Hip Hop Rádio

Henrique Ferreira

WONDER – Papillon

Papillon dispensa apresentações, mas continua a merecê-las. Merece-as porque, a cada segundo que “perdemos” a viajar pela arte que nos oferece, encontramos dentro de nós um sinal ou uma razão para continuar a fazer o que fazemos – seja eu, que escrevo estas linhas com um sorriso pela oportunidade que me foi dada, seja quem lê, que procura saber mais e/ou guarda no coração espaço para arte do rapper, quase sentindo o seu trabalho com a mesma intensidade que o próprio.

Ainda parece que foi ontem que Deepak Looper era editado, e ainda há bocadinho que Rui Pereira nos deixava as suas histórias em Jony Driver. O artista que depois de se afirmar em 2018 com o seu primeiro álbum a solo – vindo já com o peso e reconhecimento que havia construído com os GROGNation – e ter assegurado em 2022 que havia deixado o hip-hop português em boas mãos, apresenta-nos agora o seu terceiro álbum de estúdio: WONDER. 

Composto por treze faixas, WONDER vem encerrar a trilogia iniciada há sete anos – e de que maneira. Em cada trabalho que lança, o rapper de Mem-Martins aposta tudo: volta a presentear-nos com uma curta-metragem – desta vez intitulada SONHOS, onde vemos fragmentos da sua vida até ao momento, entrelaçados com as novas músicas do projeto, que antecede o álbum. Brilha na forma como transforma problemas em letra; volta a dar significado aos títulos das canções, brincando agora com o facto de poderem ser lidos de trás para a frente. Além disso, reinventa-se mais uma vez na sonoridade. Traz consigo, na produção, os GÓIAS, Diogo Púrpura, ARIEL e MIGZ; agarra-se a Duarte Cotta, Hayden Nóbrega, Hugo Lobo e frankieontheguitar para dar ainda mais vida aos temas; e reserva um espaço especial para as vozes da Carla Prata e da Bárbara Tinoco, que acrescentam brilho nesta viagem. A mistura do projeto ficou ainda encarregue de Charlie Beats e a masterização esteve nas mãos de Chris Athens. 

Num projeto onde deixa encaixado de forma mais melódica o peso das palavras, Papillon chega ao ponto alto de uma evolução que já vinha a construir com os últimos dois projetos. Volta a arriscar depois de Jony Driver, um álbum muito mais conceptual comparado ao seu antecessor, levando nas músicas outro nível de maturidade artística, que se preocupa em tocar na sensibilidade do coração de quem ouve, revivendo a jornada do rapper até ao momento. Deixa um pouco de lado o tom explosivo, mas que ainda está presente em ¡ +1 !, ¡ WOW ! e ¡ REVIVER !, procurando explorar mais o seu nível vocal, materializando de forma mais crua as suas histórias. 

Para o ano, mais precisamente a 20 de março, vai pisar o palco do Coliseu dos Recreios a nome próprio, apresentando ao vivo o WONDER, com a possível oportunidade de viajar por toda a discografia do artista. Quase 14 anos depois de se ter revelado na indústria musical, Papillon segue firme e com lugar na tribuna do hip-hop nacional.

Na listening party do projeto, em Lisboa, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de trocar umas palavras com o rapper. 

Se no Deepak Looper víamos um Papillon a afirmar uma posição na música mais firme, viámos também que era alguém que estava numa jornada de aprendizagem, e no Jony Driver vemos alguém que dá uma faceta mais pessoal e que tem uma matéria mais sabida. Aqui no WONDER, vemos alguém que está numa fase pronto para ensinar. Sentes o mesmo?

Aaaaaa ao contrário [risos]. Eu acho que pensava que tinha mais para ensinar no primeiro, fui percebendo que não tinha assim tanto para ensinar no segundo, e agora tou só aqui a aprender [risos]. Acho que o WONDER é essencialmente aceitar que existe muita coisa que eu não sei, que nunca vou conseguir ser perfeito, que tenho de aceitar os erros como parte da minha aprendizagem e também entender que vai haver um momento onde eu vou saber tudo. Eu comecei o meu caminho a pensar dessa forma, que sabia mais, mas agora cheguei à conclusão que não é bem assim.

Este projeto parece-me ter um destinatário bastante óbvio. Enquanto no Jony Driver contas muito sobre quem te ensinou e quem te fez seres quem és, aqui também acabas por demonstrar essa faceta, só que mais do teu lado. 

Ya, é mais do meu lado, exatamente. Tou numa posição diferente, acho que agora tenho uma experiência de paternidade que me faz ver as coisas com outra perspetiva até então. E lá está, acho que posso sempre ensinar, tenho já perspetiva de vida e experiência, mas também sei que sou humilde o suficiente para aprender. 

Porquê WONDER? Há ainda uma luta e uma procura por um sonho, de uma criança dentro de ti?

A procura acabou, agora tamos só a explorar [risos]. Eu antes estava na procura de algo, de uma meta, de uma melhor versão de mim…agora tou só aqui. Tou só a viver e a tentar todos os dias dar o meu melhor, e provar a mim próprio – quer dizer, nem é tanto provar, é mais saber usufruir das cenas. Inconscientemente todo o caminho que fiz até chegar ao WONDER foi a tentar resolver as minhas insatisfações, mas agora já estou satisfeito. Não sei se isto é bom ou mau [risos].

Do Deepak Looper para cá, o que sentes que mudou? Seja na forma de pensar ou de trabalhar.

Mudou tudo. Eu normalmente tento transmitir isto nos álbuns, dizer o que é que mudou, o que não mudou, o que é que eu aprendi e que lições é que vieram. A nível pessoal muita coisa aconteceu, desde perder o meu pai, perder amigos, acabar relações, ser pai. A nível profissional muita coisa mesmo, comecei a rimar num quarto com uns amigos e hoje em dia é o meu trabalho, é aquilo que eu penso 24/7. 

Depois de teres lançado o Jony Driver começaste logo a pensar ou a trabalhar neste projeto?

Não, não, ainda levou um tempo. Tive este lado pessoal de ser pai para assentar as coisas. O processo deste álbum ainda durou uns dois anos.

Qual foi a parte que perdeste mais tempo? No sentido de bater mais crânio e demorar mais a chegar a um resultado. 

Foram as ideias. Foi saber a ideia certa, saber o que eu queria transmitir, depois disso foi mãos à obra. A parte mais difícil foi mesmo essa de querer saber o que dizer. 

Novamente 13 músicas num projeto. Quem canta seus males espanta?

Acho que sim ya, sempre [risos]. O objetivo é esse. 

NOVA ESCOLA HHR: BELLA SAINT

“quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir na música, vêm sentimentos muito especiais”

BELLA SAINT é uma artista e produtora emergente de Aveiro. A sua jornada musical começou durante a quarentena, quando começou a explorar o FL Studio e a deixar-se levar pela criação musical. Depois de trabalhar como produtora para vários artistas, estreou-se com a música Crime em 2023, e desde então conta com 5 músicas a nome próprio e uma colaboração com o Holympo – artista e produtor que a tem acompanhado desde o começo. No ano de 2024, esteve por detrás do EP IMPERFEITO V2, de Agir, preparando-se agora para se estrear ao vivo com um concerto em Braga. De modo a marcar mais uma edição da NOVA ESCOLA aqui na Hip-Hop Rádio, tivemos a oportunidade de conversar com a artista sobre o seu percurso na indústria.

Estreaste-te em nome próprio a meio de 2023, com a CRIME. Lançares-te para cima de um beat é algo que surge pouco antes disto ou já tinhas coisas guardadas no disco?

Eu comecei na música a produzir em 2020 e fiz bué beats para treinar. Sempre que os fazia acabava por saltar para cima deles, e foi mesmo essa a razão pela qual me interessei pela parte da produção – para depois poder ter liberdade criativa e conseguir desenvolver as minhas ideias no processo. Tenho imensas faixas que nunca vão ver a luz do dia, muitas delas em português. Quando fiz a CRIME, já tinha cerca de 100 músicas feitas.

Por acaso queria tocar nisso. A busca do inglês como forma de partilhares as tuas letras surge com que objetivo? Tens mais facilidade em te exprimires assim, ou é como uma tentativa de abranger de início um público maior?

Os meus pais sempre foram bastante cultos na música e, desde que me lembro, o meu pai sentava-me e punha-me os fones para ouvir. Sempre que o fazia, colocava-me também a letra à frente para eu perceber as músicas, de tanto ele gostar daquilo. Eles nunca consumiram muita música portuguesa, então fui apresentada a Pearl Jam, Guns N’ Roses, Lauryn Hill, George Michael… esses clássicos. Tenho uma irmã mais velha e, como toda a gente sabe, acabamos sempre por ser influenciados pelos irmãos mais velhos – ela ouvia muito Kanye, 50 Cent, por aí – então a música portuguesa em minha casa nunca foi muito presente, e comecei muito cedo a exprimir-me através do inglês. Por acaso, quando chegou a altura de pegar no microfone, comecei por escrever em português, porque estava a trabalhar com o Holympo e achei que fosse melhor para facilitar. Gosto das minhas faixas em português, mas sinto que iam um bocado contra a minha identidade quando comecei a cantar em inglês.

Sentes que há uma diferença de quem és tu e de quem é a BELLA SAINT?

Sem dúvida. Os artistas costumam dizer que têm um alter-ego e eu sinto bué isso. Quando estás a criar música acabas por te expressar naturalmente, não é algo que tu possas forçar – ok, até podes criar esse tal alter-ego que pode ter certos aspetos –mas ainda assim acaba por ser bastante fluido e natural.

Quando te lançaste para cima dos beats, vinha também com uma vontade de libertares o que sentias?

Sim, as faixas que fiz em português no início são muito pessoais, por isso é que também nunca vão ver a luz do dia. Foi a pandemia, estávamos todos a passar um mau bocado e eu estava a descobrir um mundo em que me podia expressar. Toda a gente sabe que a música é um desabafo, mas quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir lá e mais tarde vais ouvir, vêm sentimentos muito especiais.

Disseste que começaste a produzir em 2020, por esta altura trabalhavas com que artistas?

Eu comecei a produzir com a ajuda do Holympo – eu queria começar a produzir, mas os meus beats pareciam uma brincadeira [risos]. Ele começou a ajudar-me e acabei por fazer o beat da Puro, dele. Mais tarde produzi para o HeartLess, a Oh!Maria, e agora produzi para o Agir e também para a pikika. Mas tudo começa com uma história engraçada, acho eu: há uns tempos estive a ver umas cassetes digitalizadas, e eram horas e horas de filmagens minhas com um cabo de vassoura a cantar [risos]. Acho que sempre quis fazer música, mas não sabia bem como. Quando conheci o Holympo já tinha o FL Studio instalado e tudo – só me faltava ganhar coragem para pegar naquilo – mas as minhas primeiras brincadeiras até foram no VirtualDJ, a juntar faixas e fazer remixes, tirar elementos dos beats.

Fonte: Pyte

Falaste do teu trabalho nos projetos do Agir e da pikika. Estás na produção do IMPERFEITO V2 e na inocência da pikika. Como é que se dá a ligação com ambos?

Eu e o Holympo conhecemos o Agir e houve um dia em que ele nos mostrou o projeto que tinha para sair. Nós gostámos da cena,mas achámos engraçado desafiá-lo e incentivá-lo a ir para um registo mais de trap. Então metemos um beat e nessa mesma noite saiu a primeira faixa do EP, a AH. Ele ficou bué entusiasmado com o som e o resto surgiu tudo bué naturalmente.

Com a pikika foi através do Agir, depois do EP dele estar fechado. Fomos uma semana para uma casa em Lisboa, onde vários artistas apareceram para ouvir o projeto. Há um dia em que a pikika vai lá – eu já era mega fã dela há imenso tempo e, quando soube que ela ia, pensei logo em preparar algo para lhe. Também lá estava o Rodrigo Correia e, antes dela chegar, começámos a sacar umas melodias com a guitarra dele, e ele toca uma melodia incrível – a melodia da inocência. Eu e o Holympo adorámos aquilo, então peguei no microfone para fazer a melodia do refrão. Ela chegou, adorou, e foi tudo mega fluido. Ela é super acessível de trabalhar, mega talentosa e criativa, foi dos melhores processos musicais que já tive. 

Na conversa que tiveste para a FILTR com o Agir e com o Holympo, o Holympo disse que sempre que entravas em estúdio, ele nunca fazia ideia do que é que podia sair dali. E a verdade é que se olharmos para a tua discografia, sentimos um bocado isso também. Onde é que costumas ir beber para viajares em tantos estilos?

Como disse no início, o meu historial musical é muito transversal – ouvia mesmo muita coisa, e isso manteve-se até hoje. Depois fui desenvolvendo o meu gosto pessoal, obviamente, mas nunca parei de ouvir vários estilos… tenho fases também, e isso é bom, porque senão chegava ao estúdio e nunca saberia aquilo que quero [risos], o que acabaria por complicar. Mas acabo por ouvir muito The Neighbourhood, Arctic Monkeys, Pearl Jam, ou então Drake, Rosalía, por aí. Por isso é que às vezes me veem a divergir tanto. Sei que há artistas que conseguem bué facilmente ir a vários estilos e eu curtia ser igual, sem me meter numa “caixa”.

Ainda nessa conversa disseste que ias lançar um EP até ao fim do ano. Entretanto saiu a Folow e a COME THRU. Eram faixas que faziam parte do EP mas que decidiste alterar a forma de lançamento?

Eu acabo por bater bastante crânio sobre a minha arte e ponho muito peso num projeto – quando apresentar algo de maior relevo quero que seja de forma sólida. Tenho várias faixas que estou a usar para construir um projeto, que ainda não sei se será EP ou álbum, mas esse em específico acabei por achar que não estava maduro o suficiente. Estou a trabalhar para ser uma cena da qual me orgulhe no final e que sinta que está de acordo com aquilo que é a BELLA SAINT.

Fonte: Apple Music
 
A COME THRU, que lançaste a semana passada, era deste EP?

Sim. Por acaso ela não é assim tão antiga, tenho feito o esforço para tentar lançar mais música. Sinto que, depois de estarmos com tantas faixas na gaveta, acabamos por ficar fartos de algo que para nós não é novo, mas que para o público é. A Folow já era uma faixa que, nessa altura, já tinha mais de um ano.

Achas que esta dificuldade em fechar um projeto também surge por divergires tanto em estilos?

Nesta fase da minha carreira pode ser um bocado complicado para mim e para quem me segue perceber o que vou lançar – o público, porque me está a descobrir e ainda não sabe bem o que esperar, e eu, por achar difícil escolher a forma como me vou apresentar. É daqueles processos de que não tenho medo nem me sinto mal, porque acho que no final vai tudo fazer sentido. É necessário para me construir e para perceber quem sou.

A CRIME foi parar à soundtrack dos Morangos com Açúcar. Como é que isto acontece e que sensação sentiste, ainda mais sendo tu uma artista em ascensão, ao veres a tua música numa série com grande audiência?

É uma daquelas coisas de que estou mega grata e que acho que para sempre ficarei. Deu-me um impulso enorme no início da carreira, foi algo mesmo muito impactante para mim. Não sei bem como é que a minha música chegou até à produção – talvez por contactos de contactos – mas quando me contactaram fiquei muito feliz.

O ano está a acabar, já andas planeado para fechar 2025?

Sim, no dia 29 de novembro vou dar o meu primeiro concerto em Braga –vai ser giro para me apresentar ao vivo e para a malta perceber como é a BELLA SAINT ao vivo.

NOVA ESCOLA HHR: RUAR

A arte é de todos, é das ruas

A rubrica da NOVA ESCOLA tem como objetivo dar a conhecer artistas que começaram recentemente a traçar o seu caminho na indústria da música, através de entrevistas. Com estas entrevistas, pretende-se alcançar o maior público possível, ajudando os artistas a ganhar visibilidade e, simultaneamente, a criar pontes entre eles próprios. Desta vez, apresentamos na rubrica, em forma de artigo, um grupo criativo lisboeta, recém-criado – a RUAR.

A arte é de todos, é das ruas. RUAR porque é um olhar para as ruas, mas um olhar artístico que vem com um braço estendido que procura ajudar a partilhar e criar valores.

A ideia da RUAR nasceu há cerca de dois anos, entre dois amigos – David (Street) e Gonçalo (XZ) – e, à medida que o conceito foi ganhando forma, juntaram-se depois Ron, Sa1ke e CBS. O objetivo da RUAR é dar estrutura aos artistas de segunda linha em Portugal e fornecer-lhes todas as condições para que se possam desenvolver artisticamente e continuar a crescer. Este “núcleo de criativos”, pretende dar espaço a pessoas da nova escola para desenvolverem, em todos os meios de criação, os seus projetos, com estrutura e qualidade. Com nomes conhecidos na sua formação – como os diretores XZ e Ron – o coletivo traz as suas valências para concretizar esses seus objetivos, tendo o seu estúdio localizado em Lisboa. “Não trabalhamos com sessões de gravação, trabalhamos com sessões de estúdio. Queremos que todos os artistas se sintam em casa e que que possam explorar as suas ideias sem limite de horas ou quaisquer restrições. Todos os trabalhos que fazemos têm de sair 10/10, e se não for dessa maneira e com essa mentalidade, não vemos sentido para enfatizar o nosso propósito, que é a arte.” – conta Street à Hip-Hop Rádio.

A RUAR não funciona de forma gratuita, no entanto, prometem dar oportunidade aos artistas para poderem estruturar os seus projetos e concretizá-los – de uma forma mais acessível – com o objetivo vincado de criar a tal segunda linha de artistas em Portugal, referida inicialmente. De momento, a RUAR trabalha a componente musical (gravação, mix, master & beatmaking) e visual de um artista de música, mas procura criar uma grande comunidade artística que envolva mais áreas.

 

Fonte: HHR 

“Somos todos muito versáteis, gostamos de dar um input ou discutir ideias. Quando um artista nos apresenta um projeto, tentamos sempre fazer em conjunto um brainstorming para percebermos qual é o melhor resultado possível que lhe podemos entregar e qual o planeamento estratégico que devemos seguir” – ressalva Street. Ao todo são cinco elementos que formam a RUAR que, apesar de fazerem parte de áreas técnicas diferentes – engenharia de som, audiovisual e relações-públicas – assumem todos o papel de produção executiva do coletivo.

“Há um grande problema com os artistas independentes atualmente: eles têm de se preocupar com a escrita, com o beat, com a gravação – que muitas vezes é feita em casa – com a mistura, a masterização e com a parte visual depois. Isto tudo dispersa imenso o foco principal de um artista, que é fazer música” – continuou. Lembro-me ainda este ano, quando a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de entrevistar o MICSHYNE – aqui para a rubrica da NOVA ESCOLA – o artista revelar que as suas capacidades de engenharia de áudio foram desenvolvidas e postas naquele projeto, de modo a conseguir gerir monetariamente os valores para o concretizar. Ora, apesar de ter como um aspeto positivo a descoberta e o desenvolvimento das aptidões de um artista naquela área, evidentemente irá consumir imenso tempo a quem procura escrever e cantar. Este apoio e seguimento do artista, que passa desde a planificação do projeto ao seu lançamento, habilita que o artista possa tracejar caminho de forma mais leve, estruturada e consistente, nunca o desvirtuando do seu foco principal.

Recentemente, a RUAR apostou também em livestreams nas redes sociais como forma de promover artistas emergentes. A iniciativa resultou na divulgação de dezenas de novos talentos, atraiu centenas de submissões por parte de artistas interessados em ter as suas músicas ouvidas, e alcançou um público na casa dos milhares.

NOVA ESCOLA HHR: SANTOS, SÓ

“Tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento”

Diretamente de Sacavém, Gonçalo Santos apresenta-se na indústria musical como Santos, Só. Aos 23 anos, já soma alguns anos de experiência: foi aos 19 que lançou a sua primeira música, ainda sob o nome de Santos, e aos 11 anos de idade que começou a escrever. Hoje, com o nome artístico Santos, Só – um nome que carrega a ideia de simplicidade, pois é apenas o Santos – conta já com três faixas lançadas ao público e continua a trabalhar no seu primeiro projeto a solo. Para conhecer melhor o artista e mergulhar nas temáticas que explora nas suas músicas, a Hip-Hop Rádio esteve à conversa com o rapper para esta entrevista.

Quando lançaste a tua primeira malha PONTO DE INTERROGAÇÃO, ainda assinada só por Santos, tinhas 18/19 anos. Que fase da vida é esta, onde estás a entrar para a faculdade e decides mandar um som cá para fora?

Por essa altura estava a acabar o secundário, lancei-o em 2020 já com 19 anos, mas gravei-o com 18 anos. Eu já escrevia há muito tempo – desde os meus 11 anos – e sentia que o entrave, até então, de não lançar uma música era um conflito interno de ego e consciência. Ele é um som que fala sobre a teoria da psicanálise do Freud, a tua consciência, as tuas vontades próprias. O facto de na altura curtir bué de psicologia e teres esses conflitos levou-me a escolher esses temas para o meu primeiro som. Shoutout ao meu primo David que me levou ao estúdio com o RawCutz, foi a primeira vez que tive uma sessão assim profissional num estúdio. 

Entre essa e a OsciLAR, já como Santos, Só, ainda mandas cá para fora os sons Não Dormi e Figuras. Estavas na faculdade nessa altura, como é que funcionava? Tinhas a licenciatura em primeiro plano ou sentias que ela ocupava o teu tempo para a música?

Sinceramente estava um bocado in between. Eu sabia que o que eu queria mesmo era fazer música, mas ao mesmo tempo sabia que tinha de me licenciar. Eu tinha a faculdade em primeiro plano vá, mas quando eu não estava na faculdade estava a escrever. Andava muito por aí. Também tinha na cabeça que quando acabasse a licenciatura, me iria focar a 100% música, fazer o rebrand e começar a desenhar uma estética mais própria. 

Fonte: Santos, Só

Quandos dizes na osciLAR: “Acho que eu ’tou sempre a ir dum lado e ‘pó outro porque eu ’tou à procura só de algo que me apegue”, é já uma manifestação dessa vontade de focar na música no meio dos estudos?

Porra [risos]. Como jovem, andava bué numa de: “tenho de fazer alguma coisa”. Estava sempre a trocar de ideias, a pensar em várias coisas, mudanças comportamentais…a vida tas a ver? Estás a fazer a faculdade e estás a pensar se no futuro vais fazer isto ou aquilo. Essa barra é a forma mais crua de eu explicar que estou sempre a pensar em bué cenas. A coisa que mais me apega é a música ya, mas por acaso na altura não estava a pensar nisso [risos]. A osciLAR é muito sobre essa indecisão e crânios que uma pessoa vai passando.

Depois vem a Árvore Pt.1. É um som com um olhar muito mais compadecido de ti para ti mesmo, a cabeça deixa de oscilar tanto e começa a definir uma posição para com ela própria e o mundo à volta.

100%, esse som é o momento na minha carreira onde eu tou a ter a minha versão mais consciente e racional. O próprio conceito do som é sobre crescimento e as coisas que vais enfrentando. O Árvore Pt.1, quero que se torne uma série com várias partes, porque tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento. Com isso, vem essa versão mais racional. Quando escrevi esse som estava à beira dos 23 anos, e andava a pensar que as coisas estavam a ficar sérias, que tinha de bulir, que eventualmente iria sair de casa dos meus pais. Aí ainda é o mesmo tropa do osciLAR que ainda bate bué crânio [risos] é só uma demonstração mais completa dele.

Por acaso tinha olhado para a cena das partes de uma maneira diferente. Há árvores que duram centenas de anos, então tinha interpretado que uma possível parte dois seria já algo póstumo a ti. Numa de deixares cá a tua música para que possa “libertar oxigénio” para os próximos que começarem a fazer música. 

Isso é uma excelente forma de observar a cena. Eu não pensei nisso. Para mim o Árvore Pt.1 é um som que aproveito para deixar como um depoimento da minha jornada [risos]. É uma cena mesmo introspetiva do Gonçalo, sem pensar nas consequências que isso possa ter em outras gerações. Não tinha pensado nisso, mas espero que tenha esse efeito [risos] faço música com esse propósito também.

Na tua entrevista à Rimas e Batidas contaste que o refrão da Nada a Apontar foi escrito depois de te teres despedido do trabalho. Enquanto levavas a vida com uma “mão na cabeça, que não solda o soldado”, era fácil tirares tempo, ou sequer teres vontade, para escrever?

Olha, posso dizer que foi a altura mais pró-ativa da minha vida. Foi uma beca delicada em termos de gerir tempo – estava num full-time e a fazer música – mas ao longo desse período consegui escrever imenso, apesar também de não ter andado a dormir nada [risos]. O refrão vem de uma conversa com um amigo meu, o Henrique, então já andava com aquele tópico na cabeça mesmo antes de me despedir. No dia em que o fiz, o L-ALI tinha acabado de me mandar um beat, então se calhar estava com um fator mais libertador em mim, mas o som veio mais da conversa com esse meu amigo do que do trabalho. 

Fonte: Santos, Só

Então a mão na cabeça não vem dessa temática laboral e do cansaço?

Por acaso não, mas faz muito sentido até porque conjuga bué bem com o que tinha acontecido. O som é muito sobre guerra, metaforicamente, então tem bué referências militares, especialmente no refrão: o “alvo mais ao lado”, o “tar em guerra de matar a saudade”, o “isso não é papel para eu estar alistado”. No final do som também acabo com outra dica dessas. Ele gira muito em torno desse campo temático.

Como é que se dá a ligação com o L-ALI?

Veio um bocado de arrasto por ter trabalhado com malta da MunnHouse – a ligação com eles veio até do xtinto, já falava com ele. Na altura tinha a Árvore Pt.1 gravada e mandei-lhe mensagem a perguntar se faziam mistura e masterização na MunnHouse, porque queria dropar o som daí a umas semanas. Depois conheci o João Maia Ferreira e trabalhei com ele na mistura, masterização e pós-produção do som. Foi engraçado porque ele trata o estúdio como um 9 to 5, e eu na altura estava a trabalhar com o mesmo horário, então para ter aquela sessão com ele tive de fazer ganda expediente [risos]. Quando saiu o som, conectei-me com o L-ALI pelo Insta acho eu. Eu já era ganda fã do trabalho dele e ya, começamos a falar e há um dia em que ele me manda um beat. 

Estiveste presente no Festival da Política, no S.Jorge. Como foi?

Foi bué fixe. Curti imenso do ambiente e foi um festival onde me alinhei logo com os valores deles – o princípio do festival era alertar sobre a taxa abstenção e tentar interessar as pessoas pela política. Adorei a cena, mas foi a primeira vez que atuei para pessoas sentadas, então foi um bocado desafiante em termos de crowd control. 

Com a cabeça totalmente focada na música, tens planos para o futuro?

Estou a fechar o meu projeto pessoal, que já levou imensas voltas, estou a trabalhar também noutro projeto on the side, e com a cabeça 100% na música. 

“Violeta é também saber viver com mais coração do que cabeça” – Lhast apresenta novo álbum, Violetta

Lhast lançou hoje o seu terceiro álbum de estúdio, Violetta. O rapper da Atlantic Records começou a antecipar o projeto no final de fevereiro deste ano com o lançamento do single Só Pra Mim, seguido por Quem Sabe, segundo single que conta com a participação de pikika – músicas essas que tiveram direito a videoclip, com a direção de Gonçalo XZ. Um ano depois de estrear o projeto Cold Summers & Warm Winters, ao lado do produtor Chaylan, Lhast deixa cá fora o seu terceiro álbum a solo.

O disco inclui 17 faixas – das quais três são interlúdios que dividem o álbum em três atos – tem produção assinada pelo Fabrice Loureiro, pelos Góias e pelo Diogo Seis, e conta com REIS na mistura e masterização. Ainda no dia de lançamento, é de destacar os visuais criados para cada uma das faixas, realizados por Belmiro Ribeiro. Violetta pôde ser escutado em primeira mão pelos fãs a semana passada, numa listening party em Lisboa, anunciada nas redes sociais do rapper, não sendo ainda o álbum que encerra a trilogia – cujo significado o artista continua a manter em segredo – que inclui os projetos AMOR’FATI, lançado em 2019, e ALK, em 2022.

Sobretudo sobre pensamentos que circulam entre o amor, a ida, e a vida, Lhast lança-se para cima do reggaeton, do bossa nova e do funk, explorando também o R&B como forma de expressão. Ainda assim, o rapper guarda tempo no longa-duração, para deixar também faixas sobre o clima da noite.

Na noite de lançamento do Violetta, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar um pouco com o Lhast sobre o seu novo disco.

A HHR esteve a semana passada na tua listening party. O que é que se sente quando se vê o publico a receber daquela forma energética um álbum pela primeira vez?

Epá sabe bué bem, ainda mais quando é a primeira vez que estão a ouvir a maioria das músicas. É fixe ver a parte mais de festa quando o pessoal está a tentar perceber o que é que está a acontecer e a tentarem perceber o que é que eu estou a dizer, é ganda sensação. Também é uma cena nova para mim, nunca tinha feito uma listening party então foi uma boa experiência.

Estás de volta ao outro lado do Atlântico. Começaste pelo reggae e agora apresentas um álbum maioritariamente latino. Como é que chegas a estas sonoridades?

Eu sinto que já na produção tinha algumas vezes essa sonoridade um bocado mais latina. Acho que foi surgindo um pouco pelos producers que me foram trazendo essa vibe: o Diogo, o Fabrice e os Góias. É engraçado porque sou filho de mãe brasileira e pai português, e acho que isso nunca se refletiu muito na minha música, até porque também nunca tentei explorar isso. Mas aconteceu, fui me dando com pessoas que me levaram a casa de fados, depois a música brasileira foi aparecendo…

As guitarras dos Góias se calhar acabam por surgir muito dessa influência.

Muito, e do Diogo também. O Diogo fez imensas vibes brasileiras que foram saindo ali. Acabou por ser uma cena que é intrinsecamente minha, mas que saiu natural, eu nunca cheguei ao estúdio e pensei: “bora fazer isto”. O Violetta foi muito na descoberta. O primeiro som que saiu acho que foi o Só Pra Mim – até estávamos mais reggaeton.

Violetta porque viaja entre o amor e os sentimentos mais azuis?

Sim, é uma mistura do azul e do vermelho. É também uma maneira de ver a vida, tás a ver? De tu veres a dualidade toda no mundo e conseguires olhar para ti também. Quando há essa mistura do azul e do vermelho, a conclusão a que tu chegas é que não podes ser só desta forma ou desta, tens de saber unir os dois polos. Violeta é também saber viver com mais coração do que cabeça. Não pode ser só cabeça, não pode ser só coração, é um bocado mais coração do que cabeça.

Como em CSWW, aqui descolaste-te completamente da parte da produção também? 

Sim, sem ser estar a opinar [risos] não fiz nada assim de início. A produção do Violetta passou pelo Diogo, pelo Fabrice e pelos Góias: tudo o que nós fazíamos, desde o início ao fim, tínhamos de estar em acordo com aquela direção. Eu tinha mais ou menos a narrativa na minha mão que ia formando, e depois com eles o resto ia surgindo. Eu nunca tive numa banda, mas acho que é assim que eles devem fazer. Digo-o porque toda a gente ia adicionando coisas e se ninguém estava feliz com o resultado, não íamos para a frente.

Como artistas convidados no Violetta estão a pikika e o Ed – artistas com os quais já havias marcado presença em faixas este ano. Como é que surgem estas colaborações? 

A pikika convidou-me para o EP dela e fizemos logo a faixa. Depois começamos a escrever cenas com o Lunn, saiu rapidamente a Quem Sabe – que ficou para o álbum – e ainda fizemos mais que acabaram por não ter destino. O Ed conheci pelo Chaylan, a fazer o CSWW.  Ele era para lá ter entrado, mas acabou por não acontecer. Ele mostrou-me logo o Tua Falta, adorei o som, demorei para aí uns 6 meses até escrever, mas depois quando comecei a escrever foi rápido. O Ed não só entra duas vezes no álbum, como também me ajudou bué no processo. Ele é uma pessoa que eu admiro imenso, que quero ver crescer e que tem muito a dar à música portuguesa. Adoro trabalhar com ele, temos muita química. O Ed tem uma voz muito única, que canta como se já tivesse vivido outras vidas [risos] é mesmo. 

Vamos ter oportunidade de ver a apresentação do Violetta em cima de algum palco?

Sem dúvida.

Nova Escola HHR: MICSHYNE

Há caminhos mais bonitos em que a plenitude não está em viver sempre a rasgar

Natural de Vendas Novas, Miguel Heleno apresenta-se ao público como MICSHYNE. Foi em 2019 que publicou o seu primeiro trabalho de forma mais séria: OVERTHINKING, um EP bastante introspetivo que viaja nos problemas e nas questões do rapper. Atualmente, conta com um álbum, lançado no ano passado, dois EPs e mais de uma dezena de singles. Quarta-feira, dia 4 de junho, lançou o seu segundo EP, UNDERRATED ROCKSTAR, um projeto que conta com 8 faixas e será apresentado ao público dia 7 de junho no Tokyo Bar, em Lisboa. Com o lançamento do EP, e de modo a assinalar mais uma entrevista para a NOVA ESCOLA aqui na Hip-Hop Rádio, encontrei-me com o rapper para ficarmos a saber mais sobre o projeto.

Há um ano estreaste o teu primeiro álbum de originais, depois em outubro surgiu um tema com a Sofia Sousa, e foi ali a meio de abril, num “Real Breakthrough”, que deste o primeiro cheirinho do que iria ser o EP. Em que fase é que começou a criação deste projeto?

Depois do álbum como me senti um bocadinho preso e como comecei a pensar se já tinha chegado ao meu auge criativo, tive a necessidade de começar a fazer coisas sem me preocupar com o resultado delas. Acabou por ser um bocado poético porque comecei a lidar melhor com a repetição, comecei a desmistificar melhor os processos criativos, e acabei por ganhar mais experiência com tanta música que fiz. O resultado foi este novo projeto, que sinto que é a minha versão mais autêntica.

Diferente de TRANSPARENTE?

O TRANSPARENTE é muito sobre saúde mental, sobre os meus problemas com alguns vícios, é um álbum onde sou eu a limpar-me um pouco disso. Neste UNDERRATED ROCKSTAR, sou eu a assumir que todo esse trajeto foi difícil e necessário, para conseguir abraçar essa versão mais autêntica. Apesar de não ser tão conceptual, sou eu a libertar-me ao máximo.

Andaste entre Vendas Novas (Estúdio 747) e Lisboa (Munnhouse) a criar, com a companhia do kuffkiff, PLAGU3, Beiro, Lunn e Montoito. Como aconteceram estas ligações?

Com o Gustavo (kuffkiff), construímos o álbum TRANSPARENTE. Conhecemo-nos em 2020, creio, em 2021 começámos a trabalhar juntos e desde então tem estado sempre ao meu lado. A sinergia é ótima porque ele é um puto super talentoso, com ele tenho sempre um feedback de um rapazinho de ouvido absoluto – ele vem do jazz estás a ver? Cada vez que ele ouve uma coisa minha em que acha que me estou a repetir diz-me logo, e isso é brutal. Tou sempre aberto a esse tipo de feedback para poder crescer. O PLAGU3 é da minha zona, nós não nos dávamos em putos, mas com o passar do tempo percebemos que tínhamos interesses em comum. Fizemos bué canções juntos para este projeto mas acabaram só por entrar três no EP.

E os outros?

O Beiro conheci-o numa colaboração – juntamente com o UEST – para a Caixa Cartão. Tal como aconteceu com o QVXNO e com o PIBXIS. Entretanto, eu estava à procura de experimentar outras vertentes, e acabei por fazer pós-produção com o Beiro, tendo sido ele quem depois me apresentou ao Lunn. Quando estava numa sessão de estúdio a trabalhar com o Lunn, o Montoito estava lá e mostrou uns samples bué loucos.

A mix e a master passam somente pelas tuas mãos, diferente de TRANSPARENTE, onde tiveste o SassáNascimento a fazer essa parte. Sentes que para este projeto fazia sentido nessa área um toque pessoal?

Para ser honesto, foi uma competência que acabei por desenvolver porque também trabalho como freelancer na área do áudio, então acabei por afunilar o budget para outras coisas. Se eu pudesse viver a vida de artista a 100%, não sei se misturava e masterizava as minhas músicas. Ia ter mão, porque há coisas que gosto de fazer, mas há pessoas por aí – como o Sassá – que são muito naturais nessa área. A parte de mix e master desenvolvi com muito esforço e por isso sinto que não tenho grande naturalidade em fazê-lo, diferente ao escrever, por exemplo. Essa parte de engenharia foi só uma competência que desenvolvi quase por sobrevivência.

 

 

Fonte: MICSHYNE

No meio deste processo todo, houve músicas que criaste que agora ficaram de fora?

Fu…fiz perto de umas 60 músicas, não tenho um número exato. Houve uma altura que estava tão na zona, que havia vezes em que estava a abrir projetos que tinha feito na semana anterior e não me lembrava daqueles refrões. Estava num ritmo como nunca tinha tido na vida. Foi necessário para me desprender das amarras do TRANSPARENTE e dos projetos anteriores.

Vou te citar: “Ya, eu assumo, tive uma fase difícil / Não é fácil caminhar, num mundo cheio de vícios”, “Já nem vivo tão eufórico / Fui mais deep depois de sóbrio”.  Num projeto que não é tão experimental como o teu primeiro álbum, sentes que lançares estes assuntos para este género de faixas é uma forma mais descomprimida de te expressares?

Voltando a trás e pensando bem no meu trajeto, acho que sempre tive muito ligado a estes assuntos da saúde mental. Seja pelas coisas que aconteceram na minha vida, seja por excessos que cometi ou pela relação que tive com alguns vícios que acabaram por resultar em situações bastante complicadas. Mas isso trouxe-me aqui. Fez-me criar o meu primeiro EP, fez-me ter uma visão mais ampla para criar o álbum e fez surgir este projeto, onde admito que tudo isso aconteceu, mas que me sinto cada vez mais cleane com uma consciência mais alargada em relação a esses assuntos. Há caminhos mais bonitos em que a plenitude não está em viver sempre a rasgar.

Fonte: MICSHYNE

 

Há bocado mencionei o Estúdio 747. É uma iniciativa tua?

O 747 surgiu juntamente com um grupo de amigos, onde nem todos estavam ligados à música – com a ideia de criarum estúdio. Aquilo rapidamente desenvolveu mais para um negócio porque é o sítio onde nós criamos. É a nossa casa cultural e é onde vendemos os nossos beats, serviços de mix e master e captação. Recentemente, criámos uma associação cultural para podermos impactar o pessoal mais jovem da nossa comunidade, e, ao mesmo tempo, surgiutambém a Soro, a nossa label independente.

Fora do UNDERRATED ROCKSTAR, tinha aqui uma questão sobre o TRANSPARENTE. Tu foste o primeiro artista que eu vi a colocar um snippet num projeto. A ENERGIA ficou em modo voo?

[Risos] Isso era uma canção inteira, mas metemos só o refrão.

Exatamente um ano depois de esgotares o Auditório Municipal de Vendas Novas e com a alma ligada a Tóquio, apresentas o EP em Lisboa. Nas redes socias, falaste num formato diferente de concerto, vais estar acompanhado em palco?

Posso adiantar que vou ter banda no Tokyo. Foi algo que já tínhamos levado para o concerto anterior, mas ao contrário do auditório – onde a malta estava sentada, num ambiente mais intimista – neste concerto espero outra energia.

Vou te citar novamente: “Não é um teste / é um manifesto / pa‘ que os meus sonhos / um dia me conheçam”. Com o que é que sonhas neste momento?

Curtia muito de ter o meu próprio circuito. Sei que Portugal tem um mercado bué pequeno, apesar de haver espaço para todos criarem, não há espaço para todos subsistirem – talvez pelas dimensões do país ou por razões que até possa nem compreender, por estar numa fase de aprendizagem. Mas gostava de ter o meu próprio circuito onde pudesse dar concertos de norte a sul. Acompanho muitos artistas que têm grandes fanbases sem a necessidade de ter grandes números. O meu lugar é em cima do palco e se pudesse fazer isto recorrentemente curtia imenso.

 

Nova Escola HHR: Mx & Norty

O nome do álbum reflete a nossa tentativa de expressão que muitas vezes parece não ser realmente ouvida

Mx e Norty são rappers naturais de Guimarães e Famalicão, respetivamente, que têm vindo a marcar a cena underground no norte do país. Composto por nove faixas, ECOS DO VAZIO é o primeiro álbum colaborativo da dupla, que anda em busca de novas sonoridades entre o rage e o super trap. No dia de estreia da dupla em Lisboa, encontrei-me com eles para ficarmos a saber mais sobre o álbum e sobre o processo criativo dos rappers.

Foi numa festa do coletivo Quarenta E Oito que se conheceram. A partir daí, demorou muito até começarem a trabalhar juntos?

[Mx] Para ser sincero, a primeira vez que conheci o Norty foi no Enterro da Gata, mas foi apenas aquele trocar umas palavras, eu estava com os meus amigos lá e não o conhecia muito bem. A primeira vez, talvez, que falámos mais a sério foi numa festa da Quarenta e Oita ya, na primeira vez que lá fui. Nessa noite é que conheci o pessoal todo e onde eu me realmente integrei no grupo. Quanto a trabalharmos juntos acho que foi quase direto. A Red Dot foi o nosso primeiro som juntos, para o meu álbum Lágrimas de Sangue. Passado uns 2 meses de o conhecer eu fiz o som com o Lil Noon e achámos que era um som onde o Norty dava para entrar, então passado uma semana ele entrou e ficou essa a nossa primeira cena juntos. Depois disso foi a Alma Vaga.

[Norty] Foi um bocado a partir daí. Quando fizemos a Red Dot percebemos que a cena funcionou bem, nem tou a falar em termos de alcance, mas sim porque sentimo-nos bem a trabalhar um com o outro.  Mais para a frente fomos a Coimbra e gravamos a Alma Vaga com o bapcat para as bacpcave sessions. 

Queria saber sobre isso. Como é que surgiu o convite?

 [Norty] O convite inicialmente foi feito ao Mx, ele é que depois, como já estamos bué close e a pensar no álbum juntos, sugeriu fazer um episódio comigo na bacpcave. O bapcat achou grande ideia, o TrillSeco, que foi um gajo que deu imenso love no Red Dot, também curtiu e o resto do pessoal lá de Coimbra igual. 

[Mx] Quando eu senti que havia sinergia entre nós os dois e que quando ia atuar ao Maus Hábitos ou ao Cru, por exemplo, via que o som que mais batia era o Red Dot porque ele (Norty) tem uma presença em palco mesmo boa, percebi que queria trabalhar mais com ele.

Depois disso e com muita tosta mista em cima, surgiu ECOS DO VAZIO. Porquê este nome?

[Norty] É verdade [risos]. Primeiro, só antes da questão, este álbum surgiu de uma festa no Maus Hábitos, onde nós só nos viramos um para o outro e dissemos: “mano, é para fazer um álbum?”, e fechamos a ideia de fazer o projeto. Para nós Ecos do Vazio representa o que foi um pouco o retiro, a gente isolou-se para fazer o álbum, ficamos lá só a cozinhar novas cenas – fizemos se não me engano 14 sons – e a trabalhar naquilo. O nome reflete a nossa tentativa de expressão que muitas vezes parece não ser realmente ouvida. A estética toda do álbum gira em torno de um pico de uma dimensão gigante, onde não tem nada à volta. 

[Mx] Queríamos mostrar essa isolação durante esses 7 dias, onde só fazíamos mesmo música e desenvolvíamos a nossa amizade. O nome também reflete a nossa fase naquela altura, uma fase meio melancólica para o dois e amadurecimento. A PODE SER QUE EU ENTENDA reflete bué isso, liga-se ao título do álbum por essa melancolia e esse “desespero”.

Fonte: Apple Music

É por isso que foi das únicas que teve videoclip?

[Mx] Ya, nós sentíamos que esse som era aquele que transportava mesmo aquilo que estávamos a passar na altura. É dos meus sons preferidos até aos dias de hoje.

[Norty] Escolhemos essa música também por ser um grito de guerra, é um grito que um gajo dá sem saber se realmente vai ser ouvido. Foi um som que durante o processo encaixou logo na cabeça do pessoal, e que fez a malta perceber também que era algo mais que uma música.

A partir dessa música e da KRIMINAL, diria, o álbum vai muito mais abaixo. Torna-se algo mais experimental.

[Mx] Mais experimental, exatamente. Sinto que a malta que nos acompanha estava à espera de que o álbum fosse outro tipo de cena, algo mais hard e mais rage. Sou aquele tipo de artista que não curto que me encaixem numa vibe especifica, quero fazer um pouco de tudo. ECOS DO VAZIO é um projeto bué experimental, tem de tudo.

[Norty] Foi uma superação artística, do género, eu sentir que era impossível adaptar-me a sonoridades novas. A LÁGRIMA CAI, por exemplo, nunca na vida acharia que num dia normal iria chegar ao estúdio, abrir aquele beat e fazer um som. O facto de eu ter tido essa abertura e ele (Mx) me ter permitido isso, foi um incentivo.

De que forma é que vocês se envolvem no trabalho um do outro? 

[Norty] A frontalidade é o ponto principal. Ele se não curtir de uma cena, sei que vai ser o primeiro a dizer que não sentiu e ele sabe que é recíproco. Este álbum ajudou-me imenso a ser mais aberto a experiências e a fazer algo diferente, percebi que quanto menos vidrado estiver em algo e quanto mais polivalente conseguir ser, mais completo serei como artista.

Lil Noon, Kastro, h1zas e Cardu são os nomes que vemos por trás da produção do álbum. Como é que funcionou o processo de criação? Eles (produtores) chegavam já com beats e vocês rimavam, ou foi um exercício conjunto de produção do zero?

[Mx] O Kastro acompanhou-nos no retiro todo. O  Lil Noon esteva lá dois dias onde num fizemos a KRIMINAL, a SERPENTES era um som que já tínhamos gravado no estúdio dele, e a PODE SER QUE EU ENTENDA foi uma collab dele com o Kastrp. O Cardu foi lá ao retiro dois dias e estivemos nesses dois dias só a trabalhar na KEEP GOING.

[Norty] A seleção dos produtores foi super orgânica, são pessoas do nosso grupo que gostamos bué e que sabemos que têm ganda talento. O h1zas, já veio numa situação diferente, a ROGB era feita num beat da net, que não conseguimos pegar por causa de umas exigências do produtor. Tivemos uns stresses a tentar fazê-lo então acabamos por fazer um remake desse beat. Esse som teve até uma versão do Kastro, mais duas do h1zas e uma do Lil Noon até. O h1zas veio ajudar muito nessa missão de conseguir fazer um beat de supertrap, nós sentimos que ele era o gajo ideal para vir com essa cena, até porque já tinha feito dois sons no Lágrimas de Sangue, e identificamo-nos imenso com a sonoridade dele. 

   Fontes: Norty e Mx

Agora com o lançamento do álbum, têm a cabeça mais desligada da música ou continuam a criar?

[Mx] Sim, sim. Já estamos a pensar em lançar novas cenas.

[Norty] Ele estuda e eu trabalho, mas o tempo que sobra do dia deixamos nisto. A gente quer viver do que ama e estamos dispostos a fazer tudo mais alguma coisa para conseguirmos estar fechados no estúdio e fazer disso vida. 

Ano de 2024, lançaste o teu (Mx) primeiro álbum, Lágrimas de Sangue. A música Inocência teve direito a uma versão com um verso do João Não, que depois até se juntou ao lançamento da Escuridão.  Como é que surge esta entrada dele na faixa?

[Mx] Isso foi bué engraçado por acaso. Eu não conhecia o João, apesar de ser muito fã dele, mas ainda assim tínhamos em comum trabalharmos com o Lil Noon. Uma vez o João foi lá ao estúdio, o Lil Noon mostrou-lhe o som e o João adorou e gravou um verso. Depois de ele ter gravado, ligou-me por videochamada, mas eu não atendi [risos], estava no autocarro e fiquei meio parvo porque nunca tinha falado com ele e sou mega fã. Ele voltou-me a ligar, eu atendi e ele disse-me que tinha gravado esse tal verso na Inocência e que achou que era ganda som.

No teu caso, Norty, 2024 ficou marcado com o teu segundo EP: ME, ME & ME. Já contaste que quando eras mais novo o rock e o metal eram os estilos que mais ouvias. Ali a SPAGHETTI já é um cheirinho do que poderia ser um Norty vocalista de uma banda.

[Norty] Ya,ya, já temos um cheirinho do que é que é essa influência toda da infância. Claro que a SPAGHETTI é uma cena mais lowkey, que acaba por ter um switch para trap, mas ali já consegui mostrar aquilo que para mim foi uma influência durante bastantes anos. O rock tem uma influência mesmo grande em tudo, eu adoro o rage porque é essa fusão do trap com o rock. Este estilo moveu imensa gente lá fora, como no caso do Playboi Carti que através deste estilo meteu a malta a passar essa influência para a forma de vestir, por exemplo. Quando vi que os dois géneros que mais gostava tinham sofrido essa fusão, senti que era um bom momento para mostrar que era de onde eu vinha. O SPAGHETTI foi um dos sons que saiu nesse registo, mas tenho mais coisas gravadas nessas vibes de mais rock e assim.

O que é que andam a ouvir que vos inspira?

[Norty] Eu ando a ouvir bué Nettspend, OsamaSon…agora tou-me a esquecer de mais [risos].

[Mx] Eu ouço bué musica diariamente, mas colo mais em músicas do que artistas. Neste momento, diria talvez Profjam, Lil Peep, Yung Fazo, XXXTentacion, é o meu artista favorito, Destroy Lonely. 

[Norty] Também tenho ouvido cenas mais experimentais tipo 070 Shake, Mike Dean, The Weeknd. Para mim os sintetizadores poderá ser uma cena que vá  explorar imenso agora, este estilo está me a abrir bué a mente.

Já com uma data no Porto e uma em Guimarães feitas, logo à noite têm marcada a vossa estreia na capital. Expetativas altas?

[Norty] A gente veio um bocadinho naquela de ver como são as cenas por aqui em baixo. Querendo ou não, é uma festa underground, e lá em cima o underground é uma cena que mexe muito forte.

[Mx] O que eu sinto também é que no Porto, ou em Guimarães que é a minha zona, estamos em casa. Sei que o pessoal consome as cenas e realmente vais às festas porque é tudo bué próximo. Na capital, nós não sendo de cá e tendo uma exposição mais baixa, estando agora a furar mais a bolha, não coloco as expetativas muito altas. O set vai ser diferente do que foi no Porto e em Guimarães também porque é mais curto.

[Norty] Onde eu, pessoalmente, acho que vou sentir mais diferença é na energia do público. Quando fomos ao Maus Hábitos, o álbum tinha apenas duas semanas, mas já havia gente a cantá-lo word by word. É a primeira vez que jogamos fora, então também viemos numa de apalpar terreno, mas estou muito feliz por cá estar.

[Mx] Mas apesar disso, shout-out à Eclipse por nos terem convidado e estou bué feliz também por estar aqui em Lisboa com a malta toda para apresentar o projeto. 

Fonte: Norty e Mx

Os dias inúteis também trazem boas memórias – Os Tais no Lux Frágil

Por Henrique Ferreira | Fotografia de Bruno Marques

Apresentaram-se como trio em outubro do ano passado, com o lançamento do tema Bar Dançante, mas os elementos que compõem o Agrupamento Musical Os Tais já nos eram conhecidos: Miguel (Mike El Nite), João (João Não) e Nuno (Lil Noon) são os músicos que dão vida a este novo projeto. O coletivo surgiu com a colaboração entre os três artistas na música Danceteria Love, tema do EP Terra-Mãe de João Não e Lil Noon, e a partir daí, a presença em estúdio e a criação musical entre o grupo desenvolveu-se. Agora, sob ritmos de kizomba e eletrónica juntos a temas românticos, vão trilhando o seu caminho pelo clima da noite.

Na noite passada, Os Tais apresentaram o seu primeiro álbum, Dance, Romance, no Lux Frágil em Lisboa: com Lil Noon nas teclas e a dupla de DJs residentes do Bar Dançante nas vozes, a noite arrancou com Óleo na Pista, segunda faixa do projeto. Seguiram-se os temas Liga Pra Mim e Espelho, até que chegou a vez de Tem O Teu Nome – o público deixou-se soltar e rapidamente a energia eletrónica da música contagiou a sala inteira. Já com os calores de dançar, entregaram Cabine num tom mais calmo, com o apelo de Mike El Nite à plateia para que dançassem com os seus acompanhantes. De seguida, fizeram-se tocar os primeiros singles do trio, Bar Dançante e V.I.P, até que chegou Danceteria Love – nitidamente a música que mais faz vibrar os fãs. Se o público já dançava, aqui víamo-lo a saltar e a cantar em uníssono, ao qual Mike El Nite se juntou para cantar o seu verso. 

Entre as músicas, João Não e Mike El Nite iam interagindo com a plateia deixando umas palavras sobre o projeto e dando tempo para aquecer novamente as vozes. Posteriormente, apresentaram o seu hit de piseiro, Fazes de Lua, e a última faixa do álbum, Dias Inúteis – um tema que partilha a vontade de estar na pista de dança e no palco, e a ânsia de esperar por voltar a criar memórias nestes ambientes. Já a fechar a setlist, fez-se ouvir numa só voz Purpurina, e para encerrar o álbum, novamente com todo o apoio do público, Sexta-Feira (À Noite)

Os artistas despediram-se do público, mas ainda voltaram a palco para tocar novamente três adorados temas: Bar Dançante, V.I.P e Danceteria Love. Como se costuma dizer, só faz falta quem cá está, e mesmo sem casa cheia fez-se festa. Na última música, tivemos um convidado em palco – o Sandro, um fã que estava na plateia – para cantar com os artistas e encerrar de uma forma bonita e animada a noite.

Ficou assim marcada a segunda data de apresentação do Dance, Romance, que sucedeu o concerto no Maus Hábitos, no dia 2 de maio. 

Nova Escola HHR: Dazed lex

“a minha música sempre teve como objetivo usar histórias para ver se alguém através delas consegue mudar”

dazed lex é o nome artístico de Alexandre Costa, um jovem rapper natural de Odivelas, que já leva na sua discografia 2 álbuns e dezenas de singles. Após ter lançado o seu último álbum semmúsica’tavam*rto, um projeto bastante intimista e introspetivo composto por 14 faixas, encontrei-me com ele para ficarmos a saber mais sobre o projeto e o artista por de trás das letras.

Contaste nas redes sociais que o deluxe do COSMÓPOLIS, lançado em outubro de 2023, marcava uma transição para o semmúsica’tavam*rto. Nesta altura já alguma das faixas que apresentaste agora, estavam prontas? 

Na altura em que saiu, não tinha nenhuma faixa feita nem nenhuma demo. Tinha alguns conceitos pensados: o grafismo e estética, tudo a preto e branco para dar um ar mais sério, e o nome das faixas em letras minúsculas e todas juntas – no final do deluxe do COSMÓPOLIS vês o nome das músicas a passar por essa metamorfose. A primeira faixa que fiz do álbum foi a omeulugar! um tempo depois.

afinalamáquinañparou é a faixa introdutória do projeto, uma espécie de ode ao que é a música para ti. Foi esta a faixa que ajudou a despertar os outros temas do álbum? 

Na verdade, essa música foi capaz de ter sido uma das últimas que fiz, foi uma faixa que passou por várias fases. A parte acústica dessa faixa surgiu já muito tarde, foi a penúltima coisa que gravei para o álbum. 

A produção, a mix e a master passarem apenas pelas tuas mãos foi algo que pretendias já desde início ou foi algo que apenas acabou por acontecer?

Não querendo levar isto para uma perspetiva quase egocêntrica, mas eu sempre fiz as cenas sozinho. As minhas primeiras músicas apareceram em 2015, numa altura em que passava por situações um bocado tensas na escola, que até falo no álbum inclusive, então sempre fui muito de estar sozinho e fazer as coisas por mim. Quando era mais novo, nem sequer tinha noção que podia procurar alguém que me ajudasse a produzir, e, portanto, fui aprendendo as cenas sozinho até que comecei a ganhar imenso gosto por fazer tudo. Sinto que se for eu a criar o produto inteiro, ele é mais meu. Gosto muito de trabalhar com outros produtores, principalmente em beats. Mix e master curto de ser sempre eu, mas gosto realmente de trabalhar com outra malta, tenho amigos produtores bastante talentosos. Eu até acho às vezes que, quando rimo em cima de beats de outros produtores, vou a lugares diferentes, principalmente algo mais de barras, ego tripping. Tenho muito mais facilidade em fazê-lo num beat de outra pessoa do que num beat meu porque sinto que num beat meu eu puxo demasiado de mim, então eu curto dessa dualidade. 

Fonte: Apple Music

O álbum está divido em 3 atos com dois interlúdios a separá-los: históriadabicicleta e históriadocamião. Ambas as faixas com o mesmo beat mas que me parecem para destinatários diferentes, penso que o teu pai e a tua mãe. A utilização do mesmo beat aparece como uma representação tua, ou seja, um ponto de ligação entre eles os dois?

Primeiramente, quando tive a ideia para essas faixas, não eram para ser assim de todo. Quando tinha o primeiro draft do álbum pensado, estas faixas iam ser interlúdios quase sem letra, algo muito experimental e impercetível, algo completamente diferente do que ficou. Acabei por decidir meter mais letra, até porque foram acontecendo coisas à medida que fui trabalhando no álbum, e senti essa necessidade. Essas faixas são counter parts, então achei que fazia sentido elas terem o mesmo ponto de partida, e além disso, sendo a falar dos meus pais, achei que deviam começar do mesmo lugar. Não queria que uma tivesse um beat mais a rasgar ou mais agressivo, porque depois podia parecer que estava a olhar para eles de maneira diferente. A ideia é estar lá o mais despido possível e por isso é que são melodias super calmas, os drums são uma espécie de uma marcha… o objetivo era mesmo ser um ponto de partida simples para depois culminar em algo grande a nível lírico e não necessariamente musical. 

reprisede2018, é capaz de ser a faixa mais pesada no projeto, onde tocas em problemas desde os pessoais aos de saúde nesse ano. Tu aí já fazias música, que impacto teve no teu trabalho? 

Nessa altura até lancei um EP, que nem sei se ainda está disponível, o MESS. Fi-lo em 2017 mas só o lancei mesmo em 2018. Estava num período um pouco chato onde via tudo a andar para trás: relações de amizade, relações amorosas, o divórcio dos meus pais…foi um ano que me custou imenso, não estava a viver bem dentro de mim mesmo. Quando penso em 2018, há imensas cenas que não me lembro porque eu próprio forcei-me a esquecer as coisas, como um género de mecanismo de defesa.

Fixe teres pegado no MESS porque na eu’memo falas sobre problemas na infância, que até já tinhas pegado na bullying em 2018 nesse mesmo EP. Neste som, a tua música passa além de um libertar de sentimentos, é também um apelo à educação. A tua música tenta agir diretamente. 

Além de ser um escape para mim e me ajudar a fugir um bocado à realidade, a minha música sempre teve como objetivo usar essas histórias para conseguir passar essas mensagens e ver se alguém através delas consegue mudar. Na eu’memo eu digo “Eu já não posso voltar atrás / Mas podemos educar os putos” de certo modo para as pessoas se ficarem a sentir mal.

Tu até dizes antes do refrão “De certeza que vocês não querem / Ver alguém morrer só porque não teve coragem de dizer / Eu vim pa ser eu me’mo”. 

Exatamente.

“Ok, meu mano, já entenderam que a tua tropa domina / ‘Tá na hora de seguir em frente e mudar a cantiga”. É uma dica para o dazed dex do passado?

Ya, 100% [risos]. O dazed lex do passado, na altura do COSMÓPOLIS, tinha completamente a certeza que que ele era o gajo mais versátil do underground, e tipo, não era [risos]. Ainda hoje não sou e está tudo bem com isso, a ideia é termos as nossas características e não necessariamente lutarmos para sermos os mais diferentes de todos, basta sermos nós mesmos. Ainda hoje tenho traumas com a RIVAL sempre que ouço “A minha tropa domina” [risos]. A cena é que esse foi o primeiro som que lancei depois de entrar na faculdade, então os meus colegas andavam todos a ouvir esse som, quase como um culto. Atualmente não me identifico com o som, parece que nem é um som meu. 

Em junho de 2021, recebeste uma resposta a um story de uma pessoa que hoje te é muito importante. A partir desse momento, demorou muito até começarem a trabalhar juntos?

Ya, ya, foi o Xanny7k! Não tenho a certeza, mas acho que não foi uma resposta a uma história. Acho que ele me reencaminhou uma publicação minha, onde tinha uma prévia da Auge, a pedir para entrar no som. Eu disse-lhe que o som já estava fechado e que não dava, até porque não queria que tivesse um feat por ser algo mais pessoal, mas para mantermos contacto e que ele me fosse enviando cenas para fazermos algo juntos. Ele mandou-me a Online e a partir daí aconteceu. A Online saiu em agosto, gravamos o clip em julho, portanto foram uns 2 meses até surgir a cena. 

 

Fonte: dazed lex

O Xanny7k marca presença neste álbum, na querosergigante!, e nos teus últimos projetos temos sempre contado com várias colaborações. O que é para ti trabalhares com outros artistas?

Dependendo um bocadinho do projeto, tenho opiniões diferentes. No semmúsica’tavam*rto para mim não faria qualquer sentido ir mais gente além do Xanny7k. Tinha planos para incluir mais gente antes, mas depois acabei por não avançar com isso porque como é um álbum muito introspetivo, queria apenas incluir alguém que faz parte do meu dia-a-dia. Adoro trabalhar com outras pessoas, inclusive estou agora a trabalhar num projeto que quero que tenha um bocado mais de participações, também por ser algo menos introspetivo e menos pesado a nível de temas. 

Já que estamos a falar do Xanny7k, ele está contigo na 14 desde 2022, quando foi criada. Como é que surgiu o projeto da 14?

A 14 surgiu de um grupo do WhatsApp que era o Xanny7k, o salvxs e eu. Nós já estávamos todos com essa ideia de “e se oficializássemos este grupo” até que acabei por sugerir. O Xanny7k até me contou que já estava numa de sugerir isso então foi algo que surgiu de uma maneira muito natural. Depois o salvxs acabou por sair da formação principal da 14, por conflitos de interesses só, mas continua na 14 como dj. Como artistas principais estou eu e o Xanny.

Voltando ao álbum, no videoclip da comdor, aquele duelo no xadrez é uma referência ao Sétimo Selo do Bergman?

 Exatamente. Eu tenho curso de Cinema, tirei no secundário na António Arroio contra a minha vontade [risos]. Eu queria ir para Som mas como não abriram turma e como a minha segunda opção era Cinema, acabei por entrar. Eu nem curto muito, não tolero cinéfilos, dão me um bocadinho de nervos [risos].

Fonte: dazed lex

Engraçado então escolheres um filme do Bergman. 

Foi o primeiro filme que vi quando estava lá no curso, um professor mostrou-nos, então acabou por servir como uma referência pessoal minha daquela fase da minha vida. Inspirei-me na estética desse filme em geral para o álbum todo. 

Que peripécia é que foi gravar o videoclip?

Gravar esse videoclip foi provavelmente um dos clips mais stressantes que já gravei. Tínhamos de levar alguns adereços, eu levei os meus, e o Marcelo, o nosso videomaker, ficou encarregue de levar a faca, mas esqueceu-se [risos]. Ao sair do estúdio para ir buscar a faca, o carro estraga a caixa das mudanças, e eu nem me lembro como é que depois se resolveu. Foi uma grande confusão, estava num stress gigante porque estava a pagar à hora para estar no estúdio e ,com aquilo tudo a acontecer, não estava a acreditar ser possível [risos]. No fim, correu tudo bem. 

Este ano marca-se uma década desde que começaste a fazer música…2015, Caras e Coroas [risos]. Como é que tudo começou?

[Risos] Olha mano, tudo começou com um puto que queria cantar. Lembro-me bué bem de estar no pátio da minha escola no verão, quando andava no ATL, pegar num caderno e começar a escrever umas rimas super podres [risos]. Aí foram as minhas primeiras cenas, tinha 13/14 anos.

Suponho que fosse nessa altura que os sons surgiam a ouvir beats na televisão e a gravar a voz no telemóvel [risos]. 

Era sim [risos]. Eu tinha uma cómoda alta, até à zona do peito, então metia lá o telemóvel a gravar e metia depois um beat aleatório na televisão. Aliás, a Caras e Coroas nem tinha beat [risos], foi só acapela, nem sabia procurar beats. Esse som está em privado, não sou capaz de o meter cá fora [risos]. 

Agora com lançamento do álbum, tens a cabeça mais desligada da música ou continuas a desenvolver planos?

Estou ultra ligado na mesma. Já tenho dois projetos pensados: um para este ano, um género de mixtape, e outro para 2027 ou para 2028. Ando também focado em networking, acho que é algo muito importante e às vezes desvalorizo. Sou uma pessoa muito calada, gosto muito de seguir a minha rotina, sem ir a muitos sítios, então às vezes tenho preguiça de sair da zona de conforto e ir a cenas que me podem abrir portas. Tenho tentado lutar contra esse instinto e tentar estar presente no meio, às vezes fico só focado na música e esqueço-me um bocadinho do que está à volta. 

 

Nova Escola HHR: J PURO

“Sinto que não existe qualquer tipo de resistência à adaptação“- Entrevista J PURO 

 

J PURO é um rapper natural de Vila Real, Trás-dos-Montes, que atua na indústria musical desde 2021. Após iniciar o seu percurso no Hip-Hop, lançou um EP e 10 singles, tendo em 2024 apresentado ao público as músicas ÚLTIMO SALTO e GENESIS. Este ano, estreou o seu último single OÁSIS e prepara-se para lançar o seu segundo EP. Reuni-me com ele presencialmente para saber mais sobre o seu processo criativo e caminho percorrido na área da música.

“Nunca marco golos fáceis não vou dar ao lado (…)  Vês na cara que eu sou bola de ouro”. Fala-se muito de os rappers cantarem sobre vivências e cenários falsos, mas tu de facto na época 2017/18 tiveste um desempenho brilhante. Foram 18 golos em 20 jogos e uma taça da AF de Vila Real [risos]. Este Jota já pendurou as botas?

 [Risos] Eu nem fazia ideia de que ias buscar essa informação, não faço ideia como é que foste desencantar isso [risos]. Sim, já pendurou as botas, foi uma fase da minha vida. Era algo sério, levo a música hoje da mesma maneira que levava o futebol na altura, então é normal que nas letras passe um bocado dessas vivências. Agora já pendurei as botas. Gostei muito dessa fase, ajudou-me a desenvolver ferramentas para lidar com tudo na vida.

Vamos então à música [risos]. No som TRAP C!TY, no primeiro verso tu referes todas as tuas músicas, desde a ZETA com o MainStorm que era a mais recente na altura, à ETÉREO. Acabas esse verso a mencionar ainda CAPITAIS, que música é esta?

Olha mano, tou mesmo a ver que fizeste ganda pesquisa [risos]. Essas barras dei na altura a pensar que só eu e ele (MainStorm), que está aqui ao meu lado, íamos perceber de onde é que vinham. Realmente fiz alusão a todas as músicas dessa altura e o verso acaba em CAPITAIS. Foi a minha primeira música a solo, algo mais sério, mas nunca saiu nas plataformas digitais. Na altura era muito amador, não sabia bem fazer as coisas: o beat era da net e não sabia meter o som no Spotify. A música ainda está no meu Youtube, mas escondida. Quem é de Vila Real é capaz de conhecer essa música, mas atualmente está perdida.

Esse som vem antes ou depois de Aproveita Essa Vibe, do MainStorm?

Depois. Eu fazia músicas com um amigo meu, foi com ele que me introduzi na música. Ele, entretanto, parou, esse som surgiu com o MainStorm e foi aí que percebi que queria fazer o meu próprio caminho sozinho, explorar os meus próprios temas e sonoridades.

De que forma é que a criação musical entrou na tua vida?

Eu sou de uma cidade muito pequena, Vila Real, então se alguém começa a fazer música, é facilmente notado e reconhecido pelas pessoas do meio de lá. O MainStorm já era conhecido na região, e eu comecei a fazer a minha própria música para o Soundcloud, com um colega meu. Eram coisas amadoras, mas com um input muito próprio e fora da cena, sem estarmos presos a ideias. Quando saí cá para fora, o MainStorm reparou em mim. Percebeu que estava a fazer alguma cena, então chamou-me para irmos a estúdio, em casa dele, para gravarmos uma música mais a sério. A partir daí, foram nascendo uns sons com ele, uma amizade e o gosto pelo projeto “J PURO”.

Era nessa altura que eras guia turístico? Como foi, ou como é, caso trabalhes, conjugar a música com o emprego?

Não, nessa altura estava a acabar a licenciatura em Turismo, mais tarde é que comecei a trabalhar. Antes era fácil conjugar, e agora ainda sinto que também seja. Era uma área que ainda estava a explorar, isto em 2021, então não sabia se era algo que ia querer fazer no futuro. A música apenas me divertia, era um hobbie. Como quem vai jogar futebol ao fim da tarde com amigos, eu andava a escrever as minhas cenas, era bastante fácil de conciliar. Atualmente, mesmo a minha carreira estando a crescer, continua a ser fácil. Como disse, éramos de uma cidade pequena, viemos de propósito viver ‘pra Lisboa e, portanto, quando esse tipo de mentalidade e motivação existem, não tem como a música não ser a tua principal prioridade e ser fácil conseguires encaixar na tua vida diária.

Fonte: J PURO

2022 ainda foi um ano produtivo, um EP e 4 singles. Como é que é o teu processo criativo?  Fazes as músicas todas em estúdio ou levas já iogurtes ou guias para lá?

Foi bastante produtivo sim, todos os anos têm vindo a ser. Nesse ano, o meu processo criativo era bastante diferente do que é hoje. O Storm estava em Lisboa na altura, ou seja, não conseguia gravar no estúdio dele, então o que fazia era ouvir os beats numa coluna e fazer as minhas melodias, tentando passar as minhas ideias e escrever. Foi um início humilde e simples, mas deu-me as ferramentas necessárias para atualmente conseguir ter algo mais consistente. Falando nesse EP, foi uma fase muito divertida e desafiante da minha vida. Foi a primeira vez que estava a levar a música a sério. Desenvolvi-o sozinho a ouvir os beats numa coluna e a escrever, como tinha dito, e gravava no gravador do telemóvel para depois levar para o estúdio. Sempre quis ir a estúdio, nunca quis descurar essa parte porque acho que é importante e se é para lançar algo, é para ser algo bem feito. Na altura estava a gravar com o Lil Noon, no estúdio dele em Gondomar.

Estúdio Q.

Exatamente. Gravei o EP com ele e foi muito importante para aprender e começar a minha jornada mais a sério.

Ouvi dizer que no estúdio nunca estás satisfeito com os takes dos vocals, sempre a querer regravá-los várias vezes. A malta que lá está contigo não se cansa? [Risos]

Vocês falaram? (para Henrique e MainStorm) [Risos]. Vocês falaram ya, tá se bem [risos]. Atualmente já aprendi a fazer as pazes com isso, agora, de 2023 até ao fim do ano passado, isso acontecia bastante. A música é algo decisivo para mim, é aquilo que dou mais valor neste momento e, portanto, não posso sentir dentro de mim que podia dar mais e que podia fazer melhor. Tenho a benção de ter o Storm e o Nedved comigo em estúdio e juntos fazemos uma equipa fantástica. Eles muitas vezes dizem-me que os vocals estão perfeitos e que não há maneira de sair melhor, e isso dá-me uma certa paz e tranquilidade, sem perder muito tempo no resto do projeto.

Mencionaste o Nedved, ele já marca presença nos teus trabalhos, seja na produção, na mix e na master, desde a TRAP C!TY. Como surgiu essa conexão?

Olha, não surgiu de forma, digamos, natural. Nós não nos conhecíamos, somos de partes do país completamente diferentes. O nosso mote neste projeto sempre foi trabalhar com as pessoas mais profissionais da área, acho que é assim que as coisas podem funcionar realmente para um artista. Nessa altura ele tinha lançado um álbum com o Heartless, o SAYONARA. Foi um álbum bastante importante nessa fase da minha vida, ouvi imenso, a qualidade era excelente. Adorávamos o Nedved seja a nível de produção ou mix e master, e achámos que era a peça que precisávamos para elevar o projeto “J PURO” para o patamar seguinte. O contacto surgiu, explicamos as nossas ideias, e de imediato senti que houve uma boa ligação entre nós os 3.

(MainStorm): O contacto surgiu até em ZETA. Sentimos que sempre que nos juntávamos, eu e o Jota, criávamos algo out of this world, extremamente fresco. Em 2023 houve em Portugal o fenómeno do Jersey, e um dia, muito naturalmente, surgiu um beat desse tipo da net, achámos que tinha potencial e quisemos então levar o som para um próximo nível. Falámos com o Ned para fazer a mix e a master do som, ainda captado por mim no nosso estúdio, e no fim gostámos de trabalhar uns com os outros. Depois disso, o nosso interesse foi fazer um som já produzido por ele.

Antes do ZETA, lançaste O 100 FALHAS com o Manuel Bastos, que traz uma estética totalmente diferente do que já tinhas feito. Como surgiu a ideia para esta malha?

Acho que não preciso de ter vergonha de dizer: foi na altura que um relacionamento meu tinha acabado, era um puto mais dado às emoções e quis levar esses sentimentos ‘pra a música. É difícil estarmos a fazer música e não passar isto que estamos a sentir para ela. Não me senti obrigado a fazê-lo, quis mesmo expressar-me sobre o que sentia no momento, e já que era para fazer algo com aquele tom, não queria trazer algo lame ou genérico. Falei com o Manuel Bastos, um grande compositor da cidade de Vila Real, para sugerir esta ideia e ele produziu a música inteira. Dei-lhe uma ideia, ele desenvolveu-a à sua maneira, e assim conseguimos combinar os dois mundos de forma perfeita. Sinto que toda a gente recebeu bem esta faixa.

Sinto que há uma grande diferença de quem é o J PURO antes e depois dessa faixa. Não digo que vejo esta mudança como algo amador a tornar-se mais sério, mas sim como algo que ganhou uma forma mais coesa, pelo menos a nível de transmissão de ideias para a música. Se calhar vem mesmo daí, de te teres aberto mais para essa faixa e desbloqueado outros caminhos.

Isso é verdade. Não por ser a faixa que foi, mas sim por ter surgido numa fase da minha vida onde percebi que música era mesmo o que queria fazer. Vi que as pessoas estavam a receber bem o que eu faço e queria dar um step maior, tentando tornar isto em algo rentável. Olho para esta faixa com esse carinho de ver um J PURO mais inocente.

Na Ser Puro Ser tens uma barra que é: “Até aparecer na SIC e tudo a cuspir o meu trap”. Toda a gente a ouvir os tens sons ainda há de acontecer, mas podes já dar check no aparecer na SIC. Dia 9 de janeiro estiveste a receber o LON3R e o Prof no aeroporto de Lisboa [risos]. De que forma é que artistas como eles te inspiram?

Pois foi. Desde sempre que ouço hip-hop, consumi muito Mundo Segundo e Valete, mas nunca foi o estilo que mais gostava. Ouvia muito Arctic Monkeys, The Doors, até ao momento que conheci o Profjam quando lançou Mixtakes. A partir daí percebi que a perspetiva dele sobre o universo, a vida, e as ideias que ele transmitia na música vinham dar ao encontro com aquilo que acreditava. Nunca tinha visto ninguém a levar esses pensamentos e a expô-los na música como ele, então houve uma conexão muito grande logo. Gosto também muito da estética e da música do LON3R JOHNY, portanto não tem como eles não influenciarem o meu trajeto de certo modo.

Fonte: Apple Music

Lanças o som GENESIS, como uma faixa retirara de um futuro EP intitulado de In Vitro. O que podemos esperar dele?

Vai ser o meu primeiro que levo de forma mais séria. Este EP vem marcar um novo J PURO, mais maduro, mais consciente da sua arte, daquilo que é capaz e do universo que quer abordar. Para quem vai ouvir pela primeira vez e não me conhece, vai ser uma lufada de ar fresco. Uma abordagem completamente nova aos beats e a nível de linguagem.  

Ainda como faixa desse projeto, entregaste-nos recentemente OÁSIS, com o Mirai. Como surgiu a colab?

Eu sempre fui fã do Mirai, já desde miúdo o seguia, seja a nível musical ao através da presença dele no Twitter. Ele é uma personagem mais ou menos, digamos, famosa nessa plataforma [risos]. A música dele sempre me chamou imenso à atenção, sempre apreciei muito aquilo que ele trazia às canções: os flows, as melodias. Como tenho estado a trabalhar com o Nedved e eles já se conheciam, até ganharam O Game juntos, perguntei-lhe se achava se faria sentido o Mirai entrar aqui. Ele gostou da ideia e disse que ia falar com ele. O Nedved presentou-lhe a ideia, o Mirai gostou e aceitou entrar, foi basicamente assim.

No videoclip havia uma espécie de caixa/dispositivo com o nome do EP, In Vitro. Desconstruindo todos os elementos e figuras dele, que significado é que ele tem?

Sem ainda querer revelar muito o propósito da caixa e o que ela representa, posso dizer que In Vitro existe. Estou a criar in vitro num universo que para mim é real. As minhas motivações, inspirações e ideias brotam de um local em específico, tudo o que estou a criar está a vir de uma fonte muito poderosa. A caixa representa o universo In Vitro e todos os elementos que ela contém contam um bocado a história deste local. É basicamente a prova material e física de um sítio que existe, de forma primordial, num reino etéreo.

Além desse EP, tens mais planos em mente para 2025?

Eu não sou muito de definir planos para o futuro, tudo depende do meu próximo projeto. Se a minha próxima música corre muito bem, tenho de repensar os meus passos. Sinto que não existe qualquer tipo de resistência à adaptação. Quando lançámos ZETA houve uma receção muito boa. Fomos tocar à Caloirada aos Montes, a receção ao caloiro lá da nossa cidade, e sentimos que estava a haver cada vez mais público a ouvir, levando-nos a lançar TRAP C!TY. Adaptámo-nos àquilo que a música e o projeto nos trouxe e, portanto, agora há de ser o mesmo.

 

ENTREVISTA HHR: SANTA SALUT E UNO

SANTA SALUT E UNO ESTÃO PRESTES A ATUAR NO titanic sur mer EM LISBOA E ANTES DO CONCERTO, O HENRIQUE FERREIRA ESTEVE À CONVERSA COM OS DOIS ARTISTAS.
SANTA SALUT

Em QUEENS OF GROOVE entregas um estilo bastante diferente do que havias apresentado até então. Como surgiu a ideia para o projeto e que influências tiveste?

Acho que não é muito diferente do estilo que costumo apresentar. Em Queens of Groove as influências mais claras são a música dos anos 90 e 00, sons analógicos, jazz, soul, R&B, melodias, pausas estratégicas…. Na minha cabeça, não parava de pensar na Lauryn Hill & The Fugees, na Azealia Banks, nos A Tribe Called Quest, na Nelly Furtado, na Eve, na Natasha Bedingfield, e na Bahamadia nas faixas mais boombap. Pensava também nos The Prodigy, na música house e no rave dos anos 90 na parte mais eletrónica. 

O que pretendes passar ao público com este álbum?

Quero transmitir ao público o meu amor pelas raízes do hip-hop, conhecimento, consciência, introspeção e muito groove.

Passaram-se três anos desde o lançamento de DISCORDIA. Este período, além de ter servido para explorares novas sonoridades, mudou de alguma forma o teu processo criativo?

Mudou na medida em que, como disse antes, já faço isto há vários anos e tenho cada vez mais conhecimentos para fazer música melhor e mais profissional.

Na noite de 8 de março farás o teu primeiro concerto em Lisboa. Como te sentes e que expectativas tens sobre a tua estreia na cidade?

Eu queria imenso vir! Há muito tempo que recebo mensagens de Portugal e não sabia como iria correr, mas os bilhetes estão a vender muito bem, por isso vamos arrasar!

Essa noite fica também marcada pelo facto de ser o arranco da tua tour mundial. Que país estás mais ansiosa para pisar o palco, e que palavras deixas antes de te fazeres à estrada?

Estou entusiasmada com tudo. Tocar em novos países como Portugal, Brasil, Holanda… e reencontrar o meu querido público no México, Grécia, Buenos Aires… com os meus amigos de lá! Eu digo que manifesto bons presságios e muito sucesso, vamos com tudo!

UNO

Abriste este ano com uma beattape. Foi quando estiveste no Japão que a Inemuri surgiu, de que forma outras culturas influenciam o teu trabalho? 

Gosto de me sentir pequeno, que a minha realidade é menos do que um grão de areia no mundo. Isso inspira-me sempre. No caso do Japão, tive a sorte de conhecer vários DJs, beatmakers e outros músicos que me fizeram perceber que há formas completamente diferentes de pensar e fazer coisas dentro da cultura Hip Hop. Além disso, a forma como a sociedade funciona também é muito diferente.

No ano de 2024 não lançaste nenhum projeto. Esse ano serviu para te dedicares a descobrir algo novo? 

Na verdade a beattape foi lançada ainda em dezembro de 2024 e, antes disso, lancei os álbuns: Malaposta com o Peste, Valada e NFA; e Aço, com o Benny Broker. Estive a gravar para o meu álbum a solo , álbum do Partido e álbum com os F.P. E sim, estive a re-descobrir a minha vida com menos rambóia e um pouco de mais foco.

Vais abrir a noite no Titanic Sur Mer, naquele que é um concerto há muito esperado. O que podem esperar os teus fãs deste concerto? 

Uma viagem pela minha discografia, com direito a umas novidades que estão por sair.

Sabemos que estás a preparar um novo álbum. O que podemos esperar daí? 

Boa pergunta…  Foi o álbum a solo que demorei mais tempo a fazer até agora e podem contar com letras um pouco maiores, com novas vivências, beats roots como sempre, e apenas um deles não é meu. Participações no álbum está a Mória, Benny B., Pestana, NFA num beat, Jeezas no saxofone, Mayuko no theremin, DJ Riscólado nos riscos e o Aboo num solo de guitarra – artistas que considero topo do topo. Está neste momento na fase de mix/master.

artigo hhr: blackout – dj dadda & sleepytheprince

Quase, quase a levitarem daqui, DJ Dadda e SleepyThePrince deixaram em Terra um projeto colaborativo.

Foi há cerca de um ano que o produtor da Bridgetown e o rapper da 608 Records se juntaram pela primeira vez. SLOWLY surgiu como faixa do álbum THE NINJA SPIRIT, da autoria de SleepyThePrince, em março do ano passado, e parece ter sido o ponto de partida de uma caminhada a dois pela escuridão. Inauguraram, no início do ano, o percurso colaborativo com o lançamento do single MIRROR, e antecederam o projeto na sua semana de estreia, com o tema DA ONE. Composto por 9 músicas, BLACKOUT é efeito do espírito de ninja com as batidas multifacetadas do DJ merecedor de tripla platina. Por trás do longa-duração, CRIPTA é o arquiteto da mixagem e masterização, e os nomes Magoo, Mcosta e Épico surgem na co-produção das músicas DA ONE, FLOW DA VIDA e LUXÚRIA, respetivamente.

A figura anónima de SleepyThePrince nunca deixou de se reconhecer nos versos, trazendo a sua sensibilidade estética aliada aos usuais temas de liberdade, sucesso e desenvolvimento pessoal, conduzidos na heterogeneidade dos flows. Parece haver sempre uma facilidade na adaptação por parte do artista luso-angolano. O rapaz que entrou na indústria musical como ghost writer, e que desde 2017 se tem apresentado com voz, não se cansa em demonstrar repetidamente que a sua vontade de progresso é gigante, levando já cinco álbuns e presença no projeto de estreia de Mizzy Miles, ao lado de Diogo Piçarra.

Esta energia e exaltação de ideias durante os 25 minutos de BLACKOUT, tendem a ser conduzidas nas estradas de Dadda de forma intensa, como em MIRROR, RESULTADOS e VAMPIRE, ou de forma mais melódica e suave, como se vê em VICIO e PARIS. Depois de Folie à Deux, ao lado de LORD XIV em 2023, e ter marcado presença em Carta de Alforria do rapper do bairro da Cruz Vermelha,o DJ e produtor da Bridgetown voltou a dar a cara com um projeto colaborativo. Todos esteticamente diversificados e frescos, os beats funcionam como rumo para a temática do álbum, fortalecendo os versos que lhes tocam.

No final, o álbum é a realização de variadas noções, onde os dois artistas encontraram a fonte de luz para se orientarem na escuridão. O apagão foi apenas a prova da claridade criativa da dupla.