Hip Hop Rádio

Longas

“No princípio era o verso”, no fim, um grito de resistência

No passado dia sete de maio de 2021, ouviu-se um grito de resistência há muito desejado: a cultura está viva e recomenda-se. Quem lançou o mote foi o Festival 5l, que veio restaurar alguma esperança em tempos conturbados, com muito Hip Hop à mistura. E é claro que a tua rádio esteve lá.

Este festival literário ocorreu em Lisboa, entre cinco e nove de maio de 2021, com o intuito de “celebrar simultaneamente a Língua, a Literatura, os Livros, as Livrarias e a Leitura”. O mesmo aconteceu por iniciativa da Câmara municipal de Lisboa e contou com uma extensa programação de debates, mesas de autor, concertos, cinema, visitas, exposições, lançamentos de livros e encontros, que decorreram em quatro espaços principais: o Teatro Municipal São Luiz, o Museu da Farmácia, o Cineteatro Capitólio e Cinema Ideal.

Tendo em conta a importância da palavra e da lírica neste evento, revelou-se quase imperativo ir beber à fonte de onde fluem tão belos poemas, ricos em storytelling e mensagens subliminares: o Hip Hop; foi assim que surgiu o concerto que juntou grandes nomes como Amaura, Maze, Nerve, Perigo Público e Chullage, num espetáculo imaginado por Rui Miguel Abreu e com direção musical de Rafael Correia.

O Cineteatro Capitólio foi o palco eleito para um desfile de artistas cujas veias fluem poesia e corações pulsam em ritmos e batidas. Todos eles com uma história para contar, receberam luz verde para iniciar a purga ao soar a frase: “No princípio era o verso” –dita em tom de apresentação, por ser também o nome do evento.

Foi Rafael Correia aka Gijoe que estreou o palco, mostrando os seus dotes nos pratos, acompanhado por Léo Vrillard, no teclado. Ambos abriram o apetite do público para o que seria uma hora de poesia vozeada, carregada de críticas sociais e mensagens políticas, começando de imediato pela t-shirt do próprio DJ, que trazia estampada uma mensagem importante e bem clara, repetida várias vezes: “Fuck Racism”.

Nerve foi o primeiro rapper a pisar o palco ao som de “Mínimo”, faixa que partilha com Ghost Wavves, exaltando a plateia, que se fez ouvir a alto e bom som, apesar das máscaras – e todas as outras precauções que foram devidamente tomadas- impostas por este novo normal. Depois da sua saída juntou-se em palco João Frade com o seu acordeão, honrando a cultura portuguesa e abrindo caminho para a segunda convidada, Amaura, que pisou o palco ao som do seu tema “Terabyte” e, logo de seguida, “Só Sinto”.

A cada intervalo entre artistas convidados, o palco enchia-se de musicalidade num casamento de pratos, acordeão e teclas, resultante em poesia tocada.

O próximo artista a incendiar o palco foi Perigo Público, que arrancou manifestações de apoio da plateia, ao executar uma acesa performance do seu tema “O Ano da Morte de Amaru Shakur”, recebendo aclamações especialmente calorosas ao entoar os versos desta mesma canção: “ Ninguém é racista, todos têm um amigo preto/ é por isso que apertam a mão a um branco como o pescoço a um negro.”

O artista agradeceu a quem tinha saído de casa “para manter a cultura viva”, antes de apresentar outra faixa: “1974”, que partilha com SICKONCE, presente em palco. Com esta música o rapper decidiu fazer homenagem a Waldemar Bastos, -o recentemente falecido músico e cantor angolano, que combinava afropop, fado e influências brasileiras- passando um excerto da sua música “Velha Xica”. O verso “Xê menino não fala política” entoou pelo Capitólio, até Perigo Público terminar a sua performance, afirmando: “Há vozes que não se podem calar. Boa noite, Capitólio. Sejam bem-vindos à resistência!”

De seguida foi Maze a apresentar o seu tema “Rumo ao Infinito”, que terminou também com uma homenagem, desta vez ao professor, filósofo e poeta Agostinho da Silva e à sua célebre reflexão: “Provavelmente toda a nossa vida é poesia, todo o objetivo da nossa vida deve ser, quando acabássemos, as pessoas dizerem: morreu um poema.”. Esta deixa serviu como uma ponte para o seguinte momento de poesia, da autoria do artista e em exclusivo, com o qual nos presenteou.

Por fim, foi a vez de Chullage levar a plateia ao rubro, admitindo, entre debitadas de poesia cheias de mensagem e críticas sociais: “Já estou emocionado com esta iniciativa linda”. O artista terminou a sua prestação a solo com o forte verso: “(…) ou chama aquele que diga alto o que murmuravas no café”, garantindo uma fervorosa salva de palmas da parte da audiência.

O público -ainda aceso com as intensas prestações dos artistas- não teve descanso, ao ver Nerve entrar novamente em palco, para assombrar com o seu tema “Tríptico”, que arranca sempre coro da plateia na parte: “Querida, esqueci o teu nome, acho que vou chamar-te…um táxi.”; algo que não ouvíamos há muito, como enaltecido pelo próprio, que admitiu: “Já lá vão 365 dias desde o último (concerto)”.

Para finalizar este grandioso espetáculo, seguiu-se um momento inédito onde todos os artistas puderam – novamente- mostrar a sua destreza  lírica: conduzidos por Amaura, que cantava uma melodia com tons de jazz , juntaram-se, à vez, Perigo Público, seguido de Chullage, Nerve e Maze, para debitarem versos em modo freestyle, sobre os mais variados assuntos e de uma forma tão fluída, que impressionou todos os presentes – e quem se encontrava em casa também, certamente, pois foi possível visualizar o concerto via streaming, em simultâneo.

Assim terminou este espetáculo, que tinha como objetivo “mostrar como o rap em Portugal se tornou fértil território de reinvenção poética, oferecendo novas ideias a uma arte em que todo o verso vem também com o seu próprio reverso“. Não podia ter cumprido melhor. Todos sabemos que a cultura enfrenta momentos extremamente difíceis – agravados pela falta de apoio devido- e por isso, em tempos tão instáveis como os que correm, iniciativas como o Festival 5L revelam-se como um verdadeiro lembrete da importância, detalhe, e rigor das artes do espetáculo e do fundamentais que estas são para o nosso dia a dia: quer seja para estimular a capacidade de reflexão, entender vários pontos de vista relativamente a assuntos pertinentes, ou relembrar-nos ainda de como a música consegue sempre agir como forma de escapismo, mesmo que por apenas uma hora, dentro de um cineteatro, repleto de pessoas distanciadas e com a face oculta.

A cultura continua bem viva e este evento é prova disso, como podes ver na nossa publicação –disponível do Instagram da Hip Hop Rádio– com vídeos deste evento, capturados por Daniel Pereira.

Frankzie: “Não gosto de pôr limites nas coisas, a música faz-me bem, faz-me ser eu e ser feliz ao sê-lo”

Desde novo acompanhado pela música, Frankzie sempre teve um carinho especial pelo hip-hop. Por ser o estilo que despertava em si o sentimento mais real, começou a escrever ainda sem partilhar com ninguém, visto que os amigos na altura não ouviam o mesmo estilo. Influenciado por referências como Xtinto ou Lon3r Johny, lança agora o EP “Broken Sky”, disponível em todas as plataformas.

O que te levou a aventurares-te na música?  

Já tinha muitas “maquetes” escritas e muitas rimas perdidas em folhas, escrevia como um refúgio e não propriamente como música em si. O que me levou a entrar e apostar na música foi provavelmente o facto de ter amigos que curtiam do mesmo estilo que eu e acabávamos as noites a improvisar na brincadeira, daí ter feito uma grande introspeção de mim mesmo. Depois a malta começou a dizer que devia começar a lançar faixas e comecei a escrever para isso.

Cada vez mais estou apaixonado pela arte e pela maneira com que me consigo exprimir através da música, daí a estar a levar à mesma com grande seriedade e empenho. No fundo é uma liberdade que nunca tinha presenciado e, acima de tudo, que me faz feliz.

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Eu não sei o que vai na cabeça das pessoas, mas acho que o pessoal está a reagir muito bem ao que tenho lançado. Não é fácil ser um upcoming artist sem nada na back, contudo tenho um grupo de amigos excelente e uma equipa incrível, o que me ajuda a criar mais e melhor. Gosto de saber que me apoiam e que acreditam na minha visão, é um kind of love que eu nunca tinha experienciado e fico grato a todos os que me apoiam e partilham o meu trabalho. Significa o mundo para mim poder expressar-me e as pessoas darem relate no que canto e nos temas que abordo e ver pelas partilhas que fazem que acreditam no meu potencial, priceless.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Sempre ouvi variados estilos musicais. Back in the days ouvia muitos clássicos americanos do hip-hop que foram grandes influências para mim e, hoje em dia, procuro sonoridades e esquemas de escrita que me toquem. A nível internacional ouço bastante Kendrick Lamar, Kanye West, Jay Z, Drake, Lil Baby, Tory Lanez e Don Toliver, pela maneira como conjugam sonoridades e letras.

A nível nacional, o que mais me influenciou no início foram clássicos como Valete, Sam the Kid e mais tarde Dillaz. Não só pela musicalidade mas muito pelas letras que escreviam. Visto que na altura só escrevia para mim, eram boas referências para limar e para conseguir passar e abordar temas de maneira eficaz.

Hoje em dia os artistas portugueses que mais admiro e sinto são o Xtinto, um dos maiores génios liricistas da atualidade, Rafael Dior que também se estreou no ano passado mas claramente provou que veio para ficar, Lon3r Johny, que para mim é um visionário musical e tem capacidade internacional e Cripta, um rapper, produtor e engenheiro de som com o qual tenho vindo a trabalhar e que esteve por detrás da mistura e masterização do meu EP quase por inteiro  e que admiro muito, com certeza que vai brilhar muito nos próximos anos.

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Não gosto de pôr limites nas coisas, a música faz-me bem, faz-me ser eu e ser feliz ao sê-lo. Sei que é clichê mas a verdade é que se a música for feita com sentimento, trabalho, dedicação e paixão acho que as coisas mais cedo ou mais tarde acabam por “rebentar” e ir na direção que têm de ir. Sou uma pessoa que neste momento sinto-me bem com o que estou a mostrar ao público, gosto da minha música e de saber que mais pessoas gostam também é incrível para mim.

Vou continuar a dar o meu melhor e tentar chegar o mais longe possível. O sonho é ser eterno, aproveitar toda a caminhada seja para que caminho for e, à medida que vou avançando, quero sentir-me realizado enquanto me expresso e dou o melhor de mim. Quero continuar a fazer o que gosto e não me quero limitar em nenhum aspeto, nem o céu é limite para a criatividade e para o sonho.

Noiatt: “Interpreto comentários como ‘isto é estranho’ de forma positiva”

Mais conhecido por Noia, Nuno está ligado à música desde os 16 anos, sempre com um gosto especial pelo movimento punk hardcore. Lançou o seu primeiro projeto em 2018 e, mais recentemente, divulgou o EP Simulacro, uma tentativa de estudo àquilo que é ou não real influenciado pelo “Matrix”, e pelo livro que influenciou o Matrix (“Simulacra and Simulation”). Em conversa com a Hip Hop Rádio revelou as suas influências, os primeiros passos no mundo da música e ainda como surgiu a ideia do novo EP.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

A minha paixão pelo hip-hop surgiu perto dos onze anos de idade, depois de ouvir o “Podes fugir mas não te podes esconder” dos Da Weasel. Eu já gostava de punk rock, mas a mistura que Da Weasel fazia era o melhor dos dois mundos. De seguida conheci Mind da gap devido ao som “Nortesul” (do “Sem Cerimónias”) porque tinha feat. do Virgul e do Pacman, e fiquei viciado em Mundo Complexo que literalmente comprei ao calhas numa loja de discos.

Depois comecei a ouvir os nomes emergentes da altura, Sam the kid, Dealema, Xeg, Valete, Chullage, Regula, J cap, Fuse, etc. No entanto, mesmo com este passado de ouvir hip-hop, o punk hardcore foi o movimento que abracei na minha adolescência. Na altura a rebeldia, a energia e o “querer fazer agora” falou mais alto e foi o que me levou a apaixonar pelo movimento.

O que te levou a aventurares-te na música? 

Se falarmos de música em geral, eu sempre quis fazer um projeto mas não conhecia malta que tocasse. Mas, perto dos meus 16 anos, conheci um rapaz que me convidou para a que iria ser a minha primeira banda. No entanto, mesmo tocando numa banda de música pesada, eu sempre tive o bichinho de fazer algo relacionado com o hip-hop, e foi quando fiz Erasmus em Dublin, em 2015, que decidi que iria criar este projeto.

Respondendo diretamente à questão, o que me levou a aventurar-me na música foi a necessidade de criar extraindo de mim próprio. Eu tenho uma necessidade extrema de criar, para fins terapêuticos.

Como surgiu a ideia para o EP Simulacro?

O EP em traços gerais fala sobre as várias camadas do sujeito numa ótica existencialista, as suas ações, sentimentos, e a sua própria vivência. Extremamente influenciado pelo “Matrix”, e pelo livro que influenciou o Matrix (“Simulacra and Simulation”), o EP é uma tentativa de estudo àquilo que é ou não real. Daí o nome “Simulacro” (uma representação ou imitação de uma pessoa ou coisa.)

A nível da produção, optei por produzir instrumentais com caráter eletrónico com fontes do UK. Navego entre o grime, garage, two step, dubstep, drill, sendo que a entrega final é hip-hop oriented.

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Até agora o feedback tem sido positivo. Entendo perfeitamente que seja algo mais difícil de entrar nos ouvidos pois não é diretamente hip-hop, tem várias influências associadas. No entanto, interpreto comentários como “isto é estranho” de forma positiva. So far so good.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Se tivermos a falar de hip-hop tenho que referir MF Doom, por ser a personificação de hip-hop, para mim, e um verdadeiro vilão a escrever e a compor, Dirty Dike, devido ao humor e sarcasmo, The Streets, por fazerem uma fusão única de som e poesia, Non Phixion, Necro e Ill Bill, pela rawness e liricismo. E para não ficar mal não dizer uma influência portuguesa, o Serial, dos Mind Da Gap, por estar muito à frente do seu tempo em termos de beatmaking.

Um bocado mais fora da cultura hip-hop sigo a cultura do UK Grime que, por sua vez, foi uma grande influência para este projeto. E Moby por ser um all time favourite artist.

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

O céu é o limite. Quero tocar bastante. O grande objetivo para mim seria estabelecer-me como um artista fora do padrão. As pessoas já saberem em antemão que vem algo diferente deste lado.

Isto não é um throwback: muito hip-hop ao vivo com a Lume Sessions.

Foi na semana passada que estivemos no Museu da Água para algo raro nos dias de hoje: concertos aos vivo.

Tratou-se na mais nada menos que as novas edições da Lisbon Underground Music & Entertainment (LUME), produtora de eventos e curadora musical de vários estilos, com grande incidência na cultura urbana. A premissa já é conhecida: oferecer espectáculos inovadores que dão exposição a talentos portugueses, com qualidade e liberdade artística.

Desta vez, e escusado será dizer que todas as medidas de proteção adequadas as estes tempos complicados foram cumpridas, muitos foram os concertos que pudemos ver: entre outros, tivemos Lázaro, Benny B (num concerto diferente que se fez acompanhar de guitarra), Avan Gra, Mura e Young Stud.

Não queremos levantar muito o véu sobre como foram estes concertos, até porque vão poder vê-los em breve, na íntegra, no canal de YouTube da LUME SESSIONS. Podemos sim, revelar, que foi muito bom voltar a sentir estes momentos e consequentemente a gratidão para com estas produções que mantêm o movimento… em movimento.

A cultura não pode parar.

Fotografias por Lucas Coelho.

Domi: “Foi talvez o ano mais criativo que tive na minha carreira”

Depois de aproveitar o ano passado para fazer uma pausa, Domi está de regresso com o seu novo single “Ondas da Praia”. Este tema surge num registo diferente daquele que o artista habituou o seu público, mas isso não o deixa preocupado: objetivo do algarvio é marcar a diferença e mostrar precisamente que não se insere numa “caixa”. Em conversa com a Hip Hop Rádio, Domi falou do seu reencontro com a música e sobre o que representa este primeiro de muitos trabalhos a serem lançados em 2021.

Há uma semana saiu “Ondas da Praia”, o teu novo single. Como tem sido o feedback do público?

Tem sido dividido: bom porque foi uma música que não lançava há muito tempo e as pessoas estavam já com saudades de me ouvir… houve até pessoas que, por causa da alteração do registo, gostaram imenso de eu ter arriscado; por outro lado, tenho um feedback menos bom, no sentido em que, – eu também já estava à espera, obviamente -, devido à mudança de registo, as pessoas talvez estão habituadas a ouvir o Domi de outra forma e eu percebo perfeitamente que seja estranho ter aparecido com este registo, mas sou eu na mesma. As pessoas estão no direito de achar estranho, mas tenho tido críticas construtivas, por isso é que não levo isso como uma cena negativa. Claro que às vezes não conhecem o trabalho por trás, o artista em si, o que motivou a mudar de registo, mas só digo ao meu público que não estou fechado numa caixa. Sou um artista e faço diversas coisas, sinto-me à vontade para tal, canto bem, e foi o Charlie também que me puxou um bocadinho… e o “Ondas da Praia” foi sem dúvida fruto desse trabalho do ano de 2020.

Como nasceu este tema?

Precisamente quando eu apresentei a ideia ao Charlie. Ele apresentou-me este beat com uma sonoridade completamente diferente e disse “acho que tu conseguias fazer uma cena fixe aqui”. Sendo o beat algo muito mais musical e melódico, também me puxou logo para fazer algo que fosse nesse registo e assim nasceu o “Ondas da Praia”.

O que significa este som para ti?

Significa que estou muito orgulhoso. É o primeiro passo, ou seja, a primeira música depois de voltar, por causa do ano que estive parado, e marca pela diferença por ser uma música diferente, por ter arriscado. Estou muito orgulhoso por ter conseguido isso, por estar a evoluir e a fazer coisas novas.

Anunciaste que este é o primeiro trabalho de muitos que irás lançar ao longo deste ano. Qual foi o objetivo ao escolher “Ondas da Praia” como cartão de visita?

O meu objetivo foi precisamente esse: não me colocar numa caixa, porque os próximos sons que eu tenho para lançar são muito mais fiéis ao Domi que as pessoas conhecem. Decidi que seria este o primeiro para mostrar que não sou só exclusivamente aquilo, mas muito mais. Apresentei agora uma cena diferente, mas não quer dizer que o meu próximo som não seja já diferente do “Ondas da Praia”, portanto quis marcar a diferença… foi mesmo esse o objetivo.

Não receias que agora o público pense de alguma forma que este é o primeiro de muitos trabalhos, mas todos eles num registo diferente?

Não, de todo, porque aí estaria a fugir àquilo que sou como artista. Isto foi simplesmente um som diferente que representa igualmente o Domi como todos os outros, mas foi um som que as pessoas não estavam habituadas a ouvir. Mas o Domi não é só o “Ondas da Praia”… lá está, eu não gosto de me colocar em caixas… não é porque fiz este som que agora vou fazer todos os sons assim e é isso que eu quero que, na verdade, as pessoas percebam: que eu tenho essa liberdade e que sou eu que escolho.

E ao fazeres um som diferente, isso pode ajudar-te também a ir buscar outros públicos que não te ouviam anteriormente…

Sim, mas nem é na tentativa de ir buscar algo. É porque eu naturalmente tenho isto dentro de mim e sinto-me à vontade para o fazer, então estou completamente resolvido comigo para o fazer e isto também é o Domi.

Durante a pandemia muitos artistas aproveitaram o facto de estarem em casa para produzir mais trabalhos. No teu caso, o processo foi igual ou este ano sabático serviu para te afastares também um pouco da música?

Foi precisamente para me reencontrar outra vez na música. Foi muito bom porque deu-nos tempo para poder estar connosco e poder estar a produzir. Estes dias fechados em casa obrigam-te a ir produzir. Foi muito importante para mim, foi muito produtivo e foi daí que nasceram todas estas músicas que agora vamos ouvir em 2021. Nesse aspeto, foi talvez o ano mais criativo que tive na minha carreira.

Tendo em conta que prevês lançar vários sons teus ao longo deste ano, já tens algum número definido de músicas novas?

Não, vou deixar na incógnita… Ainda não sei bem o que vou fazer, mas tenho temas novos e eles já estão acabados. É só mesmo definir uma estratégia e começar a partilhar o meu trabalho.

Há alguma colaboração prevista?

Sim, tenho várias. Prefiro manter em segredo.

Esperas lançar durante este ano algum EP ou álbum ou neste momento isso não passa pelos teus planos futuros?

É uma boa questão e faz todo o sentido, porque é precisamente isso que eu me pergunto a mim próprio: o que eu quero mais, o que eu preciso mais… Já estou tão abençoado e felizmente as coisas sempre me correram muito bem, mas também tenho um lado humano, como temos todos, e queremos sempre mais, mais e mais… O que eu quero para ficar estável e para me sentir verdadeiramente realizado é precisamente a pergunta que estou à procura de resposta e acho que demora mesmo muito tempo.

Sim e às vezes nem sequer encontramos uma resposta…

Sim e eu acho que é isso que nos move, na verdade.

“Ondas da Praia” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.

5 álbuns que marcam 2020

2020 tentou deixar-nos um sabor amargo, mas felizmente tivemos vários elixires para enfrentarmos este ano com outro gosto. Esta é uma seleção interna da equipa Hip Hop Rádio. Dezenas de trabalhos passaram pelas nossas emissões, foram anunciados pela nossa redação. Elegemos apenas cinco, cientes da subjetividade que a arte acarreta: cinco álbuns que se destacam e marcam o ano, de uma forma ou outra, com todo o espaço para dúvidas. Obrigado por mais um ano sintonizados na única rádio nacional de hip-hop.

“A Vida Dos Felizes” – Nastyfactor


O álbum de estreia de Nastyfactor é uma “obra completa, dotada de escrita crua e intimista, e de beats cativantes, para ouvir com atenção”, apontou Beatriz Freitas assim que o álbum viu a luz do dia. O artista “leva-nos numa viagem autobiográfica, com paragens de cariz altamente confessional, em faixas como “Skit“, “Cinzento” e “Velocidade Cruzeiro”, onde se podem ouvir sentidos desabafos e confissões”. Num ano que nos deixa várias marcas, Nastyfactor estreia o seu primeiro álbum e aponta cruamente o preço a pagar para viver em plena “Vida Dos Felizes”.

Gota D´Espaço” – Toy Toy T-Rex


“Boas vibes (…) um estado de espírito alegre (…) versatilidade”. É assim que adjetiva Carina Ferreira o EP de oito temas (totalmente a solo) de Tóy-Tóy T-Rex, numa crítica publicada em setembro deste ano. “Gota d’Espaço” antecipa o álbum “Cor d’ Água”, previsto para 2021, mas não cumpre distância de segurança. Temas como Mau Tempo ou Tinoni ameçam tornar-se ex libris do artista e o dinâmic o conjunto de canções, divagando, sem saber muito bem o seu lugar entre o trap, o drill, o r&b, pelo espaço e pelo oceano da inspiração artística de Tóy-Tóy T-Rex.

“Raiashoping” – David Bruno


“David Bruno é um artista português que ama o seu país e a sua cultura, com todas as virtudes e imperfeições que lhe são inerentes”. Ninguém melhor que o próprio para estas descrições. “David Bruno é o alter-ego, e ao mesmo tempo, o nome de dB”. E falamos de quem é dB para compreendermos o seu percurso, brindado, este ano, com “Raiashopping”, o seu terceiro álbum – com a continuidade da linha sonora de “Miramar Confindencial” e do storytelling peculiar com que as suas harmonias nos acariciam. Inspirado nas terras raianas da Beira Alta e Trás os Montes, este vídeo-álbum, recheado de “momentos”, é, nas palavras do músico, “uma homenagem ao Portugal dos cafés com cheirinho, das adegas, das lendas, dos emigrantes, das nacionais esburacadas, do presunto, das tainadas, das avózinhas e dos campeões que bebem minis no café em tronco nu nos dias de calor abrasador.” Há portugalidade além de David Bruno; há outra atrás.

“Sinceramente Porto” – Keso


Apollo Brown (e companhia) tinha “Sincerely Detroit”, Keso (e companhia) tem “Sinceramente Porto”, um compilação assente na “identidade do rap portuense”, totalmente produzida pelo Original Marginal, que convidou 35 mc’s e DJ’s da capital do Norte para um tributo à cidade. São 27 faixas, organizadas por ordem de lançamento, com contributos de peso de artistas como Ace, $TAG ONE, Pibxis, Mundo Segundo, Riça, Puro L ou Deau. E é indiscutível a sonoridade: vem com selo de Invicta. Agora Paga-lhe o Quarto.

“System” – Profjam & benji price


“Imortais” – mesmo sem Think Music no caminho. O sistema montado por Profjam e benji price senta-se no banco dos réus para se declarar culpado. O crime? Invasão de propriedade. É um sistema sem fronteiras: não são apenas os flows e as cadências muito características da dupla que o ditam, é o origami dobrado sobre a música portuguesa que os dois artistas elevam um pouco mais a cada colaboração. São onze temas com instrumentais de benji price – a continuação de um percurso de sucesso e a renovação de um sistema que não precisa de luz ou escuridão depois de montado.

Valas: “Quando fiz este disco não estava à espera que o mundo caísse aos meus pés”

Depois do seu último álbum “Check-In” ter sido lançado em 2018, já com cunho da Universal Music Portugal, o rapper de Évora esteve agora à conversa com a Hip Hop Rádio, para nos falar de “Animália”: O seu novo projeto de cariz intimista e pessoal. Este álbum abre caminho à metamorfose do artista, acompanhado por grandes colaborações como Alice Martin, D.Beat e Brazza nas vozes e Boss Ac, Lhast, Haze, Suaveyoukow, Nzhinga, Alfaccino, Fumaxa e APS na produção.

Perante um novo capítulo da sua vida, com todos os desafios que a paternidade traz e juntamente com a necessidade constante de se melhorar individualmente, “Animália” é  simultaneamente um testemunho de uma mudança, consequente da superação de dificuldades, e um hino ao início de algo melhor, que ainda está por vir.

“Animália” saiu no passado dia 11 de dezembro, com uma capa claramente ilustrativa do título. Qual o conceito deste projeto e porquê a escolha desta temática?

“Animália” surgiu há cerca de dois anos. É um projeto que fala do comportamento humano baseado e inspirado nas minhas vivências, nas minhas ações e acaba por ser uma autocrítica. Tem também outro lado, o lado positivo, que é o lado da liberdade. Passando pela capa, que foi feita por um grande amigo meu artista plástico, Zé Ardisson, foi escolhido o lince ibérico. Este é um animal que está em vias de extinção, não da minha zona, mas que já habitou em Portugal durante algum tempo. Foi a imagem que o artista quis dar à capa e que eu adorei, pois vai ao encontro daquela ligação do homem/animal que eu tento fazer no disco e nas músicas.

Portanto, foi o artista que optou pelo lince?

A finalidade da capa e do lince acaba por ser ideia dele. Sendo eu artista e não designer, quis que ele fizesse algo como se fosse uma peça ou um quadro dele e não apenas um pedido meu específico.

Este álbum tem bem vincada a ideia de metamorfose, quer pela história que contas, quer exatamente por ser um projeto bastante diferente dos anteriores. Sentes que foi o facto de estares numa nova fase da tua vida (até por teres sido pai) que te influenciou a sentires essa necessidade, de passares essa mensagem, através da tua arte?

Este disco não é representativo desta última fase da minha vida, passando pela parte de ter sido pai. Tudo o que engloba o projeto estava definido antes e a única música que vai mais ao encontro disso é a “Papá”, que fala inclusive de vir a ser pai, num futuro próximo, não de já o ser. A ideia para este disco foi sendo construída ao longo do tempo, e senti a necessidade de o lançar o mais rápido possível, especificamente neste ano ainda, pois a minha vida, assim como a de toda a gente, mudou muito; especialmente por ter sido pai. Sendo assim, este projeto não é representativo da fase em que estou, neste preciso momento, mas sim dos últimos dois anos da minha vida. Por isso é quase como que o fechar de um ciclo, e daí querer passar essa ideia de necessidade de metamorfose, de mudar e de me tornar numa pessoa melhor, digamos assim.

Este é um disco que já está em produção há algum tempo, certo?

Sim, começou a ser feito há cerca de dois anos. Toda a ideia do disco tem mais ou menos esse tempo, alguns temas foram concluídos no princípio deste ano ainda, mas não vão ao encontro da pandemia ou do facto de ter sido pai.

Este álbum conta com colaborações muito interessantes, nomeadamente Dj Sims, Brazza, Alice Martin e grandes referências na produção como Lhast e Boss Ac, entre muitos outros nomes. Como se deram estas parcerias? 

Este é um projeto muito pessoal, que retrata o que tem sido a minha vida e por isso as participações são todas elas de grandes amigos meus. Tirando a Alice, que conheci há uns anos e não me é assim tão próxima, o Brazza, o Dj Sims, o D.Beat, são todos grandes amigos e colegas de trabalho, já de há muitos anos, e eu quis que este projeto se mantivesse em casa.

Ainda no que toca a colaborações, uma das faixas mais curiosas deste álbum é precisamente a “Pack”, que conta com a participação de Alice Martin. Nessa música há uma parte em alemão, é utilizada uma sample de uma música do Bonga e não deixas de fazer novamente referência ao teu Alentejo. Qual foi a ideia por detrás desta música tão  multicultural?

A ideia que eu quis passar foi precisamente o facto de a união fazer a força, neste caso até entre línguas, entre povos, entre raças diferentes. Com esta música quis reforçar aquela ideia de conseguirmos alcançar os nossos objetivos, quando nos unimos e quando ignoramos completamente a parte do ódio, ou daquilo que possa ser mais adverso ao nosso desenvolvimento pessoal e à nossa vida. Há que aproveitar aquilo que realmente temos de bom, como o companheirismo, a amizade e tudo isso.

Na tua faixa “Vou” falas de ires e de te refugiares num porto de abrigo. Para onde vais quando precisas de te inspirar e para onde foges quando precisas de um porto de abrigo?

A “Vou” é das faixas mais antigas do disco. Já tinha o refrão há algum tempo e é um tema que explora a ideia de conhecermos o nosso porto de abrigo; de reconhecermos que é lá que nos sentimos bem e que também é lá que voltamos para nos encontrarmos, mesmo nas fases da nossa vida em que nos sentimos mais perdidos. É sempre bom saber que existe esse lugar, onde reside o amor e a compaixão, seja ele onde for. O nosso cantinho, onde sabemos com o que podemos contar.

Esta é certamente uma altura desafiante para lançares este disco, pelo contexto de pandemia no qual vivemos. Esperas conseguir apresentar este projeto ao vivo brevemente, ou não consideras essa uma questão tão relevante para agora?

Não penso muito nisso, sabes? Quando fiz este disco, não estava à espera de que o mundo caísse aos meus pés (risos) por assim dizer. Este não é propriamente um disco no qual eu procurasse essa notoriedade, é um disco que me liberta de certas emoções, de certos sentimentos, e senti necessidade de o criar por essa mesma razão. Agora está cá fora e espero que as pessoas também consigam encontrar alguma semelhança com a sua vida e com a sua luta interior.

Então não tens planos para um futuro próximo?

Infelizmente não. Podia até tentar organizar algo por minha conta, para tentar apresentar o disco, mas não tenho essa necessidade extrema. É um disco que senti necessidade de lançar, pois senti necessidade de que as pessoas que gostam da minha música o ouvissem. Se daqui a um tempo a nossa vida nos permitir voltar a atuar, e a ser produtivo nesse sentido, terei todo o gosto em apresentá-lo, mas não penso muito nisso, de momento.

Mas isso é ótimo, sentires essa realização pessoal, criar pela necessidade de criar e isso ser o suficiente. 

Exato. Às vezes é necessário também fazermos a nossa arte para nós, sem pensar só na recetividade e nos concertos ao vivo e em tudo isso. Por vezes isso baralha-nos um pouco. Aquilo que à partida sentias que seria o disco, ou que querias apresentar, pode ser abafado, se começarmos a pensar demasiado em questões como: “O que será que as pessoas vão achar?” ou “Como será que este disco vai ser recebido?”. Tentei abstrair-me disso e dar o melhor de mim nessa parte e mostrar uma parte de mim que estava mais escondida, um lado mais pessoal. Como já referi, este é um disco com o qual eu espero que as pessoas se identifiquem, ou que pelo menos quem o ouça se identifique e que ajude, de certa forma, quem esteja a passar pelas mesmas situações que eu passei e que passo.

Por fim, sentes que te falta dar algum passo?

Não. Sinto-me realizado, não só por ter sido pai, mas neste momento é de facto aquilo de que mais me orgulho e que me ocupa mais tempo da minha vida. Estou realizado e quero continuar a trabalhar e continuar a fazer música. Espero que 2021 nos permita estar mais em contacto com o público, que exista mais proximidade com as pessoas. Vamos ver o que está reservado, mas vou continuar a trabalhar e a fazer a minha música.

“Animália” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se: a cultura é mesmo segura e o rap está de volta aos grande palcos

Plateia sempre sentada, máscara obrigatória e dispensadores de álcool gel em cada canto. Parece uma realidade distópica, mas é o mundo em que vivemos atualmente. O SBSR Em Sintonia mostrou que a cultura é segura e a música fez-se ouvir, em alto e bom som, no Altice Arena. | Por Daniel Pereira

Há algo que nunca irá mudar: o gosto que o público português tem por música e a grande interatividade com os seus artistas favoritos. Nos passados dias 17 e 18 de dezembro, estivemos no SBSBR “Em Sintonia” e mesmo com todas as medidas de segurança e restrições impostas pelos tempos atuais, pudemos sentir um pouco do que antes era ir a um festival: a correria entre palcos, os gritos e aplausos; enfim, toda aquela sonoridade. É de louvar o esforço da Música no Coração na promoção deste evento e o respeito de todas as regras por parte do público português.

No primeiro dia de festival, depois de várias conferências, sobre a adaptação da cultura a estes novos tempos, a começarem ao início da tarde, no espaço Moche Talks, os ouvidos viraram-se para o Palco Santa Casa. Ivandro deu o pontapé de saída com um concerto intimista e nada melhor que uma voz incontornável da nova geração para começar o SBSR Em Sintonia. Apesar da curta duração, pudemos assitir a um grande concerto que contou com muitos hits, a presença de Bispo em palco para “Essa Saia” e muitas palmas a percorrerem todo o espetáculo culminando o seu fim com “Mais Velho”. A sonoridade urbana no seu melhor.

No palco Ermelinda Freitas, vimos Domingues que, com casa completamente cheia, deu um concerto bastante emotivo. O novo nome da Good Fellas Good Music vai com toda a certeza dar muito que falar, dada a legião de fãs que possui e comprovada pela quantidade de pessoas que aguardavam para assistir ao concerto fora da sala que, devido às medidas de segurança, era limitada e se demonstrou pequena para a gente que podia ter. O hit “FICA.”, contudo, não faltou e fechou o concerto com chave de ouro.

De seguida, e na mesma sala, subiu a palco Amaura que nos transportou para um daqueles bares calmos em que podemos desfrutar de soul, jazz e blues e que pedem a companhia um bom copo de vinho. A artista funde esses três estilos no seu álbum “EmContraste” e ainda adiciona o rap, uma mistura que pudemos ouvir ao longo de todo o seu concerto. A voz inconfundível da artista e as rimas e mestria nos pratos de TNT foram a combinação perfeita para uma atuação que encheu a alma de todos os presentes.

Já no palco Superbock seguia-se Chico Da Tina que deu o concerto mais peculiar de toda a edição. O EP “Trapalhadas”, o álbum “Minho Trapstar” e vários singles de sucesso foram um dos lados da moeda deste concerto. No outro, foi toda uma série de eventos que fizeram um espetáculo à parte: trocas de roupa a meio do concerto (e em palco), apresentação de artefactos, uma espécie de strip-tease, muitos convidades (a transição entre eles foi simplesmente hilariante), cantares regionais e concertina; enfim, houve de tudo e de tudo o público gostou, pois é impressionante a quantidade de fãs que Chico da Tina tem. Ah, e “da Tina” não vem da parte da mãe, é sim o nome da concertina, facto que Chico quis deixar bem claro durante o concerto. Um entertainer estrondoso, essa é a verdade, e um espetáculo que fez jus ao palco que pisou.

Profjam & Benji Price fecharam a primeira noite de SBSR Em Sintonia naquele que era o concerto mais aguardado do primeiro dia (e talvez de todo o festival); sentença final: não desiludiu. “Estamos sentados em palco pois queremos estar ao mesmo nível que vocês” – disse Profjam, a determinada altura. Foi assim que ambos os artistas se apresentaram e, numa toada intimista, mas que deitou cá para fora com toda a pujança a musicalidade de “System”, fizeram daquela hora uma das melhores do ano de 2020. O público cantou e gritou todas as músicas do álbum, Profjam esteve exímio como sempre e Benji Price mostrou que é um artista diferenciado e parece sabe fazer tudo bem. Quem não conhecia a sua vertente de intérprete passou não só a conhecer como a apreciar. Apesar de já anunciada, fez-se também a despedida da Think Music com o temas “Imortais”, que fechou o concerto. E é mesmo isso que esta atuação será: imortal.

O segundo dia de SBSR Em Sintonia trouxe-nos “apenas” Papillon, mas encheu-nos, e de que maneira, as medidas. Este foi sem sombra de dúvidas o concerto mais emotivo de todos os que pudemos assistir. Acompanhado com banda, o MC da GrogNation tocou várias músicas do seu aclamado álbum de estreia “Deepak Looper” e também alguns singles mais recentes. Já sabíamos que na parte musical o concerto seria memorável; e foi, mas o que nos apetece mais escrever é sobre o ser humano Rui Pereira. “Hoje venho aqui com um sentimento agri-doce, não minto. Estou muito feliz por estar aqui, por ter esta oportunidade que muitos colegas meus não podem ter, de vos dar alegria e um bom momento. Mas tenho medo que alguns de vocês levem para casa algo mau, que não desejavam, pois todos sabemos os tempos que vivemos.” – este foi apenas um dos muitos momentos (e mais do que o habitual) em que Papillon falou com o público. Afirmou ainda – “não façam disto uma selva, respeitem o outro, vamos superar isto tudo”. Foi completamente notório o quão o artista está a sentir estes tempos conturbados e acreditamos que para ele, tal como para todos os presentes, este concerto foi uma terapia. Houve momentos para chorar, dançar e, enfim, sorrir. Fica a certeza que, deste concerto, só levámos coisas boas.

Voltámos a ouvir rap nestes grandes palcos, mas não só: fica também a certeza que daqui para a frente mais eventos serão possíveis de ocorrer. Os tempos não são fáceis, mas em conjunto conseguiremos superar tudo e passado o tempo de estranheza, resta-nos entranhar esta nova realidade. Cabe a toda, e a cada um, fazer esse esforço. A cultura é segura, e nunca acabará.

SINDROMA: “no dia em que sai um projeto, o próximo já tem de ir a meio”

Nascido e criado em Odivelas, Ricardo Mascarenhas já tem vários trabalhos lançados, nomeadamente Logoterapia (2009), Bootlegt (2011) e Sin City (2015) . Mais conhecido por Sindroma, lança este ano a tape Easy Jet Pilot onde conta a história de um piloto, que, em 12 faixas, faz uma viagem sobre a sua vida, com pormenores que muitos se podem identificar, como a depressão, desemprego, crise financeira, crises existenciais ou drogas. Fica a conhecê-lo um pouco melhor nesta pequena entrevista.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

A paixão pelo hip-hop surge de forma acentuada, com a chegada da Tv cabo a minha casa (1997 canal Viva e MTV mais tarde MCM), abrindo assim os meus horizontes para todo um cardápio de músicas a partir de videoclips, entrevistas, live acts, etc.

O que te levou a aventurares-te na música?

Acima de tudo, o feeling de ser um fã incondicional das coisas que ouvia, de alguma forma sempre vi como algo que me identificava a 100%, mesmo que viesse de um mundo muito diferente e paralelo do meu, só o tentar fazer algo parecido seria algo maravilhoso. Outro dos fatores foi a necessidade de expressão dos meus pensamentos, ao iniciar o processo escrita apercebi-me que muitas das vezes só refletia realmente sobre algo ao tentar escrever em verso os pensamentos que tinha sobre algo.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Blackmoon, Smif n wessun, Wu-tang Clan, Cypress Hill, Redman, Method Man, Busta Rhymes, Schoolboy Q , Asap Rocky, Currensy, Action Bronson, Dead Prez, Chullage, Sam da Kid, Dilated Peoples, Mos Def, EPMD, etc.

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Sky is the limit for people like me, gostaria de chegar a um estatudo de reconhecimento que não me levasse propriamente à fama, mas sim me permitisse o reconhecimento devido, de forma a que no futuro possa criar mais contéudos (mais criativos e com mais gente incorporada das mais variadas áreas artisticas). Gostava também de dar a minha perspetiva nos mais variados details da vida e permitir ao ouvinte captar a minha informação, chegando a novas premissas no seu pensamento.

Consegues revelar algum projeto que esteja para sair, se é que estás a pensar nisso?

O minha estratégia sempre foi: no dia em que sai um projeto, o próximo já tem de ir a meio, logo num futuro próximo estarei de volta ao estúdio para gravar material novo, assim como terei mais videoclips do projeto Easy Jet Pilot para sair, bem como mais temáticas em formato de documentário.

Auge e Relax.mkf: “Havia também o sentimento de fazer parte de algo especial”

Auge e Relax.mkf acabam de soltar “Grelado Misto”, o primeiro lançamento da produtora Paper Bag. O back & forth agitado entre os artistas anuncia um “atrelado de artes de outros tipos” neste tema. A curiosidade para ouvir mais sonoridades dos dois juntos ficou instalada, por enquanto fica a conhecê-los um pouco melhor nesta pequena entrevista.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

Auge – 1997/1998

Relax.mkf – Finais de 90, inícios de 2000.

O que te levou a aventurares-te na música?  

Auge – Concretamente, não sei. Talvez a necessidade de exprimir a minha criatividade. Havia também o sentimento de fazer parte de algo especial, ser diferente.

Relax.mkf – A vontade de criar, de me auto-superar, de querer fazer parte de algo que fugisse um pouco à regra. 

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Auge – Acho que positivo.

Relax.mfk – Em grande parte tem sido positivo.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Auge – É muito complicado responder a isso. É uma lista que vai variando todos os anos. Dos óbvios aos menos óbvios. A primeira, Guru, a mais recente, 6lack.

Relax.mfk – Uma pergunta complicada… Da primeira à mais atual, REDMAN – Muddy Waters e REASON – New Beginnings.

Onde gostavam de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Auge – O meu objetivo atualmente, é concluir e difundir tudo aquilo que faço ASAP. Levar a minha música o mais rápido possível, ao maior número de pessoas possível.

Relax.mfk – Ao maior número de gente possível! Fazer estrada, criar cada vez mais, fazer mais colaborações, por aí…

Conseguem revelar algum projeto que esteja para sair, se é que estás a pensar nisso?

Auge – PAPER BAG! A produtora que acabámos de criar. Será ela o veículo para todos os projetos e para something bigger.

Relax.mfk – PAPERBAG ALL DAY LONG! Está muita coisa no forno, é o que posso adiantar.

CHI: “Nunca levo conselhos de pessoas com menos sucesso do que eu”

Chegou às ruas o novo single de Chi, Way Yo, com muita atitude e rimas de outros tipos, ou melhor, de outras línguas. A artista contou-nos um pouco da sua história de amor com o hip-hop, objetivos com a música, filosofias de vida e mais.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

Lembro-me da primeira música que me fez estudar, ir procurar e pesquisar o hip hop. Era a  ”Nasty Girl” dedicatória a BIG e aí a vida ficou melhor.

O que te levou a aventurares-te na música?   

Sempre fez parte de mim, mas acho que foi na altura mais baixa da minha vida, tornou-se uma razão para me levantar da cama. Mais que uma aventura, uma salvação.

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Melhor que as expetativas que tinha, mas tenho uma filosofia de vida que é: nunca levo conselhos de pessoas com menos sucesso do que eu.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

2Pac

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Quero pisar palcos mundiais, quero inspirar, quero (quem sabe) salvar vidas com as minhas letras, mas acima de tudo, quero deixar a minha mensagem, a minha marca no mundo.

Consegues revelar algum projeto que esteja para sair, se é que estás a pensar nisso?

Vou ensinar o que é lealdade no meu próximo projeto.

Truekey: “Quero fazer música com qualidade e com respeito pelos meus valores”

“Fica Longe” é o mais recente single do Truekey, artista que já conta com um álbum e um projeto a solo, bem como uns quantos singles já divulgados. Colaborando com nomes como NastyFactor ou Fumaxa, o rapper de Odivelas tem vindo a lançar temas que espelham as suas vivências, reportando emoções, sentimentos e acima de tudo conclusões e fechos de ciclo.

Quando surgiu a paixão pelo hip-hop?

Há muitos anos atrás quando a minha irmã, com mais 9 anos que eu, punha Eminem em casa. Eu devia ter aproximadamente 7 ou 8 anos.

O que te levou a aventurares-te na música?   

Não olho para isto como uma aventura, no sentido da palavra. É mais um “Go with a flow”, uma paixão que deu frutos.

Como tem sido o feedback do pessoal à tua música?

Recebo algumas mensagens carinhosas das pessoas que vão acompanhando o meu trabalho com mais atenção. Fico feliz por saber que a música que eu e a minha equipa criamos tem um alcance emocional, e permite conectar-nos com os outros.

Quais as tuas maiores influências dentro da cultura?

Sam the Kid e Valete foram as minhas maiores e mais importantes influências no hip hop português. Com o passar dos anos fui tendo uma visão mais ampla a nível musical, e comecei a ouvir diferentes tipos de música, de diferentes países e diferentes línguas.

Onde gostavas de chegar com a música? Tens algum objetivo já estabelecido?

Só quero fazer música com qualidade e com respeito pelos meus valores. Onde eu vou chegar não sei, sei apenas que vou trabalhar bastante, tal como tenho feito até agora.

Consegues revelar algum projeto que esteja para sair, se é que estás a pensar nisso?

“Rumo Novo” o meu próximo EP que vai estar disponível nos próximos meses, e posso adiantar que um dos singles vai sair já nas próximas semanas. O produtor do EP é do Algarve DVS Keys, que também é rapper, mas participa no projeto como produtor apenas. O produtor Monksmith também deu o seu contributo em todas as faixas a nível de produção, e o rapper/produtor Nastyfactor deu o seu contributo numa vertente mais técnica da sonoridade.