Hip Hop Rádio

Opinião

Dose Diária | Estee Nack x Crucial The Guillotine – DOMINICANCAKE

Estee Nack mostra a sua perspicácia quando as situações ficam tensas em DOMINICANCAKE.

Como o Corpo de Intervenção a entrar por uma casa adentro, o MC de Massachusetts adota esta atitude assim que larga a primeira sílaba – impiedoso seja na entrega dos seus versos ou em qualquer outra atividade, como muito bem nos avisa.

Com Crucial The Guillotine a criar um banda sonora que poderia ter saído de um Giallo ou de um filme sobrenatural dos 80’s, os esquemas rimáticos e entoação apurada emparelhada a uma postura estouvada, conferem a Estee Nack uma espontaneidade bem agressiva.

A novela que é DOMINICANCAKE faz-nos não perder um episódio que seja.

https://www.youtube.com/watch?v=gsubESsR9x4

Dose Diária | Earl Sweatshirt – Shattered Dreams

Earl Sweatshirt mostra-nos que a sua introversão pode chegar a pontos prejudiciais em Shattered Dreams. 

Reservado e enigmático são algumas das palavras que podem descrever o artista, no entanto, faixas como estas encontradas em Some Rap Songs mostram  que a auto-destruição emocional pode trazer danos a longo prazo, seja na sua vida ou até à sua arte.

Com um sample num constante loop a absorver suas palavras, a cadência do rapper arrasta-se da mesma maneira custosa que o seu corpo a sair da cama, e assim que entra no estúdio consegue verter todo o peso que tem nos ombros.

Conceptual em cada faixa que lança, no meio de toda esta abstração Earl transforma a repressão na mais bela das catarses. 

Dose Diária | Starker – Wakeup

STARKER aparece com um groove hipnotizante e magnetiza-nos em WAKEUP.

Com Foisey, membro da Mutant Academy, a carregar a faixa com vocais que nos levam até ao Dream Pop e onde encaixa um baixo e sintetizadores à G-Funk, a tela borbulhante  do Produtor faz com que o MC nova-iorquino deslize pelo instrumental com um flow obtuso agarrado a um tom de voz mais rico em nutrientes do que a primeira refeição do dia.

Sem espaço para lamechices e desculpas, toda a lírica do rapper é madura o suficiente para nos passar a ideia de que os erros cometidos são resolvidos por ele e o pódio, na altura de vitórias, só tem espaço para a medalha de ouro.

WAKEUP é uma das voltas da vitória de Starker, no entanto, enquanto aparecem oportunidades e houver vontade, esta caneta independente continuará a deitar tinta, do nascer ao pôr do sol. 

Dose Diária | Brainorchestra. – No Space

Brainorchestra. consegue em No Space sair de uma névoa da melhor Kush para nos vir mostrar a sua capacidade de viver a vida e, ao mesmo tempo, o esforço que faz para que esta esteja sempre a melhorar.

Fértil mas palavras e na sua produção, o artista de Nova Jersey carrega  uma certa ingenuidade na sua postura, pois sempre que o ouvimos sentimos a ambição e motivação em casa uma das suas palavras ou técnicas de produção. Esta capacidade de acreditar piamente em si é o que torna toda a sua música extra deliciosa e tão inspiradora quanto o sample que usou nesta faixa.

Enquanto nos conta as suas vitórias e desejos por cima do instrumental soalheiro, Brainorchestra. tem a capacidade rara de nos conseguir puxar para o seu lado e acreditar, tanto quanto ele, que daqui para a frente é sempre a subir e que a sua qualidade não diminuirá mas o público e a atenção que vai ter (assim o desejamos) será astronómica.

Dose Diária | MACTO. – Semideuses / Semiloucos

MACTO. aumenta o nosso batimento cardíaco com o thriller que dirigem em Semideus/ Semiloucos.

Se todos relembrarmos a icónica cena do chuveiro em Psycho, a intrusão e desamparo humidificam todo o momento e deixam-nos agarrado ao ecrã e às nossas inseguranças. É esta a sensação que Sensei D. nos passa quando nos dá baixos ameaçadores e compassos sonoros que se movimentam da mesma maneira que um zombie do “Night of The Living Dead”.

A necrópole-glitch que é este instrumental leva a que Youngstud saque da faca e chacine os mais vulneráveis com rimas que cruzam as atribulações da era digital e como o bom e o mau dos HTTP’s moldam-nos mais do que gostámos. Tudo isto com uma auto-depreciação e insolência que é resumida em “Messias? Esperavas? Querias! Não trago profecias.”.

MACTO. talvez seja Tyler Durden mas uma coisa é certa, Sensei D. e Youngstud são antagonistas dos bons, daqueles que nós torcemos por eles até ao filme acabar.

Dose Diária | Evidence – Unlearning

Evidence abre as portas para os seus pensamentos mais pessoais e entrega-os ao público em Unlearning.

Consciente das suas palavras e ações, o rapper Californiano aproveita o instrumental primaveril de Graymatter para nos mostrar que a aprendizagem é um processo eterno e que cair, duvidar ou desanimar são só partes necessárias desta viagem que desenvolve novas ramificações a cada segundo.

Com o flow cadenciado de maneira bem pausada, Evidence soa mais sábio que nunca, talvez pela forma como entrega os seus versos ou pela capacidade de admitir que o erro ajuda a crescer, de qualquer das maneiras, estamos perante uma metamorfose lírica e espiritual que colidem numa faixa madura, onde qualquer um consegue encontrar pontos de conexão com a humanidade do MC.

Dose Diária | billy woods & Kenny Segal – spongebob

billy woods pega na produção de kenny Segal e prega-nos uma partida ao mascarar a faixa apelidada de spongebob com temas sem qualquer infantilidade ou parvoíce.

Um baixo desarmonizado dá-nos as primeiras pistas do que vai acontecer assim que as palavras do MC Nova-Iorquino amaldiçoam o microfone e ,num piscar de olhos, se manifesta com imagens vívidas de manifestação política, acontecimentos históricos que continuam a ferir gerações vindouras e todo um mal estar pessoal e social que o levam a escrever manifestos complexos mas regados com situações mundanas capazes de adicionarem mais uma camada à intensa narrativa do rapper.

Com grunhidos de guitarra capazes de encher um coliseu e uma batida mascarada no meio de todos os outros elementos, a estética inusitada de Kenny Segal potencia a aura que embrenha os versos de billy woods, tornando o instrumental em matéria que rasteja e se abriga por baixo da nossa pele enquanto que as rimas penetram o nosso crânio e se vão descortinando.

Não há melhor rima que aquela que apela à igualdade!

São dias estranhos os que decorrem, o mundo foi apanhado de surpresa ao ser submerso por uma nova doença e o nosso organismo fracassou em defender-se, porém uma velha pandemia manifesta-se de uma maneira tão ou mais agressiva que o Covid-19 e há séculos que o organismo da sociedade luta para arranjar defesas para o expulsar de vez. Era suposto estarmos mais juntos, querermo-nos mais uns aos outros depois de meses de isolamento social, não era suposto deixarmos irmãos a perder o ar por mãos racistas.

Hoje, dia 6 de Junho, Portugal juntou-se em várias ruas e praças, Portugal chorou por caras que nunca viram e pessoas que nunca tiveram o prazer de conhecer, Portugal fez-se ouvir por todos aqueles a quem roubaram a voz. Manifestantes invadem as estradas para gritar – “BASTA!” – para que em 2020 não tenham que lutar mais por direitos fundamentais que qualquer indivíduo deveria ter. Hoje luta-se no meio do caos, em condições que nunca nos imaginaríamos, para que as gerações futuras não o tenham que fazer, pelo menos, não por isto, não pela desigualdade que se manifesta através da cor da pele, pela cultura que se herda.

Se ao menos se se respeitasse todas as pessoas de outras etnias como respeitamos as suas culturas, pois se fosse tão exótico não passar para o outro lado da estrada quando uma pessoa de cor se cruza connosco fosse tão exótico como ir a África ou ao Brazil, se talvez fosse mais ajuda humanitária dar a mão a um vizinho que precise de ajuda do que doar 1 euro ao partilhar uma publicação numa rede social, se talvez se desse mais gostos ou mais dinheiro ou mais estatuto social o racismo não existisse.

Gerson Marta, um dos organizadores da manifestação que decorreu hoje em Coimbra, partilhou com a Hip Hop Rádio – “Eu não vou passar a minha vida a ser uma cor!”. Está na hora do “ser igual” deixar de ser areia para os olhos, a poeira assentou e os crimes de ódio são evidentes.

Hoje gritamos BASTA porque todas as vidas importam.

F*ck you Corona! Quero as noites Hip-Hop de volta

Há meses que não vou ao sítio onde sou mais feliz. Nunca imaginei que o mundo virasse do avesso e que os únicos concertos que podia ver fossem através de LIVES de Instagram. O sentimento varia entre tristeza e raiva, mas é a esperança que tem de prevalecer. Pela cultura, pelo Hip-Hop.

Texto e fotografias por Daniel Pereira

Dia 21 de fevereiro foi a data da primeira Raia Sesh, mas também da última grande noite Hip-Hop a que fui este ano. Para quem vive na Grande Lisboa como eu vivia sabe que acaba quase por ser banal: todas as semanas (ou mesmo dias) há algo novo para ver, um concerto novo a cada esquina. Havia. É um lugar comum falar que a pandemia Covid-19 mudou a vida de todos, mas a realidade é que mudou mesmo. A cultura é ainda o setor mais afetado e talvez seja a imensa saudade dela que revela a sua importância para a sociedade. As atividades presenciais continuam suspensas, porém a cultura nunca deixou de existir, aliás, é ela que nos tem ajudado a superar esta crise. É uma forma de escape. Exige respeito, não podemos descurar algo sem o qual não conseguimos viver.

Aquela noite era especial. Os Orteum eram cabeça de cartaz de uma noite de, e para, a cultura Hip-Hop. Bdjoy, Tom, DJ Ketzal e muitos outros acompanharam a banda numa sala mítica: O Cine Incrível. Os grandes eventos estavam de volta a Almada e eu não podia estar mais contente pois apesar de não ter nascido na cidade, sinto-me um filho da terra – na altura vivia a minutos da sala de espetáculos. Pude presenciar de perto toda a envolvência daquela noite, os concertos, o público tipicamente Hip-Hop, o convívio dentro e fora da sala, antes, durante e após as atuações. Rap corrosivo, outras vezes mais melódico, improvisos, beatbox, dj sets e um público que estava lá não apenas para ver, mas para viver. Houve de tudo durante aqueles concertos e quanto mais escrevo aqui mais o sentimento de nostalgia se adensa. Não sei se isso é bom, ou mau.

Foi uma noite que não queria terminar, mas, infelizmente, acabou e mal sabia eu que não iria ter mais destas tão cedo. Passado um mês foi decretado estado de emergência. Entretanto ainda consegui ir a dois concertos, mas é esta que recordo como a última grande noite Hip-Hop deste ano. Atualmente, ainda não sei quando voltaremos aos concertos (tal como eram antes), e isso assusta-me. Os tempos são de adaptação e paciência e uma coisa é certa: a carga de tristeza presente neste desabafo é igual ao peso da esperança que tenho, e que todos devemos ter, de que um dia vai voltar tudo ao normal. Hustle, agora, mais do que nunca.

Dose Diária | KNXWLEDGE – do you

Knxwledge lava R&B, Gospel e Hip-Hop e dá uma novo cheiro a estas influências em do you.

O prolífico artista de Los Angeles tem os genes natos para nos colocar a viajar com a suas produções lamacentas e repletas de alma. Sem problemas em pegar nos samples de décadas anteriores à sua nascença ou nos hits do momento, a reestruturação que traz a estes sons parece feita sem esforço e com demasiado engenho, deixando-nos muitas vezes sem conseguir distinguir os trechos que recortou de um clássico do soul dos padrões que elabora por cima destas passagens.

Sem problemas em admitir a sua estética caseira, Knxwledge sabe que o efeito das suas faixas só é possível sem grandes engenharias de som e prova a todos que o sentimento ganha a qualquer faustosidade.

Dose Diária | Che Noir – Fall of Rome (Prod. 38 Spesh)

Che Noir prova em Fall of Rome que tudo pode cair em seu redor mas a sua música não vacila.

Uma caçadora de rimas notáveis, a MC de Nova Iorque demonstra que a sua mira é certeira e todos os versos são headshots capazes de destruir qualquer cabeça que tente enfiar-se no caminho que bem sabe que custa a debulhar. Sem necessidade e paciência para refrões que por vezes só servem para encher um saco que está furado, linha após linha recebemos uma prova de que a consistência e destreza são a melhor arma que qualquer rapper pode ter no seu arsenal.

Com 38 Spesh a fornecer um instrumental instantaneamente poderoso assim que cai a primeira nota, é fácil de perceber que entulho não é permitido no universo de Che Noir – se o Império Romano eventualmente ruiu, os dois artistas Nova Iorquinos mostram-nos que os seus pilares estão mais firmes que betão e não existe ninguém com capacidade de dominar este território que tão bem governam.

Dose Diária | Daniel Son & Finn – No Chances

Daniel Son cria com Finn No Chances, uma faixa recheada de memórias onde a contenda para sobreviver e abrir caminho para o reconhecimento são o prato principal.

O produtor Canadiano usa uma paleta lúgubre para o rapper conterrâneo dispor os seus versos carrancudos, onde o fogo presente na sua voz parece nunca se apagar, pelo contrário, a labareda só fica maior.

Entre rimas angustiadas e altivas acompanhadas por guitarras à Lou Reed e um baixo que acompanha cada batimento do coração do MC, só existe espaço para refletir brevemente no passado com o objetivo de continuar a crescer, seja como pessoa ou artista.

Com uma cadência quase melodramática, que se arrasta pelo instrumental e se emparelha ao mesmo, Daniel Son sabe que o trilho que está a traçar é o certo e para ver o topo da montanha já não precisa de binóculos.