muito, ao longo dos anos. O que não implica que a forma não possa mudar também.

Já não é só o boombap que nos vem à cabeça quando se fala de rap. A batida trap, acompanhada do “blink blink” e da fama, do sucesso, da ideia que um rapper é o novo rockstar, com o seu jeito deslocado e coloquial, já é uma constante em Portugal e no rap tuga – com tendência a evoluir cada vez mais. Profjam, por exemplo, assim como a sua label – Think Music – ou a dinâmica musical e o aparato lírico da Superbad. são os pioneiros da nova escola no que toca à vertente mais superficial (sem qualquer conotação negativa). As duas labels não podem ser comparadas, é claro, falo somente desta nova dinâmica musical. Holly Hood, por exemplo, seguiu as pisadas do padrinho Don Gula com o seu rap atrevido e explosivo, o toque de bad bitches e Money. Prof ou L-Ali trouxeram algo diferente nesta nova escola, também. A batida mais trap que o habitual a encantar as faixas é um exemplo disso, assim como L-Ali se desdobra em participações com VULTO, Pesca ou Secta com as suas fonéticas temíveis e beats underground.

Infelizmente, é isso que vem trazendo a discórdia aos fãs. Contextualizando tudo até aqui: estas recentes mudanças têm irritado profundamente o público. E foi Valete que lançou a controvérsia, com “Rap Consciente”. Os que antigamente talvez até adorassem o MC, agora apontam-lhe o dedo à falta de moral (dez anos sem álbum a provocar a ira dos mais ansiosos) e ainda ao facto de tentar voltar com o mesmo rap com que “saiu”: o “rap de combate”, a criticar e a julgar os restantes MC’s da tuga, que se apoiaram em Prodígio na sua nova música – “manos em 2017 ainda vendem revolução?” – com a ideia que o rap de revolta contra o sistema já está obsoleto. É essa a maior crítica que se aponta a Keidje Lima: os tempos que se vivem já não pedem tanta revolução como antigamente, e a mensagem que ele passa pode ser demasiado forçada. Do outro lado, vivem os fãs incondicionais do boombap, que criticam por seu lado o trap e a sua associação ao hip-hop. De fora, observam os “restantes”.

Esta discussão provoca, cada vez mais, alterações ao conceito de “bom rap”. Vou generalizar. Colocando Valete na prateleira de cima, juntamente com quem partilha da sua opinião de rap sujo e revoltoso, e colocando Profjam, a sua label e quem prefere o rap trap na prateleira de baixo (claro que não falo só de Valete e Prof, mas uso-me de ambos como exemplo neste argumento), temos uma estante recheada de talento. Em ambas as prateleiras se pode ver talento e amor ao game. Em ambas as prateleiras existe cultura, knowledge, respeito. Há quem diga o contrário, mas eu gosto de falar de factos e, embora este seja um artigo exclusivo da minha opinião, factos devem ser expostos e discutidos. E o único facto que está presente é a qualidade dos dois MC’s e respetivas “etiquetas”, respetivas prateleiras. Valete vai lançar “Homo Libero” e Profjam vai lançar um novo projeto. Valete diz “está de volta ao rap de combate” e “à arte de iluminar”, Profjam traz batidas trap com mortalhas de conhecimento e “está no topo do seu game”. Ambos (e relembro, mais uma vez, que estou a generalizar para melhor entendimento – não falo especificamente de nenhum dos dois, mas sim do que simbolizam) trazem coisas novas (e menos novas, talvez, mas com um novo ressurgimento, sem dúvida) e atitude.

O rap evolui, e ainda bem. Afinal, como eu comecei por explicar, cada um canta aquilo que vive, e é assim que se canta melhor. Os “restantes”, que acompanharam a passagem dos tempos, apreciam, cada um à sua maneira, a beleza que nasce nas variações e hip-hop e no florescimento de novas experiências, novas misturas, novos contextos. Porque é o contexto que mais importa: “para onde vou, com que estive, com quem estou, de quem fui, de quem sou”, como já os Dealema diziam. No hip-hop, e na música em geral, nada é intocável. Tudo se pode misturar e cruzar, passar a novidade, tocar pessoas diferentes. As batidas vêm e vão. O orgulho de pertencer ao movimento é uma constante. E daí, há mau rap e bom rap? Revolução versus Fama, Luta versus Status. Boombap versus Trap, Velha Escola versus Nova Escola. Será que estas discussões beneficiam alguém? É importante não confundir o conceito de conteúdo e forma. É importante apreciar o hip-hop no seu estado mais natural, seja sobre uma beat trap ou boombap. E é importante apreciar a mensagem de revolução que nos é transmitida, mas ainda mais importante manter o apreço que se tem pela mensagem de rebeldia face aos problemas da sociedade e do sistema. E é importante saber também que o rap espampanante, “javardo” (como já ouvi dizer) e virado para a ascensão à fama e vida de excessos é também rap, e está já vincado no movimento – sempre seguindo o exemplo dos states, afinal, em Portugal tudo chega com atraso.

O hip-hop tuga está vivo. Metam os braços no ar, levantem-se do sofá, vão para a rua partilhar melodias em forma de rap, mostrem aos vossos pais, irmãos, amigos. Façam parte deste movimento que nunca deixa ninguém de fora, independentemente do que preferirem ouvir. Critiquem o que têm a criticar. Formem a vossa opinião. E ouçam com o coração.

ARTIGO ESCRITO POR: BRUNO SOUSA

19 anos de “Manda chuva”

 

Ângelo César do Rosário Firmino, conhecido como Boss AC, é filho da cantora cabo-verdiana Ana Firmino e do pintor cabo-verdiano António N. Firmino (Toi Firmino). Nasceu em Cabo Verde, e veio para Portugal ainda pequenino onde em Lisboa passou a sua infância e adolescência.

Boss AC iniciou a sua carreira musical no final dos anos 80. Chegou a ser vocalista dos Cool Hipnoise, depois Boss AC foi um grupo composto por AC e Q-Pid. Fez também várias participações especiais em discos dos Da Weasel, General D e Fernando Cunha, dos Delfins, o que lhe deu algum impulso no mundo da música.

Por essa altura alguns rappers ganharam projecção, maioritariamente oriundos da cintura periférica da grande Lisboa. Esse movimento veio a traduzir-se na compilação “Rapública” na qual Boss AC foi responsável pela produção, autoria e composição de dois temas. Sendo os primeiros temas próprios lançados em disco, Rapública marcou o arranque definitivo da carreira do artista.

Manda Chuva

Em meados de 1997 Boss AC partiu para os EUA, onde gravou as faixas que deram forma ao álbum Manda Chuva, com a produção de Troy Hightower, um dos mais requisitados produtores de hip-hop dos EUA. Boss AC entrou em contacto com ele através dos Mind Da Gap, cujo tema “Sem Cerimónias” foi produido pelo Troy.

Depois de feita a pré-produção e a gravação do disco em Nova Iorque, Boss AC regressou a Portugal, onde registou as vozes que participaram em Manda Chuva. O artista convidou nomes como Sam The Kid e Melo D, ou os DJ’s Soon e Dee Nasty. Construído como um filme, o álbum recorre a intros e a diversos outros skits para fazer a interligação dos temas.

Manda Chuva chegou às lojas em 1998, marcando a estreia do cantor. O álbum, refletindo intenções já antigas de Boss AC experimenta novas abordagens musicais – ragga, soul, R&B – sempre em torno do hip-hop. É também perceptível a influência das suas origens africanas, com temas como “Corda” e “Tunga, Tunguinha” cantados em crioulo, e “Velhos Tempos”, que fala da sua infância em Lisboa. Nesse álbum, teve a colaboração vocal de Q-Pid.

Fonte da informação: Wikipédia.