Hip Hop Rádio

Beatriz Freitas

HHR no Festival Iminente ’21: Quatro dias na Disneyland da cultura Urbana

Depois de alguns avanços e recuos e toda uma pandemia pelo meio, um dos mais míticos eventos voltou em toda a sua glória, para nos agraciar com o melhor que sabe fazer: enaltecer a cultura urbana. A Hip Hop Rádio marcou presença na décima edição do Festival Iminente, que decorreu entre sete a dez de outubro de 2021, quatro dias repletos das mais orgânicas expressões de arte, oferecendo exposições, instalações, graffiti, dança, tatuagens, e música…muita música.

Anteriormente realizado em Oeiras e depois no famoso Miradouro Panorâmico de Monsanto, este festival criado por Vhils tem agora uma nova casa:  Matinha, localizada num dos mais recentes e prolíficos focos de cultura em Lisboa, em constante expansão, o Beato, perto da Underdogs Gallery.

Desta vez com um tema relacionado com feira popular, fazendo alusão à diversão efémera, fugaz e elétrica da qual sentimos tanta falta, foi-nos proporcionado um recreio de arte espalhada, paredes outrora abandonadas vestidas de graffiti e outras obras de arte ocupando os espaços por artistas como Mariana a Miserável, Pedro Podre, Pipoca e OpenField, honrando um dos principais conceitos do festival: pegar em algo abandonado e fazer dele uma enorme instalação de arte, como tão bem sabe Vhils fazer.

Depois de mais de um ano a conter a vontade de atender a um bom festival, com copos reutilizáveis, pó, espaços cheios de gente e a correria entre palcos na esperança de apanhar todos os preferidos, o retorno teria de ser épico: e foi. Com cabeças de cartaz de luxo como Slum Village e The Alchemist, capazes de fazer qualquer hip hop head largar tudo e ir, a vasta oferta de performances não ficou por aí, podendo contar com mais de 50 artistas distribuídos ao longo de quatro dias cheios de cultura, na sua maioria esgotados, não diferindo muito das edições anteriores.

A festa nunca parou, tomando lugar em três palcos, para além de todo o recinto que respirava arte: Palco Gasómetro, com maior capacidade, o Palco Choque, uma literal pista de carrinhos de choque e o Palco Cine Estúdio, que nos matou as saudades de uma boa estufa de calor humano e entusiasmo.

Começámos o primeiro dia logo com uma grande voltagem de energia, numa data que parece ter sido estipulada para dançar, como tanto tínhamos saudades. Honrando o sentimento, a primeira atuação vista foi uma batalha de breakdance no Palco Choque, que mais tarde continuou no Skate Park. Acontecendo duas vezes por dia, as batalhas de breakdance revelaram-se como uma das mais entusiasmantes performances a não perder, reunindo sempre uma grande e entusiasta multidão para as ver, sempre acompanhadas pelo host Wilson e thebboywannabedj.

Não abrandando na energia e adicionando-lhe mais uns quantos volts poderosos, dirigimo-nos ao Palco Gasómetro para ver Pongo, num concerto que incendiou o palco, a plateia e todos os que poderiam estar a ouvir, mesmo que de longe. Este concerto foi a personificação de tudo o que mais sentimos falta, a energia radiante e unida de todos os presentes, o cantar em uníssono, a dança desenfreada, os empurrões, coros e pó levantado; tudo isto coordenado pela artista, que dançou e cantou incansavelmente, levando-nos desde hits como “Bruxos” -que apresentou no A COLORS SHOW – a uma nova versão de “Kalemba (Wegue Wegue)“, não fosse ela uma exintegrante de Buraka Som Sistema. A artista chegou a saltar do palco e ir dançar para o meio da multidão, tal não era a energia sentida, naquele que foi um verdadeiro grito desafogado de liberdade em forma de concerto.

 Seguiu-se Herlander, artista lisboeta que espalhou magia para uma também considerável multidão, desta vez no Palco Choque, e voltámos para o palco principal para ver outra das cabeças de cartaz da noite, Plutónio.

Não se afastando muito da energia sentida em Pongo, Plutónio veio devolver algo há muito em falta: um moshpit, ao som de “Cafeína”, um dos seus mais conhecidos temas. Este concerto serviu para mostrar que o público nunca parou de ouvir as músicas que mais gosta, como o próprio agradeceu pelo feito, tendo como prova disso o coro de vozes em uníssono, que respondia a todas as músicas apresentadas. Este coro explodiu em “Lisabona”, validando os versos: “Depois do coliseu, a única coisa que bateu mais que eu foi o corona”.

O ritmo não esmoreceu, passando desta vez para o palco Cine Estúdio com Scúru Fitchádu, numa performance de pura garra e calor humano, e seguiu-se o Palco Choque, que não estava menos cheio, onde uma multidão fez papel de carrinho, na área dos carrinhos de choque e se agrupou para ver DJ Glue. Este icónico DJ eletrizou todo o recinto, com remisturas de hinos do rap, do mais antigo ao mais recente, arrancando aplausos e gritos da plateia.

Em simultâneo estava a acontecer o concerto de DJ Shaka Lion no palco principal, numa onda mais reggae, naquele que foi um dia de triunfo para DJ’s. A noite acabou honrando este facto, de forma explosiva, com DJ Ride a causar estrago no palco Cine Estúdio, com uma destreza invejável, exibindo diversas técnicas de scratch e domínio da mesa de misturas.

Ainda a recuperar do dia um, seguiu-se o que considerámos o dia mais aceso do festival. Para além da promessa da enorme cabeça de cartaz reservada para este dia, The Alchemist, avizinhava-se um verdadeiro arraial de dança com nomes como Julinho KSD, Dino D´Santiago, Cintia e Holly.

Começando pelo concerto de Julinho KSD, naquela que foi a tão esperada apresentação ao vivo do seu primeiro álbum “Sabi na Sabura”, sentiu-se no ar toda a libertação após ano e meio de dançar em casa. Com convidados como Dino D´Santiago para cantar o tema “Kriolo” e Instinto 26 para cantar os hits “Gangsta”, “Sólido” e “Bandidas”, o público não parou um segundo, dançando ao som dos ritmos quentes e dançáveis de populares temas como “Mama Ta Xinti”, “Sentimento Safari” e “Hoji N´Ka ta Rola”. Este concerto terminou com uma roda, que levantou muita poeira ao som de “Stunka”.

De seguida dirigimo-nos ao Palco Choque para mais uma eletrizante performance, desta vez pela parte de Cíntia, que também fez uma multidão dançar ao som de populares temas como “Savana”, “African Queen”, “Grana” e um dos seus mais recentes singles “Je t’aime”. Este mesmo palco acolheria mais tarde HOLLY, que manteve em chamas todos os presentes, com ávidos remixes de obras como “Donda” de Kanye West, envergando uma sweat estampada com o nome e imagem de um dos grandes nomes do hip hop, DMX, falecido recentemente.

Este dia contou com uma das mais aguardadas e entusiasmantes performances: The Alchemist, uma verdadeira lenda no que toca a produção. Depois do aclamado álbum “Alfredo´s” que partilha com outro dos maiores nomes do hip hop atual, Freddie Gibbs, o artista preparava-se para atuar para um recinto cheio de pessoas que envergavam o merchandising da obra, em pulgas para ver um dos maiores produtores existentes, diretamente da Califórnia. The Alchemist encheu o recinto do Palco Gasómetro, onde fãs deliraram ao assistir a um puro espetáculo de mistura de poções, fazendo jus ao nome, obtendo as maiores manifestações de entusiasmo com a batida de “$500 Ounces”, ou qualquer outra faixa presente em “Alfredo´s” e beats que pareciam estar a ser cozinhados à nossa frente.

O penúltimo dia de festival não esmoreceu em termos de cabeças de cartaz de luxo, sendo o prato principal desta vez Slum Village, diretamente de Detroit.

A festa começou no palco Gasómetro com GHOYA, rapper criolo, que contou com leais fãs nas primeiras filas a cantarem os seus temas. Seguiu-se Tekilla no Palco Choque, que encantou mais uma vez com temas como “Sinónimos”, faixa que partilha com Sam The kid, “Love You”, uma das preferidas do público e mais canções do seu mais recente álbum “Olhos de Vidro”.

 O Palco Gasómetro foi ainda pisado por Chullage com o seu projeto Pretú, onde cativou toda a audiência com as suas letras carregadas de mensagem, sobre beats mordazes, alguns em colaboração com grandes nomes como Scúru Fitchádu e Cachupa Psicadélica.

 Mais tarde foi a vez de Nenny se estrear neste festival, para uma multidão enorme que ansiava a performance de temas como “Tequila” – também presente em A COLORS SHOW-, “Bússula” e “Sushi”. O principal destaque foi, no entanto, para a música “Dona Maria”, onde a artista chamou ao palco a sua mãe, acompanhada de vários familiares, para dedicar esta profunda canção, num momento que não deixou ninguém indiferente, em busca de lenços para toda a emoção sentida.

Sem grande tempo para recuperar de tanta emoção, seguiu-se um dos momentos mais altos da noite, Slum Village, que proporcionaram um concerto que ficará para sempre na história. A performance de conhecidos temas como “The Look of Love”, “Selfish” -que partilham com Kanye West- “Fall in Love” e inúmeras menções e homenagens a J Dilla vieram mostrar como se faz, num display assertivo de MCS old school, que sabem como levar uma plateia à euforia.

Seguimos para dar mais uma volta no Palco Choque onde atuou Carlitos Lagangz, rapper que deu uma aula de drill internacional aos ouvintes, colados a colunas que quase rebentaram com a agressividade das batidas.

A noite terminou com um DJ Set esgotado de Branko, que fez todo o recinto, na sua capacidade máxima, dançar ao som dos seus temas, não fosse também ele um ex-integrante de Buraka Som Sistema. A quem sobrasse dúvida, podia verificar por todo o merch, vestido pelos fãs presentes no recinto.

Não menos entusiasmante foi o quarto e último dia de festival, que arrancou com a performance de um dos mais icónicos gaienses, David Bruno, acompanhado pelos seus fiéis e talentosos comparsas, Marco Duarte e DJ António Bandeiras.

 Num trio apelidado por David Bruno como “Os power rangers de Rio Tinto”, com indumentária à altura, constituída por e somente um fato de treino, estes artistas brindaram-nos com as habituais histórias, interação com o público, crowd surf de António Bandeiras e o lançamento da regueifa e rosa de António Bandeiras, num concerto que nunca nos cansamos de ver, por ser sempre diferente, divertido e, especialmente, único.

A noite contou ainda com Pedro Mafama, na apresentação do seu novo disco “Pelo Rio Abaixo” e  Eu.Clides, que mostrou os seus dotes de cantor e produtor, tendo encantado todo o público do palco Cine Estúdio.

De destacar ainda a incrível e derradeira batalha de breakdance que ocorreu no Palco Choque, onde nem o público esteve a salvo. Os moves apresentados numa que foi uma das mais e impressionantes exibições de talento em todo o festival, acompanhados da reação efusiva de todos os que viram, vieram relembrar a relevância desta arte e a importância de se dar mais atenção à mesma. Um verdadeiro bónus em pontos de nostalgia, para quem cresceu a ver America´s Best Dance Crew, vidrado no ecrã.

Terminou assim mais uma edição de um dos mais importantes festivais para a nossa tão adorada cultura. Este festival de cariz nómada consegue ser pioneiro na sua essência e conceito, sendo assim importante enaltecer a excelente plataforma que oferece a um grande número de artistas, nas mais variadas vertentes. Depois de todos os contratempos sofridos com a pandemia e a ressacar há mais e um ano sem festivais, Vhils montou uma verdadeira Disneyland para a cultura urbana, onde certamente todos nos sentimos crianças livres e felizes outra vez, rodeadas de arte na sua forma mais pura e crua, durante quatro dias onde só apetecia gritar “finalmente”.

Beat deu concerto: Wugori ao vivo no Com Calma

Calmamente -mas dificilmente contendo o entusiasmo- voltamos ao ritmo da vida noturna em Lisboa, entrando desta vez pela porta dos fundos e em direção às catacumbas, para nos deleitarmos no escuro ambiental do underground. A descida foi proporcionada mais uma vez pela LUME, no que foi mais uma sessão de LX RAP Clandestino.

Sessões que anteriormente encontraram refúgio em lugares como a cave da FLUL, em estilo clandestino que sempre fez jus ao nome, têm agora uma nova casa: o espaço Cultural Com Calma, sediado em Benfica, ideal para acolher todos os corpos e almas movidas a cultura. De fachada colorida à beira da estrada, cativa o olho mais atento a entrar e descer para descobrir o que mais esconde, ao passar pela entrada com exposições na parede e estantes de livros, cuidadosamente organizados alfabeticamente, o que contribui vivamente para o ambiente íntimo e acolhedor do espaço.

O tesouro escondido tinha desta vez o nome de Wugori, rapper oriundo da Amadora, que deu cartas e abriu o apetite de toda a gente com o EP Mal Passado Bem Pensado, produzido por gonsalocomc, outro diamante em bruto, formando uma dupla que certamente causa estrago.

O primeiro a segurar a tocha para guiar os curiosos exploradores do under foi Saraiva, que proporcionou um DJ set constituído por uma vasta seleção de hip hop, de Portugal aos Estados Unidos, passando pelo Brasil, num warm up que deixou a sala no ponto para receber o ato principal. Já na reta final fez-se acompanhar por DAMAZ MC, constituinte do coletivo UMRAP, que atuará dia 15 de outubro, na mesma localização.


Chegando sorrateiramente pelo meio da plateia, como quem se desculpa por chegar atrasado a uma sessão de cinema, Wugori pisou o palco desta vez acompanhado de Snootie Chainz, para apresentar algo diferente do que se esperava: uma demonstração de beats e remixes.

Qualquer um dos presentes que se pudesse ter mostrado apreensivo por não ir experienciar o típico concerto de hip hop, rápida e certamente mudou de ideias, ao ver o alquimista com a poção a cozinhar, no que parecia uma sessão de estúdio, mas desta vez com audiência.

Sem mais tempo para demoras começou a magia com pads, PC e teclado, num espetáculo de produção. Alternando entre temas onde se verificava a mestria em utilização de samples, produções mais lo-fi e reinvenções de clássicos do rap americano como “Scarface Nigga” de  Roc Marciano, estava montado um display de tentativa-erro, porque desenganem-se, nem todas as refeições foram pré-preparadas, algumas pareciam estar a ser cozinhadas à nossa frente, a ver os ingredientes a irem para o caldeirão.

Embora fosse aparente o entusiamo ao mostrar os instrumentais , como quem está a mostrar poesia pela primeira vez, muitas vezes não conseguia conter a vontade de debitar barras em cima dos mesmos, mostrando a proeza na entrega de rimas. Ainda meio tímido, desistiu de deixar os beats falarem por si, culminando na performance da faixa “Olhocerrado”, com o habitual flow do Kong, mas sobre um instrumental diferente, arrecadando vários gritos da plateia.

Seguiu-se a faixa “Tia May”, naquela que foi a performance mais íntima da noite. Uma letra já profunda foi entregue em tom de confissão, sobre uma batida algo melancólica e exaltando as linhas “Tou de rastos mãe vem dar um abraço, um homem quer afeto mas há quem ainda faça caso”. Num concerto que foi sobre desconstruir o que já foi feito, reinventar e manter interessante, constantemente em busca de se tentar melhorar, esta música veio exemplificar a força que se pode encontrar na vulnerabilidade da arte, com uma mensagem importante: “Mais amor bro, isso não faz de mim frágil, dá valor tho”.

Continuando no registo do seu mais recente EP, brindou-nos com “Trolley”, e ainda  “Trata”, single de 2020,  também apresentadas em forma de remix. E se Wugori vê o mundo pelos quadros que pinta, nós vemos o mundo dele pelos beats e rimas que entrega.

Com a plateia em chamas e não abrandando na viagem, o artista procedeu na amostra da sua versatilidade ao apresentar, algo reticente, um drill que levou Snottie Chainz a improvisar o início da “Off The Grid” de Kanye West. Um instrumental que prometia: “Se eu acertar é banger”. Acertou e confirmou-se.

Houve ainda espaço para vários leaks, como prometido inicialmente, que não só deixaram água na boca a todos os presentes – mas calma, que está para breve- como vieram cimentar o percurso artístico, e talvez pessoal, deste artista; a frase: “Desde puto que tenho um caso com a música” ouvida numa delas esclarece, caso dúvidas houvesse, que toda esta criatividade e skill não vêm de agora: é acordar que ainda dá tempo para apanhar o comboio.

A partir daqui, especialmente, foi festa agressiva na cave. Depois de ter esclarecido “já cantei o que tinha a cantar, a partir daqui é só desgraça”, o gorila lançou beats de uma violência, que correu o risco de se tornar num Harambe 2. Com drops agressivos e ad libs de Snottie Chainz, a energia sentida na sala era contagiante e a plateia já só pedia mais. E ele dava, servindo um buffet de fusões de drill, funk, afro, trap e mais viessem, agora quentes e prontas a servir, a uma multidão faminta, há muito à espera. E foi assim até ao fim.

De destacar, especialmente, um beat afro que ironicamente continha um sample onde se podia ouvir “Tão tímido porquê?”, que foi talvez a surpresa da noite.  Wugori é para todos, ou não fosse a junção do seu nome Wu-Tang com Gorillaz, no entanto descobrimos que se pode mutar e ir até um DJ MARFOX. Caso para dizer que beat deu concerto e nem a malta do tarraxo está a salvo.

Com talento para as rimas já amplamente mostrado ao longo da sua obra, com este concerto Wugori veio demonstrar a sua versatilidade no que toca à produção de beats, numa performance marcada pela exposição de domínio de vários géneros e mestria de reinvenção das suas faixas, com uma abertura e à vontade dignas de ser registadas.

Despido do medo de falhar, e se o tinha, a honestidade sobrepunha-se, Wugori fez do Com Calma um recreio revestido para todas as acrobacias e experiências que quis fazer, todas bem recebidas pelo público, que retribuía com gritos de apoio, palavras de motivação e entoações, tudo isto fruto do que se estava a viver ali: uma partilha de algo que parecia inédito, numa sessão de estúdio, que podia muito bem estar a acontecer no quarto do artista. Exemplificou-se assim o expoente máximo do que é o hip hop underground: verdadeiros génios, não necessariamente à vista de todos, que muitas vezes passam despercebidos.

Assim revela-se a importância de projetos como o LX Rap Clandestino e todos os eventos produzidos pela LUME, que tanto fazem pelo panorama atual do rap underground em Portugal, trazendo à luz nomes mais escondidos, para quem possa andar perdido e não saiba onde explorar; mas fica a dica: se ouvires sons de festa vindos de uma cave mais próxima, é descer e explorar, afinal de contas, é preciso escavar para encontrar diamantes.

As próximas datas e respetivos bilhetes encontram-se disponíveis no instagram da Lume Portugal, podendo contar com UMRAP dia 15 de outubro e Vácuo dia 29 de outubro.

O EP Mal Passado Bem Pensado de Wugori x gonsalocomc encontra-se disponível em todas as plataformas.

Fotos da autoria de Tiago Gonçalves.

Tekilla no Time Out Market: Shots de energia numa festa de reencontro

Na passada quarta-feira, dia 22 de setembro de 2021, noite de trovoada, o Time Out Market recebeu mais que um abalo que abanou (e de que forma) as suas estruturas: Tekilla, uma força da natureza.

Uma noite que estava destinada à apresentação do seu novo álbum “Olhos de Vidro”, e na qual se prometia a presença de vários convidados especiais, acabou por ser muito mais que isso: uma verdadeira festa, onde se celebrou o lento e há muito esperado regresso à normalidade, na presença de amigos, fãs e família. A energia elétrica de Tekilla fez-se sentir em todos os segundos do concerto, onde houve momentos de dança, extrema interação com o público, desabafos e até abraços, num culminar de um concerto eletrizante. E nós estivemos lá para testemunhar.

O ambiente foi preparado pelo DJ Kool Isac Ace, que proporcionou ao público uma viagem aos primórdios do hip-hop, deixando de imediato a sala na expectativa do que se avizinhava: uma performance conduzida pela vontade de passar a mensagem, da maneira mais crua e eletrizante possível.

A suave mas inesperada transição de hip-hop para a música “Saudade Vem Correndo” de Stan Getz trouxe com ela uma bailarina de dança contemporânea, indicando assim a chegada próxima do tão aguardado artista, que surgiu breves momentos depois, estreando o palco com o seu tema “Homens”.

Frisando sempre a gratidão sentida em relação a este regresso à normalidade, e agradecendo com largos elogios ao público que saiu de casa para o ver, o artista prosseguiu com o tema “90s”, incitando os presentes, fervendo para se levantar, a abanarem a cabeça, mencionando o quanto arriscaram para realmente proporcionar uma performance “à altura” pois, nas palavras do artista, o seu objetivo é sempre apresentar a melhor performance possível, “não só porque ouviram e gostaram do álbum, mas para superar as vossas expectativas”.

De seguida, foi aberto o leque de convidados especiais com a chamada ao palco de Ana Semedo, apelidada de Underground Diva, para cantarem o tema “Puxão de Orelhas”.

Não faltaram momentos de interação com o público entre músicas, onde Tekilla fez questão de relembrar o seu principal objetivo no rap: passar a mensagem. Estando há mais de 20 anos no rap, o artista defende que não é, nem alguma vez foi a parte financeira que o estimula, mas sim o veículo que esta forma de arte proporciona, para poder passar a mensagem.

Seguiu-se a apresentação do tema “Love you”, que suscitou um pico de energia na sala. Tekilla incentivou todos os presentes a proferir as palavras “Fuck You”, num exercício libertador de expressão, contra as amarras da liberdade de expressão artística, o que abriu caminho para o próximo tema apresentado: “Tem Juízo”, “aquele single mesmo sujo, onde tens que cuspir muito”, nas palavras do próprio.

A plateia ao rubro ficou de novo em silêncio, para mais um momento de conversa, onde o artista elaborou sobre a existência de dois tipos de pessoas: os sugadores e os doadores. Identificando-se como um doador, Tekilla mostrou-se agradecido pelo sentimento de reciprocidade sentido na sala, uma das principais ignições de um espetáculo tão voltaico.

A festa continuou com o tema “Se Eu”, com direito a solo de bongos no fim, por Afrogame, pintando o ambiente para a faixa especial apresentada de seguida: “Sinónimo“, um clássico que partilha com Sam the Kid.

Em mais um momento de interação com o público, em tom de desabafo, o artista proporcionou um momento refletivo onde falou sobre deixar a sua música falar por si, independentemente das opiniões de outrem, afirmando que sabe quais são as suas causas e as lutas que abraça. Tekilla explicou que atribui a maior importância ao facto de pretender espalhar uma mensagem de inclusão, especialmente depois de uma pandemia: “agora é uma bênção estar a partilhar convosco cada minuto.”

Com influências de nomes como Method Man, “Oportunistas” foi um dos temas onde mais se sentiu a energia presente na sala, tendo Tekilla saltado para o público enquanto cantava o tema, porque seria, a seu ver, “uma falta de respeito não transmitir esta energia”; uma energia que foi certamente recebida e interiorizada, pelos gritos que se ouviam na sala a perguntar onde era a after party.

Com a aproximação do final do espetáculo, Tekilla apresentou o tema “Olhos de Vidro”. Sendo o tema homónimo do seu álbum, foi apresentado um momento especial: reforçando a importância dada à letra e à passagem de uma mensagem, o artista proporcionou-nos com um momento acapella.

Não abrandando nos momentos especiais, foi chamada Amaura ao palco, para brilharem “Em Sintonia”, como o próprio título da música indica.

Com uma plateia em chamas, envolta num ambiente de intimidade quase familiar, juntou-se desta vez Dino D´Santiago em palco, para incentivar à dança com a melódica “Meu Bem”, faixa que o público recebeu levantado e com toda a vontade para se mexer.

Estando o ambiente de festa no auge, como tínhamos tantas saudades, Dino não abandonou o palco, presenteando-nos desta vez com uma homenagem a Tito Paris e aos anos 90, com o tema “Dança ma mi criola”, onde se juntaram todos os artistas convidados, assim como a plateia, numa animada dança que honrava tradições.

Terminou assim o concerto, em nota alta, com a entoação dos parabéns ao DJ presente e com a apresentação de toda a equipa e convidados, acompanhados de uma vénia coletiva ao público. Foi ainda possível ouvir a entoação, em cântico, das palavras “Olhos de Vidro”, seguida de um abraço pessoal a cada pessoa do público, pela parte de Tekilla.

Mais que um concerto, este evento revelou-se como uma experiência: um hino de volta à normalidade, um grito de esperança e uma relembrança do que é dançar, numa sala envolta em energia. Embora permaneça o distanciamento social, Tekilla, honrando o papel de Master of Cerimonies, não só entregou uma performance cheia de garra, como há muito não se via, como moveu toda uma sala pelo espírito de união e amor pela cultura, uma das melhores sensações que a música pode proporcionar. As rimas mordazes com os beats ferozes, acompanhados pelos bongos de Afrogame e seguimento de DJ Kool Isac Ace, fizeram a sala do Time Out Market parecer menos um amplo sótão, e mais um transporte aéreo para a viagem vivida pelos presentes. Tekilla chegou viu e venceu e pela importância dada à escrita, cultura e entrega, parece-nos que veio para ficar.

O álbum “Olhos de Vidro” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.

Noite de sombras na Casa do Capitão

Ontem reinaram as sombras na fábrica da Casa do Capitão.

Nerve pisou o palco para assassinar rimas, sobre mordazes beats de Il-Brutto e ainda com um convidado especial: Tilt. 

Mas as surpresas não ficaram por aí. Antes de Nerve, Il-Brutto assombrou-nos com meia hora de um DJ set, onde mostrou sneak peaks de música nova de Tilt, Nerve, e o assombroso trio em Escalpe. Com o couro cabeludo ainda em sangue de tal puxão, Nerve apresentou uma faixa nova intitulada “TDE”, que fez questão de repetir duas vezes, não fosse algum ouvido mouco não estar atento ao sermão. Depois de uma hora e pouco de concerto em forma de poesia declamada, o Monstro Social retornou às sombras, deixando os reféns sedentos por mais, num começo de espera por novos mandamentos.

À Conversa com Tranquilow: Tranquitape e a ressurreição das compilações

Tranquitape, novo projeto da Tranquilow, veio trazer o desfibrilhador para reavivar a cultura de compilações que, embora algo esquecida, parece estar a dar sinais de vida ultimamente. Movidos pela vontade de dar a conhecer novos nomes da esfera do hip hop, ao longo do ano de 2020/2021, a página divulgou 48 novos artistas nacionais, num total de mais de 200 participações, que foram alvo de votação pela parte dos seguidores da página e de toda a comunidade. Todo este processo culminou nesta tape, numa primeira edição que contou com participações de Rodo, Krazydread, Benito, Tsuki, Madmarcu$, Kitos, Vácuo, Big S, AËM, Calha, NastyBee, Primo e Vlad.

A Hip Hop Rádio esteve à conversa com Miguel Varela, membro da equipa da Tranquilow, que nos veio falar sobre este projeto, objetivos e planos futuros.

De onde surgiu a ideia de fazer esta tape? Como foi criado este conceito?   

Este projeto nasceu quando o Afonso da Tranquilow entrou em contacto comigo. Na altura eu não fazia parte da equipa e foi este o projeto que me fez entrar. Ele contactou-me na quarentena, quando todos estávamos com tempo, e disse-me que queria fazer uma cena original para divulgar artistas, no fundo, para não ser um simples post, queria fazer algo diferente e criativo. Depois foi reunir e tentar montar uma ideia do que podia ser, o que não podia ser e a ideia nasceu daqui.

E como ocorreu o critério de seleção?

Todos os artistas concorreram por escolha deles, eles enviavam-nos o som e nós, em equipa, selecionávamos os que achávamos melhores, ou que sentíamos mais. Depois todos os meses era feita a divulgação de quatro artistas e desses quatro os nossos seguidores escolhiam quais gostavam mais.

Existiu algum método para a maneira como as 13 faixas foram ordenadas na tracklist? Foi pela ordem de temporalidade em que foram escolhidas ou houve um critério específico?

Foi por ordem de temporalidade. Basicamente é uma faixa por mês, desde a primeira até à última. Só existe uma faixa bónus.

Qual a razão por detrás da faixa bónus? Fala-nos mais sobre a escolha do artista, neste caso, Vácuo.

Como as outras doze foram escolhidas pelos nossos seguidores, nós quisemos escolher uma. Das 48 que tinham sido selecionadas, a faixa “Estilo 90s” do Vácuo foi a escolha da equipa, por ter sido uma das músicas que mais sentimos.

Já se pensa num volume 2 da tape? Pensam em fazer mais algum outro projeto deste género?

Como este correu bem, estamos a pensar fazer o volume dois, ainda não temos data, mas sim. Agora outro projeto deste género, para já, não está nada falado, mas pode surgir. A ideia agora é: como esta compilação correu bem e como quase não há compilações agora, como havia antes, como a Hip Hop Nation ou a Hip Hop Series e sabendo que não há muitas compilações conhecidas no Hip Hop Português, talvez isto seja uma nova cena, espero eu.

Há possibilidade de apresentar esta tape ao vivo?

Era fixe, era bué louco, mas é muito complicado, uma vez que temos MC´S de Norte a Sul e das ilhas inclusive. Se às vezes reunir duas pessoas já é complicado, então reunir treze era bué complicado, tinha que ser quase por partes, um concerto aqui, outro ali. Não está previsto, mas se acontecesse um dia era fixe. Nem que seja reunirmo-nos para outra cena, quem sabe, mas era fixe.

Mas isso é fixe porque mostra a abrangência de MC´S que entraram na tape, reuniram pessoal de Portugal inteiro.

Sim, do país inteiro mesmo.

Como acham que este projeto influenciou os artistas participantes?

Espero que com isto estes artistas tenham sido ouvidos por mais gente, que estas músicas tenham chegado a mais lados, o que no fundo era o objetivo principal, divulgá-los para pessoas que ainda não os conheciam. Espero que tenha ajudado, nem que seja com mais um ouvinte novo.

Estava estipulado desde o início que seria uma edição física? Quem foi o responsável pelo design da tape e qual a inspiração por detrás?

Quando anunciámos a iniciativa foi logo dito que ia culminar na edição física, que era a cereja no topo do bolo, para celebrar a cena. Quanto ao design, a responsável foi a Piedade que trabalha connosco e demos-lhe livre-arbítrio, carta branca, “como queiras, como achares melhor”; basicamente, foi ela que decidiu tudo (risos), por acaso nessa parte foi grande à vontade.

Consideram que atingiram o objetivo que tinham em mente ao terem realizado este projeto?

Sim, sim. Às vezes achamos que a iniciativa não chegou a muitos lados, que podia ter chegado mais longe e o facto de isto ser uma compilação na qual todos os meses era escolhido um som, o facto de ser muito longo o processo, havia aquela preocupação relativa a se as pessoas iam acabar por se esquecer um pouco da cena, como também vivemos numa época de consumo rápido, um ano é muito tempo… mas foi assim que se decidiu e quem quiser estar atento está, quem não quer não está.

Também sabemos que lançaram recentemente merch e tiveram a vossa primeira Tranqui Sesh em Lisboa. Que mais podemos esperar da Tranquilow num futuro próximo?

É isto, mais iniciativas, mais festas se permitirem, se a DGES permitir e merch novo também, já daqui a uma semaninha. Esperem mais festas em Lisboa, como a nossa primeira Tranqui Sesh em Lisboa, com Sillab e Jay Fella.

Para encomendar uma cópia da TranquiTape dirige-te ao site da Tranquilow ou ao instagram da página, onde podes encontrar todas as informações.

Foi feita uma segunda parte desta entrevista na qual Beatriz Freitas esteve à conversa com Krazydread, um dos artistas integrantes da TranquiTape. A escolha do artista foi feita através de um sorteio realizado pela equipa e passará em formato áudio hoje, dia 12 de setembro, às 22:00 horas, no site da Hip Hop Rádio ou na nossa app.

gonsalocomc: “Comecei mais ou menos por volta dos 13 anos, foi uma cena um bocado na brincadeira”

Com apenas 17 anos, Gonçalo Lopes, mais conhecido por gonsalocomc, é já uma promessa no que toca à produção de música. Após ter lançado a sua beat tape intitulada “àtoatape 1” e produzido todas as faixas do aclamado EP “Mal Passado Bem Pensado” de Wugori, o artista não parece abrandar, continuando na vanguarda para produzir inovadores instrumentais para outros nomes emergentes como Herege, Tigaz e Guilherme Basta. A Hip Hop Rádio esteve à conversa com o jovem prodígio, oriundo de Braga, com o objetivo de ficar a conhecer um pouco mais sobre a sua arte, o seu génio, e planos futuros.

Primeiramente, porquê “gonsalocomc” ? Há alguma história por detrás desse nome?

Esse nome…eu agora nem gosto muito desse nome, mas foi algo que aconteceu mesmo antes de começar a fazer música. Eu queria um nome diferente para o Instagram, para não estar a pôr “Gonçalo Lopes” porque ficava bué chato, então queria pôr “Goncalo”, só que “Goncalo”, sem a cedilha, faz com que as pessoas tenham tendência a ler mal, leem sempre “Goncalo” em vez de lerem “Gonçalo”. Então pus com “S”, para as pessoas não caírem nesse erro, mas depois como com “S” também ficava estranho, meti com “C”. Depois quando comecei a fazer beats, em vez de inventar um nome artístico, peguei só no do insta, ‘tás a ver?

Embora tenhas começado recentemente, já contas com um vasto reportório de sons, tanto a nível individual, como a nível de colaborações. Fala-nos um pouco sobre como te iniciaste no mundo do beatmaking.

Comecei mais ou menos por volta dos 13 anos, também foi através do telemóvel, uma cena um bocado na brincadeira, instalei o Garage Band só mesmo para brincar. Uns amigos meus já faziam música, Hip Hop, só que não faziam beats e eu comecei a experimentar aquilo, a tocar notas no piano, sem sequer perceber muito de teoria musical e depois, entretanto, apaixonei-me um bocado por aquilo, não conseguia parar, e foi até fazer um beat chamado “Delírio”, do qual me orgulhei mesmo a sério. Nunca cheguei a lançar, mas desde aí nunca mais parei. Fui para o pc, etecetera, e agora faço aí umas cenas.

E como ocorre o processo? Tens um home studio, é individual, ou vais a algum lado?

É tipo um anexo que eu tenho em casa. Não vou para fora de casa para produzir, ainda que um amigo meu tenha estúdio, geralmente é tudo no pc. Agora tenho umas colunas, tenho uma máquina… eu só faço isto mesmo porque gosto, não me obrigo a ir produzir, então é só: apetece-me ir fazer qualquer coisa, ouço uma música que me desperta para samplar, ligo o pc, faço uma cena tipo meia hora, uma hora, duas horas, e depois vou fazer outra coisa qualquer, é mesmo um hobbie.

Onde vais buscar inspiração para fazer a tua música? Quais são as tuas maiores influências?

Costumo inspirar-me bué em filmes, especialmente na banda sonora, para samplar, ou mesmo sons que ouço na rua ou frases soltas que me tocam no dia a dia. Quanto a influência de artistas, tenho bué bases, como por exemplo o Kanye West, Sam the Kid, o oseias., o Profjam também ainda na tuga…o próprio Wugori, que antes de fazer o projeto com ele, já ouvia cenas dele e essas cenas já me puxavam para produzir. Dos States tenho Madlib, DOOM, Standing On The Corner, Slauson Malone, Ovrkast., Gil Scott-Heron. Depois fora de Hip Hop tenho pessoas como o Chico Buarque, o António Carlos Jobim também, gosto bué de música brasileira: Emílio Santiago, Novos Baianos, Mutantes. Mas tenho muitas influências variadas, vai até ao King Tubby, reggae. E é à volta disso.

Nota-se também que és adepto da utilização de samples. De Tim Bernardes a Madvillain, passando por diálogos variados, qual é o critério de escolha? Tens alguma preferência?

Eu gosto mesmo bué da sonoridade da música Brasileira. Comecei por samplar Jazz, depois saiu-me para o Soul, e agora tudo o que me aparecer e desperte a orelha é alvo de interesse, para ser honesto. Antes ia só para música antiga, depois apareceu-me essa música do Tim Bernardes e eu caguei um bocado nisso de ir só para o antigo, agora tudo aquilo que me aparecer, até pode ter sido feito tipo ontem por um amigo meu, se me puxar para criar alguma coisa, eu vou pegar nisso.

Como foi produzir todas as faixas do “Mal Passado Bem Pensado”? Já conhecias o Wugori?

Imagina, eu tenho um projeto que vou lançar agora chamado “Lavanda”, com um amigo meu cá de Braga, o Tigaz, tem a minha idade e tudo. Quando começámos a fazer as cenas para esse EP já eu e ele tínhamos grande admiração pelo Wugori, que também andava a fazer cenas com as quais nós nos identificávamos, antes até do “Mal Passado Bem Pensado”, então disse ao Tigaz: “Olha se calhar mandávamos mensagem ao Wugori e ele entrava num som nosso”. Esse foi o primeiro contacto direto que tive com ele, é um gajo bué humilde, agora também somos amigos não é, fizemos um projeto. Resumindo, ele entrou no som, eu curti bué do som, ele depois também curtiu bué de entrar no som do projeto que ainda vai sair e até me convidou tipo: “olha queres fazer um EP comigo?”. Isto umas semanas depois de ele me mandar o verso dele. Entretanto comecei a mandar-lhe loops e foi bastante prático, tudo por Whatsapp, uma cena na boa. Se ele não curtisse não pegava, se eu não curtisse também lhe dizia: “olha…vamos fazer outro som”. Foi espontâneo, nem sequer tínhamos uma linha para seguir, literalmente mandei-lhe uma catrozada de cenas que tinha feito, ele pegou nas que mais curtia e escrevia para aquilo e saiu aquilo. Depois ordenámos.

E ainda foram algumas faixas.

Ya, foram umas seis e por acaso agora pus no Bandcamp uma faixa que é bónus! (“…Rascunho “Batman”). Esta não metemos originalmente, mas como está castiça, está engraçada, metemos agora.

Então lê-se “Wuguri” e não “Wugóri”?

Eu costumava dizer “Wugóri”, só que depois falei com ele e o nome pronuncia-se “Wuguri” e até posso explicar, se quiseres fica assim em bónus. O “Wu” vem de Wu-Tang e “Gori” de Gorillaz, que são duas inspirações do gajo. Mas na minha opinião Wugóri fica mais na cabeça.

Na “Só”, faixa que partilhas com Herege, e também na “Vázio”, com Tigaz, não só produziste, como também escreveste. Gostavas de explorar mais esse teu lado de MC?

Eu escrevo mais por necessidade, nunca é para ser rapper, não curto da cena de ser rapper, eu gosto mesmo é de produzir. O que eu quero explorar é mesmo a minha veia de produtor, e ficar cada vez melhor nisso, mas por outro lado também gosto bué de rimar e escrever em si. Eu gosto mais de escrever do que rimar, mas como não vou escrever um livro, prefiro rimar nos beats. Também a cena de rimar dá-me um panorama melhor para produzir, porque assim eu sei o que é que um rapper pensa e essas cenas todas. Por isso estou a pensar fazer um projeto a rimar, mas gosto mais de investir na cena de produção.

Com quem gostarias de colaborar futuramente? Tens alguma colaboração de sonho?

Tenho algumas. O Sam the Kid obviamente, o Benny Broker, grande gajo, curtia bué de lhe mandar um beat…bué pessoal mesmo. O L-Ali por exemplo, o TILT…a tuga tem bué rappers fixes e flexíveis. Também curtia rimar num beat do Vulto., num beat do oseias. Mas vamos fazendo esses connects, eu ia dizer pessoal, mas até já estou a colaborar com esse pessoal. Relativamente aos States, seria sonho fazer um som com o Kanye West, curtia rimar num beat do Madlib…o J Dilla também era fixe, Tyler, The Creator também.

Há algum som teu pelo qual tenhas um carinho especial? E porquê?

Há e é um som que eu nem sequer sei se vou lançar. Chama-se “Mesma Coisa” e é só isso que eu posso dizer, porque não sei se vou lançar ou não e não quero estar a dizer cenas, mas esse som bateu-me bué. O beat é do Wugori, mas eu depois toquei um solo e a letra é muito especial para mim. Mas se for para escolher sons que eu já fiz e já lancei, gosto bué da “”. Esse som está bué introspetivo dos dois, está muito honesto, cru, tanto produzi eu, como produziu o Marco, o segundo beat é do Marco. Muito fixe esse som porque foi gratificante contruí-lo, a estrutura toda, primeiro o meu verso, depois tens aquelas quatro tarolas, depois outro verso, depois o beat do Marco…e foi uma coisa mesmo bué divertida de se fazer.

Qual a mensagem que pretendes passar com a tua música?

Por acaso nunca tinha pensado nisso, é grande pergunta. Talvez seja a cena de expressar qualquer energia. Imagina, eu gosto mais de expressar cenas melancólicas, porque expressar é uma maneira de lidar com as coisas. Só escrever as coisas num papel, fazer alguma coisa, tocar um apito (risos). Se estiveres triste sai, se estiveres feliz também sai, eu acho que música é uma cena para expressar qualquer tipo de energia e o que eu vou sempre fazer com a música vai ser isso.

E curtes pensar em cenários nos quais o pessoal possa estar a ouvir a tua música?

Um bar de Jazz. Mas em vez de ser Jazz, era eu a passar beats tranquilos e alguém a cantar o que sente. Uma cena relaxada, tipo aqueles concertos em que o pessoal está sentado, ou de pé, mas calmo, bué na sua, sem aquela coisa de moshpits nem nada. Respeito essa cena, mas não associo à minha música.

O que podemos esperar de ti relativamente a projetos futuros?

O “Lavanda” que falei há bocado, que é com o Tigaz, tem colaborações do Herege, do Wugori, e de um gajo da nossa zona que é o Compasso, também é grande artista. Esse projeto é muito sobre a evolução individual das pessoas, e ao mesmo tempo é o que eu e o Tiago andamos a fazer há uns anos, desde que começámos a fazer música. Foi ele a primeira pessoa que pegou nos meus beats e esse projeto já é mesmo velho. Para este ano, projetos que eu sei que vão sair é mesmo esse,  o “Lavanda”, que é uma cena muito importante para mim, porque é o mais puro que eu e ele andamos a fazer. É um EP para pôr Braga no mapa.

Vês-te a apresentar a tua música ao vivo?

Vejo. Por acaso eu e o Tigaz demos um concerto há pouco tempo no Mavy, foi o Compasso que nos arranjou. Acho que vou dar mais este ano, se não estou em erro, e até vai ser com o Wugori, mas eu prefiro passar som a rimar ao vivo. Mas são cenas fixes, eu gosto de ter pessoal num café a ouvir as cenas.

E isso seria mais por Braga ou pensas em expandir?

Não, claro, se fosse para apresentar música ao vivo, se quisesse dar concertos relativamente relevantes, talvez fosse para o Porto, gostava de tocar no Maus Hábitos, também curtia de tocar na Zé Dos Bois, em Lisboa. Um dia.

A que nomes acreditas que a tuga tem de estar atenta?

A tuga está a dormir bué no Wugori, no DoisPês, gajo de Ermesinde, grande beatmaker. Guilherme Basta, o Tigaz, mas vou lançar EP com ele, o Herege, o moisés, o bedhop, Parker. Tenho-me conectado com bué pessoal. O Mura também, há bué pessoal de Lisboa, daquela mixtape “De Rajada” … sei que me estou a esquecer de pessoas, mas por exemplo, mesmo fora do Hip Hop, eu tenho uma banda que são os Tulipas e estão lá bué pessoas talentosas, vou já aqui dizer nomes: Zaga, Sami, Pastor Citadino. Ainda não saiu nada…, mas vai sair. Estejam atentos.

Queres deixar uma mensagem para quem está agora a começar a aventurar-se no que toca a produzir sons?

Toda a gente que estiver a começar a fazer música, eu acho que não devia de ter medo de fazer os sons, por muito que tenha duas ou três ‘views’ por cada som que lança, porque eventualmente vai haver alguém que vai conectar com a música, se estiver a ser feita do coração. Por exemplo, uma cena que eu sofria bué, é que eu fazia bué beats e ninguém pegava neles, mas para todos os beatmakers, alguém há de pegar no beat, por mais maluco que seja. No início a cena de ter bué poucas ‘views’ desmotiva muito, até dá para ponderar desistir. Eu por acaso nunca pensei muito nisso, porque também nunca fiz muito por isso, mas pessoal que seja mais influenciado por esse feedback, acho que não deve mesmo ligar nada a isso, desde que esteja a gostar do que está a fazer.

Orteum apresentam “Pontos de Vista”

Fomos surpreendidos com nova música de ORTEUM nesta noite de domingo. Revelando-se como uma faixa com um significado algo enternecedor por detrás, “Pontos de Vista” conta com letra e vozes de Mass, Nero e Tilt, instrumental de Metamorfiko, e vozes adicionais de Bárbara Nero e Gustavo Gomes. A captação, mistura e masterização ficaram a cargo de RAIA, e a foto é da autoria de Sebastião Santana.

Pontos de vista” encontra-se disponível, para já, no canal de Youtube de RAIA.

Mundo Segundo e Sam The Kid: Uma noite de Storytelling no Campo Pequeno

No passado dia nove de junho de 2021, o Campo Pequeno recebeu uma dupla capaz de incendiar qualquer recinto: Mundo Segundo e Sam The Kid.

Este concerto surgiu no âmbito da segunda edição de Santa Casa Portugal ao Vivo, que teve início a 21 de maio e terá fim a 26 de junho, a decorrer na Super Bock Arena no Porto e no Campo Pequeno em Lisboa. Esta edição conta com nomes de cartaz como Carlão, Anselmo Ralph, Linda Martini e Pedro Abrunhosa.

A tua rádio esteve presente no Campo Pequeno em Lisboa, numa das noites mais quentes, para testemunhar esta que era uma das mais aguardadas uniões: ligando Lisboa ao Porto, Gaia a Chelas, os dois veteranos do storytelling escolheram a arena como palco para apresentarem a sua narrativa. E não desiludiram.

Foram os míticos Dj Cruzfader e Dj Guze que iniciaram o ato assim que as luzes do recinto se apagaram, mostrando os seus dotes nos pratos, o que levou a plateia -que esperava em êxtase- ao rubro, vincando o início do espetáculo.

Esta entrada abriu caminho para a primeira apresentação, uma junção de “Gaia/Chelas”- primeira música da noite- seguida de “Não Percebes”, “Crise de Identidade” e “Recado”, tendo esta última sido introduzida por Mundo Segundo e Sam The Kid de forma cómica, criando um diálogo: “Alô Samuel ligou a tua mãe…precisa que vás lá fora fazer um recado”. Este que é um dos maiores sons de storytelling da tuga arrancou vários gritos e coros da plateia.

Este primeiro medley terminou com uma nota de apreço pela parte de Sam The Kid, que agradeceu a quem estava presente, tendo aproveitado também o momento para “apresentar” os Djs presentes na casa, que já dispensam apresentações.

A festa continuou logo de seguida com o tema “Não há Competição” de Mundo Segundo, faixa que partilha com Bezegol “um amigo que não está cá hoje”, como o próprio lamentou. Este tema fundiu-se com “A Partir de Agora”, uma atuação que levou a plateia à loucura e fez entoar, em uníssono, a frase: “Só confio na minha mãe E MAIS NINGUÉM!”.

Seguiu-se outro momento de interação com o público, algo que não faltou, onde Mundo Segundo avisou que iriam viajar uns anos atrás para o álbum Pratica(Mente), acrescentando: “O meu mano Sam precisa de ajuda para fazerem a parte de uma pessoa chamada Sofia”; foi assim dado o mote para o começo do instrumental de uma das mais famosas faixas do hip hop português, “16-12-95” a.k.a “Sofia”.

O público, que já estava completamente em delírio, foi surpreendido quando STK desceu à plateia, ficando assim ainda mais próximo dos fãs, que estavam decididos a cantar toda a letra, de cor e salteado.

A faixa não foi, no entanto, cantada por inteiro, tendo feito medley com “Solteiro”, outra famosa faixa, e “Brasa”.

Para surpresa de todos, o momento que se seguiu contou com um convidado muito especial, oriundo de Torres Vedras: NBC. Com a sua chegada ao palco iniciou-se a música “Juventude (É Mentalidade)”, música bem conhecida pela plateia, de onde se ouviu alguém gritar entusiasticamente “granda som!”. Momentos depois a arena encheu-se de lanternas, o que criou um bonito momento.

Seguiu-se “Era uma vez”, uma música “dedicada a alguns amigos que já faleceram”, como explicado por Mundo Segundo, e “Tu não sabes”.

Um cúmplice aperto de mão entre ambos os artistas abriu alas para um discurso sobre a importância do DJ no hip hop, o que acabou com uma reflexão de Mundo Segundo: “Como já perceberam nós gostamos muito de DJs, há projetos que nem um DJ têm, nós temos dois. Dito isto, este é o momento em que os microfones ficam em silêncio”.

Procedeu-se uma apresentação efusiva pela parte de Dj Cruzfader e Dj Guze, que rasgaram pratos, acompanhados de jogos de luzes e fumo, mostrando assim as suas habilidades numa das mais importantes artes dos quatro pilares do hip hop.

A próxima música apresentada foi “Vício” de Mundo Segundo, uma música, nas palavras do próprio, “para todos aqueles que como eu são viciados em hip hop, nos seus quatro elementos.”

Não faltaram momentos de conversa e reflexão, assim como histórias, não fossem eles os reis do storytelling. Para suportar este facto, apresentaram “Deixar de ser”, com direito a história no final.

De acordo com Mundo Segundo, para além de ter sido a primeira vez que cantaram esta faixa “em terras de LX”, esta foi também a primeira música que gravaram juntos “em 2011 ou 2012”. O artista terminou este relato, afirmando que “Deixar de Ser” foi gravada em casa de New Max e só foi lançada em 2020, uma prova que tudo tem o seu tempo, pois assim, nas suas palavras, “a cena sai sem pressões”; uma transição imaculada para a próxima faixa “Sendo assim”.

Esta música juntou-se a “Raio de Luz”, que contou novamente com a participação de NBC, e levou a plateia de tal maneira ao rubro, que fez os artistas agradecerem a energia que se sentia no recinto.

Seguiu-se outra breve história relacionada com a produção da música “Raio de Luz”, onde Mundo Segundo falou sobre as dificuldades de gravação antigamente, samplers com pouca memória , caixas de ritmos e o processo de ir a casa de Sam The Kid gravar. Eram “outros tempos, outros aparelhos”, o que levou o artista a terminar a história dizendo: “gostava que o Sam fizesse uma retrospetiva…essa retrospetiva de um amor profundo”; outra grande transição para a próxima faixa: “Retrospetiva De Um Amor Profundo”. Esta faixa fundiu-se com “Sou do tempo” de Mundo Segundo.

Já na reta final, a dupla perguntou ao público se gostaria de ouvir mais uma ou duas, uma pergunta que resultou em inúmeros gritos de apoio, palmas, e euforia geral. Cumprindo a promessa, apresentaram “Bate palmas”, uma produção de STK, “ diretamente do sétimo céu”, como explicado por Mundo Segundo.

Em tom de conclusão cantaram a icónica “Poetas de Karaoke”, que se anunciou com sendo a última…,mas não foi.

Com a plateia ainda em chamas de experienciar este hit ao vivo, STK afirmou: “Ninguém tem concertos há algum tempo, bora fazer mais uma que o pessoal merece”. Depois de terem falado um pouco relativamente aos entraves causados pela pandemia, refletiram sobre como os obstáculos também fazem parte, dando-se assim a última ‘flawless’ transição para “Também faz parte”, a última música da noite, que, mesmo assim, deixou o Campo Pequeno a gritar: “só mais uma!”.

Este concerto veio relembrar-nos, numa noite quente de junho, das saudades que temos da abertura da época onde ocorreriam os mais variados concertos, não estivéssemos nós a viver em contexto de pandemia. Estes espetáculos são assim fundamentais para que não seja esquecida, nunca, a importância que a cultura tem na vida das pessoas, e como a música terá sempre um papel inigualável, no que toca à sua capacidade de unir centenas de desconhecidos, mesmo em tempos tão conturbados como estes.

Sam The Kid e Mundo Segundo mostraram, para além da já sabida destreza lírica e capacidade incrível de performance, uma grande cumplicidade e amor conjunto pela cultura, algo sempre bonito de se ver, e que cativa qualquer plateia. Prova disso foi também a grande variedade de faixas etárias presentes no concerto, todas elas completamente incapazes de ficar indiferentes à apresentação de hinos já consagrados na cultura portuguesa, por lendas deste calibre.

Quer estivessem a ouvir pela primeira vez – como talvez fosse o caso dos pais a acompanharem os filhos (ou netos), ou das crianças mais novas lá presentes- ou pela milésima, Mundo Segundo e Sam the Kid é para todos. É certo e sabido que, naquela noite, toda a arena percebeu o Hip Hop.