Hip Hop Rádio

Cálculo parou para ver as estrelas no Porto e Lisboa


Dose Dupla de Cálculo ao vivo.

O MC Barcelense que cada vez mais se tem afirmado no panorama do Hip-Hop Nacional através sua sonoridade característica cheia de “boa vibe” apresentou o seu mais recente (mas já bastante aclamado pela crítica) trabalho “Tourquesa”. Hardclub, no Porto e Musicbox, em Lisboa foram os dois palcos escolhidos para os concertos que foram quase fotocópia um do outro, seja pelo alinhamento do espetáculo, artistas convidados, concertos de abertura ou público na sala (ligeiramente superior no Hardclub). Fiquem em baixo com a reportagem escrita do concerto que teve lugar na sala 2 do Hardclub assim com das galerias relativas aos 2 concertos para terem uma ideia do que Cálculo fez (e fê-lo muito bem) nos passados dias 16 e 23 de fevereiro.

Hard Club em tons de A Zul Tourquesa com alguma Adrenalina

Cálculo apresentou o seu recém-lançado álbum, Tourquesa, no dia 16 de fevereiro, na sala 2 do Hard Club. Nastyfactor, com uma pequena demonstração do EP de estreia a solo – Adrenalina, e ainda Kristóman juntaram-se ao barcelense. Os dois projetos da noite parecem ter sofrido com o facto de terem sido lançados há pouco mais de uma semana, ficando a impressão que a sala esteve semipreenchida, e sem grande entusiasmo, por ainda se estar a digerir os trabalhos. Apresentações talvez precoces, ainda sem estarem totalmente oleadas, mas de dois discos que marcam este início de 2018 e, quem sabe, do ano. Todos os presentes, incluindo artistas, mereciam mais.

A estrela sob um céu estrelado

A estrela da noite entrou em palco perto das 00h 25 min, com DJ FIFTY nos pratos e acompanhado, como sempre, do conterrâneo Mace. Cálculo iniciou com a faixa de abertura de Tourquesa, e último single lançado, “Estrelas”, tendo como pano de fundo um céu límpido e estrelado. A seguir, numa faixa de título algo irónico, Cálculo enveredou num tom mais brincalhão com “Coisas Sérias”. Aliás, não mais deixou este espírito, com um constante sentido de humor, durante todo o concerto, na procura de despertar mais o público e aproximar-se dele. Na tela, carrosséis em movimento, em parques de diversões, completavam o modo diversão. Uma das músicas mais aguardadas, e reconhecidas, pelo público, surgiu com videoclipe de fundo – “Salvar o Mundo”. Um pouco mais à vontade, a plateia já acompanhava o artista mais à letra, ainda que timidamente.

Pelo meio, Cálculo mantinha todos mais confortáveis com algumas piadas e registos videográficos de uma espécie de “Cálculo TV”, como o mesmo referiu num excerto. Em intervalos de músicas, podiam-se ver imagens amadoras gravadas pelo próprio, em momentos distintos do seu dia a dia, num carácter mais privado. Mais uma vez, fica a ideia de que o rapper/produtor procurou estabelecer laços mais pessoais e intimistas com os fãs presentes.

“Heróis” surgiu com Camões de fundo, com a zona dos olhos esborratada de um azul turquesa. Como herói português, Camões serve como representante nesta música motivacional sobre o povo do qual Cálculo refere orgulhar-se, afirmando mesmo haver um herói em cada um de nós. Com “Fogo”, pisaram o palco BRDZ e Cuss, nomes com quem Cálculo se iniciou no Rap e que fez questão de ter no seu 2º álbum e nesta festa de apresentação. Egotripping e fast flow destacam-se nesta faixa, dois atributos que podem não ser os mais reconhecidos em Cálculo, mas que neste álbum ele provou ter também apurados. Em “Bala” manteve esse estilo mais “agressivo” e com Cálculo TV pelo meio trouxe ainda outra das faixas mais esperadas, “Saíste”, também acompanhada de videoclipe.

Com “Vem”, infelizmente para todos, não surgiu com Cálculo o expectável convidado Ace. O artista pioneiro no Rap nacional não pôde estar presente, tendo Cálculo conduzido sozinho esta música, enquanto danças alegres e atabalhoadas se visualizavam na tela de fundo, para representar a ideia principal da faixa. Entretanto, novo convidado sobe a palco para se cantar/rimar em “Iguais”. Harold de GROGNation, subiu ao palco pela 2ª vez, a 1ª foi com Nastyfactor, e marcou presença com uma música que ameaça vir a ser single e um sucesso natural. É deixar digerir…

Com “Creme” voltou-se ao estilo mais brincalhão, com um sample alterado da clássica faixa “C.R.E.A.M.”  de Wu-Tang Clan. Com um tema em torno do dinheiro, Cálculo lançava rimas enquanto na tela se viam notas a serem mergulhadas em cremes de bolos e doces desfeitos. Passe-se a metáfora.

Num momento também aguardado, Cálculo lá revisitou o álbum A Zul e despertou os presentes com a faixa “Hugo”. Aqui percebeu-se perfeitamente que quando as músicas são mais reconhecidas pelo público, maior parece ser o amor demonstrado para com o artista. Já bastante bem digerida, este tema foi bem acompanhado pela plateia. Mais ainda no clássico “A Zul”. Cálculo tentou, e com sucesso, experimentar baixar as luzes, pedir os focos dos telemóveis e cantou “A Zul” em versão mais acústica. Proporcionou-se assim o momento da noite, com quase toda a gente a trautear os versos enquanto o rapper comprovava e engrandecia todo a qualidade da sua voz.

“Q.A.M.A”, última faixa de Tourquesa, anunciava um dos últimos acontecimentos da noite. Fábia Maia também não pôde estar presente, contudo a sua voz ouviu-se no refrão de Quando A Música Acaba, entenda-se do acrónimo. O outro grande momento deu-se com a subida de Macaia e de um coro de 3 raparigas a palco. “Melhor de Mim” deu-se de forma fascinante, naquele clima habitualmente quente, comovente e acolhedor quando Soul, Rap e Gospel se misturam. Esta faixa promete vir a ser um clássico do álbum e da obra do artista barcelense. O tempo o dirá.

“Não Paro” finalizou o concerto a bom nível, com uma faixa que já tinha sido estreada, antes de virar single, no mesmo Hard Club, só que na sala 1, no dia de apresentação de Nada É Por Acaso de GROGNation. Na altura, Cálculo abriu a noite e presenteou os que lá estiveram com esta faixa que parece ter sido tiro certeiro. Este single trouxe um dos momentos mais celebrados pelo público quando seguiu efusivamente a parte “Já disse/Não vou nessa conversa/Nem que eu fosse o Valete/E tu te chamasses Vanessa.” Em clima de festa, com uma escolha certa a fechar, Cálculo ainda trouxe a palco todos os convidados da noite para se festejar ao som de “Devastated” de Joey Bada$$.

Factor Adrenalina

Ainda antes de Cálculo apresentar Tourquesa, e de revisitar A Zul, Nastyfactor, pelas 23h 50min, pisou o palco da sala 2 do Hard Club, para demonstrar um pouco do seu EP de estreia a solo – Adrenalina. Tal com o 2ª álbum de Cálculo, este projeto surgia muito recente, com cerca de uma semana de vida em circulação. Ainda assim, percebeu-se que com o tempo ganhará o seu destaque e que a solo Nastyfactor promete tanto quanto os GROGNation já vão correspondendo como coletivo. Em cerca de 20 minutos Nasty fez o seu espetáculo. Como já dito, com um público pouco calibrado para esta noite, Factor entrou adequadamente com “prontos ou não”, 2º single de Adrenalina já lançado. Com ele esteve sempre Truekey, talento emergente no rap nacional que Nasty convidou para o seu projeto e para esta festa. “Guita” foi a faixa seguinte, que conta com a participação de Bispo, uma das ausências notórias da noite.

Sem Bispo mas com Harold, do seu conjunto de Mem Martins, saiu-se de Adrenalina e ouviu-se o remix de “Sém Mágoa”. Os dois rimaram numa faixa originalmente produzida por Fumaxa para Bispo, no EP Fora D´Horas. De regresso a Adrenalina veio “tavas enganado”, a tal faixa em que Truekey participa. Mudando o pouco o tom, Nasty apostou ainda em “climax”, segundo ele, uma “música que quando derem por ela, está na vossa cabeça”. A aposta é que não será só esta a entranhar-se nas mentes dos fãs de Rap. A finalizar o single de estreia “Escáfia”, tema já um pouco mais absorvido pelo público presente.

Cruz Credo, Nosso Senhor Jesus Kristóman!

Mesmo a abrir a noite, ainda tivemos diretamente da Kimahera, label onde se insere Cálculo, Kristóman. O algarvio iniciou a festa de forma muito energética, com muita entrega ao público, num registo ideal do que se pretendia da noite. Apostando na sua faceta mais recente direcionada para o Trap, Kristó mostrou não ter deixado para trás a sua reconhecida aptidão para as punchlines fortes e barras carregadas. Em 25 minutos de atuação ouviram-se entre outras: “Bruxedo”, “Judas”, “Cruz Credo” e ainda um novo single que deve estar prestes a ser lançado de nome” Ibrakristóvic”.

De referir ainda as transições feitas por DJ FIFTY que, por exemplo, antes da entrada de Cálculo em palco passou clássicos e future classics do rap nacional como: “Sala 101”, “Escola dos 90”, ambas de Dealema, “Cala a Boca” e “Qualquer Boda”, de Holly Hood, nesta última com Regula, “Caravana”, de Sam The Kid e Boss AC, “DPDC”, de Kappa Jotta e Bad Tchicken, “Mais Pesados da Capital”, de Xeg, STK, Regula, e Valete, “Põe a Mão no Ar” de Mundo Secreto ou ainda “Tsubasa” de YUZI.

Em suma, nesta noite tivemos, essencialmente, dois projetos de qualidade ainda a serem absorvidos pelo público em geral. Tourquesa e Adrenalina são dois destaques deste início de 2018 e arriscam-se a ser do ano de 2018, como um todo. Tourquesa, como álbum mais repleto e encorpado dificilmente não marcará este ano. Cálculo acaba por consolidar-se definitivamente neste estilo de Rap positivo, vibe alegre, com muitas influências do passado, mostrando ainda ser capaz de ir num Egotrip ou num fast flow que nem sempre lhe são apontados como atributos. Nasty inicia-se a solo com alguma experiência proveniente da sua associação a GROGNation e o início é auspicioso para este rapper/produtor que mostra saber bem o que quer e o que faz. Elogios ainda para a postura e atitude em palco de Kristóman. O Hard Club pintou-se assim de turquesa, numa noite mais tranquila, mas também promissora para o que poderá advir do futuro destes projetos e artistas.

Texto: Emanuel Cirne
Imagem: Nês Cruz

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