Hip Hop Rádio

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Dose Diária | QThree – Consistent (2020)

QThree mostra-nos em Consistent que para sobreviver neste jogo e para alcançar metas é preciso trabalhar letras e instrumentais todos os dias.

Fome é a palavra chave nesta faixa do MC de Philadelphia, e é com esta determinação
que somos abençoados com lições que ajudam qualquer um a singrar seja em que
área for.

Aqui não existem ilusões, o rapper tem os pés bem assentes na terra e sabe que trabalho não falta mas também tem a capacidade de fazer uma retrospetiva de tudo o que aprendeu até agora através de versos entulhados de convicção.

Com um instrumental psicadelicamente triunfante a seu cargo mas que usa o alias de EARDRUM para assinar as suas produções, é inquestionável o talento que corrobora a persistência e o valor de Qthree e o burburinho que se tem feito à volta deste nome ainda agora começou.

Dose Diária | Conway The Machine & The Alchemist – “The Contract” (2020)

Conway e Alchemist encontram a Pedra Filosofal em The Contract.

O MC de Buffalo junta-se ao lendário produtor para fazer uma retrospetiva da sua vida, na qual entende que já chegou a altura de recolher os louros e esta faixa é a
victory lap do rapper e um testamento ao seu esforço que tem abalado o mundo do
Hip-Hop.

Não existem entradas na refeição que Conway nos serve, somos logo levados para o prato principal pois a convicção é tanta e sabe que ninguém ficará desiludido. Calmo e consciente da sua habilidade, o banquete lírico apresentado mostra-nos um glutão que mesmo estando no topo não tenciona parar de subir na cadeia alimentar, sem receio
de sujar as mãos.

Se já entendemos que estes versos são de um vencedor, Alchemist faz questão de o reforçar com uma produção gloriosa, tecendo um instrumental que providencia total espaço para as rimas Griseldianas brilharem.

Dose Diária | Cousin Feo – “Maradona” (2019)

Cousin Feo canaliza as infâmias e grandezas da vida do futebolista argentino em Maradona.
Não é muito usual as referências ao futebol no rap americano, no entanto, o MC de Los Angeles vem preencher essa lacuna com uma boa mão de projetos que estão constantemente relacionados com os relvados e Maradona não é exceção.

O pontapé de saída aqui deixa qualquer adepto a fervilhar, com rimas que nos sentam no banco do passageiro do seu carro e onde Cousin Feo nos manda versos que retratam o esforço, as celebrações e as tristezas de um MC que luta para chegar ao patamar do “El Pibe de Oro”.
Aqui não existe prolongamentos, o jogo acaba em 90 minutos onde o rapper
presenteia o público com um hat-trick.

Dose Diária | DJ Muggs & CRIMEAPPLE – “Camisas” (2019)

DJ Muggs e CRIMEAPPLE fitam-nos com um estilo irascivelmente cadenciado em Camisas.

O membro do célebre grupo Cypress Hill acolhe o rapper de New Jersey para uma sessão de rap mais cru que betão. Com uma base instrumental onde os teclados correm sem direção a um sítio concreto, os versos concebidos em inglês e espanhol levam-nos para arranha céus, ruas sujas e bodegas em todas as esquinas onde a gentrificação não é bem vinda.

O à vontade do MC em entregar rimas encardidas nos instrumentais de Muggs é óbvio e são a combinação que sempre desejámos em cima destas paisagens que são embelezadas com a violência típica do produtor – CRIMEAPPLE não tem medo de agarrar oportunidades que não são para todos e passa no teste com nota máxima e o Black Goat nunca perdeu o seu gosto eclético e capacidade de criar clássicos como sempre nos habituou.

Dose Diária | Ankhlejohn – “Day Two” (2020)

ANKHLEJOHN ainda só vai no “Day Two” desde que deixou de fumar cigarros e isso já o levou a reexaminar a sua mente.

Cada um tem a sua maneira de lidar com a falta de nicotina, uns comprar pastilhas que ajudam a deixar este vício, outros substituem-na por comida mas ANKHLEJOHN aproveita o estado mental em que se encontra para forjar versos que passam por tantos temas que se não se encontra-se nesta situação já lhe oferecíamos um cigarro para se acalmar.

 O rapper de Washington tem alma na voz e flows que estão entre uma cadência de conversa e harmonias ríspidas que lhe adicionam camadas de personalidade – é com este soul que o MC produz este instrumental que tanto quanto sabemos pode ter sido encontrado perdido numa cave de uma igreja onde Gospel não faltava.

É através do ternurento e poderoso beat conjugado com o atrativo realismo rimático que ANKHLEJOHN consegue a proeza de nos abrir a porta da sua persona, mostrando tudo o que tem lá dentro sem medo de ser julgado.

Dose Diária | Juga-Naut – Pretty Money (2018)

Juga-Naut flirta indecentemente com o numerário em Pretty Money.

Bon Vivant é o nome do álbum que aglomera esta faixa e, tal como o nome indica, para se aproveitar os prazeres da vida uma boa quantia de dinheiro nunca fez mal a ninguém. É com esta premissa que o rapper do Reino Unido escreve uma carta de amor à mulher que anda sempre consigo – a rainha de Inglaterra que encontra sempre gravada nas notas que carrega.

Entre todos os momentos, altos e baixos, para conseguir papel recordados nos versos, o MC é tático com a sua entoação, inflacionando apenas as palavras que merecem essa atenção e com um flow engenhoso que pode parecer tênue mas tem a ferocidade de um carro onde a cavalagem foi alterada para não dar hipótese a qualquer outro que se queira picar.

Pode parecer banal o tema em causa mas Juga-Naut sabe que é o dinheiro que faz o mundo girar e vai fazer de tudo para o conquistar.

Dose Diária | Rahiem Supreme – Tenacity (2018)

Rahiem Supreme mostra o seu semblante de forma pura e dura em Tenacity.

Às vezes temos a sorte de encontrar faixas que mal o MC começa a entregar os seus
versos conseguimos entender logo que motivação e força não lhe faltam e o rapper de Washington tem combustível para muitos quilómetros. Tenacidade é o nome da faixa e resume bem a sua aura; com uma abordagem métrica voraz e entoação nojenta (no bom sentido) Rahiem marca rapidamente presença, agarrando pelo pulso o instrumental sem medo de parecer mal educado com a abordagem.

Confessional nas suas palavras sem nunca passar por penoso, aqui encontrámos rimas incisivas capazes de cortar o material mais duro e que saem da boca de um homem que está a dar tudo o que tem no microfone para deixar uma faixa completa sem qualquer peso na consciência.

Dose Diária | Phyba – Hare Krishna (2019)

A dupla de detetives Phyba e Giallo Point dão-nos tiros com silenciadores em Hare Krishna.

Esqueçam os filmes de espiões glamorosos, com vestidos de cetim vermelhos, saltos de paraquedas e smokings; esta equipa veio para matar sem ninguém se aperceber – com rimas de Phyba onde existem expirações prolongadas para nos bater com força na cabeça e uma produção de Giallo Point a sublinhar bem o seu nome face à estética de um policial dos anos 80, é seguro dizer que todos estes elementos esfumaçados juntos dão uma explosão problemática e que não é preciso grandes artimanhas para fazer uma faixa letal, separando-se do resto dos espetáculos mais estridentes.

Assassinos contratados é a melhor descrição deste trabalho pois quem precisar deles sabe onde os encontrar e o resultado é limpo, eficaz e deixa qualquer um boquiaberto ao verem as entranhas rapianas espalhadas no chão.