Hip Hop Rádio

Beat deu concerto: Wugori ao vivo no Com Calma

Calmamente -mas dificilmente contendo o entusiasmo- voltamos ao ritmo da vida noturna em Lisboa, entrando desta vez pela porta dos fundos e em direção às catacumbas, para nos deleitarmos no escuro ambiental do underground. A descida foi proporcionada mais uma vez pela LUME, no que foi mais uma sessão de LX RAP Clandestino.

Sessões que anteriormente encontraram refúgio em lugares como a cave da FLUL, em estilo clandestino que sempre fez jus ao nome, têm agora uma nova casa: o espaço Cultural Com Calma, sediado em Benfica, ideal para acolher todos os corpos e almas movidas a cultura. De fachada colorida à beira da estrada, cativa o olho mais atento a entrar e descer para descobrir o que mais esconde, ao passar pela entrada com exposições na parede e estantes de livros, cuidadosamente organizados alfabeticamente, o que contribui vivamente para o ambiente íntimo e acolhedor do espaço.

O tesouro escondido tinha desta vez o nome de Wugori, rapper oriundo da Amadora, que deu cartas e abriu o apetite de toda a gente com o EP Mal Passado Bem Pensado, produzido por gonsalocomc, outro diamante em bruto, formando uma dupla que certamente causa estrago.

O primeiro a segurar a tocha para guiar os curiosos exploradores do under foi Saraiva, que proporcionou um DJ set constituído por uma vasta seleção de hip hop, de Portugal aos Estados Unidos, passando pelo Brasil, num warm up que deixou a sala no ponto para receber o ato principal. Já na reta final fez-se acompanhar por DAMAZ MC, constituinte do coletivo UMRAP, que atuará dia 15 de outubro, na mesma localização.


Chegando sorrateiramente pelo meio da plateia, como quem se desculpa por chegar atrasado a uma sessão de cinema, Wugori pisou o palco desta vez acompanhado de Snootie Chainz, para apresentar algo diferente do que se esperava: uma demonstração de beats e remixes.

Qualquer um dos presentes que se pudesse ter mostrado apreensivo por não ir experienciar o típico concerto de hip hop, rápida e certamente mudou de ideias, ao ver o alquimista com a poção a cozinhar, no que parecia uma sessão de estúdio, mas desta vez com audiência.

Sem mais tempo para demoras começou a magia com pads, PC e teclado, num espetáculo de produção. Alternando entre temas onde se verificava a mestria em utilização de samples, produções mais lo-fi e reinvenções de clássicos do rap americano como “Scarface Nigga” de  Roc Marciano, estava montado um display de tentativa-erro, porque desenganem-se, nem todas as refeições foram pré-preparadas, algumas pareciam estar a ser cozinhadas à nossa frente, a ver os ingredientes a irem para o caldeirão.

Embora fosse aparente o entusiamo ao mostrar os instrumentais , como quem está a mostrar poesia pela primeira vez, muitas vezes não conseguia conter a vontade de debitar barras em cima dos mesmos, mostrando a proeza na entrega de rimas. Ainda meio tímido, desistiu de deixar os beats falarem por si, culminando na performance da faixa “Olhocerrado”, com o habitual flow do Kong, mas sobre um instrumental diferente, arrecadando vários gritos da plateia.

Seguiu-se a faixa “Tia May”, naquela que foi a performance mais íntima da noite. Uma letra já profunda foi entregue em tom de confissão, sobre uma batida algo melancólica e exaltando as linhas “Tou de rastos mãe vem dar um abraço, um homem quer afeto mas há quem ainda faça caso”. Num concerto que foi sobre desconstruir o que já foi feito, reinventar e manter interessante, constantemente em busca de se tentar melhorar, esta música veio exemplificar a força que se pode encontrar na vulnerabilidade da arte, com uma mensagem importante: “Mais amor bro, isso não faz de mim frágil, dá valor tho”.

Continuando no registo do seu mais recente EP, brindou-nos com “Trolley”, e ainda  “Trata”, single de 2020,  também apresentadas em forma de remix. E se Wugori vê o mundo pelos quadros que pinta, nós vemos o mundo dele pelos beats e rimas que entrega.

Com a plateia em chamas e não abrandando na viagem, o artista procedeu na amostra da sua versatilidade ao apresentar, algo reticente, um drill que levou Snottie Chainz a improvisar o início da “Off The Grid” de Kanye West. Um instrumental que prometia: “Se eu acertar é banger”. Acertou e confirmou-se.

Houve ainda espaço para vários leaks, como prometido inicialmente, que não só deixaram água na boca a todos os presentes – mas calma, que está para breve- como vieram cimentar o percurso artístico, e talvez pessoal, deste artista; a frase: “Desde puto que tenho um caso com a música” ouvida numa delas esclarece, caso dúvidas houvesse, que toda esta criatividade e skill não vêm de agora: é acordar que ainda dá tempo para apanhar o comboio.

A partir daqui, especialmente, foi festa agressiva na cave. Depois de ter esclarecido “já cantei o que tinha a cantar, a partir daqui é só desgraça”, o gorila lançou beats de uma violência, que correu o risco de se tornar num Harambe 2. Com drops agressivos e ad libs de Snottie Chainz, a energia sentida na sala era contagiante e a plateia já só pedia mais. E ele dava, servindo um buffet de fusões de drill, funk, afro, trap e mais viessem, agora quentes e prontas a servir, a uma multidão faminta, há muito à espera. E foi assim até ao fim.

De destacar, especialmente, um beat afro que ironicamente continha um sample onde se podia ouvir “Tão tímido porquê?”, que foi talvez a surpresa da noite.  Wugori é para todos, ou não fosse a junção do seu nome Wu-Tang com Gorillaz, no entanto descobrimos que se pode mutar e ir até um DJ MARFOX. Caso para dizer que beat deu concerto e nem a malta do tarraxo está a salvo.

Com talento para as rimas já amplamente mostrado ao longo da sua obra, com este concerto Wugori veio demonstrar a sua versatilidade no que toca à produção de beats, numa performance marcada pela exposição de domínio de vários géneros e mestria de reinvenção das suas faixas, com uma abertura e à vontade dignas de ser registadas.

Despido do medo de falhar, e se o tinha, a honestidade sobrepunha-se, Wugori fez do Com Calma um recreio revestido para todas as acrobacias e experiências que quis fazer, todas bem recebidas pelo público, que retribuía com gritos de apoio, palavras de motivação e entoações, tudo isto fruto do que se estava a viver ali: uma partilha de algo que parecia inédito, numa sessão de estúdio, que podia muito bem estar a acontecer no quarto do artista. Exemplificou-se assim o expoente máximo do que é o hip hop underground: verdadeiros génios, não necessariamente à vista de todos, que muitas vezes passam despercebidos.

Assim revela-se a importância de projetos como o LX Rap Clandestino e todos os eventos produzidos pela LUME, que tanto fazem pelo panorama atual do rap underground em Portugal, trazendo à luz nomes mais escondidos, para quem possa andar perdido e não saiba onde explorar; mas fica a dica: se ouvires sons de festa vindos de uma cave mais próxima, é descer e explorar, afinal de contas, é preciso escavar para encontrar diamantes.

As próximas datas e respetivos bilhetes encontram-se disponíveis no instagram da Lume Portugal, podendo contar com UMRAP dia 15 de outubro e Vácuo dia 29 de outubro.

O EP Mal Passado Bem Pensado de Wugori x gonsalocomc encontra-se disponível em todas as plataformas.

Fotos da autoria de Tiago Gonçalves.