Hip Hop Rádio

Daniel Pereira

Cada um tem a sua aura mas a de Nenny é especial

Foi na tarde de ontem que Nenny apresentou o seu primeiro EP “Aura”. Com showcase marcado no auditório da Megahits a jovem cantora fez-se acompanhar de banda e na plateia contou com um público efusivo recheado de personalidades da cultura urbana e não só como os Wet Bed Gang, Blaya ou Dino D’Santiago. Por Daniel Pereira | Fotografia de Diana Matias

9 são as faixas do EP de estreia e “21” abriu o showcase. Com a duração de cerca 40 min percorreu todos as músicas de um trabalho que tem o título de “Aura” pois “cada pessoa tem a sua eletricidade de emoções”. Nenny é aquele tipo de artista que faz tudo bem. Cria vibes em “sushi”, leva-nos a outros continentes com “Lion”, rima como poucos em “Look At Me”, mete todos a dançar com “Bússola” e emociona com “Dona Maria”. Tudo isto acontece com a escuta do EP e o melhor é que o mesmo foi igualmente transmitido durante o concerto, o que comprova ainda mais que estamos perante uma artista diferenciada que transita entre o estúdio e o palco com uma fluidez tremenda.

“Fiz esta música porque a minha vida mudou por completo” disse-nos Nenny antes de nos emocionar com “Dona Maria”. Depois, acabou o showcase com “Bússola” e pôs-nos todos a dançar de alegria. Uma autêntica montanha-russa de emoções.

Nenny não é prodígio da música portuguesa, é já uma certeza. Esperamos ansiosamente por mais música.

Be Bless: primeira edição de uma real Hip Hop Party

Foi na passada sexta-feira, pleno dia de São Valentim que aconteceu a primeira edição da Be Bless. Solteiros ou comprometidos todos sentiram esta festa cujo conceito veio de certeza para ficar. Afinal, quem não gosta de uma boa Hip-Hop Party? Por Daniel Pereira | Fotografia por Diogo Batista

Sentimo-nos em casa no Solo Club Cascais. A música, as pessoas, o espaço, todos respiravam Hip-Hop e foi um alívio depararmo-nos com uma festa assim. O Hip-Hop nacional precisa destas festas, “real Hip-Hop partys” e a Be Bless deu o primeiro passo. Nesta primeira edição (felizmente todos os meses vai acontecer uma) a noite começou com Nrik, DJ dos Spitfyah Soundsystem. Dos seus pratos saíram sonoridades que foram desde Drake até Regula num início de noite que nos surpreendeu pela positiva pois (ainda) não conhecíamos o trabalho deste DJ. A acompanhar nos próximos tempos de de certeza.

Seguiu-se DJ Perez mas naquele momento apenas para fazer uma introdução a Harold, cabeça de cartaz que iria fazer um showcase. Kendrick Lamar, Profjam ou Justin Timberlake foram alguns dos artistas que passaram por este primeiro set de Pérez entrando depois em palco Harold. Palco que não era bem um palco, Harold atuou em pleno dancefloor em à frente do DJ. Se desse lado pensam que isto é mau ou alguma falta de condições enganam-se, uma festa de Hip-Hop quer-se assim, todos são mcs, todos são público, todos se misturam tal como o rap em mistura todos os estilos musicais. Apesar de um showcase curto Harold pôs todos a mexer principalmente com o tema “Do Fim” . Nasty Factor, Papillon e Prizko vibraram também na plateia.

A noite terminou com chave de ouro com DJ Perez, também organizador de todo este conceito num set contagiante que foi desde IAMDDB até Domi, que estava presente na festa.

É a isto que a Be Bless se compromete, fazer uma festa Hip-Hop, para o Hip-Hop, sejam os intervenientes artistas ou Hip-Hop Heads.

A próxima é já dia 6 de março, faltar é proibido.

Os grandes artistas não estão xtintos

Por Daniel Pereira | Fotografia de Alexandra Parente

Já há muito tempo que não via o Musicbox assim. Entrei numa quinta-feira à noite, por volta das 23 horas, e encontrei uma casa já bem composta. Não interessava se o dia seguinte (sexta-feira) era de trabalho, já que foram muitos o que quiseram ver xtinto e que, acredito, acham tal como eu que este é um dos nomes mais promissores na cena do rap nacional.

Eu, confesso, estava à espera de muito público, mas não de uma multidão tão farta e xtinto, a meio do concerto, confessou o mesmo: “Não estava à espera de tanta gente”. É impressionante a base de fãs que o rapper de Ourém já conseguiu gerar. É óbvio que o selo Think Music foi fulcral neste processo, mas, na minha opinião, Francisco Santos vingaria com ou sem o apoio da label. Label essa que fez questão de estar presente no concerto: Mike El Nite, Lon3r Johny e o impulsionador Profjam, a vibrar na primeira fila como se do seu primeiro concerto se tratasse; ou Fínix MG e Benji Price, que subiram a palco, entre outros membros da editora. Quando se ouve por aí dizer que a Think Music é uma família, não é da boca para fora. Basta ouvir os trabalhos mais recentes do rapper e a seguir, ou antes, ouvir por exemplo o EP “Odisseia”, em conjunto com DEZ (que nesta noite também foi convidado a cantar) para perceber que xtinto é mais que um rapper que rima em boombap, trap, ou o que quiserem que ele rime: é um artista com A grande. No conjunto de todo o seu reportório há letras ricas com um pen game de eleição, fast flows, vários tipos de melodias, músicas introspetivas, moshpits. E foi possível ver tudo isto no seu concerto no Musicbox, o primeiro de 2020.

Para mim é ainda indecifrável como xtinto consegue fazer música que não é para toda a gente (aconselho a lerem qualquer uma das suas letras) e mesmo assim chegar a tanta gente. Dá que pensar. Bem… é a Think Music certo?

It’s a Trap – 3º Aniversário

Foi no passado dia 21 que o conceito de festas It’s a Trap festejou o seu 3º aniversário. Ao cartaz de luxo em que constavam Yuri NR5, Valdir, Yuzi, Minguito, Psyco, Cintia, Young Boda, Mizzy Miles, Syl, 20 Chatear e Rvlphkiller juntaram-se ainda, a espaços, participações especiais de nomes como Manthinks, Prettieboy Johnson ou Circa Papi. O público, esse, foi durante toda a noite incansável: Mosh Pits incontáveis, letras na ponta da língua e uma energia apenas encontrada nestas festas em que o palco se alarga a toda a sala.

Parabéns It’s a Trap!

Podes ver aqui a foto-galeria por Daniel Guerreiro.

NERVE @ Titanic Sur Mer

Nerve atuou no passado sábado no Titanic Sur Mer. Um concerto completamente direcionado para os ouvintes do artista que nesta atuação passou essencialmente pelos seus últimos trabalhos “ÁGUA DO BONGO”,”T&C/AVNP&NMTC” e “AUTO-SABOTAGEM”. A palco foram ainda Tilt para “Eliminação” e Blasph para “Acena”.

Se não estiveram neste que é um dos mais singulares concertos que podemos assistir no panorama do hip-hop nacional , tal como todos os concertos de Nerve, podem agora ver aqui a foto-galeria por Narciso Silva.

X-Tense responde a Walez e Alley com “Judas”

O rap nacional está mesmo na presença de um novo beef. Foi na passada quarta-feira que Walez e Alley lançaram “P de Palhaço”, faixa solta em que as rimas tinham um destinatário óbvio como se podia depreender pela thumbnail do vídeo postado no canal de YouTube da Double Trouble.

Passados seis dias, X-Tense lança agora, como já era previsto, uma faixa de resposta. “Judas” foi carregado no canal de YouTube da rood (mesmo canal que juntou X-Tense a Walez em “Narcos”) e toca em praticamente todos os tópicos abordados em “P de Palhaço”. Tem a duração de seis minutos.

Resta saber se o beef vai ou não continuar mas algo é certo: no final de contas quem ganha é sempre o Hip-Hop.

https://www.youtube.com/watch?v=m1F4AIibGTc
Fotografia de Alicia Gomes.

Super Bock Em Stock 2019: concertos particulares para ouvidos atentos

Dez foram os nomes Hip-Hop que constavam no cartaz do Super Bock Em Stock. Um no Coliseu dos Recreios, os outros nove no Capitólio. Todos de luxo e dirigidos para um público particular: quem viu, queria ver.
Por Daniel Pereira | Fotografias por Alicia Gomes

O aparecimento do Super Bock Em Stock permitiu que deixasse de parecer estranho um festival em pleno novembro. Tanto na edição do ano passado como na recente edição, a chuva fez parte da festa. Mas nem isso fez com que os festivaleiros se afastassem da avenida da Liberdade. O público moveu-se de sala em sala, uns através dos shuttles disponibilizados pelo festival, muitos a pé. E faziam-no com gosto. A sede de descobrir música nova era muita.

O primeiro dia começou com João Tamura. Com uma esperada atuação intimista, o músico apresentou-se com banda e não deixou ninguém indiferente. O Primeiro Ato de “Singapura” acabou de estrear e começar o Superbock em Stock com ele foi como uma bênção.

Passando de fora para dentro do Capitólio, Amaura foi a senhora que se seguiu. Dona de uma voz de ouro e tão característica do soul mostrou a todos o que é ser Hip-Hop sem fazer rap. Muitas são as colaborações de Amaura em discos de Rap, mas agora, finalmente, temos o prazer de ver um trabalho a solo. “Em contraste” é disco intimista, mas também dançável e tudo isso foi espelhado no concerto. No final “Blues Do Tinto” aqueceu e causou a boa disposição tanto a músicos como ao público e a última faixa “dança” tirou TNT dos pratos e trouxe-o até às rimas. Daqueles concertos que arrancaram aplausos de pé e que, mesmo se houvessem lugares sentados (como um concerto de soul por vezes pede), fariam-no tal e qual.

Bambino atuou por volta das 21h50 num concerto, no mínimo, peculiar. Acompanhado de Sanryse nas backs e Camboja Selecta nos pratos uma coisa era notória: a qualidade de Bambino estava lá, mas não apareceu – pelos mais diversos motivos – pelo menos no que toca nas rimas em que tudo foi bastante atabalhoado. Já na MPC, esteve irrepreensível tal como Camboja Selecta que “dropou” instrumentais fenomenais. Sanryse mostrou também que está de volta, ele que tem uma voz incontornável na cena do Hip-Hop nacional e que neste concerto nos brindou com um pouco de Freestyle. As coisas são como são e certamente queremos estar presentes no próximo concerto de Bambino até porque o projeto IN3GAH irá trazer um dos álbuns que mais irá dar que falar.

Mais tarde, o palco do Capitólio foi todo para Cálculo e para os seus músicos. Hugo vem de Barcelos, mas podia muito bem ser de Lisboa pois, acreditamos, sentiu-se completamente em casa. “Estrelas” abriu um concerto que ao início não estava a captar muito o público talvez por desconhecimento do artista. A questão é que quem visse apenas o início do concerto e depois visse apenas o seu final pensaria que era dois concertos diferentes. Não por “culpa” de Cálculo, mas sim devido ao público. O rapper conquistou gradualmente a plateia até chegar a um ponto em que todos cantavam os seus refrões. Acompanhado de Mace e banda, temas como “Hugo”, “Iguais” que trouxe Harold a palco ou “Não paro” fizeram a festa. O concerto de cálculo foi das maiores conquistas de público que vimos nos últimos tempos e é disto que os grandes artistas são feitos. Todos os que ouviram, quiseram ouvir, mesmo que ao início não o soubessem.

O segundo dia começou ao final da tarde em “modo lounge” com Tiago Castro & Ricardo Mariano DJ set. Passámos depois para fora do capitólio onde atuou Keso e todos os integrantes da editora Paga-lhe o quarto. O rapper que têm vindo regularmente atuar em Lisboa desta vez cantou apenas a primeira e última música, deixando o resto da editora brilhar num concerto que deu para descobrir novos talentos. Seguiram-se Orteum já dentro do capitólio que mostraram como profissionalizar o underground. É de louvar como um dos coletivos mais reais do hip-hop nacional chega a um grande festival . O concerto terminou com “anda” que é uma autêntica crítica ao panorama atual do hip-hop português e com muitos dos associados da editora RAIA em cima de palco.

Seguiu-se Perigo Público e Sickonce que apresentaram o seu mais recente projeto e que vai dar muito que falar “Porcelana“. Mesmo com a voz afetado, Perigo Público foi firme nas suas rimas e abriu a mente de todos os presentes. No Algarve faz-se bom Hip-Hop, dois nomes a ter em conta.

No Coliseu Dos Recreios esperava-nos um dos melhores concertos de todo o festival. Slow J revelou que o seu avô morreu no ano passado e disse também que tinha sido pai nesse mesmo ano. A sua música já fala por si mas estes dois fatores, contados no início do concerto, tornaram-no ainda mais emocionante. FAM trouxe Papillon a palco e o percurso musical fez-se entre “You Are Forgiven”, “The Art Of Slowing Down” e até “Free Food Tape”. Muitas músicas ficaram por ouvir, pois é simplesmente impossível fazer mais num concerto de uma hora e pouco, mas todas as que foram ouvidas foram também contadas por todos. O público de Slow J é o país inteiro, ora não estivéssemos na presença de um dos melhores artistas nacionais desta nova geração.

O último concerto Hip-Hopiano levou-nos de volta ao Capitólio desta vez para ver Col3trane. O britânico não desiludiu, antes pelo contrário e fosse numa vibe mais dançável ou intimista convidou todos a entrar no seu concerto. Penélope, última música do alinhamento, é êxito musical conhecido por todos mas é importante conhecer mais deste jovem artista. Um dos nomes a ter em cona na cena internacional da música urbana.

O Super Bock Em Stock foi mais uma vez um prato cheio para os amantes de Hip-Hop. Mais importante que isso: cada vez mais se revela um festival de ouvintes instruídos. Em nenhum concerto houve alguém que não soubesse o que estava a ouvir e nos tempos atuais em que a música pode-se tornar tão impessoal é de destacar um evento que torne a música, de novo, pessoal.

Fotogaleria completa aqui.

La Casa de Pablito

Conheci X-Tense em 2017. Lembro-me que o primeiro som que ouvi dele foi o Voodoo e não vou mentir, por falta de conhecimento Hip-Hopiano na altura pensava que era um newcomer. Não fazia sentido sê-lo. Não fazia sentido porque ele não o era. Depois de um diggin encontrei a mixtape “O Rei Vai Nu” e descobri que estava perante um músico de que seria fácil eu gostar: o humor estava bem presente e a qualidade era inegável.

O espetáculo que vimos na passada sexta-feira, como muito humor à mistura, não é de agora mas já lá vamos. Continuando: conheci a “personagem” pouco tempo depois. O X-Tense é tudo aquilo que diz nas suas músicas, faz as coisas à sua maneira, quem gostar, gosta, quem não gostar ele não se importa. Acredito que muitos não gostam simplesmente porque não percebem, ficam confusos. Quando em 2018 ele teve a ideia de fazer a fake new de que teria sido preso por tráfico de droga (serviria como lançamento para o tema “Narcos”) eu nem me surpreendi. E alinhei. Fizemos esta maluquice e tanto eu como ele não nos importámos com o que as pessoas pudessem achar. “Se ainda nunca te sentiste pateta do que é que tu tás à espera?”

Um dos comportamentos mais saudáveis que podemos ter é não nos levarmos muito a sério, mas isto não é sinónimo de não reconhecermos o nosso valor. X-Tense sabe muito bem o valor que tem e atualmente joga num campeonato que é só dele. Não há um único concerto em que não faça a plateia rir. O público não se ri dele, ri-se com ele. Isso viu-se mais uma vez em P de Pablito. Naquela noite fomos todos convidados a entrar na sua casa e a levar com as “cenas” dele. E que bom que isso é. Houve atuações dos seus amigos, stand-up, mariachis e até um pedido de desculpas à senhora sua mãe devido ao barulho. E houve público, muito público que adora todo este universo por ele criado. P De Pablito mostrou que atualmente X-Tense é tudo o que sempre foi e Pablo é a forma que o público encontrou para o saber adorar. O MC com barras geniais, flows rápidos e dicção quase perfeito nunca se vendeu para conseguir chegar às massas.

Há anos que todos somos convidados a entrar na casa de Pablito mas só agora quisemos entrar. A piada é que a porta esteve sempre aberta. Temos sorte de X-tense ainda querer que entremos.

Foto-galeria, por Beatriz Dias, para ver aqui.

It’s never a trap

Quando vamos a uma festa queremos sempre passar um bom bocado. Todos saímos de casa para nos divertirmos à nossa maneira. No It’s a trap, tal como em todas as festas, é isso que o seu público quer. Esse público, tal como o estilo em si, é muito específico. O trap, por muito que alguns ainda presos a costumes antigos não o considerem, faz parte do rap e é atualmente o estilo desta nossa cultura Hip-Hop que mais repercussão tem a nível nacional. Por muito que muitos nem o tolerem, pelo menos saberão reconhecer isto que acabei de escrever como um facto. Acredito que algo é indubitavelmente diferenciado quando existem muitos que o odeiam e outros tantos que o adoram. E todo o público de trap adora trap. Foi na passada quinta-feira, plena noite de Halloween, que fui ao It’s a trap Halloween Edition constatar isso. Mal se percebia que era noite das bruxas mas não me interpretem mal pois a organização decorou o espaço caprichosamente. Simplesmente não parecia pois o It’s a Trap, seja em que altura do ano for é um autêntico desfile de diferentes roupas, máscaras, enfim, estilos e isso não é fácil de encontrar. Um estilo tão diversificado mas ao mesmo tempo tão homogéneo. Eu não tenho problemas nenhuns em admitir: não sou o maior fã de trap mas gosto e acima de tudo, respeito-o, tal como todos devíamos fazer a partir do momento em vivemos a cultura Hip-Hop. O que vi foi uma festa lotada, como não há igual em Lisboa em que todo o público canta, pula, dança. A audiência mistura-se com nomes como Syl, Young Boda ou 20Chatear, “personagens” tão queridos por ela. Moshpits praticamente do tamanho da sala são dados. Vibra-se e idolatra-se como se não houvesse amanhã com M Huncho, o internacional e grande cabeça de cartaz daquela noite. Saí de lá com um sorriso na cara, não por ter estado numa festa que adoro mas por ter adorado uma festa que foge ao meu estilo de música predileto. E isso por si só, é especial.

Going to It’s a trap is never a trap. Todos os que gostam da festa sabem para o que vão e não precisam de mais nada. Os que não gostam, ou pensam que não gostam, deviam experimentar e alargar horizontes, talvez gostassem da armadilha.

O Hip-Hop ainda é clandestino e isso não é necessariamente mau

Texto: Daniel Pereira
Fotografia: Sebas Ferreira e Bernvs_


No passado sábado parecia que estava de volta a 2012. Menciono esta data porque foi por volta dessa altura que comecei a ir a festas de Hip-Hop na minha terra, Sines. Os meus primeiros headshakes foram mesmo ao som de Alcool Club em festas organizadas pelas comissões de finalistas. Apesar de estas festas serem legais, pareciam sempre algo clandestinas, pelo menos para a generalidade da população. Eu não vivi os 90’s mas acredito que nessa altura a sensação de clandestinidade fosse ainda maior. Em 2012 era algo que ainda perdurava. Mas e em 2019? Será que se extinguiu? De maneira nenhuma: e isso não tem de ser mau.

Coincidentemente ou não, os cabeças de cartaz do LX Rap Clandestino Vol II eram também os Alcool Club. Quando cheguei à FLUL o sentimento de nostalgia surgiu num ápice. Graffitis nas imediações (proporcionados pela própria organização), porta de entrada minúscula, sala escura, quadrada e pequena, ausência de zona VIP e muito Boom-bap no ar. Depois de no dia anterior ter visto o já mítico concerto de Sam The Kid no Coliseu Dos Recreios e ser praticamente impossível algum evento superar esse, senti no entanto que ali era onde devia estar, era ali que devia continuar a festa que tinha começado no dia anterior. E é isso que faz esta nossa cultura ser algo tão grande e complexo: ali estava eu num evento com dimensões muito menores, mas igual em termos “Hip-Hopianos”. Infelizmente não consegui ver as rodas de Break Dance mas cheguei a tempo de ver os momentos finais de Uno que deu o mote para um concerto de um tipo que já há muito não via de Alcool Club. O ambiente era propício, afinal estávamos a falar de de “Rap Clandestino” e este tipo de rap não é exatamente para todos os que estavam presentes. Letras sabidas de cor, nem um único telemóvel levantado a gravar e microfones que chegaram a muitos dos espetadores da frontline (Subtil a determinada altura encarregou-se dessa tarefa). Por lá também passou Uno, Mass, TOM e Sara D Francisco numa noite em que os artistas se confundiram com o público ora não fosse a noite terminada com DJ Set e Open Mic ao leme de DJ Pilha.

A festa acabou, mas continuou lá fora com um convívio brutal entre todos os que simplesmente não queriam ir embora. Mil e uma conversas sobre rap em que cada um podia ser interveniente e que duraram até muito depois de as portas fecharem. Algo tão clandestino mas que ao mesmo tempo, de clandestino, não tem nada.

Quando os Alcool Club dizem que não querem ser mais do que aquilo que eles são, não falam só por si, falam por todos os que sentem o “Rap clandestino”. Claro que há outras formas legítimas de sentir a cultura, mas isso, para eles, está fora de questão.

O meu STK não é o teu STK e é isso que o torna enorme

Texto: Daniel Pereira
Fotografia: Lucas Coelho


Desta vez, escrevo não como repórter da Hip Hop Rádio, mas como Cigas. Faço-o, pois é impossível reportar o concerto da passada sexta-feira sem meter um cunho pessoal. Sam The Kid deu um espetáculo tão especial que de certeza tocou todos os presentes, mas mais importante: tocou cada um de maneira diferente. Fiquei estupefacto quando Napoleão Mira abriu o concerto, cantei como se não houvesse amanhã em “À Procura da Perfeita Repetição” e emocionei-me na “Retrospectiva de um amor profundo” e na “Negociantes”. Outros poderão ter cantado cada linha de “Sofia”, ficado nostálgicos em “O Crime Do Padre Amaro” e saltado que nem loucos com os instrumentais das músicas dos Orelha Negra.

Os momentos que cada um tirou para si são únicos porque o meu STK não é o teu STK e é isso que o torna enorme.

No coliseu não estava um tipo de público específico. Não havia homens, mulheres, novos, velhos, chungas, betinhos e havia eles todos. Se for para dar uma denominação ao público digo simplesmente (mas que de simples não tem nada) que era Hip-Hop no seu estado mais puro.

E destes Hip-Hop Heads é certo que todos ficaram maravilhados com a viagem temporal que Sam proporcionou, com a quantidade e qualidade de convidados que trouxe e com a performance exímia em que tantas e tantas barras complexas foram “dropadas” sem um único erro – pelo menos que eu tivesse captado. Ah, houve também uma orquestra que preencheu todo o palco. Sinto-me mal por quase meter isto em segundo plano.

Ninguém ficou indiferente a um concerto que, tal como tudo o que Sam The Kid faz, se torna um clássico instantâneo. Aqui, nasceu um novo marco na história do Hip Hop Tuga e no final do dia cada um levou para casa o seu conjunto de momentos especiais que esperava ver e ouvir quando entrou no Coliseu Dos Recreios. Ninguém, rigorosamente ninguém, saiu desiludido.

Passados dois dias todos se perguntam se vão haver mais concertos ou quando irá acontecer o regresso com novo álbum. Completamente expectável. Depois de sexta-feira ficou muita água na boca, no entanto, o momento tem de ser para desfrutar, refletir e agradecer.

Samuel é um artista ímpar em Portugal e não tem de mostrar nada de novo para provar a sua grandeza. Tudo chegará até nós a seu tempo, quando ele encontrar o momento certo e sendo assim… a cena sai(rá) sem pressões.

Festival do caloiro do ISCTE

Estivemos no passado sábado na edição deste ano do Festival do caloiro do ISCTE para uma noite recheada de Hip-Hop. Julinho KSD, nome emergente, abriu a noite, depois X-Tense pôs todos aos saltos, Phoenix RDC mostrou como se faz rap gangster, Kappa Jotta proporcionou os melhores moche-pits da noite e Supa Squad encerraram com ritmos mais dançáveis.

Fica aqui com a foto-galeria por Alicia Gomes (Julinho KSD por bernvs_) de um evento que é já uma referência no que toca às festas académicas de Portugal