Hip Hop Rádio

Henrique Ferreira

“eu ando preocupado em fazer música que envelheça bem” – João Maia Ferreira celebra 10 anos de carreira com novo álbum

Há 10 anos, João Maia Ferreira – conhecido por muitos como Benji Price – deixava a sua primeira marca no hip-hop português com “À procura de Benji”, lançado pela atualmente extinta Adromeda Records. Em 2016, junta-se a Nelson Monteiro – ex-manager da Astro Records – e a Profjam, para conceberem aquele que viria a ser um dos maiores nomes da cena do trap em Portugal, a Think Music. Na gravadora, trabalhava maioritariamente como produtor, mas em 2019 lança-se novamente para cima de um beat com “badman ting”, ao lado de Profjam. Ainda em dupla com o autor de Mixtakes, editou o seu primeiro álbum SYSTEM em 2020, e em 2022 deixa cá fora o seu primeiro álbum a solo, ígneo. No ano seguinte, larga o alter ego de Benji Price, e assume o seu nome próprio como nome artístico. No mesmo ano deixa cá fora Baldio Vol.1, um projeto inteiramente composto por instrumentais e no ano seguinte, em 2024, lança o seu terceiro álbum, O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua. Para celebrar estes 10 anos de carreira, edita o seu quarto álbum de estúdio, Consumir Preferencialmente Antes do Apocalipse, preparando-se agora para subir ao palco da Casa Capitão em outubro deste ano.

 Para ficarmos a saber mais sobre o projeto e sobre a celebração desta década de carreira, a Hip-Hop Rádio esteve à conversa com o rapper.

Há 10 anos estavas à procura do Benji. Passado este tempo todo, já encontraste o João?

Eu, na altura, estava a fazer esse som com a cabeça num sítio orientado mais para a independência financeira – que era o que eu não tinha na altura e que agora já tenho – e acabou por me motivar para fazer um som dessa forma. Hoje em dia, já não tenho essa preocupação. É claro que todos temos de trabalhar e certificar que os rendimentos continuam, mas já não tenho essa preocupação de estar sempre a correr atrás. Tive a oportunidade de me sentar comigo mesmo, de experienciar coisas e de conseguir, lá está, encontrar o João, como tu estavas a dizer. Eu penso que é este ponto. Talvez nós nunca nos encontremos a 100%, não sei, só saberei dizer isso quando chegar aos 80 ou 90 anos, mas até à data, sim, eu acho que estou no meu prime.

Primeiramente, parabenizar-te pelo projeto. Como é que está a ser o feedback?

 Tem sido muito positivo, felizmente, e obrigado por perguntares e por-me parabenizares. Está a correr bem, tenho recebido muitos comentários, muitas DMs, muitas partilhas do pessoal a ouvir o meu som – e é claro que vale o que vale – mas em termos de streams também está a correr bem. Não que eu ache que isso seja barómetro que defina o sucesso ou o insucesso de um projeto, porque tu podes ter um projeto que é extremamente bem sucedido, e não ser uma coisa que tenha muitas streams. Ou se calhar também há pessoas que têm muitas streams e mesmo assim sentem que não cumpriram os seus objetivos. Não quero equacionar muito, vale o que vale, mas mesmo nesse aspeto estou satisfeito. O feedback tem sido esmagadoramente positivo.

 

Como é que te sentes com ele cá fora, ainda mais de modo a celebrar estes 10 anos de carreira?

 Entusiasmado e aliviado. Este álbum serviu para duas coisas em simultâneo: a primeira, obviamente, os 10 anos de carreira, foi esse o motivo principal pelo qual lancei; e em segundo lugar, eu não queria estar sem lançar música até ao final do ano. Eu sentia que se estivesse a lançar só singles sem continuidade, provavelmente, quando chegasse ao final do ano e estivesse a lançar um projeto, esses singles poderiam já não refletir a essência do projeto, já estivessem demasiado ultrapassados. Então calhou bem eu ter estas músicas todas e conseguir empacotá-las de uma forma que fosse coesa e que mantivesse uma certa homogeneidade. E, pá, a partir daí foi muito fácil acabar este projeto e sinto-me mesmo muito aliviado. Este não é o O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua, nem é o ígneo, este não vai ter tanto tempo até ao próximo. Eu não sei quanto tempo vai ser, mas imagina, eu tenho lançado um álbum basicamente de dois em dois anos, ou seja, o SYSTEM foi em 2020, depois o ígneo em 2022, depois O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua em 2024 e agora este em 2026. Então eu não queria estar mais tempo sem lançar um álbum vez, e também não quero estar a lançar em 2028, quero encurtar este espaço de tempo. Até lá, podem ficar com este e eu espero que o curtam muito.

 

Consumir Preferencialmente Antes do Apocalipse é um nome um bocadinho atípico, querias ir buscar um género de uma satírica ao consumo rápido de hoje em dia?

 100%, embora esse conceito só me tenha surgido muito tardiamente, porque eu ando preocupado em fazer música que envelheça bem, e eu quando digo isto não é só do ponto de vista de daqui a 10 anos continuar a gostar dela ou não, eu estou a dizer no sentido ideológico. Eu sinto que há música minha que pode ter envelhecido bem em termos musicais, mas que eu sinto que em termos espirituais ou cerebrais, ou o que é que tu lhe queiras chamar, não envelheceu muito bem. Não é muita, mas algumas, uma aqui e acolá. Então eu estou a tentar evitar isso, ao máximo. Pensei que o que queria fazer eram músicas sem prazo de validade, e nesse sentido, ocorreu uma ideia de “rótulos”, qualquer coisa “sem prazo”, algo assim. Mas depois lembrei-me que às vezes tens também o “consumir preferencialmente antes de” e neste caso o Apocalipse foi uma forma de retratar uma dimensão temporal, oxalá, muito distante. Por isso, isto foi tudo assim, meio acidental, mas ao mesmo tempo também foi deliberado.

 

Este álbum dá-me vibes do Baldio Vol.1, por causa do lo-fi e das melodias mais calmas. O projeto surge com beats dessa ninhada, ou é uma coisa muito posterior?

 Por acaso não, não surge com nenhum instrumental dessa ninhada. A única coisa que aqui estava, que não foi originalmente feita para este álbum, foi a “Waridu?”. Foi uma música, que eu fiz a demo na altura que estava a fazer o O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua, mas senti que a faixa não encaixava muito bem no projeto e deixei-a pendurada no cabide. Agora, dois anos ou um ano e tal depois, fez-me sentido pegar nela novamente. Pá, mudei muita coisa, mas o refrão manteve-se e mudei algum texto.

É um projeto que puxa uma temática bué retrospetiva. Era esse também o objetivo para celebrar estes anos, repensar um bocado o que é que foi o passado do João?

 Sem dúvida. Eu queria que este projeto tivesse uma estética cronológica, no sentido de o hip-hop também ter começado muito com o boom bap. Manter-me no boom bap já era um desejo que eu tinha, e achei que esteticamente fazia sentido para um projeto que está relacionado com uma celebração temporal. Nesse sentido, as coisas uniram-se bem e é claro que a partir do momento em que eu percebi que isto ia ser um projeto com este título, tentei encaminhar um pouco do texto também para uma coisa se calhar mais introspetiva, de olhar para a frente, mas também olhar para trás, claro. Tudo o que está aqui neste álbum é mesmo bastante deliberado na sua intenção. Obviamente, as minhas músicas são sempre escolhidas a dedo, não é? Eu não lanço músicas à toa. Mas às vezes lanço músicas que se eu não as lançar nessa altura, já não me faria sentido lançar novamente, e eu tenho muita música que está nesses moldes – a não ser que um dia edite um álbum de inéditos ou de b-sides, aí poderá fazer todo sentido. Mas ainda acho que estou longe, ainda só vou nos 10 anos, só se for talvez nos 20 é que faça isso. Esta música sinto genuinamente que poderia ter lançado em qualquer altura da minha carreira e disso estou muito orgulhoso.

 

Vou-te citar: “Tropa, tu tenta sempre outra vez /Caias uma, ou duas, ou três”. Dez anos depois, qual é que é a maior lição que levas deste caminho na música?

Eu sinto que não dá para forçar aquilo que queres, seja a musical ou seja a algo consequente de música. Eu sinto que muitas vezes, e isto acontece a todos nós artistas, fazem A, B ou C com a intenção de chegar ou de atingir certo objetivo. E eu acho que isso simplesmente é um no milhão. São tiros no escuro e por acaso um acerta no alvo. Nunca vi ninguém a dizer «vou fazer uma música para bater» e depois essa música ter batido. Eu estou a falar no sentido de pessoas que se calhar não têm a sua popularidade nos píncaros, estás a ver? Imagino que pessoas que estão agora na sua popularidade máxima, que seja um pouco cada tiro, cada melro, e acredito que se eles fizerem uma música com a intenção dela resultar melhor, acredito que consigam. Mas o meu ponto com isto é dizer que a intencionalidade das coisas é um bocado irrelevante e tu só consegues fazer aquilo que realmente gostas. Eu já tive muita experiência em quase todos os papéis dentro da música, seja escrevê-la para mim; escrevê-la para outros; produzir para mim; produzir para outros; misturar; masterizar;  ou simplesmente dar opiniões. Já passei por esses trilhos todos, já os caminhei e eu percebo muito bem que, pá, se tu não gostas do que estás a fazer, isto não vai dar certo. E quando digo dar certo, mais uma vez, não é do ponto de vista comercial. Tens de fazer aquilo para o qual tu foste destinado a fazer, por assim dizer. Acho que essa é a maior lição que eu extraio destes 10 anos.

 

Houve algum momento no teu percurso em que pensaste «ok, deixa-me olhar para o João do passado», ou seja, recuar para te ajudar em alguma coisa ou procurar força em algum momento?

 Sem dúvida. Na vida eu tento pôr em perspetiva o máximo que eu consigo, e se calhar quando estou em momentos mais frágeis tento-me recordar de momentos em que estive mais forte. Por isso, claro que sim, nesse sentido, penso retroativamente. Na música, regra geral, não penso muito em escolhas do passado. Normalmente, se penso nelas, é para evitá-las. Ou seja, se eu começar a trabalhar numa coisa que eu sinto que já trabalhei numa variação disto, regra geral, eu evito continuar nesse trajeto e tento recontextualizá-lo de outra forma. Mas pronto, a nível pessoal, sem dúvida que eu vou tentando perspetivar e relativizar sempre as coisas. Não sou uma pessoa muito de olhar para trás, mas quando olho é com uma intencionalidade, aí sim.

 

Depois destes 10 anos, olhas para a música de uma forma mais descomprometida ou cada vez com um olhar mais sério?

 A resposta é até ambas. Acho que ambas coisas têm de coexistir em igual medida. Tu tens de poder ir ao estúdio descontraído e não pôr um peso em cima de ti mesmo, ou que deixes que outros ponham em cima de ti – o peso de fazer A, B ou C, mais uma vez. E, não obstante isso, tu também tens de perceber qual é que é o teu grau de profissionalização, e se estás interessado em mantê-lo de forma que ele é, ou se queres progredi-lo. Sim, tens de fazer dinheiro, tens de comprar certas coisas que vais precisar, tens de pagar serviços que não contemplavas que um dia ias ter de pagar, para nem falar de coisas de como ter de pagar a renda. Eu também nunca posso estar aqui numa situação em que eu penso vou fazer rigorosamente tudo o que me apeteça a toda a hora, até porque eu não tenho uma carreira que me permita isso, entendes? Cá em Portugal, só artistas mesmo muito populares é que conseguem atingir esse grau de liberdade. Se calhar, noutros países com uma população dez vezes maior que a nossa, as pessoas mais meio da tabela, chamemos-lhe assim, até que conseguem safar-me muito bem. Aqui tu meio que ou estás lá em cima, ou então estás bem perto do full time, sabes? Sinto que não há muito meio termo. Acho que há meia dúzia de pessoas que se calhar conseguem viver dessa maneira, pelo menos que eu tenha conhecido no meu trajeto, mas não é nada incomum encontrar o full time. E com isto quero dizer as pessoas que são concretamente artistas e que tentam viver da sua arte. Isto às vezes é muito preto no branco, é muito dicotómico, ou estás a bater ou não estás, e por consequência ou estás a viver disto ou não estás. Eu também já tive de encontrar as minhas formas para colmatar essa situação, e com certeza que no futuro ainda hei de descobrir outras que não conheço agora.

 

Vou-te citar novamente:Confesso que já me perdi no sauce / Mas ainda não foi essa a bota que eu não descalço / Acontece que houve percalços / Que me deixaram instável, ’tava a precisar de calços”. Esses percalços que te deixaram instável, enquanto Benji Price, presumo, foram necessários para o João Maia Ferreira traçar a trajetória que teve até agora?

 Em termos de física, realidade vá, há uma linearidade de coisas que tiveram de acontecer para que os eventos de hoje ocorressem da forma que ocorreram, ou seja, se eu tivesse saído de casa cinco minutos mais cedo, a 5 de outubro de 2018, eu se calhar tinha sido atropelado. Nesse sentido, teve de acontecer tudo o que tinha de acontecer. No entanto, eu considero genuinamente que quase todos os erros que eu cometi foram erros de burrice, foram erros de ignorância, e por isso, tento-me perdoar por eles. Mas ao mesmo tempo, às vezes também olho para trás e penso assim «pá, como é que tu alguma vez caíste nesta ou foste de acordo com esta ideia?» Até porque eu creio de já ter dito isto em algum lado, mas eu hoje muito mais perto hoje da pessoa que eu era antes do hip-hop. Ou seja, eu sinto que se pensar nisto como um caminho em linha reta, eu saí do caminho bué tempo e só agora estou de volta a encontrar-me nele. É claro que eu me considero agora uma versão muito superior, uma versão muito melhor de mim mesmo e estou muito mais feliz como sou hoje. Eu não quero ser igual à pessoa que eu era quando estava nos meus inícios dos 20, estás a ver? Gosto muito dele, mas essa pessoa tinha bué problemas que agora já não tem. Mas sim, do ponto de vista se calhar mais ideológico, eu estou muito mais perto do meu início do que do meu “eu” no meio da minha carreira, digamos assim.

 

Achas que isso teve a ver com o facto de o hip-hop ir buscar aquelas perspetivas mais de ego que um MC tem?

 Concordo a 100%. Acho que o hip-hop já se está a desprender muito disso, mas acho que ainda vai ficar cá mais uns anos. O hip-hop vem com uma série de ideias ou conceitos estabelecidos antes da tua entrada, e tu meio que quando entras das duas uma: ou segues a bala e vais um bocado com isso, ou então tu aceitas logo que és bem disruptivo e ficas aí, entendes? Eu já pensei de formas que eu sinto que hoje em dia são uma estupidez total e que eu só cheguei a pensar essas coisas porque eu estava sobre a pressão de outras. Eu aqui não me estou a referir concretamente a pessoas me porem pressão em cima, nada disso. Estou a falar mais da indústria e de como estás numa certa posição em que as tuas ideologias estão num ângulo morto, não as consegues ver, e tens de voltar a mudar de posição para conseguires vê-las de novo, basicamente é isso. Fui muito condicionado pelas ideias que já existiam no hip-hop, e digo isto de um ponto de vista geral, e por isso é que me afastei um bocado. E isto não tem nada a ver com seres humanos individualmente., atenção. Não é porque sei lá, eu não fazer um som com o Prof [Profjam] há seis anos, que eu me deixei de dar com ele e que não temos uma relação boa. Não é nesse sentido de afastamento que eu estou a falar, e espero que não façam essa ponte ou assumam essa suposição, é mais no sentido da indústria como um todo.

 

Queria abordar o início da “Pêra Doce”, naquele skit do início é o João César Monteiro?

 É sim senhor.

 

Porquê?

 Aquilo é um excerto de duas entrevistas separadas. Eu senti que ele estava a dizer coisas que se fosse eu a dizer sobre a minha própria faixa, não teria tanta graça, entendes? Porque eu teria de estar a dizê-las na ausência de um entrevistador, a fazer a mim próprio essas perguntas, então pensei «ah, eu curto muito destes dois momentos do João César Monteiro e isto vai muito de acordo com aquilo que eu estou a pensar neste momento», então peguei naquilo e pus no início e no fim da música. Assim, pode ser que as pessoas entendam de uma forma onde é que eu estou mentalmente sem ser com as minhas palavras, tipo, se não entendeste a música, de certeza que vais entender pela intro e pela outro. Depois, obviamente, ele é uma figura incontornável no cinema português e eu espero também um dia ser uma figura incontornável do hip-hop português. Nesse sentido pensei, «ok eu estou ao nível de poder utilizar uma cena dele e isto não parecer que eu estou a pegar em alguém bué acima de mim», estás a ver? Eu sou fã e em geral é uma combinação dessas coisas todas.

No dia 24 de outubro sobes ao palco da Casa Capitão para celebrar 10 anos de carreira. Vai ser um concerto para visitar o passado?

 Sim, eu não quero dizer já muito o que é que vai ser ou não ser, porque ainda estamos a alguma distância e eu ainda não o estou a preparar, sem ser de um ponto de vista anímico. Posso dizer vai ser num formato diferente. Eu normalmente toco sempre com banda e toco sempre arranjos para banda dos meus temas, mas isso não vai acontecer desta vez. Vou tocar com uma backing track ou seja, vou tocar com os instrumentais originais – e se calhar até pode ser das poucas vezes que eu faço na minha carreira, porque eu tenciono continuar com a banda – mas vou estar a tocar muita música pela primeira vez com a backing track. Acho que nesse sentido, as pessoas podem ter uma versão mais aproximada da versão de estúdio, e pode ser satisfatório para eles. Se tu fores a um concerto meu e se quiseres ouvir a reprodução mais fiel do que estás a ouvir em estúdio, vais sair brutalmente desapontado, porque eu transfiguro as músicas todas e elas são mesmo outra cena ao vivo –  obviamente te remetem para a original e usam as mesmas melodias e palavras, mas tudo o resto é embrulhado de uma forma bem diferente. Por isso, neste concerto esperem uma cena um bocado mais intimista da minha parte e obviamente com convidados. Acho que está na altura de dar ao povo e a mim mesmo a oportunidade de fazer isto desta forma.

 

Virado para o futuro, para onde é que olhas agora?

 Eu agora estou a mirar no como é que eu posso potenciar ao máximo aquilo que eu estou a fazer agora, ou seja, eu neste momento acabei de lançar este álbum e a minha preocupação é como é que eu promovo bem este álbum, como é que eu comunico bem e como é que eu falo acerca de como é que eu ponho as pessoas neste universo. De momento estou aí. É claro que não estou em hiperfoco, continuo a ter de pensar noutras coisas da minha carreira, mas de momento eu sinto que estou sempre a viver para potenciar ao máximo o meu dia atual, não descurando que existe um futuro e que eu também o tenho de preparar. Eu sinto que antigamente quando lançava um álbum, já estava ultra saturado dele, e atualmente eu quero estar com este álbum um bom tempo.É claro que vou preparando outro e também vou estar aí, mas quero existir neste universo o máximo tempo possível e é para aí que eu estou a apontar. 

NOVA ESCOLA HHR: Ícaro

“O meu público é bem feliz. Não são pessoas que estão a tentar gostar de mim. São pessoas que estão a tentar gostar delas.”

Diretamente de Aveiro, Gonçalo Ícaro surge para trazer uma nova faceta à música urbana popular portuguesa.

Licenciado em Teatro pela Escola Superior de Artes e Design, o artista divide-se hoje entre as vertentes de cantor, ghostwriter e poeta. Com uma personalidade muito viva, Ícaro traz uma poesia que joga constantemente entre a leveza e a descomplicação de temas mais pesados e introspetivos, assumindo a beleza da língua portuguesa.

É na música que os seus poemas ganham uma nova camada, fundindo-se com as melodias do cantor e com instrumentais versáteis que viajam livremente entre o pop e a bachata.

Em março de 2025, estreou-se com o projeto DESCULPA QUALQUER COISA, um EP composto por cinco faixas que se destaca pela sua estética rara e intimista, carregando consigo a identidade e o símbolo da cidade de Aveiro. 

No início deste mês de maio, o artista editou o single “NÃO DISSESTE NADA” e prepara-se agora para subir ao palco da Casa Capitão, já no próximo dia 5 de junho. Com o lançamento da faixa e o concerto a avizinhar-se, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar com o artista.

 

Começar, se calhar, pelo teu início, tu fazes parte do coletivo HALFWOODJEANS. Para quem não conhece, o que é que é o coletivo e como é que entra na tua vida?

A HALFWOODJEANS começa com uma vontade enorme de várias pessoas nas Caldas da Rainha de fazerem arte. Eu era um artista, já fazia música, e queria arranjar forma de pôr música cá fora, quase como num aspeto laboratorial – sabia que não ia começar a fazer carreira por pôr aquelas músicas cá fora, mas se tivesse uma boa estrutura, mesmo que fosse pequenina, ia conseguir começar a fazer as coisas. Ao todo são três designers gráficos e malta de audiovisual, que se juntam com o Francisco Verdasca, que também estudou som e imagem e é um técnico de som fortíssimo, e eu. A acho que um ótimo ponto de partida para qualquer artista é de se reunir com pessoas que, tal como ele, querem fazer arte. Não existe aquela vontade de fama, não existe aquela vontade de reconhecimento. Para já, nós só queremos fazer arte, nós queremos ter um catálogo artístico na rua.

E como é que surges depois, ou antes – não sei bem quando é que situa aqui – a Crvvo Records?

Eu fiz uma música com L-ALI chamada “MARIPOSA”, em que conheci a estrutura da Crvvo. E foi também nessa altura quando conheci o Henrique, que hoje em dia é o meu braço direito dos videoclipes. Pronto, e eu gostei tanto de trabalhar com eles que construí uma relação tão boa com o Paulo, que atualmente é o meu agente. Depois na minha vida, a Crvvo surge numa necessidade de eu ter um booker, de eu ter uma agência. E foi algo muito óbvio. A minha crença foi: quem é que são as pessoas por quem eu sinto empatia e amor? A minha música é sobre amor e toda a minha estrutura é sobre amor. Não há ninguém na minha estrutura que eu não amo e que não me ama de volta – e eu digo amo porque é uma coisa que as pessoas se têm de a habituar a usar e a verbalizar o verbo, porque o amor não pode ser tabu. Então todas as minhas escolhas, desde arte até à estrutura, é sobre amor. As pessoas que me acompanham são pessoas que sabem o meu nome todo, conhecem a minha família, conhecem os meus amigos. Inclusive já me deram casa quando foi preciso. É isso que a Crvvo, a HALFWOODJEANS e toda a minha estrutura são. São pessoas que demonstraram que o amor e a empatia existem no mercado onde cada um faz por si, porque o mercado não existe, como tu já deves ter percebido. Então é isso.

Quando estavas a falar da HALFWOODJEANS, tu tinhas dito que aquilo surgiu depois de teres começado a fazer música. Tu vens da escola das artes cênicas. Quando é que surge a música no teu percurso?

A minha música surge quando eu nasço, porque a minha família do lado materno é uma família muito portuguesa. Eles tinham uma banda de covers caseiros, era algo para a família, para as festas, para os casamentos, para os batizados. Então eu nasci no meio do piano, dos acordeões, das guitarras portuguesas. Portanto, a música começa aí. O meu fascínio pela música começa quando eu escrevo poesia – eu escrevo poesia desde os 12 anos. Cheguei aos 15 e percebi que, da minha geração, se calhar eu era dos poucos que lia livros e comprava livros e gostava mesmo de poesia. Eu começo a fazer música quando penso: se eu fosse um livro, tu não me conhecias. Se calhar era menos homem ou menos artista e no fundo não me lias, porque tu amas arte, mas não aparecias e agora aprecias-me.

Este é o mote da minha música. Eu fiz música porque a minha poesia não ia chegar às pessoas a partir da literatura, e eu que não quero acreditar que a poesia é uma arte morta, então trouxe-a de volta para a música. Eu quero que as pessoas me vejam como artista, quero que as pessoas até me possam ver como músico, mas se as pessoas me virem como poeta, está fechado. Era isso que eu queria.

Como é que tu fazes, ou consegues fazer, a divisão entre o que é um texto poético e depois o que queres levar para a música? 

Ok. Eu só fiz duas músicas na minha vida de improviso, a “MARIPOSA” e um som do próximo projeto chamado “Acender-te um Cigarro”. De resto, são tudo poemas. Eu escrevo todos os dias: é a minha fuga, é o meu FIFA, é o amor da minha vida. É a mensagem. É o quão consigo trabalhar a minha arte para o outro. Então as minhas músicas começam sempre em poesia e  depois vou procurando qual é que é o género onde aquela música se encaixa melhor. Na “QUEQ SABES D’LOVE”, a bachata acontece porque há ali um verso ou outro em espanhol e eu quero que se crie uma linha comum, então misturei o trap com a bachata para dar aquela energia ibérica, digamos assim. Mas é isso, começa sempre pela poesia. O depois é o depois. Eu quero escrever, eu quero ir à minha varanda fumar o meu cigarro, escrever um poema que vai fazer com que eu me deite a saber que ontem eu escrevi a frase. Ontem eu escrevi aquela frase.

Não vou dizer tentar forçar, mas tu acordas e pensas que todos os dias tem de sair dali algo novo, ou é tudo natural?

Nunca, nunca. Nunca forço. Isso acontecia às vezes para escrever para outros porque sou ghostwriter, e às vezes é tipo «ah, eu preciso entregar esta letra», mas acaba por ser muito mais fácil também. Quando eu tenho a informação do outro artista é só criar um poema à volta da pessoa, quase uma homenagem à pessoa. No meu caso, eu não penso que vou escrever. Eu sei que vou escrever, e que pode não ser incrível, mas sei que vou escrever.

É um laboratório. Nem todos os dias um cientista vai para o laboratório e vai sacar a cura do cancro. Eu nem todos os dias vou para a varanda e vou arranjar a cura para a paz, ou a cura para a guerra, mas eu sei que se me sentar ali todos os dias durante uma semana, vai haver um dia em que eu vou fazer uma frase milionária. E é ter fé nisso. 

Eu não partilho muito a minha vida pessoal nas redes sociais como as pessoas fazem, porque eu gosto mesmo muito da minha vida. Eu gosto muito da minha vida privada. E vivo a tanto que eu sei que quando escrevo eu vou ter alguma coisa para escrever. Então não sinto essa pressão da vida. Já senti esse sítio, mas cada vez mais sinto que não é preciso por essa pressão na vida, que tudo é mais importante do que o que eu escrevo porque tudo o que eu escrevo é um bolo de tudo aquilo que eu vivo. Então é muito mais importante a vida do que o trabalho. É muito mais importante a vida do que o nine to five. É muito mais importante a vida do que o hustle de um gajo que investe em ações e tudo mais. Nós trabalhamos para a vida e, portanto, o trabalho não é a principal coisa. A poesia, para mim, é um laboratório emocional onde eu me avalio, onde eu tento encontrar a minha melhor versão. Há uma passagem bíblica que fala em amar o próximo. Eu acredito que amar o próximo não é só amar o Henrique que me está a entrevista. É também conseguir tirar o melhor do Henrique nesta entrevista, por exemplo, as melhores perguntas do Henrique. Só assim vou trabalhar para a minha melhor versão. Então amar o próximo não é só amar o que está à minha frente, mas é amar o meu “eu” que está à frente, o meu “eu” de amanhã. Isso é amar o próximo. Eu gosto que a minha música reflita este sítio de uma pessoa que tem constante mutação e construção para o bom.

Mencionaste que és ghostwriter e gostava de abordar isso. Quando escreves para alguém dás uma parte de ti, do Gonçalo Ícaro, ou tentas jogar de outra forma?

Jogo de outra forma. É um coletivo. Quando eu estou a escrever para alguém é um coletivo. Eu não sou jogador, sou mais um treinador-adjunto quando estou a escrever. Não sou eu que dirijo a sessão, não sou eu que dirijo a música. Sou eu que digo «atenção que essa palavra na métrica não te vai ajudar, mas se tu usas esta palavra se calhar, pode ser mais fácil», é este o meu trabalho. É quase como se eu fosse um dicionário humano que vai ajudando a pessoa a entregar melhor a sua mensagem. Quando um artista vai dar um concerto eu estou lá. A letra é minha. Eu recebo uma percentagem por aquilo que está a acontecer, mas nunca sou mencionado. Mesma coisa, não faço conferências de imprensa, isso é para o treinador.

Há bocado quando mencionaste a “QUEQ SABES D’LOVE” também tinhas mencionado aquele verso que tens em espanhol. Isso já acontece em várias músicas tuas, de onde é que vem esse teu toque de querer trazer essa parte?

Eu não quero tornar isto polémico, mas isto não pode ser polémico, estamos em 2026. Eu não acredito nos artistas portugueses que criam barreiras. Eu não quero dar nomes, mas há muitos artistas que ficaram grandes por quererem tornar o português uma coisa grande. E as pessoas não percebem que se nós não dermos a mão às outras línguas nós não vamos conseguir ser um povo que é ouvido pelos outros povos. Tenho uma família muito variada, desde italianos a brasileiros, portanto, se eu não falasse outras línguas eu não estaria a representar a minha família. De certa forma é isso. Sempre que as pessoas me veem a falar outra língua é a minha vontade de tornar global, porque no futuro eu gostava de fazer colaborações com hispânico-americanos, com os latinos, que não é a mesma coisa, não é? E isso só pode surgir se existir uma predisposição por parte do artista português em mostrar ao mundo que há esta facilidade. Porque toda a Europa sabe que os portugueses falam tudo e que nós nos “desenmerdamos”. Então no fim do dia, como é que nós “desenmerdamos” a cultura portuguesa para uma coisa maior? Pedindo ajuda. E o povo português é um povo demasiado orgulhoso para pedir ajuda. É assim que se pede ajuda. É pondo um verso em espanhol aqui, um verso em italiano ali, um verso em francês ali. E não precisamos de ir por mim, posso dar o exemplo do Chico da Tina, que deve ser dos artistas mais internacionais em Portugal, que já cantou em alemão, já cantou em francês e já cantou em italiano. Nós vemos as colaborações dele pela Europa fora e ninguém se lembra que são estas atitudes que fazem com que Portugal seja mais daqui a dois, três anos. Podem não gostar do Sippinpurpp, mas ele recentemente colaborou com o espanhol, e os dois estão a derrubar essa fronteira. Se nós somos assim tão bons, bora falar as outras línguas. Vamos pôr a portugalidade num sítio de potência e não num sítio ranhoso, que a nossa cultura é muito. 

O fado é elitista e o hip-hop é purista. Os rappers nunca me viam como um rapper porque cantava e os fadistas nunca me viram como um fadista porque a minha letra era demasiado urbana. E de repente, o que eu estou a fazer é mandar um ganda f*ck aos dois departamentos, juntando-os. Se estes dois mundos não quiserem, não se dão, mas eu sou singular nisto tudo que eu estou a fazer e vou juntá-los. Eu estou a rotular a minha arte como música urbana popular portuguesa, porque não vão ser os académicos a dizerem aquilo que eu sou, quando eu próprio sou um académico. Não vai ser um académico a dizer que a minha música é pop ou que é hip-hop alternativo. Desde 2016 que não se criava um departamento novo em Portugal – criou-se o trap e foi uma importação. «Ah, Gonçalo, mas isso já existia», mas não existe o rótulo, é isso que nós precisamos. Nós precisamos que o rótulo chegue à SPA, precisamos que o rótulo chegue a Audiogest, precisamos que o rótulo chegue a Portugal e que as pessoas percebam que isto é novo, é nosso e é para todos. E não sou só eu, a Iolanda está metida nisto, o xtinto está metido nisto, o Rodrigo 13 está metido nisto. Todas as pessoas que nós ouvimos a tocar uma guitarra portuguesa e a meter uma métrica urbana, tem um nome. Eu só criei o nome, mas eu não sou a única pessoa que está a fazer isto. 

Pensas e imaginas em colaborar com malta lá de fora?

Claro. Mas atenção, eu nunca penso muito em colaborações. Quando faço música, faço música do início ao fim. E a maioria das colaborações que vocês vão ver daqui para a frente são músicas em que eu escrevi o refrão e o primeiro verso e depois disse «não quero escrever mais, vou arranjar alguém para fazer o segundo verso». Eu sou sempre convidado, mas eu nunca convido, porque quando estou a criar, não penso «ah, vou chamar alguém». Mas posso aqui dizer que nos últimos tempos escrevi músicas em que a temática já me leva a pensar em alguém. Não quero dizer a temática, não quero dizer quando é que vai sair, isto é, para mim é tudo muito sensível. Mas há músicas em que eu olho e penso que se não for aquela pessoa especifica, não quero ninguém na faixa

Por falar também em colaborações, quero mencionar, obviamente, a tua passagem pelas bacave sessions. Como é que surgiu o convite e como é que foi a experiência? A cena de chegares lá e saíres de lá com um som feito. Um som, que atenção, está a ir muito bem!

Eu fico muito contente. Fico contente por mim e fico muito contente pelo bap [bapcat] porque ele é genial. Ele merece tudo o que lhe está a acontecer agora – ele e a Andamento, a malta dele. Eu recebi o convite depois de lançar a “QUEQ SABES D’LOVE” porque o Vespa [VSP AST] ficou com a música na cabeça e aquilo gerou ali um… foram falando e na altura que precisavam de um convidado e chamaram-me. Quando me convidaram achei estranho, porque eu não sou ninguém na fila do pão. Na altura não era, não acho que seja ninguém na fila do pão e tenho a certeza que da forma como eu levo a minha vida, eu nunca me vou achar mais do que alguém da fila do pão. Quer dizer… A menos que faça o meu pão e seja o meu próprio padeiro, aí é diferente. De resto, não sou ninguém na fila do pão. Quando ele me chamou fiquei muito contente. Depois, nós sacámos a música em três horas. Eu tenho já muito treino de chegar a estúdio e fechar a música para o outro, então nunca existiu essa pressão. No entanto, posso dizer que a nível da ansiedade foi diferente porque nunca tinha estado num desafio daqueles. Parecia meio um American Ninja Warrior, mas na música – estafetas, obstáculos, pensar no que é que eu quero dizer, no que é que eu não quero dizer. O que queria mesmo era falar dos meus valores e falar de amor – porque não há como eu falar na música sem falar de amor, é tudo o que existe. 

Nesse dia cheguei a casa e não sabia que música eu tinha feito. Eu lido muito bem com a pressão, mas acabámos o som, fomos a um convívio, estávamos a falar e eu estava num sítio que parecia uma tela em branco, eu não sabia o que tinha feito. Passado uma semana recebo o export, olho e digo assim: o que é que eu sinto, o que é que eu fiz? Tipo ainda não sei ainda não sei bem o que é que fiz, mas sei que entreguei um dos melhores poemas da minha vida aqui sem querer. O “só quer vida da bandida quem não nasceu nela” vem da vontade gigante de querer falar da minha zona, de querer por Aveiro em cima da mesa. Eu estava numa altura da minha vida em que eu precisava de algo que me desse visibilidade, e depois tocar a música ao vivo no Maus Hábitos, foi a primeira vez que eu senti que tudo aquilo que eu tinha dado nos últimos 10 anos, e que achava que tinha ido para o lixo, de repente estava-me a dar a oportunidade de me segregar. Eu sou uma pessoa que vive muito para o outro, porque vivo muito em mim e vivo muito em volta dos meus. Naquele momento, eu precisava que o público me dissesse que estava tudo bem. Eu sei o que é dar concerto para duas pessoas, pagar para dar um concerto, e mesmo assim ter sempre um sorriso na cara. Eu não me lembro de chorar tanto de felicidade por ter um público que sabe o meu som. Para mim, gritar o som ou dançar o som é uma coisa, mas eu como poeta ver pessoas a cantar uma música do início ao fim, uma letra que se fosse para o livro, tu não lias e não ias saber aquele poema do início ao fim, pá… Eu posso dizer que houve alguns dias na semana a seguir em que quando me levantei e tive perceção da realidade e do que se estava a passar, chorava de felicidade.

Eu tenho uma letra para a minha musa em que digo: tu que choras com poemas em vez de problemas. Eu sou essa pessoa agora, eu choro muito mais com um poema, eu emociono-me com poema na rua, eu emociono-me com o gesto da minha namorada, eu emociono-me com gestos pequenos atualmente. Hoje, os problemas já não são problemas, porque eu já conheci o meu público. Eu podia morrer amanhã e o meu público sabe quem é que morreu, é isto.

Essa noite foi a chave de ouro?

A par da relação que eu tenho, foi o início mais bonito da minha vida. Eu lembro-me de chegar, começar a cantar e existir uma energia enorme que me absorve, que é maior do que eu. Depois quando saio do palco, tenho uma quebra de tensão enorme porque o mundo fez-me assim [estalar de dedos] sabes? Passado 10 anos e de tentar tudo, do nada o público serviu-me amor, e ele nunca me tinha servido amor até aquele dia. O dia 1 de outubro de 2025, que foi o dia em que eu fiz a sessão do bap, eu ia começar a trabalhar numa loja. Eu pedi à loja que me desse mais 3 dias para eu poder fazer aquilo, porque era importante para o meu futuro, e eles disseram que não havia hipótese. Eu caguei e senti mesmo que alguma coisa me estava a dizer que se eu largasse aquilo, e se eu fosse a sessão, a minha vida ia mudar. E bro, tenho datas fechadas, tenho um público, tenho pessoas que admiram a minha arte e pá, é isso, sou um gajo grato. Não sei quem é que anda aí, não sei que tipo de artistas é que andam aí, mas eu a partir de agora só quero trabalhar com pessoas que estão resolvidas e que estão gratas pela vida, porque eu não aceito outro tipo de energia. 

Queria falar sobre o DESCULPA QUALQUER COISA. Na “CÉU DA BOCA” tu mencionas o Dalí, a Frida Kahlo, o Van Gogh, depois o Saramago; na “MOLICEIRO” mencionas ainda o Duchamp. De que forma é que este leque de artistas influencia o teu trabalho ou o teu percurso?

O Duchamp é fixe porque leva-nos ao Dadaísmo e leva-nos à linguagem Dada. Por exemplo, quando cantei o “LINDA” em Setúbal, eu não sabia que as pessoas sabiam a letra de cor. E quando eu me apercebo disso, mando um berro e continuo. Eu não quero dar o berro, mas o êxtase fez com que aquela linguagem se desse. Isso é do Dadaísmo. Quando eu estou ao meio do concerto e faço [barulho com boca] isto é a minha linguagem, este tipo de coisas ajudam o público a perceber qual é que é a minha energia, porque um gajo que faz isto é um gajo que não se leva a sério – e ainda bem. A minha arte é para levar a sério, mas não me levem a mim tão a sério. Se eu não me levo a sério, imagina tu agora o fazeres. O Van Gogh é mais uma referência que depois encaixa bem ali; o Saramago e a Pilar entram porque são o meu exemplo de relação amorosa. Para mim o Saramago foi o homem que teve a capacidade de meter a Pilar como uma musa, como uma santa, e viver aquele amor sem nunca rotular o amor. E é isto, é o ponto, pronto. Eu faço muitas referências porque quero te ajudar a ti, público, a criar uma linha de pensamento que já exista. Eu não tenho de esconder as minhas raízes, não tenho de esconder quem sou só para isto funcionar. Eu referencio sempre quase como apoio do que quero dizer, ou seja, se acho que há um artista muito forte na mensagem paisagística, então eu vou mencioná-lo para a malta perceber onde é que eu quero ir com aquela mensagem, quase como um duplo sentido. Se tu conheces a obra deste artista, vais perceber o que eu quero dizer. Se tu não percebes o que eu quero dizer, eu quero que o meu público tenha a ousadia e a disciplina de ir procurar – e eu sei que isto está a acontecer. E se calhar, do nada, uma pessoa que não tem o quarto ano, que nunca ouviu ou que nunca cedeu à leitura de certa coisa, de repente está a procurar aquilo que eu quero dizer. Uma pessoa que nunca deu Nietzsche na escola; ou que Frei Luís de Sousa lhe passou de lado; ou que Van Gogh nunca lhe interessou, de repente há um artista que te obriga a teres o trabalho que tu nunca pensaste ter. É um jogo, é um desafio, é uma peça de teatro. E todos nós estamos aqui a trabalhar.

Um ano e pouco depois como é que olhas para o EP?  

Em termos de pessoa, o EP já não transparece aquilo que sou. Já não sou aquela pessoa tão triste, tão acutilante, que está sempre num sítio de superação e de amor próprio. O projeto é uma passagem super importante na minha vida, é o meu primeiro projeto, é o meu primeiro filho e está a envelhecer muito bem. As pessoas estão a gostar dele. O “LINDA”, que foi uma música que passou um bocadinho ao lado, está a gerar o boom que eu queria. Fiz essa letra a pensar em algo que todas as mulheres gostassem de ouvir, e em algo que todos os homens tivessem coragem de dizer. Eu queria fazer uma letra que fosse forte o suficiente para poder falar com a minha musa. Há coisas no EP que lhe queria dizer, mas que não tinha coragem. Eu queria fugir e tinha medo que ela fugisse por eu ter pânico de sentimentos, então deixei uma obra. O EP ajudou-me a desculpar também de algumas atitudes que eu tive para comigo, porque sou filho de Deus e eu quero ser uma pessoa boa, que trabalha em comunidade. 

Eu sou privilegiado, era o único branco da minha zona e era muito difícil – e isto pode parecer estúpido – mas sou privilegiado, porque isso queria dizer que quando a polícia corria atrás de nós, não atirava em mim. Todo o trabalho que estou a fazer agora a falar de amor é acima de tudo para a minha comunidade falar disso. Sempre que vires colaborações minhas com a malta de 234, vai ser sempre com músicas de amor. Estou a tentar que a malta da minha zona fale de amor e deixem de falar de crime e drogas. Os artistas de rua andam a ser multados, as casas de espetáculo em Aveiro andam a fechar, não há locais de criação para artistas nem novas oportunidades, portanto agora, mais do que nunca, estando nesta posição, tenho de falar disto. O meu gesto poético vai ser um ato político, porque tem de o ser. No fim do dia, tudo o que faço é por amor à minha comunidade.

A tua malta de 234 é a que aparece agora no videoclipe da “NÃO DISSESTE NADA”?

Não é só o meu grupo de amigos. Eu chamei algumas pessoas que não me conheciam, só conheciam o meu trabalho, e que eu estou a par do trabalho deles na comunidade, seja a nível do lazer; do desporto; do ambiente; da medicina; da ciência; do entretenimento; ou da comunicação. Eu disse-lhes que queria fazer isto pela comunidade, que queria gravar em Pardilhó – que é uma zona que ninguém conhece de Aveiro e que é estúpido, porque é lá que também se fazem os moliceiros e onde se cria o gado que leva os moliceiros para a água – portanto, é isto, somos nós que estamos a levar o moliceiro para a água, então vamos gravar em Pardilhó. E segundo, são tudo personagens, são pessoas que estão a elevar Aveiro. Era o que eu queria. São as pessoas da 234, que não é uma facção, não é crime organizado, não somos bandidos. Os bandidos existem, e também se dão connosco? Se calhar. Mas também me dou com pessoas da política, que são bandidos diferentes. É o que é, só depende da forma como vemos as coisas. Mas sim, as pessoas que estão ali são a 234, que é um movimento de comunidade e de elevar Aveiro. E isto não é só artístico. Em todas as lacunas que existir alguém que gosta de Aveiro, que tem essa paixão pela cidade e quer que a Aveiro seja maior, automaticamente está a lidar comigo e automaticamente eu estou a lidar com a pessoa, não a preciso de conhecer. Eu conheci o Dinis Mota, por exemplo, que foi ao Festival da Canção, por esta associação, por esta vontade de fazer as coisas. A amizade vem por estarmos na mesma jogada cultural, de estarmos a pôr a Aveiro num sítio diferente.

Esta parte visual da música é trabalhada por ti e pelo Henrique Rocha, que já tinhas mencionado no início. Imaginar estas narrativas que acompanham a música é algo que dá pica também depois para trabalhar?

Pá, bue. Imagina, quando nós chegámos ao cerne do que é que eu queria dizer na música, abriu logo espaço para o videoclipe. Quando pensámos no «tu não vás de cavalo para burro, nem faças de mim burro» a cabeça ia para a cena de: eu ainda sou cavalo, mas por tu não dizeres nada e por eu não ter coragem de te dizer o que vai na minha alma, eu sinto-me um burro, isolado num prato, num silêncio. E eu só sou cavalo com os meus, eu só sou manada com os meus. Então é um bocado isso. Os momentos de festa são com a malta, em que eu não penso sequer, e é onde tu vês o sorriso. Eu nunca mostrei o meu sorriso em nenhum videoclipe até agora, mesmo de rir, de estar a ter prazer, e de repente vem a solidão do burro. E aquela imagem que nós vemos quase da morte, a trazermos o burro pela carroça, é essa decisão de eu querer vencer a morte. Se eu não pudesse ficar com esta pessoa, eu não me importava de carregar o peso para que esta mula de carga, que carrega o que sinto, fosse livre. Ou seja, eu não queria ser um problema para essa pessoa, eu não a queria distrair nem incomodar. E uma coisa que eu já lhe disse e que posso deixar aqui. Das coisas mais bonitas que eu já disse à minha musa foi: se eu amanhã acordar e tu não fores minha, eu quero-te feliz na mesma. É este o ponto. E tudo anda à volta deste sítio. Que é, eu sei que os meus me fazem maior e que gostar de ti às vezes me deixa burro de amor. Mas burro sou eu porque não te digo. Burro sou eu porque não vou à procura e estou à espera das tuas perguntas. E estou quase, estou neste processo de desmame porque eu não tenho coragem.

O lançamento da música está a correr muito bem.

Fico muito contente, não sei bem o que é que anda a acontece… quer dizer, a “NÃO DISSESTE NADA” é Santos Populares, e se calhar as pessoas querem um hino de Santos Populares. De repente este pode ser o hino. Dia 5 de junho vamos fazer o assalto aos Santos na Casa Capitão.

“A minha arte não vai mudar o mundo, mas se salvar o meu dia, pode mudar o dia de outro.” Já te aconteceu veres ou leres alguma coisa que tenha mudado e tenha salvo o teu dia?

Já. Vou dizer a última, o último poema que me salvou a vida. No Dia da Mãe eu não tive a oportunidade de passar o dia com a minha mãe, é o que é. A vida nem sempre é fácil. E fui comprar umas flores para ter em casa, porque eu sabia que se ela chegasse a casa ia perceber o poema. Eu fui à florista e estavam dois miúdos a comprar flores. E o miúdo mais velho disse «ah, devíamos levar rosas brancas para a mãe» e o mais novo disse «não, eu quero aquela» que era uma orquídea roxa. Eu fiquei tipo, olha tão giro, orquídeas. E o mais velho disse, «mas porque é que não levamos rosas brancas para a mãe?» e o miúdo mais novo – o miúdo não tinha mais de sete anos – diz, «mas a campa da mãe só tem rosas brancas». O miúdo de sete anos tem a maturidade de dizer ao mais velho que quer dar cor à vida da mãe que não tem vida, é isto. A poesia está nestes momentos. Eu cheguei a casa e escrevi durante três horas e chorei durante essas três horas. Porque estou grato. Porque sou feliz. Entendes? E aquele miúdo vai ser um miúdo maduro. Vai ser enorme aquele miúdo. Já teve maturidade de dizer isto ao irmão e à florista e me pôr uma vontade sua porque quer cor na vida da mãe.  É nisto que a poesia salva a minha vida. E eu quero conseguir poemas tão grandes quanto a atitude deste miúdo. E sei que houve pessoas que por ouvirem as minhas letras, já repensaram melhor na sua vida. Eu nunca pensei que as pessoas tatuassem as minhas frases no corpo. Isso já existiu. Frases que também me ajudaram a ultrapassar e, de repente, eu estou a ver na pele das outras pessoas. A poesia está a salvar a vida porque eu quis que fosse a poesia salvar a vida do outro. O meu público é bem feliz, o meu público quer festa, o meu público quer este culto. Não são pessoas que estão a tentar gostar de mim. São pessoas que estão a tentar gostar delas. Isto é muito maior.

Eu acho que o teu público é mesmo um grande reflexo da pessoa que és e que transmites ser. Se calhar essas pessoas, que já estiveram nesse outro ponto da vida e depois quando te foram ouvir, viram-se conectadas. E os teus concertos são mesmo uma celebração.

Também se calhar por causa disso. É isso, é uma celebração. É porque as pessoas, quando estão a berrar, estão a berrar as minhas letras, a minha poesia. Não é só a música. Eu não subo a palco não é para estar a curtir o 808 – também curto, mas eu subo a palco para ouvir a minha poesia. Enquanto o público berra as minhas letras, eu estou a ler o meu livro. 

Para o futuro, o que é que podemos esperar mais do Ícaro? 

Podes esperar mais do Ícaro. O futuro. Essa é a resposta. Porque o Ícaro nunca quis tanto estar na vida. O Ícaro, pela primeira vez, está a construir a ideia de saudade. Pensar que daqui a três meses, olho para trás, e eu vou ter saudade disto. Eu nunca tive saudades. Mais uma vez, eu nunca tive saudades. Eu cheguei aos meus 27 anos de idade sem ter saudades de nada. A achar-me menos português, menos artista, menos poeta. Porque eu não tinha saudades de nada. Porque lá está, quando passas uma vida de me**a, mesmo quando perdes as pessoas, tu gostavas que as pessoas estivessem na tua vida. Mas tu sabes que para as pessoas estarem na tua vida, tu tinhas de estar naquela altura. E eu não quero voltar à pobreza. Eu não quero voltar a almoçar a mesma coisa todos os dias. Eu não quero voltar a eventualmente não ter sofá e ter de escolher um banco de jardim para pernoitar à noite. Eu estou no mundo, dou-me com vários produtores, dou-me com várias pessoas e eu nunca me quis vitimizar. Mas eu tenho noção que a vitória vive das derrotas. Então, eu não posso deixar de dizer o que é. Nunca amei nenhuma fase da minha vida como estou a amar agora. Faria tudo igual para poder estar a viver todos os dias o que estou a viver hoje. Faria tudo igual para poder estar a entregar esta mensagem a ti e saber que tudo que vai sair desta entrevista é verdade e que é com coração e que é isso. Eu sou suspeito porque vivo em mim, mas eu acho que estes próximos dois anos vão ser anos incríveis, não só para mim, como também para quem gosta da minha arte e me acompanha. Estou a espalhar a mensagem e eu quero acabar com os demónios da malta. Porque para que é que estás a entregar uma mensagem alta se as pessoas ainda não trataram das suas raízes? Como é que a árvore vai tocar no céu se tu não entras na escuridão das tuas raízes e não as trabalhas?

Mas posso dizer também que podem esperar um feat próximo com o VSP AST. Esta posso vos dar de graça porque nós já apresentámos o som. Estamos a dar leak de vez em quando eu subo a palco nos concertos dele. A malta fica lixada porque o som não saiu, mas a campanha é essa. A campanha é eu e ele nos divertirmos a dar o show, a dar aquele som. E quando o som sair é de todos. E é muito giro porque as pessoas não sabem o som, mas vibram connosco na mesma e estão lá connosco na mesma e é muito divertido. O Nando [VSP AST] e a malta de Coimbra têm feito um trabalho excelente na descentralização, e eu inspiro-me bastante. Aliás, eu inspiro-me bastante na descentralização do Vespa, da pikika com Portalegre, do xtinto com Ourém, da Iolanda com Leiria. Mesmo por parte da malta da SMORRA, do Espama Trincana… tudo o que é descentralização e que está a levar sítios que nunca foram muito falados a outro ponto eu inspiro-me. 

Um dos meus grandes objetivos é que daqui a um ano eu não seja comparável a ninguém. Não é porque sou melhor que ninguém, é porque a singularidade é tão imposta e está tão em cima da mesa que tu não tens capacidade para o fazer. Quero que o Ícaro seja um artista para tu desfrutares. Quero que seja um artista que acabe o concerto e que seja capaz de beber um fino com tu e fumar um cigarro contigo. Tenho muita ansiedade social, mas a minha arte está-me a ajudar a limpar esse sítio. 

 

NOVA ESCOLA HHR: about jlm

“Isto é um trabalho diário de autoconfiança e de reconhecimento do trabalho feito”

A NOVA ESCOLA está de volta na Hip-Hop Rádio, com novos convidados.  Hoje, foi a vez de ficarmos a conhecer o artista gondomarense, about jlm.

José Luís Monteiro estreou-se no panorama musical em 2020 e conta já com dois álbuns na sua discografia. Lançou, em 2023, Éter, o seu primeiro longa-duração, e no ano passado A\WAY, que recebeu uma versão alargada. A Extended Edition, lançada na passada sexta-feira, 24 de abril, surge como o reabrir do álbum, que agora se encerra definitivamente. Este novo lançamento traz à luz histórias e reflexões que ficaram por contar no seu período na Estónia, explorando os seus sentimentos mais azuis e introspetivos.

Para ficarmos a conhecer melhor a mente criativa do artista e um pouco do trabalho por de trás dos seus projetos, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar com o rapper.

De engenheiro eletrotécnico para artista musical ainda vai um saltinho. Quando é que descobriste que fazer música era mesmo o teu plano A? 

Pá, começou a ser um plano, sem qualquer tipo de letra a seguir. Foi em 2019 que eu comecei a escrever as primeiras dicas e a curtir de musicar alguns poemas que eu tinha. E pá, quando é que se tornou um plano mais a sério, um plano A, foi… basicamente quando eu comecei a trabalhar como engenheiro. Ou seja, eu terminei o meu curso e sempre foi do tipo: eu sempre fiz música, sempre gostei de fazer, mas às vezes senti que não era assim tão a sério a coisa. Ou seja, ia fazendo, tinha sempre como uma ideia na cabeça, mas eu não estava a esforçar-me assim tanto. E depois surgiu a altura em que eu terminei o curso, as minhas rotinas mudaram imenso e comecei a perceber que música era o que eu curtia mais. 

Nos primeiros anos a fazer música era muito catártico, eu tinha mesmo de dizer coisas e depois meti-me a fazer um álbum, feito de maluco [risos]. Tive uma ideia de fazer uma jornada imaterial pelo ser – que é assim que eu descrevo sempre, que é mesmo para ser complexo – porque na altura decidi fazer uma cena super poética, super abstrata, e andei a bater a cabeça com aquilo dois anos, basicamente. 

Isto acontece até ao meio de 2023, depois eu fui para a Estónia e foi isso foi o que mudou a minha vida completamente. Foi quando eu escrevi o meu segundo álbum, o A\WAY, que comecei a levar a coisa mais a sério. Comecei a querer cantar mais, a querer ser mais solto, a abordar um tom mais descomprometido.

Como é que vês o conjugar da música com o trabalho? 

Para mim é bem fixe porque eu sinto mesmo que sou tipo Batman, tipo vida dupla [risos]. Eu curto este conceito de vida dupla porque eu tenho uma vida completamente diferente ali, onde depois até posso ir beber lá para pôr nas minhas cenas. Estar a trabalhar também me veio trazer uma rotina e melhorar a vida nesse aspeto: comecei a treinar, a ler consistentemente, a cantar. Os meus hábitos mudaram muito. O meu próximo álbum é um bocado por aí. Vou abordar este conceito da vida dupla, que a maior parte dos artistas emergentes em Portugal têm de ter. A cena é que eu acho que é fixe dar embrace a isso em certa medida, pelo menos quando tu curtes o trabalho que tens sem ser o da música. Eu estou a dar o meu melhor, estás a ver? E acho isso muito fixe.

Tu, como muita malta que explora também o rap, começaste com sons mais densos, como o caso do Tocha e do Azáleas. Se formos ouvir a tua discografia, vemos que tens trabalhos muito diferentes desde esse teu início. Quando é que surgiu essa vontade mais melódica e porquê? 

Olha, boa pergunta. Sim, eu comecei muito no rap mais métrico e ácido, em certa medida. A primeira vez que eu peguei em autotune foi no estúdio dos 5DM, que são uma banda lá do Porto. Basicamente eu tinha-os convidado para tocarem num evento que fiz na faculdade, fiquei amigo da malta e depois fomos a estúdio. Eles convidaram-me para fazer um som e eu estava a escrever o meu verso e deram-me um microfone com autotune. Ao início estranhei, mas comecei a curtir. Na altura fiz uma melodia pequena, mas uns amigos adoravam e então a partir daí comecei a tentar explorar um bocado essa parte mais cantada. No entanto, quando fui de Erasmus comecei semanalmente a ir ao karaoke, era uma cena que eu adorava. E qual é que é a cena? É que eu não ia todo cego [risos], eu ia para lá como se fosse um ensaio. Eu não tinha dinheiro para ir aos estúdios na Estónia e também não tinha grandes contactos, então o karaoke eram os meus ensaios.

Qual é o teu go to no karaoke? [Risos]

É começar com This Love dos Maroon 5, depois ir para uma How You Remind Me dos Nickelback, ou uma Creep dos Radiohead, e depois para terminar a noite com a Careless Whisper do George Michael. Para mim foi realmente diferenciador [risos]. Depois voltei a estúdio e o Manu virou-se para mim e disse que até estava a cantar melhor [risos]. Agora por acaso uma cena que vou investir é em aulas de canto, quero aumentar o meu range ainda mais.

Algo como a CARELESS, que tem aquela vibe 80’s, deixou-te um bichinho para explorar mais estilos? 

Por acaso este exemplo, da CARELESS, é muito específico. Eu queria fazer uma dica que tivesse a sample da Careless Whisper e queria que fosse um beat a puxar o Alone at Prom, do Tory Lanez. Eu adoro esse álbum e também ouvia bué nessa altura da Estónia, fazia-me bué sentido fazer um som assim. Eu curto bué desses beats, mas o que tenho feito daqui para a frente não tem nada nesse sentido, os próximos projetos que estou a fazer misturam muito o rock e a eletrónica, sonoridades digitais. 

Estou a trabalhar com o Marinho, lá em Vizela, onde andamos a misturar muito sintetizadores, guitarras elétricas, distorções, cenas nesta onda. Depois também temos a parte eletrónica como um house, tipo Honestly Nevermind do Drake, por exemplo – está a ser um projeto em que andamos a ir buscar algumas cenas desse álbum, muitas vezes por causa das batidas. É uma onda que nós curtimos e está a ir por aí, mas é um álbum de rap à mesma. Eu curto bué de fazer cenas diferentes, já nem me lembro de rimar em cima de alguma cena da net.

Tu lançaste agora a Extended Edition do A\WAY. Isto eram sons que já estavam feitos na altura em que lançaste o projeto ou foram sons que te saíram depois? 

Eles já existiam, mas não tinham sido gravados.

Sentiste então que faziam sentido incorporar e materializar nesta fase do A\WAY?

Sim, sem dúvida. Eu chamei a Extended mesmo por essa razão – não é um deluxe, é a extensão, uma continuação. A CARELESS e a VAMPIRA, que são dois sons que não são remakes de outros, até já estavam escritos na altura em que estava na Estónia, só que meio separados – um verso da CARELESS estava num som qualquer que depois não saiu, ou que eu não cheguei a gravar porque o som em si não estava fixe; outra parte da VAMPIRA tem dicas que eu já tinha escrito antes, estás a ver? E depois foi um bocado completar a cena com uma nova roupagem. Depois, a CLOSER (Acoustic Version) já tinha sido feita no início de 2025, a ALRIGHT, PT.2 foi o DJ Welk que me disse que curtia e pegar nela – na altura até já pensava no deluxe e também queria ter uma versão da diferente desse som, então acabou por sair – e a PORSCHE é o único som que já estava feito na altura, que é uma demo da NO WAY. 

Tu falaste da CLOSER, que leva agora uma nova roupagem. Como é que essa ideia surge, de pegares num beat de rap, para lançares numa versão que até puxa um bocadinho do reggae?

Pois puxa, puxa um bocado um reggae, não sei explicar porquê. Eu disse ao pessoal que queria fazer uma cena dessa música só com instrumentos, com banda a puxar um bocado do rock, uma cena bonita, mais lenta. E foi aí que a cena surgiu, fomos para o estúdio com os instrumentistas todos, começámos a fazer o arranjo e a pensar por onde é que podíamos ir. Já era um som que eu gostava muito e que eu sabia que as pessoas também gostavam muito na altura em que o lancei e pronto, decidimos pegar nele porque é isso, era um som que as pessoas já gostavam e que nós também adorávamos. Foi bué fixe fazê-lo juntos e saiu uma cena bué diferente. 

Estavas a falar há bocado da Estónia, o Extended Edition marca também essa tua fase de quando lá estavas?

Sim, as letras tanto da CARELESS como da VAMPIRA são letras de lá que depois eu adaptei. Eu tinha algumas barras e dicas desta fase que eu tinha por dizer e que queria pôr para fechar este ciclo e partir para o próximo. 

Por isso é que o LDN REMIX acaba por ficar de fora?

Yaya, esse para mim mais depressa ia para outro projeto eventual, chamado Viajante Imóvel, que não sei ainda como vou fazer, mas há de surgir. 

Por falar nessa música, queria falar das tuas referências. Sei que tens aquele episódio com o Profjam que já contaste no Instagram, que mais pessoas é que te inspiram, dentro e fora da área da música?

Vou dizer as minhas inspirações recentes: Mia Couto, porque li um livro dele que me deu bué barras, tipo esquece, surreal [risos]. Eu estava a ler o livro e estava a anotar cenas como, por exemplo, “Envergonho-me em mim mesmo” que me dá um sentimento de ir para dentro; e “Toda a roupa tem a alma de quem a usa”,  que é do género, eu e tu podemos estar a usar as mesmas t-shirts, mas vamos estar a usá-las de formas diferentes, porque é a nossa pausa. 

Fernando Pessoa leio imenso e sempre me inspirou bué, estou a ler agora a poesia completa de Alberto Caeiro; e na música são os Linkin Park. São a minha banda favorita, e mesmo agora nesta onda mais rock que estou a fazer são uma grande influência; Three Days Grace também é uma banda de rock que eu adoro e que me vai influenciado, especialmente agora que faço mais vibratos; e depois incontornável o Prof [Profjam]. Foi a pessoa que mais me influenciou a fazer música inicialmente. Eu sou um gajo que gosta muito de escrever, gosto muito da “palavra”, estou diariamente a anotar palavras. 

Estavas a falar do Mia Couto e do Pessoa, eu sei tu também escreves – na contra-capa do A\WAY tens um poema – quando não estás a criar música ou a ouvir música, é na leitura que te refugias?

Sem dúvida. É engraçado porque atualmente já separo a música e a escrita um bocado. Quando estou a precisar de desabafar, nunca vou escrever um som – só se for uma cena específica – ou seja, tendencialmente já não vou fazer música que seja triste ou que seja muito catártica. Quando estou a precisar de desabafar ou estou a precisar de purgar-me um bocado, é para a poesia que eu vou, e a leitura surge mais numa cena de lazer que fuja ao digital, é mais por aí. 

Ainda bem que estás a falar do digital. Numa altura que é totalmente dominada pelo digital e pelo streaming, tu ainda assim, decidiste lançar um formato físico – ainda mais sendo tu um artista ainda em crescimento. Sentes falta de ver as prateleiras cheias de música?

Eu por acaso gosto muito de música em formato físico. Sempre fiz CDs, tanto no meu primeiro álbum como agora no segundo e acho que é fixe e que é importante. Por exemplo, os meus pais passaram-me testemunhos, sem saberem. Eu fui ouvir os CDs deles tipo, U2, Nirvana, mesmo o George Michael e, outro exemplo muito interessante, é que os meus pais, têm dois amigos que são músicos – que hoje em dia já não estão tão ativos – e que nada do que eles faziam estava na net, ou se está, estava meio escondido. Eu conheço a música deles e sei de trás para a frente aqueles álbuns porque tenho os CDs em casa. Se não houvesse CDs eu não ia ouvir.

O formato físico tem também aquela força de «ok, eu vou-me sentar a ouvir».

Sim, eu forço-me um bocado a isso. Eu tenho uma pilha de CDs, por ordem dos que eu vou ouvir a seguir, para quando tiver esses momentos.

Há bocado mencionaste o Manu, trabalhas com ele na parte de produção. Tu próprio dás toques na parte de produção ou qualquer parte da engenharia de som, ou só composição e depois interpretação?

Imagina, eu costumo dizer que os meus bitaites estão cada vez melhores [risos]. Ou seja, antigamente eu mandava bitaites que eram completamente, ridículos ou ignorantes, e hoje em dia já sei identificar melhor as coisas. Eu não sou um nerd do FL, mas sinto que consigo sacar algumas ideias fixes. Outras cenas, como melodias de piano, já fui ajudando, mas é muito mais direção criativa do que mão na massa, porque eu não tenho o skill do FL e é uma cena que eu estou lacking, por exemplo. 

Sendo tu um artista que está a crescer, quais é que são as tuas maiores dificuldades? 

Diria concertos e exposição digital orgânica. Vês às vezes artistas grandes a criar uma névoa falsa sobre algo que na realidade não é bem daquela forma. É uma nevoa marada, mesmo a nível de ego. Tu só olhas para a cena e é tipo «fogo, como é que esta pessoa está assim?» e «como é que é possível?». Para mim, pelo menos, às vezes dá-me uma ansiedade.

Preocupa-te essa cena de teres de pensar a nível extra musical para depois poderes comunicar os teus sons? 

Claro que sim, eu por mim desinstalava o Instagram. Imagina, eu gosto muito de gravar vídeos, de falar para a câmara… sou uma pessoa que tem esse à-vontade. Gosto de fazer videoclipes, gosto de aparecer em câmara, gosto de fazer vídeos a falar, mas eu não queria ter de ser eu a publicá-los. Claro que não vamos aqui ficar à sombra da árvore à espera de que a maçã caia. Não pode ser assim também. Mas às vezes realmente dá-me alguma ansiedade de estar nas redes sociais, é uma cena que eu gostava de… pá, tem de haver aqui algum doseamento da cena. 

Achas mais difícil chegar às pessoas?

Felizmente, há muitas pessoas a fazer música e há muitas pessoas a fazer música boa. Mas às vezes tu já não tens de ser só bom, estás a ver? Ser bom já não chega e isso é um bocado hard to swallow em certa medida, mas por o outro lado também é desafiante. Isto é um trabalho diário de autoconfiança e de reconhecimento do trabalho feito e da obra. No que toca a comunicar, todos nós temos telemóveis e acho que sendo criativo as cenas conseguem acontecer. 

Por outro lado, as redes sociais estão tão rápidas que às vezes tu não perdes dois segundos a ver uma cena, e às vezes até passa um vídeo fixe e tu nem prestas atenção e não apanhas mais aquilo. Mas lá está, há muita gente a fazer as coisas e vejo que tenho de arranjar formas de me destacar sem sair da minha identidade.

Tu nas redes sociais disseste que tinhas curtido muito de gravar o videoclip da CARELESS. Essa parte visual é algo que te motiva e de certa forma te dá pica quando estás a fazer um som? Gostas de pensar na parte de como é que vais conseguir complementar visualmente a música?

Olha, todos os vídeos que eu fiz até agora foi porque de facto tinha algo a acrescentar porque o som sozinho provavelmente não chegava. Claro que depois também há aquela cena de lançar um projeto e tentar perceber que sons é que merecem ter um vídeo. Por exemplo, na ALRIGHT, eu tinha uma visão para o vídeo em que uma pessoa está à procura de uma mulher na noite e chega ao fim da noite e afinal a pessoa que encontra não era a pessoa que estava à espera. Essa era a ideia que tinha na cabeça, mas só com a música essa visão nunca passaria sozinha. No caso da CARELESS, para mim era na neve. Era na neve e era aquele cenário, tipo, Twilight em certa medida. Aquele som para mim também é na Estónia, então claro que tinha de ser na neve.

Para terminar, que planos é que tens para o futuro? 

Tenho um EP em colaboração com um artista do Porto, produzido pelo Marinho, e depois um álbum colaborativo também com o Marinho. Esse álbum parte da ideia daquela vida dupla, da criação das pontes entre as minhas duas vidas e misturar também um bocado com os conceitos da eletrotécnica e da eletricidade – tenho feito referências fixes que não são muito óbvias, mas que também não são muito difíceis de apanhar. Vou ter também um concerto agora, dia 23 de maio, na ACGITAR em Gondomar. É um espaço pelo qual tenho muito carinho, sou sócio da associação, e neste dia vai ser a estreia da primeira edição de um evento chamado “MARGEM”, que estou a organizar. Vai ser uma atuação com partes com banda, e depois para encerrar o evento convidei os ben&G, uma banda aqui do Porto. 

 

“Quero transmitir a ideia de que há personalidade no Pop” – VSP AST lança o seu álbum de estreia

Com os pés na Terra e a cabeça na Lua, Fernando Gariso não se deixou dormir. Numa operação de descoberta entre a música pop, o universo do rock e as rimas do rap, fez questão de deixar claro que – citando o próprio – está aqui para se tornar uma lenda.

O mês passado, mais precisamente dia 13 de fevereiro, VSP AST – Vespa Asiática – apresentou o seu primeiro álbum de estúdio, LOBOTOMIA POP. O artista conimbricense, que carrega o nome da sua cidade no discurso e no trabalho, trouxe novamente produto fresco, como fazia a sua “avó lá na praça”.  O projeto conta com 13 faixas, tem a duração de 31 minutos, e veio suceder o EP, Putos Fixes Não Dormem, publicado em abril do ano passado.

Com o seu álbum cá fora, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de estar com o artista, para uma conversa onde foi possível explorar mais a fundo os temas do longa-duração, bem como parte da direção criativa do mesmo.

Bem, se calhar começo por te perguntar como é que tu te sentes com o álbum cá fora? Muito mais tranquilo, mano. Estou muito mais aliviado.

Com o álbum cá fora, já estás com a cabeça a pensar em mais música ou aproveitaste para desligar um bocado? 

Não, mano, opa infelizmente queríamos desligar, mas ya, já está a andar.

E em termos de feedback geral, como te tens sentido? 

Epá, estou a adorar a maneira como a malta fala da minha arte e como falam da maneira da produção do Bap (Bapcat) e do Survival. É incrível como as pessoas também conseguem tipo, lá está, chegar ao nosso ponto, é bué importante. A malta fala bué da minha letra de uma maneira séria comigo, eu falo de maneira bué séria com as pessoas quando falam nesse sentido da letra porque lá está, eu sou um gajo bué aberto e a malta também me esclarece as dúvidas que tem para esclarecer. Tenho sentido um amor mesmo muito grande por parte da malta. Tem-me conquistado cada vez mais e tem-me dado bué da força, uma força que eu precisava mesmo para acreditar e ter mais vontade ainda. Lá está, por isso é que eu nem consigo desligar da música. Isto foi tão bem recebido, que eu só quero começar a pensar em trabalhar no próximo projeto para entregar à malta mais sonoridade. 

Em abril do ano passado, lançaste o teu EP, Putos Fixes Não Dormem. Desde essa altura até agora, consegues datar mais ou menos quando é que o álbum começou a surgir na tua cabeça? 

Já estava a surgir. Quando lançámos o EP, Putos Fixes Não Dormem, já tínhamos faixas deste novo álbum. Imagina, a ideia estava lá, estava-se a começar a construir. Nós basicamente trabalhamos com muita antecedência, fazemos bué sons e depois agrupamos, lá está, consoante a identidade do projeto que queremos passar. Este aqui já tínhamos algumas faixas gravadas e depois a ideia começámos a trabalhar só depois do EP. 

E o processo a nível criativo já lá estava também ou foi se desenvolvendo depois?

Foi-se desenvolvendo depois de tudo, sim, um bocado mais. 

Eu quero começar pelo título: LOBOTOMIA POP. Da minha perspetiva, eu imagino que possa ser um mix do que é a tua personalidade e depois, no fundo, o que é o teu trabalho. A parte da lobotomia a ir buscar o experimental e inovador, e depois o Pop o teu lado mais expressivo. O que é que queres transmitir com este título?

Ainda bem que pensaste isso e está de acordo com os meus pensamentos também. Mas também, lá está, era trazer um pouco de identidade. O objetivo principal era nós trazermos um bocado de volta à identidade ao Pop. E sim, era preciso basicamente ser uma operação controversa, se calhar, com algumas… sei lá, um tipo de escrita um bocado diferente daquilo que a malta está habituada a ouvir no Pop. Eu sou muito visual nas cenas e Lobotomia apareceu-me na cabeça. Estávamos num grupo de amigos a falar, e eu estava a visualizar mesmo as pancadas, estás a ver? Tipo o meu som a dar as pancadas no cérebro das pessoas, para que ouvissem um Pop diferente. Era um bocado isso, quero transmitir a ideia de que há personalidade no Pop. 

Quando pensaste na proposta criativa do LOBOTOMIA POP, e todo esse visual das pancadas, foi algo que surgiu na tua cabeça e tu apresentas à malta, ou descobriste a falar em grupo? 

Isso é a ideia inicial, estás a ver? Foi o primeiro momento em que me aproximei da ideia que eu queria. Depois, claro, trabalhei uma beca com os meus amigos e tentámos perceber se era mesmo um conceito que podia abranger mais coisas – e felizmente sim, é um conceito que dá para tirar ou dá para extrair muita coisa. 

Vou citar a primeira quadra do projeto, na Túnel: “Quantas noites foram passadas a pensar na passagem para outro lado / O pica enrolou-me a conversa a dizer que o meu bilhete tava caducado / Fiquei-lhe a dever um obrigado / Se calhar ele é que ficou enrolado”. Formas de expressão como esta, em que, de uma forma engraçada, contornas os temas que se calhar são mais pesados, é algo que te sai facilmente, ou é algo que tentas mesmo cavar para falar de coisas que têm um fardo mais pesado? 

Está aí, com um pouco de alívio na letra, mostrar o peso de algo que eu senti. E eu sou bué assim, acho que se eu fosse pesado nas duas maneiras, de sentir e de passar para o papel, ia ser uma pessoa que eu, como artista, não ia gostar. Eu não ia gostar desse Fernando, artista. E é tudo natural, não forço mesmo nada o tipo de escrita que tu vês. Lá está, sou eu a explicar-me, que por palavras mais cruas não ia conseguir. Prefiro explicar-me com metáforas e meter-me num ambiente visual onde que consiga escrever sobre esses elementos que vejo.

A Túnel é produzida pelo Bapcat, juntamente com os temas Horas, Cheesecake Problemas, Tony Stark, Piadas, Fallin4U e Love VSP. Como é que surge a tua ligação com o Bap, há quanto tempo é que trabalham juntos? 

A primeira vez que fomos a estúdio foi para aí há dois anos. Nós combinámos uma sessão de estúdio e tal, e depois o Bap convidou-me para o projeto das Bapcave Sessions. Depois disso, demo-nos muito bem, também porque ouvíamos o mesmo estilo de som e tínhamos maneiras de ser muito parecidas. Somos os dois bué efusivos, mas depois também meter a cabeça no tronco e perceber as cenas. Revejo-me bué nele e acho que ele também se revê [risos].

Ao longo do álbum, surgem também como produtores o Survival, a Cozy e o Timóteo. Eu sei que o Timóteo é o teu teclista e que o Survival e a Cozy já trabalham contigo há algum tempo. Como é que eles entraram no teu trabalho?

O Tiago da Cozy é o meu baixista também. Antes de assinar com a Sony, eu trabalhava com o Timóteo. Ele tem um estúdio lá em Coimbra e das primeiras pessoas que eu conheci que me meteram o bichinho da música foram o Timóteo, o Gui e o Fernas – o Gui é o meu guitarrista e o Fernas é o meu baterista. Este foi o primeiro núcleo, mas, eu antes disso, também tinha outra banda, que não é a que tu vês agora. Depois, a Sony apresentou-me o Survival, disseram-me que ele era bué fixe e eu tive de ir lá fazer uma sessão e epá curti bué. Somos de gerações diferentes, mas a maneira de pensar dele é bué atual. Acho que o único choque que houve foi a cena de me ter dado bué bem com ele, a cena de «como é que é possível?» Ainda por cima, a ideia que tinha era que ele era um gajo vinha de um núcleo bué fechado do rock e do hardcore, e afinal de contas, foi um ganda bacano. Ele ensinou-me muito sobre a música e muito sobre a maneira de estar na indústria. Ele é um pilar ainda hoje, claramente, daquilo é o VSP AST. Depois, o Timóteo sempre foi um gajo que me ajudou também a escrever. É um gajo que potencia as minhas ideias. Eu tenho bué ideias, mas sou hiperativo e às vezes acabo por não conseguir uni-las e ele faz esse trabalho de cimento.

Um produtor executivo quase. 

Exatamente, podemos lhe chamar assim. Eu acho que pode ter essa cena, mas mais na parte da escrita, estás a ver? Ele une bué bem as minhas ideias, é um gajo que lá está, também me sinto confortável porque já trabalho com ele há anos. Opa, e são tudo pilares do que eu vejo que é o VSP AST. Aliás, eu agora cada vez gosto menos de dizer que o VSP AST sou eu. Acho que isto não é só o Nando, eu quero que seja começado a ser reconhecido como uma banda. E pronto, tenho a felicidade de ter gajos que trabalham muito bem, serem grandes produtores e serem amigos, é isso o que interessa. 

Tu depois, na Piadas, tens o Frankie também, como é que aconteceu com ele? 

Olha, boa história. Eu e o Bap abrimos uma live do YouTube e o Francisco passou lá para mandar uns loops de guitarra. Estavam lá vários loops bué bons, mas aquele da Piadas foi o que me saltou logo ao ouvido. Eu disse: «oh Bap, faz um instrumental e usa as guitarras do Frankie» e opa, fizemos o som todo em live. A letra fui cuspindo ali ao vivo e foi uma experiência bacana. Foi com esse som que eu percebi que às vezes o momento em que tu estás é que te dá o som – não invalidando que tu possas demorar 3, 4 meses a escrever uma letra e que depois seja uma obra de arte do caraças. Ainda por cima eu que sou tipo bué despassarado e na hora consegui ali retratar o que estava a sentir. 

À data desta gravação, saiu ontem o teu primeiro episódio de um conjunto de behind the scenes do projeto. Primeiramente, e indo um bocado ao encontro com aquilo que eu falei há pouco das letras, eu queria tocar numa parte desse vídeo em que tu falas de um verso da Manicómio. Tu próprio dizes que é um verso que te saiu na hora, que nem te faz sentido, e mesmo ao longo do vídeo demonstras sempre uma postura bué descomprimida no que toca a tua arte. Isto é a tua forma de olhar para as coisas, ou sentes que isto ainda é meio uma fase de experimentação? 

Não, mano, isto é a minha maneira de olhar para as coisas. Claro que eu posso evoluir para outra cena, mas eu acho que o tipo de escrita vai ter sempre estes toques. Acho que é mesmo a minha despreocupação e é uma barra que mostra mesmo a minha despreocupação com o que está a acontecer no momento. É uma cena que eu estava a sentir e a verdade é que fazendo ou não sentido faz sentido para a personalidade que eu tenho. Se calhar se tu ouvisses o Diogo Piçarra a cuspir isto ficavas tipo «epá, isto é estranho, o que é que este gajo está para aqui a dizer?» [risos]. Mas se calhar se eu dissesse «eu continuo de pé!» também ficavas a pensar no que é que eu estava para ali a dizer. Cada artista tem a sua personalidade e defendo cada vez mais que a música é a personalidade artística. Às vezes não é o sentido mas é a vontade de me expressar como pessoa.

E achas que depois disso, o facto de a música poder ou não resultar, pode influenciar a forma como trabalhas? 

Boa pergunta… Mas não, eu acho que nunca que me vou vender a um estilo que não se identifica com o que sou. Então, não. 

Ainda tocando nesses behind the scenes, queria-te perguntar o porquê. Sei que já é costume os vlogs, fizeste uns, por exemplo, no Meo Monte Verde ou no Musicbox. O que é que te faz querer demonstrar este lado? 

Eu sempre curti bué de Youtube e há um bichinho em mim que ainda vive bué os skywars do Tiagovski [risos]. Foi uma altura mesmo fixe a minha infância e foi bué bacana também por causa deles, desses criadores de conteúdo. E depois há outra cena que eu me fui apercebendo: para além de gostar de fazer isto, eu aproximo os putos – que eu não gosto de dizer que são fãs, gosto de mencioná-los como “meus putos”. Os vídeos também são algo muito fácil para me defender, porque quem vê e não gosta percebe que a cena do VSP AST não vai ser a cena deles – enquanto que há outros gajos que vão ver os vídeos e vão se identificar com a nossa maneira de ser e vão se conectar. Os vídeos são uma parte importante, é um investimento nosso para continuarmos ligados aos nossos ouvintes de maneira a que possa trazer ainda mais ouvintes de uma forma orgânica e filtrada. 

Sentes que é uma parte essencial do artista também demonstrar esse lado? Quem ele é no backstage e também a ajudá-lo a compreenderem-no além das músicas?

Depende muito dos shows que nós tivermos, mas vamos continuar com este conteúdo e o meu intuito este ano vai ser um pouco diferente. Vai ser com o intuito de mostrar a um jovem, ou a alguém está a começar, as dificuldades das cenas e como é que as cenas acontecem – mostrar coisas simples, tipo, o fogo que está ligado a 4 botões e todos os mecanismos envolvidos, para tentar extrair um bocado mais da parte técnica de um show. Queremos mostrar às pessoas como é que nós fazemos as nossas cenas e como é que nós aprendemos também a fazer as nossas cenas. Eu acho que em Portugal eu precisava que houvesse alguém a mostrar-me literalmente cenas simples para eu perceber como funcionam.

Ou até o ambiente de estúdio. 

Exatamente. A minha ideia também é através destes episódios que nós vamos lançar, trazer um bocado isso: como é que nós produzimos, como é que nasce a ideia. Ajudar a malta a perceber que a música não é um bicho de sete cabeças e que é algo que pode acabar por surgir no momento, onde podes não estar a forçar nada.

Dando continuidade ao álbum, tenho de perguntar isto. Na Tony Stark, começas com algo muito peculiar: um bocado de um jogo de CS:GO. É daquelas ideias que já tinhas na cabeça e ficaste do género: «tenho de meter uma cena destas num beat»? 

Eu adoro CS, e isto parece que é uma estupidez, mas é um jogo que nestes últimos 3 meses me tem ajudado. Já nem sei se foi o Bap ou se fui eu que meteu lá umas flashes e o som de uma smoke, mas como tava bué bacano deixámos só estar. Porque lá está, também é personalidade. Deixa-te num ambiente bué nostálgico, estás a ver? Eu sinto isto.

É para os videojogos que foges, quando não estás na música? 

Sim, sim, hoje em dia é.

 

Tens algum verso ou barra favorita do álbum?

Tenho várias, mano por acaso, pá… 

Eu posso dizer-te a minha, se quiseres.

Ok, então ya, dá-lhe tu.

Na Rapunzel, obviamente: «Fiz trocadilhos em braile / Chamei-lhes de troca de olhos» [risos]. Só o VSP AST mete isto num som.

[Risos] Mas vou te dizer uma cena, essa barra e esse som não fui eu que escrevi. As toplines são minhas, deixei-as lá no estúdio do Timóteo, e foi o Timóteo que mandou a letra. Ele sabe-se inserir em mim, na minha persona e pá, essa barra, ya, está ridícula e é claramente das minhas preferidas. Das minhas favoritas tenho também o início da Tony Stark: «Espeto essa palhinha na Terra, sugo os nutrientes / Quem é que aqui tá tão sorridente como eu» e na Piadas aquela cena do «Acha piada às minhas piadas e vai a contá-las como se fossem nossas». Há sempre alguma coisinha que eu gosto de ouvir no álbum. Fiquei mesmo feliz com este projeto porque ouço os sons e não me estou a fartar, estou a ouvir aquilo e estou a ganhar aquela fúria, estás a ver? Quero bué ir para palco com aquilo. 

Há algum motivo para teres antecedido o álbum com a Dúvida e a Manicómio, e para serem as únicas com direito a videoclipe? 

Se fosse hoje, não sei se a Dúvida levava a videoclipe, mas gostei bué. Aquilo é um som que já tem 3 anos e normalmente eu começo-me a fritar quando o som já é antigo. A verdade é que ganhou outra vida com o videoclipe que eu não estava à espera que ganhasse.

Então como é que tu dás esse passo em frente? O «Bora pegar na Dúvida, dar-lhe o videoclipe e pode ser que depois surja alguma coisa».

Aí vou ser sincero, foi uma decisão mais do Jorge, do Balona e do Bap. A malta dava sangue nesse som e dizia que era uma música que valia a pena, então como agora trabalho com bué amigos, dou bué ouvidos ao que a malta diz. Antes era às vezes bué casmurro, mas agora confio.

Todos os visuais que apresentas são sempre muito detalhados e criativamente bué bem explorados. Pensar nessa parte dos videoclipes e do visual é uma cena que te dá pica quando estás a fazer a música?

Sempre, até porque quando eu estou a fazer a música já estou a imaginá-la. A Dúvida não foi o caso, mas na Manicómio já estava a ver tudo.

Tu ainda antes de lançares o álbum passaste pela FILTR com a Hiperatividade. Algum motivo específico para levares esta faixa, que depois acabou por não ver, teoricamente, a luz do dia?

Eu sinto que ir à FILTR foi bué bom para me dar a conhecer um bocado mais, até porque a entrevista com o Survival virou uma conversa muito normal, que é o que eu tenho no dia-a-dia com ele ou com outros amigos. Como eu me estava a dar a conhecer, decidi que aquele som ficava ali porque aquilo é um pedaço da minha identidade. Então, a Hiperatividade é só mesmo para complementar a conversa, dar ali som à minha maneira de ser. Se o som está bom ou não pá, não sei, mas fica ali e quem quiser consumir, tem no Youtube. Acho que não vale a pena, não quero que aquilo seja parte de um projeto meu, mas foi importante para me explicar em algumas coisas. 

Em várias entrevistas tuas, desde há uns anos, ouço-te a falar muito sobre o teu objetivo da descentralização. Aqui por Lisboa, pelo menos, nota-se bastante a influência da malta que te acompanha – seja pelos projetos do Bap, o sets do Trillseco, a comunidade da Vigilance SB. Como é que achas que isto está a correr? 

Eu parecia um lunático há um ano e meio a falar disto, mas eu sempre defendi que comunidade era uma cena mesmo essencial para um meio mais pequeno. É impossível haver VSP AST se não houvesse a Vigilance e é impossível haver Vigilance se não houvesse VSP AST. Era impossível algum de nós existir com esta dimensão com que felizmente estamos agora. É um trabalho de todos. Quando tu estás num sítio onde não tens acesso a tanto, tu consegues criá-lo quando tens pessoas bem próximas de ti que o querem fazer também. Estamos a falar aqui de dois anos de trabalho seguidos, em que o Fernando pedia favores ao Sena da Vigi (Vigilance) e o Sena me vinha pedir favores – ou íamos os dois pedir favores ao Bap, toda a gente se entreajudava, de uma forma em que não havia dinheiro envolvido e nem sequer se falava em dinheiro. O que interessava era mesmo pôr as coisas a andar. Nós – Vigi e Andamento Records – sempre tivemos a mentalidade de que o que só precisamos de fazer, de que precisamos de executar. A diferença dos gajos que têm sucesso para os que não têm sucesso, foram os gajos que fizeram. Se temos uma ideia em que todos nós concordamos que possa ser uma cena que vai abrir portas a malta nova, e a encaixar-se com a nossa comunidade, claro que sim, bora fazer. 

Vais subir ao palco da Casa Capitão dia 13 de março – tu que já tinhas atuado no Musicbox. O que é que podes antever desta noite? 

Para este concerto curtia mesmo de esgotar a sala e acho que está a correr bem a venda dos bilhetes. É a primeira vez que vamos apresentar o álbum e vai ser um concerto que não vai ser igual aos que vão acontecer ao longo do ano.

 

Faixa-a-faixa: em sonhos, é sabido, não se morre

Dia 20 de fevereiro de 2026, xtinto deixou-nos com o seu segundo álbum de estúdio, em sonhos, é sabido, não se morre. O lançamento do projeto teve direito a uma conversa com o rapper de Ourém, aqui para a Hip-Hop Rádio, bem como uma emissão de rádio. 

Depois da conversa, tivemos ainda a oportunidade de explorar detalhadamente cada uma das dezasseis faixas do álbum, explicadas pelo próprio xtinto.

Assunto Meu

Olha, a Assunto Meu foi uma malha que foi criada porque a MunnHouse tinha sido convidada para fazer um trabalho para uma inauguração de um hotel. Eu e o Beiro percebemos mal o briefing, o trabalho foi mandado para trás e nós ficámos tipo: «foi mandado para trás mas é uma grande música, temos que aproveitar». É engraçado porque escrevi-a a conduzir, fui gravando voice notes porque vinha ter com o Beiro a Lisboa para gravar essa música. Ele mandou-me o instrumental quando estava a começar a viagem e eu quis logo ouvi-lo. Ele estava-me a dar ideias melódicas e eu não as queria deixar escapar, então fui metendo logo algumas palavras e quando cheguei ao estúdio acabei por transcrever todos os voice notes que eu tinha feito na viagem, e surgiu assim a música.

Dividir

Foi no nosso primeiro camp e foi a malha mais unânime para toda a gente que ouviu o álbum até ao momento em que estávamos a decidir os singles. O instrumental é do Kidonov e o L-ALI deu-me uma ajuda na letra.

Sofá (feat.Ed)

Ela surge de uma das muitas sessões noturnas que eu faço com o Lunn, aqui na MunnHouse. E foi na verdade…provavelmente foi das primeiras malhas a ser começadas, porque já tinha surgido antes do camp, e das últimas a ser finalizadas porque só há pouco tempo, antes de entregar o álbum para masterizar, é que o Ed veio gravar o verso dele. Esse som teve muito tempo só com o meu verso, eu queria encontrar um feat e depois o Ed pareceu-nos perfeito. 

Cidade

A Cidade foi feita também no primeiro camp, à imagem da Dividir. Foi produzida pelo Beiro e teve depois guitarras de Samuel Louro e saxofone do Tomás Martin. Deduzo que essa letra já tinha antes do camp. Muitas músicas minhas surgem a ouvir o instrumental e depois a dar scroll no bloco de notas para ver se alguma letra faz sentido. Foi o caso da Cidade e é uma música que eu gosto bastante. 

Alecrim Freestyle

A Alecrim Freestyle foi também no primeiro camp. Foi o beat onde participou a MunnHouse inteira, acho que foi eu. Tem uma flautada do Billy, incrível ali no meio, e pá, é barras [risos].  

Bobo da Corte

Foi também como a Sofá, numa das sessões noturnas com o Lunn. Quando eu digo sessões noturnas é mesmo tipo a gente janta, vamos ter a algum lado e depois ficamos até não ter mais energia para estar no estúdio. Essa malha começa por ser do Lunn, mas depois, inevitavelmente, acabou por ter mais pessoas a mexer. A nível de mistura o Kidonov também mexe e depois vai a master do Gui. Nestas faixas nota-se sempre a nível estético muitas parecenças com a Sofá e a Kintsugi. 

Tempestade (feat. Iolanda)

Surgiu de um camp que fizemos em Torres Vedras em que eu convidei a Iolanda a ir lá. Era só eu, o Kidonov e o Lunn – basicamente o núcleo forte para este álbum. Convidámo-la até para ir lá dar umas ideias melódicas – era essa a minha ideia – e ela acabou por participar numa das malhas que já tinha em aberto. Na altura só tinha refrão e ela escreveu esse verso para aí em 15 minutos, foi mesmo rapidíssimo. Ficou logo ali esse som estruturado e a demo feita. 

Nunca Mais

Olha, a Nunca Mais era na verdade… eu estava a dizer que a Sofá era o som mais antigo, mas a Nunca Mais era uma demo que o Guire – que é um amigo meu produtor que agora já não tem produzido música – tinha há muitos anos no computador, tipo pré-pandemia. Eu estava a escavar nas nossas conversas alguma cena que ele tivesse lá deixado, um instrumento algo assim, e encontrei a demo com ele a tocar a guitarra e a cantar esse refrão. Pela primeira vez na vida pedi uma música a alguém. Perguntei-lhe: «opá, tu nunca vais lançar isto? Isto é bué bonito e se tu nunca vais usar isto, eu quero usar isto e quero fazer uma música a partir disto». Estava inclusive a bué bonito na voz dele, eu gostava muito de ouvir aquilo. Ele aceitou e até na primeira vez que convidei o Samuel para o estúdio, mostrei-lhe essa demo. Ele sacou uma guitarrada lá para cima e eu gravei a demo. Depois o Kidonov disse que esta música era daquelas mesmo obrigatórias, e o resto foi magia dele e do Lunn. Esta música teve mesmo muitas etapas, é das histórias mais engraçadas do álbum. 

Felismina

A Felismina foi a primeira vez que, na minha vida, que compus em banda – eu, Samuel Louro, Tomás Martin, Guilherme Simões e o Lunn. E pronto, é uma música que me diz bastante, tem uma carga emocional forte e marca também esse desbloquear de criar em banda que eu quero mesmo repetir.

Fora d’Horas

Surgiu assim de uma forma mais…não tanto na linha dos outros. O Luar, que produz também para a Iolanda, já falava comigo há algum tempo sobre a hipótese de fazermos uma sessão de estúdio. Houve uma dessas vezes que eu fui lá ao estúdio dele e saiu essa malha – que depois o Kidonov e o Lunn pegaram futuramente. Quando fizemos um balanço geral de todas as demos que eu tinha, concluímos que essa devia entrar. O Luar produziu maior parte desse som, as drums foram desenhadas pelo Kidonov e pelo Lunn e depois foram tocadas pelo Chico na bateria. E pronto, nesse sentido foi o único som que surgiu de um produtor que não é da MunnHouse.

Interlúdio da Casa do Vale

Convívio na Casa do Vale, escrevi uma letrazinha para uma guitarrada do Samuel e o Kidonov achou por bem, e muito bem, usar o dictafone para gravar. O que tu estás a ouvir são os nossos convívios, é genuíno mesmo.

Prisma (feat. L-ALI)

A Prisma foi também no primeiro camp. Era um beat do João Maia Ferreira e o Hélder (L-ALI) sacou logo aquele refrão que toda a gente amou logo no camp. E é tipo, quando toda a gente reage em uníssono, sabes que essa malha tem de ir, estás a ver? Tem de ficar, é obrigatório. Depois houve a parte fácil que fui eu escrever os versos [risos], a parte difícil foi ele sacar uma melodia catchy no refrão.

Kintsugi

Foi, como eu estava a dizer, criada numa daquelas sessões noturnas com o Lunn. Fala muito sobre a minha vontade de ser menos inerte e procrastinador. É uma das minhas letras favoritas do álbum. Eu até tive muito tempo a adiar escrever o segundo verso, meio a medo, porque não queria estragar o som e eu já gostava muito da letra dele. Adiei muito e ainda tentei convidar o Lhast para essa música, mas ele não estava muito a gravitar para essa. Depois acabei por escrever eu mesmo, e acho que fez jus ao que já havia do primeiro verso e até do refrão. Essa entrada do refrão é até das minhas favoritas de tudo que eu já fiz, acho que a entrada é engraçada e a frase impactante.

Tóxico (feat. João Não)

Essa surgiu também no primeiro camp e era um beat do Lunn, originalmente. Até foi o Hélder que deu o primeiro clique para escrever para esse beat e depois a malta também curtiu muito do refrão. Muito posteriormente, é que decidi convidar o João Não. Precisava de um segundo verso para ali e estava a tentar perceber quem é que seria a pessoa ideal e fiquei ya, tenho que chamar o João, este gajo tem que fazer parte do meu álbum. 

Pergunta Honesta

Esta tem piada. Na casa onde estávamos no primeiro camp, havia três stations –a do Lunn, a do Kidonov e a do Beiro. Eu estava a trabalhar com o Lunn e eu disse-lhe só que ia à casa de banho. Só que quando estava a ir para a casa de banho, passei na station do Kidonov e o L-ALI estava a tocar uma grande pianada – que é a pianada da Pergunta Honesta. Eu fiquei ali preso a escrever e gravei logo essa demo – na altura uma demo até bastante rafeira. Durante muito tempo até foi essa demo que nós tivemos como referência, mas mais para o fim é que depois inserimos a flauta do Billy e regravamos vozes como deve ser. É uma das minhas letras favoritas deste álbum, foi mesmo um desabafo que me saiu mesmo como eu gosto. Parece que sou mesmo eu a falar e isso é algo que eu procuro imenso na minha escrita, tentar-me aproximar o máximo ao que eu diria se estivesse a desabafar com um amigo meu. Concretamente no rap, é o que eu procuro mais. Os artistas que eu ouço mais são aqueles que eu acho que me transmitem essa energia. 

Vento

A Vento foi também no primeiro camp e foi logo uma das nossas malhas favoritas, apesar de na altura só ter refrão. O verso até foi uma coisa que fui escrevendo ao longo dos tempos e foi meio corte e cola de vários textos que eu já tinha. Há uma música que eu gravei na altura da pandemia com a Bia Maria – uma música que nunca saiu – que tinha a dica do «mas tu sabias ser melhor que a solidão então ficaste / melhor do que o silêncio, melhor do que os meus gatos». É uma música que eu gosto bastante, que tem uma guitarrada bonita do Samuel, uma produção do Lunn e do Kidonov, onde João Maia Ferreira também mexeu nela. E, obviamente, o fim incrível do álbum, que é um solo do Tomás Martin. Acho que acaba o álbum numa nota que não podia ser melhor.

“é sabido que é impossível morrer em sonhos e este álbum foi a prova disso” – xtinto edita o seu segundo álbum de estúdio

Em sonhos, é sabido, não se morre. Aliás, essa é a única vantagem.

Em 2015, juntava-se a DEZ, ainda na Andromeda Records, para lançar o seu primeiro projeto, Odisseia. Quatro anos depois, Ventre e Inacabado saiam nas plataformas digitais em formato de curta-duração, para carimbar a entrada do rapper na Think Music. No ano de 2023, lançava Latência, o seu primeiro álbum de estúdio.

O rapper de Ourém entrou para o hip-hop como uma das canetas mais bem polidas do país há mais de uma década, e deixa-nos hoje com o seu segundo álbum: em sonhos, é sabido, não se morre. Com direito a referência ao trabalho de Sérgio Godinho, Francisco Santos explora as palavras do artista portuense para as usar como mote criativo do seu projeto. 

A Hip-Hop Rádio esteve com o artista da MunnHouse para ficarmos a saber mais sobre o album.

em sonhos, é sabido, não se morre. Claramente, alusivo ao Lisboa Que Amanhece, do Sérgio Godinho. Queria-te perguntar se trazes esta frase com o sentido que ele quis passar ou fazes uma análise que tens, diferente do que é o sonho? Da minha perspetiva, sinto que foste buscar o que para ti é o sonho artístico – quase como um objetivo – e depois a finitude como uma analogia à eternidade da expressão artística.

Eu acho que tocaste no ponto. Basicamente, e concretamente, essa frase sempre me fez pensar muito, sempre que ouvia o Lisboa Que Amanhece. Quando estava numa fase de absorver tudo à minha volta para encontrar o que seria o nome do álbum – que foi numa fase já muito avançada, onde tinha já o álbum todo fechado – ouvi essa música nos meus fones e a frase, pela primeira vez na minha vida, teve outro sentido: esse mesmo do meu sonho ser viver da música. Eu estava a passar por uma circunstância onde pensei desistir da música e estava desmotivado, exatamente no meio do processo deste álbum, e essa frase atirou-me imediatamente para aí e fez-me logo bué sentido. Noutras alturas, o que eu sacava dessa frase era mais o questionamento de: será que em sonhos não se morre? Ficava a fazer essa ginástica na minha cabeça. Mas depois no sentido concreto, de facto, sempre que vais morrer no sonho acordas. O sonho que comanda a minha vida, como se costuma dizer, é a música, e eu tentei morrer por esse sonho – ou tive quase. Mas pronto, é sabido que é impossível morrer em sonhos, e este álbum foi a prova disso, porque veio mesmo no meio de uma tempestade gigante. 

No Latência tu acabavas por brincar um bocado com o título do projeto, com a cena de demorar a sair e estares sempre a adiar. Para este álbum, como é que sentes que foi o processo? Foi mais fácil chegares às ideias finais e depois ter a certeza que eram as certas? 

Foi mais fácil no sentido que este teve um processo laboral bastante concreto e eu consigo situá-lo todo. Pela primeira vez na minha vida fiz writing camps para a minha música, juntei as pessoas que eu gosto e as que fazem arte que eu gosto numa casa a fazer música para mim. No sentido de demorar, demorou na mesma, entre o primeiro camp que nós fizemos e o dia em que o álbum é lançado, passam cerca de dois anos, um bocadinho mais. 

Isto já vem depois da Berço então? Ou a Berço já fazia parte destes camps

Os camps já vêm depois da Berço e nós ainda ponderámos incluí-la, uma beca à imagem do Latência, por exemplo, onde acabámos por incluir a Marfim, que já tinha saído, e a Android. Nós estávamos a pensar se a Berço fazia sentido neste leque estético e narrativo do álbum e acabámos por concluir que não. Este projeto foi uma coisa que nós fizemos de raiz e já sabíamos desde o primeiro camp que queríamos fazer um álbum, e dá para situá-lo aí. O Latência não foi feito assim, foi muito mais tentar colar coisas que estavam soltas enquanto neste foi se criando a narrativa e foi se construindo desde raiz com as mesmas pessoas. 

Estás a falar nessas pessoas, no “nós”, quem é essa equipa que está por detrás do álbum? Ui, então, além da MunnHouse toda, que inclui Lunn, Beiro, Kidonov, Billy, o Henrique, o L-ALI, João Maia Ferreira, obviamente. São também os meus amigos de Ourém, Guilherme Simões, Tomás Martin, Samuel Louro, que eu inclui sempre desde a base porque já sabia que os queria incluir para fazer música, porque até lá não criávamos juntos, só íamos para a estrada. Depois, no interlúdio temos o Pedro do Vale a Bia Maria. Pronto, basicamente são esses nomes. Depois entrou o Luar, que foi uma pessoa que também conheci por causa da Avalanche e por andar na estrada com a Bia Maria. E pronto, acho que não me está a faltar ninguém, digo eu. 

O projeto tem 16 faixas, tens ideia de quantas é que ficaram de fora?

Ui, imagina, só do primeiro campo nós tínhamos quase 50 demos. O álbum podia ter na boa 20 faixas, mas nós decidimos que se calhar já haviam faixas que estavam a repetir um bocado a ideia de outras. 

É um álbum que tematicamente viaja muito pelo amor. Tendo o peso que tem a forma como tu pões este sentimento aqui, escrever sobre isto é fácil para ti, algo natural, ou foi algo que tentaste puxar para servir como uma espécie de refúgio? 

Não, pá, escrever sobre amor e sobre as minhas vivências no geral é a minha forma de escrita, é desabafo, e acaba por ser muito natural eu escrever sobre aquilo que passo e vivo. O amor é uma parte fundamental da minha vida e no processo deste álbum, passei por coisas que marcaram muito, tendo nascido daí também a inspiração para escrever sobre isso. Nada foi forçado, acho que sempre tive alguma plasticidade para escrever sobre amor de forma bastante genuína. 

É um projeto muito melódico, tu cada vez apresentaste-te mais a cantar. É um lado que procuras arriscar cada vez mais? 

Nem é arriscar, é consoante o que as músicas pedem, e sim, ultimamente tenho abordado mais isso, porque cada vez menos o meu processo inclui menos rappers, então acabo por gravitar para um universo se calhar menos rap, sem que isso também saia de mim. 

Sim, a Alecrim Freestyle e a Kintsugi mantêm esse registo.

Sim, tu vês sempre aí essa veia. Depende muito de como é que a faixa é criada, por exemplo, faixas tipo Felismina, que foi criada em banda, é normal que eu parta para uma coisa mais melódica – se bem que ainda poderei meter lá um verso mais rap, mas depois achamos que ficava bonito como estava. Eu vou sempre atrás de impulsos criativos, estás a ver? Como uma música me chama para fazer é o que eu faço. Caso concretos como estavas a mencionar, o beat já estava a gravitar muito para essa cena boombap, meio drumless, e aí fazia-me todo o sentido meter barras em cima daquilo, então meti. Nunca é uma cena mega ponderada, é seguir impulsos criativos, em todas as faixas. 

Falaste da Felismina, o que é que quer dizer Felismina? Porque eu tentei procurar o significado e só me aparecia como feminino de Felismino, e depois Felismino não me aparecia com nenhum significado. 

[Risos]Felismina é o nome da minha avó e a música é sobre ela. É basicamente sobre vários desabafos que ela teve comigo, e é essencialmente sobre a nossa relação, que era muito feita à base de ela falar e eu a ouvir – sobre eu não dar sequer vestígios que já tinha ouvido as histórias mais que uma vez- Sempre achei que essa relação seria um mote bonito para uma música, e pronto, acabou por surgir.  Depois faço a desconstrução do nome no refrão, “Felismina-me a tristeza”. Acabou por assentar bem nessa música, e acabou por ser uma bonita homenagem, porque ela já nos deixou, infelizmente, no meio do processo do álbum. Essa música nem estávamos a pensar em incluí-la, mas depois quando ela faleceu pareceu óbvio incluir.

Parece que há aqui uma onda de música de intervenção, não pelos melhores motivos. Tu achas que os artistas têm cada vez mais responsabilidade de intervir? 

Eu acho que, para já, os artistas são pessoas, e as pessoas têm o direito de se expressarem artisticamente da forma que querem. Eu nunca tive uma urgência em intervir, mas, como eu disse há bocado, se o impulso criativo me leva para dar opiniões, sejam políticas, sejam sociais, isso de mim normalmente nunca parte de uma vontade enorme de agora começar a fazer música de intervenção e exaltar muito a minha opinião sobre o que quer que seja. Mas se eu sigo um impulso criativo que vai para esse sítio e se dá aquilo que eu acho que é boa música, e boa música para expor ao meu público, faço – que é o caso do Assunto Meu e do Dividir. Tenho outras coisas que podem ser interpretadas como críticas políticas e sociais, em letras que até são muito sobre mim, estás a ver? Mas nunca partiu mesmo de uma urgência de eu querer ser o porta-voz de uma certa visão política e social. Se eu acho que é importante e se eu acho que os artistas têm responsabilidade? Eu não sei se os artistas têm responsabilidade, mas os artistas têm uma plataforma maior que maior parte das pessoas, e isso pode acabar por trazer a tal parte da responsabilidade.

Esta paixão que tens pelo trabalho do Sérgio Godinho, achas que vem dessa vertente e ajuda a fermentar este tipo de letras? 

Sim, sim, pá, isso obviamente, tudo o que tu bebes vai acabar por alimentar aquilo que tu crias. Tendo o Sérgio Godinho como grande referência, como tenho, por exemplo, dessa época o José Mário Branco, o Fausto, o Luís Cília… obviamente que acabaram por também moldar o meu pensamento durante a minha adolescência. 

Este tipo de música foi algo que foste explorando sozinho ou de alguma forma te foi embutido?

Imagina, o meu pai é uma pessoa de esquerda e que gosta deste tipo de música. Ele nunca foi de dizer «olha, senta-te e ouve isto», mas tinha um CD do Sérgio Godinho no carro, e eu gostava bastante. Quando era miúdo, e mesmo sem perceber metade do que ele queria dizer, acho que também fui muito movido pela estética e pela fonética das brincadeiras de palavras, e certos sons que ele faz – achei que era diferente de tudo o que eu já tinha ouvido naquela altura. Gostei, e a partir daí fiz eu a minha pesquisa. O teu conhecimento é movido por interesse, se tu te interessas, tu vais pesquisar, tu vais aprofundar, vais escavar, e vais acabar por abrir fontes onde bebes. Então, aí é muito possível que eu, a certa altura, ter escrito sobre a nossa condição social ou política ou quer que seja, teve raízes nesses artistas, sem dúvida, sim. 

Quero tocar na Assunto Meu, porque até parece coincidência, mas ele reflete-se muito bem no que se vive agora, no centro do país, graças às tempestades e ao individualismo que nós temos visto. Tu esperas que esta música toque nas pessoas como tocou a ti, se calhar, o Sérgio Godinho?

É assim, eu não quero meter essa carga toda em cima da minha música [risos]. Eu exponho e depois fico à espera que as pessoas se relacionem ou gostem de alguma forma do que eu estou a fazer. Algumas pessoas que se calhar, gostam muito do refrão, não entendem o que é que o resto da música quer dizer, e por mim também está tudo bem, cada pessoa tem direito a interpretar da sua forma, e gostar da música mesmo que não a perceba. Não quero meter um peso assim tão grande na minha música. Mas em relação ao teu primeiro ponto, sim, acabou por calhar mesmo numa altura em que aconteceu o que aconteceu na minha zona e nas zonas próximas também. Viu-se muita inação por parte do governo, quase um «não é assunto meu», «não me tocou a mim». E sim, pensei nisso muitas vezes, sem dúvida, parece que foi quase de propósito, se bem que podíamos adaptar isto a qualquer outra situação. Até achei, entre muitas aspas, mais piada o facto de eu ter lançado um som chamado vento, e depois ter sido arrasado por uma ventania que me levou muitas telhas de minha casa. 

Tu no álbum dizes: “ser artista é ser o bobo da corte”. Sentes que o artista é alguém que diz as verdades sem nunca ser totalmente levado a sério, ou alguém que está cá só para entreter? 

Sinto que muitas vezes somos tratados como pessoas que têm a obrigação de entreter, e entreter da forma que as pessoas querem. Muitas vezes sinto-me, sem dúvida, bobo da corte, até pela forma como tratam a classe artística. Concretamente em Portugal, eu acho que é um tratamento pobre e que não faz uso a todo o trabalho que nós fazemos, que parte de uma posição mega privilegiada, por conseguir, eventualmente, chegar a um patamar em que sou pago para dar concertos e em que tenho um bom número de pessoas a ouvir a minha música. Eu tenho amigos que têm full-time jobs e não largam a música por nada. Se eles pudessem, provavelmente estariam no meu lugar, e aí sinto alguma responsabilidade em dar voz àquela que é a minha classe, que é a classe artística 

Queria também falar da capa do álbum. Estás em Lisboa, a chamar um táxi, pelo que parece, à noite. Que mensagem é que tem esta capa? 

Esta capa, olha, foi mais uma vez inspirada no Sérgio Godinho, que, como me referiste há bocado bem, o nome, “em sonhos é sabido, não se morre”, é uma frase do Lisboa Que Amanhece, que está incluída num álbum que se chama Na Vida Real. A capa é exatamente ele nessa rua. 

Eu já conhecia a música e ela nunca me apareceu nesse álbum, portanto, nem tinha reparado nisso. É um toque giro.

Pois, porque ele, entretanto, tem mil e uma versões de Lisboa Que Amanhece, e a versão que eu ouço mais vezes também não é a que tem essa capa.

É aquela dele ao pé de uma publicidade, uma capa branca? 

Ah, pois, essa até é de um álbum que acho que é o Escritor de Canções

Exatamente, com muitas versões ao vivo. 

Ya, eu adoro essa versão também. Mas pronto, a capa foi mais uma referência ao álbum dele. 

O que é a Casa do Vale? 

A Casa do Vale, olha, é a casa de um amigo meu que é o Pedro do Vale. 

Artista de Ourém também, certo?

Artista de Ourém, sim. Ele cresceu em Caxarias, mesmo na minha freguesia e essa casa é lá. Basicamente, ele tem essa casa mesmo no meio do nada, que parte do videoclipe do Assunto Meu até foi filmado lá. Ele promove residências artísticas, e numa dessas residências, que foi a da Iolanda, surgiu o tal Interlúdio da Casa do Vale. Foi gravado no Dictafone, como eu estava a dizer há bocado em off. O Kidonov meteu a gravar quando nós estávamos a tocar uma letra que eu tinha acabado de escrever para uma guitarrada do Samuel Louro, que eu estava a curtir bué, e depois a malta acabou por se juntar. Está lá a Bia Maria, o Pedro do Vale, o Samuel a tocar, estamos nós a cantar essa letra, e até no início ouve-se eu a dizer “isto é o interlúdio do álbum”. E, pronto, acabou por ser um momento engraçado que reflete bué os nossos convívios, que são muito assim. Tipo, alguém surge com uma guitarrada e depois ou estamos a tocar músicas já muito conhecidas e todos a cantar, ou então surgem coisas novas, e acabamos por estar ali numa comunhão bonita. Nós já andávamos há bué tempo à procura de um interlúdio e quando não estávamos concretamente à procura é que o encontrámos. Acabou por ser engraçado. 

Ed, Iolanda, L-ALI e João Não. Com o L-ALI e com a Iolanda já tinhas trabalhado – com o L-ALI em Terra:Aura, Eclipse, e certamente tem outros projetos, com a Iolanda no Olha P’ra Ela, mas penso que seja a primeira vez que trabalhas com o João Não, e se não estou em erro, com o Ed também. Como é que eles entram aqui no projeto? 

São amigos, basicamente. As quatro pessoas que mencionaste são pessoas que eu nutro muita amizade e carinho, são pessoas que eu admiro muito musicalmente, e fez-me todo o sentido de convidá-las. As vezes que eu trabalhei com o João Não e com o Ed foram vezes que não passaram cá para fora ainda: com o João já tinha gravado uma música com ele para o que seria na altura um EP ou um álbum do Beiro, que depois acabou por não sair, e com o Ed já o tinha ajudado a escrever, e acho que estivemos numa sessão de estúdio também com uma fadista em que nos juntámos os dois para escrever uma letra para ela. Com a Iolanda foi a primeira vez que eu trabalhei com ela já depois de alguns anos de amizade. Mencionaste o Olha Para Ela e também hão de sair mais músicas do álbum dela em que eu participei. Pronto, e o Hélder é meu amigo já há muitos anos – começou por ser uma pessoa que eu admirava musicalmente e que queria muito conhecer. Conheci-o há cerca de 10 anos depois de lançar a Odisseia, e desde então que… aliás, a colaboração com o Hélder até demorou muito tempo a nascer, porque já nos conhecemos há muito tempo, e só passado não sei quantos anos é que fizemos o Eclipse – que foi a primeira malha em que saiu a nossa primeira collab. Mas, epá, diria que essas colaborações surgiram porque são meus amigos, queria trabalhar com eles e queria-os no meu álbum. 

Dia 11 de março vais estar a pisar o palco do Capitólio, para apresentar o álbum. O que é que podemos esperar para essa noite? 

Podem esperar ouvir o meu álbum todo, com os meus amigos Samuel Louro na guitarra, Guilherme Eugénio no baixo, o Billy que está aqui connosco, na flauta, a orientar o projeto e a lançar o autotune para eu soar bem [risos]. O Pedro Antunes nas drums e o Tomás Martins no saxofone, prodigioso saxofonista da minha terra também. Podem esperar um show bastante orgânico, bastante à imagem daquilo que foi o álbum, porque estas pessoas acompanharam de perto e participaram no álbum, o que para mim é uma cena muito importante e que eu queria realizar há muito. Podem esperar alguns clássicos que eu não vou deixar tocar, pelo menos a Éden, acho fixe tocar sempre, e a Marfim também – são músicas que para mim fazem sentido – e podem esperar uma boa celebração da minha carreira. 

WONDER – Papillon

Papillon dispensa apresentações, mas continua a merecê-las. Merece-as porque, a cada segundo que “perdemos” a viajar pela arte que nos oferece, encontramos dentro de nós um sinal ou uma razão para continuar a fazer o que fazemos – seja eu, que escrevo estas linhas com um sorriso pela oportunidade que me foi dada, seja quem lê, que procura saber mais e/ou guarda no coração espaço para arte do rapper, quase sentindo o seu trabalho com a mesma intensidade que o próprio.

Ainda parece que foi ontem que Deepak Looper era editado, e ainda há bocadinho que Rui Pereira nos deixava as suas histórias em Jony Driver. O artista que depois de se afirmar em 2018 com o seu primeiro álbum a solo – vindo já com o peso e reconhecimento que havia construído com os GROGNation – e ter assegurado em 2022 que havia deixado o hip-hop português em boas mãos, apresenta-nos agora o seu terceiro álbum de estúdio: WONDER. 

Composto por treze faixas, WONDER vem encerrar a trilogia iniciada há sete anos – e de que maneira. Em cada trabalho que lança, o rapper de Mem-Martins aposta tudo: volta a presentear-nos com uma curta-metragem – desta vez intitulada SONHOS, onde vemos fragmentos da sua vida até ao momento, entrelaçados com as novas músicas do projeto, que antecede o álbum. Brilha na forma como transforma problemas em letra; volta a dar significado aos títulos das canções, brincando agora com o facto de poderem ser lidos de trás para a frente. Além disso, reinventa-se mais uma vez na sonoridade. Traz consigo, na produção, os GÓIAS, Diogo Púrpura, ARIEL e MIGZ; agarra-se a Duarte Cotta, Hayden Nóbrega, Hugo Lobo e frankieontheguitar para dar ainda mais vida aos temas; e reserva um espaço especial para as vozes da Carla Prata e da Bárbara Tinoco, que acrescentam brilho nesta viagem. A mistura do projeto ficou ainda encarregue de Charlie Beats e a masterização esteve nas mãos de Chris Athens. 

Num projeto onde deixa encaixado de forma mais melódica o peso das palavras, Papillon chega ao ponto alto de uma evolução que já vinha a construir com os últimos dois projetos. Volta a arriscar depois de Jony Driver, um álbum muito mais conceptual comparado ao seu antecessor, levando nas músicas outro nível de maturidade artística, que se preocupa em tocar na sensibilidade do coração de quem ouve, revivendo a jornada do rapper até ao momento. Deixa um pouco de lado o tom explosivo, mas que ainda está presente em ¡ +1 !, ¡ WOW ! e ¡ REVIVER !, procurando explorar mais o seu nível vocal, materializando de forma mais crua as suas histórias. 

Para o ano, mais precisamente a 20 de março, vai pisar o palco do Coliseu dos Recreios a nome próprio, apresentando ao vivo o WONDER, com a possível oportunidade de viajar por toda a discografia do artista. Quase 14 anos depois de se ter revelado na indústria musical, Papillon segue firme e com lugar na tribuna do hip-hop nacional.

Na listening party do projeto, em Lisboa, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de trocar umas palavras com o rapper. 

Se no Deepak Looper víamos um Papillon a afirmar uma posição na música mais firme, viámos também que era alguém que estava numa jornada de aprendizagem, e no Jony Driver vemos alguém que dá uma faceta mais pessoal e que tem uma matéria mais sabida. Aqui no WONDER, vemos alguém que está numa fase pronto para ensinar. Sentes o mesmo?

Aaaaaa ao contrário [risos]. Eu acho que pensava que tinha mais para ensinar no primeiro, fui percebendo que não tinha assim tanto para ensinar no segundo, e agora tou só aqui a aprender [risos]. Acho que o WONDER é essencialmente aceitar que existe muita coisa que eu não sei, que nunca vou conseguir ser perfeito, que tenho de aceitar os erros como parte da minha aprendizagem e também entender que vai haver um momento onde eu vou saber tudo. Eu comecei o meu caminho a pensar dessa forma, que sabia mais, mas agora cheguei à conclusão que não é bem assim.

Este projeto parece-me ter um destinatário bastante óbvio. Enquanto no Jony Driver contas muito sobre quem te ensinou e quem te fez seres quem és, aqui também acabas por demonstrar essa faceta, só que mais do teu lado. 

Ya, é mais do meu lado, exatamente. Tou numa posição diferente, acho que agora tenho uma experiência de paternidade que me faz ver as coisas com outra perspetiva até então. E lá está, acho que posso sempre ensinar, tenho já perspetiva de vida e experiência, mas também sei que sou humilde o suficiente para aprender. 

Porquê WONDER? Há ainda uma luta e uma procura por um sonho, de uma criança dentro de ti?

A procura acabou, agora tamos só a explorar [risos]. Eu antes estava na procura de algo, de uma meta, de uma melhor versão de mim…agora tou só aqui. Tou só a viver e a tentar todos os dias dar o meu melhor, e provar a mim próprio – quer dizer, nem é tanto provar, é mais saber usufruir das cenas. Inconscientemente todo o caminho que fiz até chegar ao WONDER foi a tentar resolver as minhas insatisfações, mas agora já estou satisfeito. Não sei se isto é bom ou mau [risos].

Do Deepak Looper para cá, o que sentes que mudou? Seja na forma de pensar ou de trabalhar.

Mudou tudo. Eu normalmente tento transmitir isto nos álbuns, dizer o que é que mudou, o que não mudou, o que é que eu aprendi e que lições é que vieram. A nível pessoal muita coisa aconteceu, desde perder o meu pai, perder amigos, acabar relações, ser pai. A nível profissional muita coisa mesmo, comecei a rimar num quarto com uns amigos e hoje em dia é o meu trabalho, é aquilo que eu penso 24/7. 

Depois de teres lançado o Jony Driver começaste logo a pensar ou a trabalhar neste projeto?

Não, não, ainda levou um tempo. Tive este lado pessoal de ser pai para assentar as coisas. O processo deste álbum ainda durou uns dois anos.

Qual foi a parte que perdeste mais tempo? No sentido de bater mais crânio e demorar mais a chegar a um resultado. 

Foram as ideias. Foi saber a ideia certa, saber o que eu queria transmitir, depois disso foi mãos à obra. A parte mais difícil foi mesmo essa de querer saber o que dizer. 

Novamente 13 músicas num projeto. Quem canta seus males espanta?

Acho que sim ya, sempre [risos]. O objetivo é esse. 

NOVA ESCOLA HHR: BELLA SAINT

“quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir na música, vêm sentimentos muito especiais”

BELLA SAINT é uma artista e produtora emergente de Aveiro. A sua jornada musical começou durante a quarentena, quando começou a explorar o FL Studio e a deixar-se levar pela criação musical. Depois de trabalhar como produtora para vários artistas, estreou-se com a música Crime em 2023, e desde então conta com 5 músicas a nome próprio e uma colaboração com o Holympo – artista e produtor que a tem acompanhado desde o começo. No ano de 2024, esteve por detrás do EP IMPERFEITO V2, de Agir, preparando-se agora para se estrear ao vivo com um concerto em Braga. De modo a marcar mais uma edição da NOVA ESCOLA aqui na Hip-Hop Rádio, tivemos a oportunidade de conversar com a artista sobre o seu percurso na indústria.

Estreaste-te em nome próprio a meio de 2023, com a CRIME. Lançares-te para cima de um beat é algo que surge pouco antes disto ou já tinhas coisas guardadas no disco?

Eu comecei na música a produzir em 2020 e fiz bué beats para treinar. Sempre que os fazia acabava por saltar para cima deles, e foi mesmo essa a razão pela qual me interessei pela parte da produção – para depois poder ter liberdade criativa e conseguir desenvolver as minhas ideias no processo. Tenho imensas faixas que nunca vão ver a luz do dia, muitas delas em português. Quando fiz a CRIME, já tinha cerca de 100 músicas feitas.

Por acaso queria tocar nisso. A busca do inglês como forma de partilhares as tuas letras surge com que objetivo? Tens mais facilidade em te exprimires assim, ou é como uma tentativa de abranger de início um público maior?

Os meus pais sempre foram bastante cultos na música e, desde que me lembro, o meu pai sentava-me e punha-me os fones para ouvir. Sempre que o fazia, colocava-me também a letra à frente para eu perceber as músicas, de tanto ele gostar daquilo. Eles nunca consumiram muita música portuguesa, então fui apresentada a Pearl Jam, Guns N’ Roses, Lauryn Hill, George Michael… esses clássicos. Tenho uma irmã mais velha e, como toda a gente sabe, acabamos sempre por ser influenciados pelos irmãos mais velhos – ela ouvia muito Kanye, 50 Cent, por aí – então a música portuguesa em minha casa nunca foi muito presente, e comecei muito cedo a exprimir-me através do inglês. Por acaso, quando chegou a altura de pegar no microfone, comecei por escrever em português, porque estava a trabalhar com o Holympo e achei que fosse melhor para facilitar. Gosto das minhas faixas em português, mas sinto que iam um bocado contra a minha identidade quando comecei a cantar em inglês.

Sentes que há uma diferença de quem és tu e de quem é a BELLA SAINT?

Sem dúvida. Os artistas costumam dizer que têm um alter-ego e eu sinto bué isso. Quando estás a criar música acabas por te expressar naturalmente, não é algo que tu possas forçar – ok, até podes criar esse tal alter-ego que pode ter certos aspetos –mas ainda assim acaba por ser bastante fluido e natural.

Quando te lançaste para cima dos beats, vinha também com uma vontade de libertares o que sentias?

Sim, as faixas que fiz em português no início são muito pessoais, por isso é que também nunca vão ver a luz do dia. Foi a pandemia, estávamos todos a passar um mau bocado e eu estava a descobrir um mundo em que me podia expressar. Toda a gente sabe que a música é um desabafo, mas quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir lá e mais tarde vais ouvir, vêm sentimentos muito especiais.

Disseste que começaste a produzir em 2020, por esta altura trabalhavas com que artistas?

Eu comecei a produzir com a ajuda do Holympo – eu queria começar a produzir, mas os meus beats pareciam uma brincadeira [risos]. Ele começou a ajudar-me e acabei por fazer o beat da Puro, dele. Mais tarde produzi para o HeartLess, a Oh!Maria, e agora produzi para o Agir e também para a pikika. Mas tudo começa com uma história engraçada, acho eu: há uns tempos estive a ver umas cassetes digitalizadas, e eram horas e horas de filmagens minhas com um cabo de vassoura a cantar [risos]. Acho que sempre quis fazer música, mas não sabia bem como. Quando conheci o Holympo já tinha o FL Studio instalado e tudo – só me faltava ganhar coragem para pegar naquilo – mas as minhas primeiras brincadeiras até foram no VirtualDJ, a juntar faixas e fazer remixes, tirar elementos dos beats.

Fonte: Pyte

Falaste do teu trabalho nos projetos do Agir e da pikika. Estás na produção do IMPERFEITO V2 e na inocência da pikika. Como é que se dá a ligação com ambos?

Eu e o Holympo conhecemos o Agir e houve um dia em que ele nos mostrou o projeto que tinha para sair. Nós gostámos da cena,mas achámos engraçado desafiá-lo e incentivá-lo a ir para um registo mais de trap. Então metemos um beat e nessa mesma noite saiu a primeira faixa do EP, a AH. Ele ficou bué entusiasmado com o som e o resto surgiu tudo bué naturalmente.

Com a pikika foi através do Agir, depois do EP dele estar fechado. Fomos uma semana para uma casa em Lisboa, onde vários artistas apareceram para ouvir o projeto. Há um dia em que a pikika vai lá – eu já era mega fã dela há imenso tempo e, quando soube que ela ia, pensei logo em preparar algo para lhe. Também lá estava o Rodrigo Correia e, antes dela chegar, começámos a sacar umas melodias com a guitarra dele, e ele toca uma melodia incrível – a melodia da inocência. Eu e o Holympo adorámos aquilo, então peguei no microfone para fazer a melodia do refrão. Ela chegou, adorou, e foi tudo mega fluido. Ela é super acessível de trabalhar, mega talentosa e criativa, foi dos melhores processos musicais que já tive. 

Na conversa que tiveste para a FILTR com o Agir e com o Holympo, o Holympo disse que sempre que entravas em estúdio, ele nunca fazia ideia do que é que podia sair dali. E a verdade é que se olharmos para a tua discografia, sentimos um bocado isso também. Onde é que costumas ir beber para viajares em tantos estilos?

Como disse no início, o meu historial musical é muito transversal – ouvia mesmo muita coisa, e isso manteve-se até hoje. Depois fui desenvolvendo o meu gosto pessoal, obviamente, mas nunca parei de ouvir vários estilos… tenho fases também, e isso é bom, porque senão chegava ao estúdio e nunca saberia aquilo que quero [risos], o que acabaria por complicar. Mas acabo por ouvir muito The Neighbourhood, Arctic Monkeys, Pearl Jam, ou então Drake, Rosalía, por aí. Por isso é que às vezes me veem a divergir tanto. Sei que há artistas que conseguem bué facilmente ir a vários estilos e eu curtia ser igual, sem me meter numa “caixa”.

Ainda nessa conversa disseste que ias lançar um EP até ao fim do ano. Entretanto saiu a Folow e a COME THRU. Eram faixas que faziam parte do EP mas que decidiste alterar a forma de lançamento?

Eu acabo por bater bastante crânio sobre a minha arte e ponho muito peso num projeto – quando apresentar algo de maior relevo quero que seja de forma sólida. Tenho várias faixas que estou a usar para construir um projeto, que ainda não sei se será EP ou álbum, mas esse em específico acabei por achar que não estava maduro o suficiente. Estou a trabalhar para ser uma cena da qual me orgulhe no final e que sinta que está de acordo com aquilo que é a BELLA SAINT.

Fonte: Apple Music
 
A COME THRU, que lançaste a semana passada, era deste EP?

Sim. Por acaso ela não é assim tão antiga, tenho feito o esforço para tentar lançar mais música. Sinto que, depois de estarmos com tantas faixas na gaveta, acabamos por ficar fartos de algo que para nós não é novo, mas que para o público é. A Folow já era uma faixa que, nessa altura, já tinha mais de um ano.

Achas que esta dificuldade em fechar um projeto também surge por divergires tanto em estilos?

Nesta fase da minha carreira pode ser um bocado complicado para mim e para quem me segue perceber o que vou lançar – o público, porque me está a descobrir e ainda não sabe bem o que esperar, e eu, por achar difícil escolher a forma como me vou apresentar. É daqueles processos de que não tenho medo nem me sinto mal, porque acho que no final vai tudo fazer sentido. É necessário para me construir e para perceber quem sou.

A CRIME foi parar à soundtrack dos Morangos com Açúcar. Como é que isto acontece e que sensação sentiste, ainda mais sendo tu uma artista em ascensão, ao veres a tua música numa série com grande audiência?

É uma daquelas coisas de que estou mega grata e que acho que para sempre ficarei. Deu-me um impulso enorme no início da carreira, foi algo mesmo muito impactante para mim. Não sei bem como é que a minha música chegou até à produção – talvez por contactos de contactos – mas quando me contactaram fiquei muito feliz.

O ano está a acabar, já andas planeado para fechar 2025?

Sim, no dia 29 de novembro vou dar o meu primeiro concerto em Braga –vai ser giro para me apresentar ao vivo e para a malta perceber como é a BELLA SAINT ao vivo.

Harold – O Último Malmequer: Casa Capitão

Harold está de volta aos palcos para celebrar o lançamento do seu terceiro álbum a solo, O Último Malmequer.

Cinco meses depois do lançamento do seu projeto, o rapper de Mem-Martins subiu ao palco da Casa Capitão numa noite marcada pela tempestade, que não deixou os fãs ficarem em casa. O seu último álbum – que teve direito a emissão e artigo aqui na Hip-Hop Rádio – destacou-se por explorar a vulnerabilidade e a resistência que atravessam a vida de Harold, afirmando-se como o trabalho mais pessoal da sua discografia até agora. 

Em palco, Harold fez-se acompanhar por Épico como dj, Loic António no baixo e na guitarra, e Rafael Furtado na bateria, dando nova vida às músicas do seu último projeto e estreando-se com banda. A verdade é que cada vez mais artistas optam por levar instrumentos para cima do palco – e com bons motivos. Nota-se logo a energia que a banda transmite, trazendo outra força às músicas e buscando ainda mais a energia do público. O primeiro convidado da noite foi Yang, que subiu ao palco para assinalar a colaboração em Pésnochão, uma das faixas mais mexidas do projeto. Mais tarde, xtinto e L-ALI juntaram-se a Harold para dar voz às faixas de Mãe Um Dia Ganho Um Diamante e, em seguida, nastyfactor – amigo de infância de Harold e ex-membro do grupo mútuo GROGNation – entrou para formar dupla em Bora. Cada participação acrescentava uma nova camada de energia ao concerto, preparando o palco para o que viria a ser o momento mais especial da noite. 

Com um sorriso na cara de Harold e nastyfactor, Prizko e Neck subiram ao palco para relembrar os velhos tempos. Quem estava na sala certamente acompanhou o grupo criado há 14 anos, que encerrou a sua trajetória em 2022, e sentiu de perto a emoção de os ver novamente em palco. Há sempre algo especial em celebrar o passado, e a Distante foi a faixa escolhida para a homenagem. Momentos como este revelam o verdadeiro impacto da música urbana no público, vendo várias gerações a entoar a mesma canção e também, chegando até a quebrar a postura de quem normalmente se mantém mais contido nos concertos. Afinal, a energia e a união que se via em palco estava também na plateia.

Harold fechou a noite com Vento em Popa, acompanhado por uma plateia que cantava por ele. Embora não estivesse a casa cheia, as centenas de fãs que se deslocaram para o ouvir fizeram questão de mostrar o seu apoio deixando o artista visivelmente grato, marcando a noite de apresentação do seu projeto. Depois de carimbar a sala lisboeta na noite passada com o seu nome, o rapper segue agora rumo ao Porto, onde sobe ao palco do Maus Hábitos já no dia 21 de novembro.

Antes do concerto, a Hip-Hop Rádio teve ainda a oportunidade de conversar com o artista sobre O Último Malmequer e a noite que se adivinhava em Lisboa.

Queria começar por abordar o teu último álbum. O O Último Malmequer traz muitos temas pessoais, com quais talvez muita gente se possa identificar. Em faixas como a Vidrado, por exemplo, sentes que deixares ali aqueles sentimentos te ajudam de certa forma a falar com alguém?

A Vidrado acaba por ser um daqueles sons em que expões bué o teu coração, sim. As minhas músicas são sempre muito pessoais – uso-as para contar as minhas histórias – mas é sempre provável que haja pessoas que se vão ligar a elas e identificar-se. Olho para as minhas músicas como um diário, um desabafo de como tu te sentes e de como estás, de como te queres expor ao mundo, por assim dizer. E depois, quando estás a ouvir um instrumental, chegas a um ponto em que fica muito fácil exprimires tudo o que estás a sentir.

Estás a falar dos instrumentais e gostava de tocar nisso. Tens muita facilidade em pôr essas temáticas mais azuis em ritmos mais mexidos, mas também em melodias mais melancólicas. Onde é que gostas mais de deixar estes sentimentos?

Hum, não sei, pá. Acho que vou sempre experimentando vários géneros e depois acaba por ser meio uma cena de moods. Um som como o Vidrado foi a primeira vez que fiz algo naquele registo, que é muito diferente dos sons em que posso estar a cuspir mais, e que sempre foram mais o meu registo. Mas como também gosto de explorar cenas fora da minha zona de conforto, um bocadinho fora de pé, acabo por tentar ir para outras cenas. E como, na Vidrado, queria expor os meus sentimentos de uma forma mais melódica e não ir tanto para barras, aquele instrumental encaixou perfeitamente.

Tu trazes muitos temas para o álbum, mas queria notar aquele que sinto que seja o mais pesado – que está identificado principalmente na Éder – que é o racismo. A música tem várias particularidades: pode ser um meio de comunicação, uma forma artística ou algo de puro entretenimento. No entanto,  a música também é capaz de ensinar, porque age diretamente nas pessoas. De que forma sentes que os teus relatos, comos os que trazes aqui para o álbum, podem agir na transformação e na consciência social?

Eu sou uma pessoa que tenta, já no meu meio – com os meus amigos e com os meus mais próximos – e também na internet, passar a mensagem que tenho na Éder: consciencializar. Na música acho que vai ser sempre a forma mais eficaz de o fazer, porque é a minha maneira mais forte de me exprimir. A Éder foi uma música que teve imensos tipos de reações de bué gente diferente, especialmente pessoal de Moçambique, que também se identificou e percebeu a mensagem.

Como é que a malta que te segue de Moçambique recebeu a Palavras?

A Palavras acabou por ser um som que bateu mais forte, principalmente pelo que tinha acontecido naquela altura. Teve um feedback bué fixe lá, e ainda bem, porque é daqueles sons que a malta destacou mais, mas que traz uma mensagem mais pesada. O áudio no fim do som é do meu primo, que trabalhava num hospital lá, e que todos os dias estava sempre a atender pessoas baleadas, e via-se na situação de ter de escolher vidas. Na altura estávamos sempre a falar e ele mandou-me aquele áudio, então encaixou perfeitamente. Naquele áudio ele transmite de forma muito mais intensa e real um relato de como as coisas estavam em Moçambique. Foi um dos sons essenciais do álbum para formar uma viagem e dar outros sabores ao que O Último Malmequer pode trazer.

Desde o Tudo Tem Seu Tempo até agora, foram 6 anos, tendo tu no meio ainda lançado um ep com o Lunn, o Mãe Um Dia Ganho Um Diamante. Durante este tempo exploraste outras formas artísticas ou estiveste sempre focado na música para te expressares?

Estive sempre ligado na música ya. Fiz bués participações com malta, lancei o EP e ainda demorei uns 2 anos até começar o álbum.

Quando começa o processo de criação do O Último Malmequer?

Ui, final de 2022, por aí. O álbum saiu em junho desde ano, então foi um processo demorado. Tive algumas pausas porque fui para Moçambique, mas estive quase sempre a trabalhar no álbum.

Tu tens vindo a antever estes concertos de apresentação através de uma forma muito gira no Youtube, chamada: A caminho de novembro. Sentias que fazia falta mostrares esse lado de quem é o Harold fora da música?

Ya. Eu acompanho alguns artistas que fazem vlogs, por exemplo o Filipe Ret – um rapper brasileiro que acompanho bué – que o faz semanalmente. Quando comecei a ver esses vídeos, senti que me liguei à arte dele de uma forma diferente, porque comecei a perceber a trajetória e a luta dele. Depois, como o nasty (nastyfactor) faz muito conteúdo, acabei por sentir que, agora com os concertos, seria fixe mostrar o meu próprio processo, desde a preparação até aos dias dos concertos. Por isso, fui acumulando conteúdos de estúdio e dos ensaios. Há malta que só quer ouvir as músicas, mas também há quem curta este tipo de conteúdo.

É a tua primeira vez aqui na Casa Capitão, também por ser uma sala de espetáculos muito recente. Vais te apresentar com banda em palco, como foi planear o concerto? 

Vou-me apresentar com banda, mas também vou ter partes só com dj. Quero dar à malta os dois flavours e fazer uma espécie de transição. Com a banda vamos dar uma nova roupagem às músicas do álbum, e vai ser fixe porque vai ser a primeira vez que toco assim. Como atuei poucas vezes em Lisboa, quero dar à malta que nunca me viu ou que já não me vê há muito tempo a oportunidade de ouvir as músicas de uma forma mais raiz. 

Trazes contigo também o L-ALI, o xtinto, o nastyfactor e o Yang. 

A ideia é trazer a malta que acompanhou comigo esta trajetória. Não dá para trazer toda a gente [risos] mas tentei juntar algumas músicas que eu achei que fossem importantes partilhar hoje e que, dentro da viagem do álbum, ajudem criar um bom momento. 

Com expetativas para hoje?

A expetativa é festa [risos] e boa energia. Estou bué ansioso, tenho estado a contar os dias para chegar este momento de para apresentar o meu álbum. Estou bué contente para subir a palco.

NOVA ESCOLA HHR: SANTOS, SÓ

“Tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento”

Diretamente de Sacavém, Gonçalo Santos apresenta-se na indústria musical como Santos, Só. Aos 23 anos, já soma alguns anos de experiência: foi aos 19 que lançou a sua primeira música, ainda sob o nome de Santos, e aos 11 anos de idade que começou a escrever. Hoje, com o nome artístico Santos, Só – um nome que carrega a ideia de simplicidade, pois é apenas o Santos – conta já com três faixas lançadas ao público e continua a trabalhar no seu primeiro projeto a solo. Para conhecer melhor o artista e mergulhar nas temáticas que explora nas suas músicas, a Hip-Hop Rádio esteve à conversa com o rapper para esta entrevista.

Quando lançaste a tua primeira malha PONTO DE INTERROGAÇÃO, ainda assinada só por Santos, tinhas 18/19 anos. Que fase da vida é esta, onde estás a entrar para a faculdade e decides mandar um som cá para fora?

Por essa altura estava a acabar o secundário, lancei-o em 2020 já com 19 anos, mas gravei-o com 18 anos. Eu já escrevia há muito tempo – desde os meus 11 anos – e sentia que o entrave, até então, de não lançar uma música era um conflito interno de ego e consciência. Ele é um som que fala sobre a teoria da psicanálise do Freud, a tua consciência, as tuas vontades próprias. O facto de na altura curtir bué de psicologia e teres esses conflitos levou-me a escolher esses temas para o meu primeiro som. Shoutout ao meu primo David que me levou ao estúdio com o RawCutz, foi a primeira vez que tive uma sessão assim profissional num estúdio. 

Entre essa e a OsciLAR, já como Santos, Só, ainda mandas cá para fora os sons Não Dormi e Figuras. Estavas na faculdade nessa altura, como é que funcionava? Tinhas a licenciatura em primeiro plano ou sentias que ela ocupava o teu tempo para a música?

Sinceramente estava um bocado in between. Eu sabia que o que eu queria mesmo era fazer música, mas ao mesmo tempo sabia que tinha de me licenciar. Eu tinha a faculdade em primeiro plano vá, mas quando eu não estava na faculdade estava a escrever. Andava muito por aí. Também tinha na cabeça que quando acabasse a licenciatura, me iria focar a 100% música, fazer o rebrand e começar a desenhar uma estética mais própria. 

Fonte: Santos, Só

Quandos dizes na osciLAR: “Acho que eu ’tou sempre a ir dum lado e ‘pó outro porque eu ’tou à procura só de algo que me apegue”, é já uma manifestação dessa vontade de focar na música no meio dos estudos?

Porra [risos]. Como jovem, andava bué numa de: “tenho de fazer alguma coisa”. Estava sempre a trocar de ideias, a pensar em várias coisas, mudanças comportamentais…a vida tas a ver? Estás a fazer a faculdade e estás a pensar se no futuro vais fazer isto ou aquilo. Essa barra é a forma mais crua de eu explicar que estou sempre a pensar em bué cenas. A coisa que mais me apega é a música ya, mas por acaso na altura não estava a pensar nisso [risos]. A osciLAR é muito sobre essa indecisão e crânios que uma pessoa vai passando.

Depois vem a Árvore Pt.1. É um som com um olhar muito mais compadecido de ti para ti mesmo, a cabeça deixa de oscilar tanto e começa a definir uma posição para com ela própria e o mundo à volta.

100%, esse som é o momento na minha carreira onde eu tou a ter a minha versão mais consciente e racional. O próprio conceito do som é sobre crescimento e as coisas que vais enfrentando. O Árvore Pt.1, quero que se torne uma série com várias partes, porque tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento. Com isso, vem essa versão mais racional. Quando escrevi esse som estava à beira dos 23 anos, e andava a pensar que as coisas estavam a ficar sérias, que tinha de bulir, que eventualmente iria sair de casa dos meus pais. Aí ainda é o mesmo tropa do osciLAR que ainda bate bué crânio [risos] é só uma demonstração mais completa dele.

Por acaso tinha olhado para a cena das partes de uma maneira diferente. Há árvores que duram centenas de anos, então tinha interpretado que uma possível parte dois seria já algo póstumo a ti. Numa de deixares cá a tua música para que possa “libertar oxigénio” para os próximos que começarem a fazer música. 

Isso é uma excelente forma de observar a cena. Eu não pensei nisso. Para mim o Árvore Pt.1 é um som que aproveito para deixar como um depoimento da minha jornada [risos]. É uma cena mesmo introspetiva do Gonçalo, sem pensar nas consequências que isso possa ter em outras gerações. Não tinha pensado nisso, mas espero que tenha esse efeito [risos] faço música com esse propósito também.

Na tua entrevista à Rimas e Batidas contaste que o refrão da Nada a Apontar foi escrito depois de te teres despedido do trabalho. Enquanto levavas a vida com uma “mão na cabeça, que não solda o soldado”, era fácil tirares tempo, ou sequer teres vontade, para escrever?

Olha, posso dizer que foi a altura mais pró-ativa da minha vida. Foi uma beca delicada em termos de gerir tempo – estava num full-time e a fazer música – mas ao longo desse período consegui escrever imenso, apesar também de não ter andado a dormir nada [risos]. O refrão vem de uma conversa com um amigo meu, o Henrique, então já andava com aquele tópico na cabeça mesmo antes de me despedir. No dia em que o fiz, o L-ALI tinha acabado de me mandar um beat, então se calhar estava com um fator mais libertador em mim, mas o som veio mais da conversa com esse meu amigo do que do trabalho. 

Fonte: Santos, Só

Então a mão na cabeça não vem dessa temática laboral e do cansaço?

Por acaso não, mas faz muito sentido até porque conjuga bué bem com o que tinha acontecido. O som é muito sobre guerra, metaforicamente, então tem bué referências militares, especialmente no refrão: o “alvo mais ao lado”, o “tar em guerra de matar a saudade”, o “isso não é papel para eu estar alistado”. No final do som também acabo com outra dica dessas. Ele gira muito em torno desse campo temático.

Como é que se dá a ligação com o L-ALI?

Veio um bocado de arrasto por ter trabalhado com malta da MunnHouse – a ligação com eles veio até do xtinto, já falava com ele. Na altura tinha a Árvore Pt.1 gravada e mandei-lhe mensagem a perguntar se faziam mistura e masterização na MunnHouse, porque queria dropar o som daí a umas semanas. Depois conheci o João Maia Ferreira e trabalhei com ele na mistura, masterização e pós-produção do som. Foi engraçado porque ele trata o estúdio como um 9 to 5, e eu na altura estava a trabalhar com o mesmo horário, então para ter aquela sessão com ele tive de fazer ganda expediente [risos]. Quando saiu o som, conectei-me com o L-ALI pelo Insta acho eu. Eu já era ganda fã do trabalho dele e ya, começamos a falar e há um dia em que ele me manda um beat. 

Estiveste presente no Festival da Política, no S.Jorge. Como foi?

Foi bué fixe. Curti imenso do ambiente e foi um festival onde me alinhei logo com os valores deles – o princípio do festival era alertar sobre a taxa abstenção e tentar interessar as pessoas pela política. Adorei a cena, mas foi a primeira vez que atuei para pessoas sentadas, então foi um bocado desafiante em termos de crowd control. 

Com a cabeça totalmente focada na música, tens planos para o futuro?

Estou a fechar o meu projeto pessoal, que já levou imensas voltas, estou a trabalhar também noutro projeto on the side, e com a cabeça 100% na música. 

“Violeta é também saber viver com mais coração do que cabeça” – Lhast apresenta novo álbum, Violetta

Lhast lançou hoje o seu terceiro álbum de estúdio, Violetta. O rapper da Atlantic Records começou a antecipar o projeto no final de fevereiro deste ano com o lançamento do single Só Pra Mim, seguido por Quem Sabe, segundo single que conta com a participação de pikika – músicas essas que tiveram direito a videoclip, com a direção de Gonçalo XZ. Um ano depois de estrear o projeto Cold Summers & Warm Winters, ao lado do produtor Chaylan, Lhast deixa cá fora o seu terceiro álbum a solo.

O disco inclui 17 faixas – das quais três são interlúdios que dividem o álbum em três atos – tem produção assinada pelo Fabrice Loureiro, pelos Góias e pelo Diogo Seis, e conta com REIS na mistura e masterização. Ainda no dia de lançamento, é de destacar os visuais criados para cada uma das faixas, realizados por Belmiro Ribeiro. Violetta pôde ser escutado em primeira mão pelos fãs a semana passada, numa listening party em Lisboa, anunciada nas redes sociais do rapper, não sendo ainda o álbum que encerra a trilogia – cujo significado o artista continua a manter em segredo – que inclui os projetos AMOR’FATI, lançado em 2019, e ALK, em 2022.

Sobretudo sobre pensamentos que circulam entre o amor, a ida, e a vida, Lhast lança-se para cima do reggaeton, do bossa nova e do funk, explorando também o R&B como forma de expressão. Ainda assim, o rapper guarda tempo no longa-duração, para deixar também faixas sobre o clima da noite.

Na noite de lançamento do Violetta, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar um pouco com o Lhast sobre o seu novo disco.

A HHR esteve a semana passada na tua listening party. O que é que se sente quando se vê o publico a receber daquela forma energética um álbum pela primeira vez?

Epá sabe bué bem, ainda mais quando é a primeira vez que estão a ouvir a maioria das músicas. É fixe ver a parte mais de festa quando o pessoal está a tentar perceber o que é que está a acontecer e a tentarem perceber o que é que eu estou a dizer, é ganda sensação. Também é uma cena nova para mim, nunca tinha feito uma listening party então foi uma boa experiência.

Estás de volta ao outro lado do Atlântico. Começaste pelo reggae e agora apresentas um álbum maioritariamente latino. Como é que chegas a estas sonoridades?

Eu sinto que já na produção tinha algumas vezes essa sonoridade um bocado mais latina. Acho que foi surgindo um pouco pelos producers que me foram trazendo essa vibe: o Diogo, o Fabrice e os Góias. É engraçado porque sou filho de mãe brasileira e pai português, e acho que isso nunca se refletiu muito na minha música, até porque também nunca tentei explorar isso. Mas aconteceu, fui me dando com pessoas que me levaram a casa de fados, depois a música brasileira foi aparecendo…

As guitarras dos Góias se calhar acabam por surgir muito dessa influência.

Muito, e do Diogo também. O Diogo fez imensas vibes brasileiras que foram saindo ali. Acabou por ser uma cena que é intrinsecamente minha, mas que saiu natural, eu nunca cheguei ao estúdio e pensei: “bora fazer isto”. O Violetta foi muito na descoberta. O primeiro som que saiu acho que foi o Só Pra Mim – até estávamos mais reggaeton.

Violetta porque viaja entre o amor e os sentimentos mais azuis?

Sim, é uma mistura do azul e do vermelho. É também uma maneira de ver a vida, tás a ver? De tu veres a dualidade toda no mundo e conseguires olhar para ti também. Quando há essa mistura do azul e do vermelho, a conclusão a que tu chegas é que não podes ser só desta forma ou desta, tens de saber unir os dois polos. Violeta é também saber viver com mais coração do que cabeça. Não pode ser só cabeça, não pode ser só coração, é um bocado mais coração do que cabeça.

Como em CSWW, aqui descolaste-te completamente da parte da produção também? 

Sim, sem ser estar a opinar [risos] não fiz nada assim de início. A produção do Violetta passou pelo Diogo, pelo Fabrice e pelos Góias: tudo o que nós fazíamos, desde o início ao fim, tínhamos de estar em acordo com aquela direção. Eu tinha mais ou menos a narrativa na minha mão que ia formando, e depois com eles o resto ia surgindo. Eu nunca tive numa banda, mas acho que é assim que eles devem fazer. Digo-o porque toda a gente ia adicionando coisas e se ninguém estava feliz com o resultado, não íamos para a frente.

Como artistas convidados no Violetta estão a pikika e o Ed – artistas com os quais já havias marcado presença em faixas este ano. Como é que surgem estas colaborações? 

A pikika convidou-me para o EP dela e fizemos logo a faixa. Depois começamos a escrever cenas com o Lunn, saiu rapidamente a Quem Sabe – que ficou para o álbum – e ainda fizemos mais que acabaram por não ter destino. O Ed conheci pelo Chaylan, a fazer o CSWW.  Ele era para lá ter entrado, mas acabou por não acontecer. Ele mostrou-me logo o Tua Falta, adorei o som, demorei para aí uns 6 meses até escrever, mas depois quando comecei a escrever foi rápido. O Ed não só entra duas vezes no álbum, como também me ajudou bué no processo. Ele é uma pessoa que eu admiro imenso, que quero ver crescer e que tem muito a dar à música portuguesa. Adoro trabalhar com ele, temos muita química. O Ed tem uma voz muito única, que canta como se já tivesse vivido outras vidas [risos] é mesmo. 

Vamos ter oportunidade de ver a apresentação do Violetta em cima de algum palco?

Sem dúvida.

Nova Escola HHR: MICSHYNE

Há caminhos mais bonitos em que a plenitude não está em viver sempre a rasgar

Natural de Vendas Novas, Miguel Heleno apresenta-se ao público como MICSHYNE. Foi em 2019 que publicou o seu primeiro trabalho de forma mais séria: OVERTHINKING, um EP bastante introspetivo que viaja nos problemas e nas questões do rapper. Atualmente, conta com um álbum, lançado no ano passado, dois EPs e mais de uma dezena de singles. Quarta-feira, dia 4 de junho, lançou o seu segundo EP, UNDERRATED ROCKSTAR, um projeto que conta com 8 faixas e será apresentado ao público dia 7 de junho no Tokyo Bar, em Lisboa. Com o lançamento do EP, e de modo a assinalar mais uma entrevista para a NOVA ESCOLA aqui na Hip-Hop Rádio, encontrei-me com o rapper para ficarmos a saber mais sobre o projeto.

Há um ano estreaste o teu primeiro álbum de originais, depois em outubro surgiu um tema com a Sofia Sousa, e foi ali a meio de abril, num “Real Breakthrough”, que deste o primeiro cheirinho do que iria ser o EP. Em que fase é que começou a criação deste projeto?

Depois do álbum como me senti um bocadinho preso e como comecei a pensar se já tinha chegado ao meu auge criativo, tive a necessidade de começar a fazer coisas sem me preocupar com o resultado delas. Acabou por ser um bocado poético porque comecei a lidar melhor com a repetição, comecei a desmistificar melhor os processos criativos, e acabei por ganhar mais experiência com tanta música que fiz. O resultado foi este novo projeto, que sinto que é a minha versão mais autêntica.

Diferente de TRANSPARENTE?

O TRANSPARENTE é muito sobre saúde mental, sobre os meus problemas com alguns vícios, é um álbum onde sou eu a limpar-me um pouco disso. Neste UNDERRATED ROCKSTAR, sou eu a assumir que todo esse trajeto foi difícil e necessário, para conseguir abraçar essa versão mais autêntica. Apesar de não ser tão conceptual, sou eu a libertar-me ao máximo.

Andaste entre Vendas Novas (Estúdio 747) e Lisboa (Munnhouse) a criar, com a companhia do kuffkiff, PLAGU3, Beiro, Lunn e Montoito. Como aconteceram estas ligações?

Com o Gustavo (kuffkiff), construímos o álbum TRANSPARENTE. Conhecemo-nos em 2020, creio, em 2021 começámos a trabalhar juntos e desde então tem estado sempre ao meu lado. A sinergia é ótima porque ele é um puto super talentoso, com ele tenho sempre um feedback de um rapazinho de ouvido absoluto – ele vem do jazz estás a ver? Cada vez que ele ouve uma coisa minha em que acha que me estou a repetir diz-me logo, e isso é brutal. Tou sempre aberto a esse tipo de feedback para poder crescer. O PLAGU3 é da minha zona, nós não nos dávamos em putos, mas com o passar do tempo percebemos que tínhamos interesses em comum. Fizemos bué canções juntos para este projeto mas acabaram só por entrar três no EP.

E os outros?

O Beiro conheci-o numa colaboração – juntamente com o UEST – para a Caixa Cartão. Tal como aconteceu com o QVXNO e com o PIBXIS. Entretanto, eu estava à procura de experimentar outras vertentes, e acabei por fazer pós-produção com o Beiro, tendo sido ele quem depois me apresentou ao Lunn. Quando estava numa sessão de estúdio a trabalhar com o Lunn, o Montoito estava lá e mostrou uns samples bué loucos.

A mix e a master passam somente pelas tuas mãos, diferente de TRANSPARENTE, onde tiveste o SassáNascimento a fazer essa parte. Sentes que para este projeto fazia sentido nessa área um toque pessoal?

Para ser honesto, foi uma competência que acabei por desenvolver porque também trabalho como freelancer na área do áudio, então acabei por afunilar o budget para outras coisas. Se eu pudesse viver a vida de artista a 100%, não sei se misturava e masterizava as minhas músicas. Ia ter mão, porque há coisas que gosto de fazer, mas há pessoas por aí – como o Sassá – que são muito naturais nessa área. A parte de mix e master desenvolvi com muito esforço e por isso sinto que não tenho grande naturalidade em fazê-lo, diferente ao escrever, por exemplo. Essa parte de engenharia foi só uma competência que desenvolvi quase por sobrevivência.

 

 

Fonte: MICSHYNE

No meio deste processo todo, houve músicas que criaste que agora ficaram de fora?

Fu…fiz perto de umas 60 músicas, não tenho um número exato. Houve uma altura que estava tão na zona, que havia vezes em que estava a abrir projetos que tinha feito na semana anterior e não me lembrava daqueles refrões. Estava num ritmo como nunca tinha tido na vida. Foi necessário para me desprender das amarras do TRANSPARENTE e dos projetos anteriores.

Vou te citar: “Ya, eu assumo, tive uma fase difícil / Não é fácil caminhar, num mundo cheio de vícios”, “Já nem vivo tão eufórico / Fui mais deep depois de sóbrio”.  Num projeto que não é tão experimental como o teu primeiro álbum, sentes que lançares estes assuntos para este género de faixas é uma forma mais descomprimida de te expressares?

Voltando a trás e pensando bem no meu trajeto, acho que sempre tive muito ligado a estes assuntos da saúde mental. Seja pelas coisas que aconteceram na minha vida, seja por excessos que cometi ou pela relação que tive com alguns vícios que acabaram por resultar em situações bastante complicadas. Mas isso trouxe-me aqui. Fez-me criar o meu primeiro EP, fez-me ter uma visão mais ampla para criar o álbum e fez surgir este projeto, onde admito que tudo isso aconteceu, mas que me sinto cada vez mais cleane com uma consciência mais alargada em relação a esses assuntos. Há caminhos mais bonitos em que a plenitude não está em viver sempre a rasgar.

Fonte: MICSHYNE

 

Há bocado mencionei o Estúdio 747. É uma iniciativa tua?

O 747 surgiu juntamente com um grupo de amigos, onde nem todos estavam ligados à música – com a ideia de criarum estúdio. Aquilo rapidamente desenvolveu mais para um negócio porque é o sítio onde nós criamos. É a nossa casa cultural e é onde vendemos os nossos beats, serviços de mix e master e captação. Recentemente, criámos uma associação cultural para podermos impactar o pessoal mais jovem da nossa comunidade, e, ao mesmo tempo, surgiutambém a Soro, a nossa label independente.

Fora do UNDERRATED ROCKSTAR, tinha aqui uma questão sobre o TRANSPARENTE. Tu foste o primeiro artista que eu vi a colocar um snippet num projeto. A ENERGIA ficou em modo voo?

[Risos] Isso era uma canção inteira, mas metemos só o refrão.

Exatamente um ano depois de esgotares o Auditório Municipal de Vendas Novas e com a alma ligada a Tóquio, apresentas o EP em Lisboa. Nas redes socias, falaste num formato diferente de concerto, vais estar acompanhado em palco?

Posso adiantar que vou ter banda no Tokyo. Foi algo que já tínhamos levado para o concerto anterior, mas ao contrário do auditório – onde a malta estava sentada, num ambiente mais intimista – neste concerto espero outra energia.

Vou te citar novamente: “Não é um teste / é um manifesto / pa‘ que os meus sonhos / um dia me conheçam”. Com o que é que sonhas neste momento?

Curtia muito de ter o meu próprio circuito. Sei que Portugal tem um mercado bué pequeno, apesar de haver espaço para todos criarem, não há espaço para todos subsistirem – talvez pelas dimensões do país ou por razões que até possa nem compreender, por estar numa fase de aprendizagem. Mas gostava de ter o meu próprio circuito onde pudesse dar concertos de norte a sul. Acompanho muitos artistas que têm grandes fanbases sem a necessidade de ter grandes números. O meu lugar é em cima do palco e se pudesse fazer isto recorrentemente curtia imenso.