Hip Hop Rádio

Beatriz Freitas

Unidigrazz: “Queremos mostrar às crianças que também podem fazer coisas noutros sítios sem ser na rua”

A Hip Hop Rádio marcou presença na inauguração do novo ciclo de exposições do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), que conta agora com “Prisma” da autoria de Vhils, “Naturezas Visuais – A Política e a Cultura do Ambientalismo nos Séculos XX e XXI” com curadoria do primeiro Coletivo Climático do MAAT e “Interferências – Culturas Urbanas Emergentes”, com a curadoria de António Guterres, Alexandre Farto (aka Vhils) e Carla Cardoso.

Não desfazendo todas as exposições que vimos e tendo já entrevistado Vhils sobre a sua nova instalação, disponível para ouvir aqui, fomos convidados agora a entrar num mundo das mais variadas “Interferências” para visitar, nas palavras de António Brito Guterres, “ a cidade, mas desenhada pelas vozes de quem lá mora”.

Esta exposição carateriza-se por afirmar diferentes expressões da cultura urbana, explorando itinerários narrativos da cidade através de um diálogo que privilegia o museu enquanto espaço crítico, lugar de encontro entre várias comunidades e sensibilidades – as instaladas que o frequentam e as subalternizadas que o desconhecem -, ponto de partida para novos começos.

Nas palavras de António Brito Guterres, que introduziu esta parte da exposição, esta é também “uma exposição que fala um pouco da construção da cidade desde 1974 até hoje, da revolução de Lisboa e Democracia, sendo fundamentalmente sobre a área metropolitana. Funciona de acordo com uma certa cronologia, mas também grupos temáticos, sendo possível encontrar um diálogo entre obras conhecidas que estão em coleções em contraste com novos artistas”.

Estes “grupos temáticos” têm os nomes de “Contra a Mudez das Paredes”, “Coerção, Resistência e Identidades”, “Desenho de Cidade Comum, Nós por Nós e Cidade Rede”, “Direito ao Imaginário” e “Padrão”, que contam, no seu todo, com obras de MaisMenos, Abdel Queta Tavares, Alfredo Cunha, Ana Aragão, Ana Hatherly, António Contador, António Cotrim, Blac Dwelle, Carlos Bunga, Ernesto de Sousa, Gonçalo Mabunda, Herlander, Isabel Brison , Julião Sarmento, Julinho KSD, Kiluanji Kia Henda, Luís Campos, Lukanu, Mantraste e moradores do PER11, Marta Pina, Marta Soares, Mónica de Miranda, Nuno Rodrigues de Sousa, Rodrigo Oliveira, Tony Cassanelli (Aurora Negra), Wasted Rita, Né Jah, Primero G, Rico Zua, Apollo G, G Fema, Tropas di Terrenu e The real gunz.

Para além de todos estes talentosos nomes, juntam-se ainda à exposição os artistas convidados: António Alves, Carlos Stock, Diogo “Gazella” Carvalho, Diogo VII , Fidel Évora, Filipa Bossuet, Herberto Smith, Obey SKTR, Petra Preta, OnunTrigueiros, Rappepa Bedju Tempu, ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino), Sepher AWK, Tristany, Unidigrazz e xullaji.

Orgulhando-se de ser uma exposição que procura dar visibilidade a outras dimensões da cidade,  “Interferências” “coloca em diálogo obras de artistas contemporâneos que usam as ruas como contexto de expressão e experimentação e obras de coleções institucionais e privadas” contribuindo para a exaltação de uma narrativa que permite ao público refletir sobre como culturas urbanas contribuíram para o desenho da cidade de Lisboa e desta nova metrópole, também na espectativa de vincular o -algo tardio- início da cimentação da cultura urbana em espaços institucionais.

Falando de novas vozes, já há muito em diálogo, chegamos a Unidigrazz, um coletivo oriundo de Mem-martins, Sintra constituído por Diogo “Gazella” AWK, OnunTrigueiros, Rappepa Bedju Tempu, Sepher AWK e Tristany.

Ao entrar nesta parte do museu somos de imediato recebidos pelas bandeiras de Tristany, que contam com a letra de “Hinu Digra” escrita nas mesmas, enquanto se ouve a música a ecoar na entrada, o mote que serviu de perfeita introdução ao que se avizinhava, com uma das mais imponentes peças de toda a exposição, a meu ver, logo ao virar da esquina, pela autoria de ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino): uma faixa cor-de-rosa choque pendurada, com a frase “Não foi descobrimento, foi matança” pintada com tinta preta.

Passando por obras de vários ilustres artistas como Filipa Bossuet, Herberto Smith, Obey SKTR e Petra Preta, chegamos ao apelidado “cubico” de Unidigrazz, uma reinvenção de uma sala de estar, recheada de arte estática ou em movimento, convidando qualquer um a entrar.

Depois das cordiais apresentações de cada membro do grupo, dando ênfase ao facto de faltar um membro do coletivo, Rappepa Bedju Tempu, procedemos a uma conversa para tentar aprender um pouco mais sobre este coletivo, a sua arte e quais os seus principais objetivos, assim como significado que trazem para esta exposição.

Falem-nos um pouco sobre como surgiu este coletivo.
[Tristany] Já nos conhecemos direta ou indiretamente desde o básico/secundário e da convivência da rua. Mas intencionalmente, antes da Unidigrazz, há muitos outros movimentos que antecedem como a Awake?, os Monte Real, houve uma tentativa também inicial onde por exemplo os Instinto26 faziam parte, o ari.you.ok , ou seja, haviam várias cenas que antecederam o coletivo Unidigrazz. E na construção, em casa do Diogo Carvalho, do início do trabalho visual para o Meia Riba Kalxa, o Diogo,  eu, o Nuno e o Rapepaz começámos com uma ideia bastante descontraída e relaxada de estarmos ali unidos a fazer uma coisa digra. E a defender essa estética. Pronto, isto é um bocadinho, todos nós temos conceções diferentes do que é a Unidigrazz e de como começou, em meados de 2018.

E surgiu então de uma necessidade de fazerem algo digra, como estavam a dizer, de passar essa mensagem.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Surgiu mesmo da necessidade de criar. Da necessidade também de dar identidade a algo que já estava a ser construído a algum tempo, então saiu esse nome, de digras unidos, Unidigrazz, e conseguimos com esse nome dar também uma identidade forte ao nosso grupo e depois mais tarde o Sepher também entrou para o coletivo.

E reúnem as mais variadas formas de arte. Têm as artes plásticas, a música, o graffiti, o cinema também. É certamente uma mais-valia, serem um único coletivo que dispõe de talento em todas essas áreas.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Sim, acho sempre que quando há mais escolha é sempre melhor e como nós temos este leque assim tão grande de artes também nos vamos entreajudando, um bom exemplo foi o projeto Meia Riba Kalxa. Vamo-nos entreajudando e também conseguindo bem representar e dar rosto (melhor), por termos assim tanto leque. Melhor a quem não tem ou a quem se calhar não consegue chegar a certos sítios, não por falta de capacidades, mas por falta de oportunidade.

E sentem que podem dar essa oportunidade, através da vossa própria curadoria, por também terem ligações mais próximas com outros artistas destes meios?
[Sepher AWK] É mostrar se calhar que é possível, mostrar às pessoas desse meio de onde nós viemos e vivemos e criamos e mostramos, mostrar que é possível alcançar estes objetivos assim, tás a perceber? E conseguir fazer as coisas acontecer mesmo de alguma maneira, vá de certa maneira, começar de um patamar diferente, mas mesmo assim conseguimos. Aquela consequência de todo o trabalho que já consumimos e nos influenciou, queremos poder conseguir ser essas mesmas pessoas e ajudar nessa evolução e desconstrução de bué assuntos da sociedade também e conseguirmos esse lugar.

Estavam a falar de influências, têm algumas influências para o coletivo e para os projetos que desenvolvem?
[Onun Trigueiros] A nossa influência acaba por ser todo o nosso meio que nos rodeia, todos os nossos amigos, a nossa família, os nossos passados em termos artísticos e coletivos e sim, acho que, de certa forma, a maior parte da inspiração que tiramos é daí. Depois também pegamos nessas pessoas e transformamos para os nossos trabalhos de forma mais subjetiva, não exatamente tão relatada como é, mas sim, damos o nosso toque e é isso.

Embora seja uma exposição muito extensa, é possível identificar que um dos pontos em comum parece ser explorar a ideia de que a poesia está nas ruas. Este é um statment com o qual concordam? Que é da rua que vêm talvez as formas mais autênticas de arte e dessa expressão cultural?
[Tristany] Imagina, eu acho que o nosso convite aqui foi muito até ir de encontro a esse mindset, porque facilmente se romantiza a rua ou o subúrbio ou a periferia como um lugar propício para as pessoas criarem ou começarem a ter narrativas boas para se criar. Aquilo que nós estamos a tentar fazer é através do cubico, de dentro, fazer surgir essa narrativa, porque nós não vivemos na rua, felizmente (risos), mas infelizmente o nosso único espaço, onde nós podemos estar, é a rua, e mesmo assim muitas vezes esse espaço é negado e oprimido. E também é importante dizer que a Unidigrazz quer-se digra, mas no sentido mais sensível, no sentido mais de afeto, de amor, porque inicialmente, ou se calhar o primeiro impacto, de tudo aquilo que é digra, é sempre visto como  muscular ou reivindicativo, marginal, ao mesmo tempo exótico, né? Distante. Então o que nós queremos é, acho que uma das nossas maiores narrativas é que digra seja um…
[Sepher AWK] Que não tenha medo de sentir.

Que não tenha medo de mostrar afeto.
[Tristany] Exato, uma pessoa mais sensível.

Essa pode ser vista como uma abordagem bastante fresca para trazerem para esta exposição, embora já se encontre bastante presente na tua (Tristany) música e nas tuas letras, por exemplo. Sempre foi algo que tentaste expor na tua arte, que é okay sentir e é importante ter esse lado mais soft, digamos assim.
[Tristany] Exato, eu não diria fresca, porque acho que sempre existiu. Sempre foi sentido, acho que é por aí.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Como dizes, até se ouve nas letras, sempre existiu, acho é que estava mais oprimida, se calhar.

Sentem que agora há a possibilidade de lhe dar uma visibilidade maior?
[Tristany] Sim, mas não é agora que ela existe, e não é certamente por causa de nós ou disto, porque toda a gente sente amor e é algo que se deve mostrar.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Tu vês pelas letras de rap lá de tempos mais atrás, em várias periferias, que já há essa necessidade também de deixar sentir, deixar que o digra voe.
[Tristany] Exato. E que não tenha medo disso tudo.

E qual é a mensagem que esperam que fique desta exposição?
[Onun Trigueiros] A mensagem que acho que nós todos pretendemos é… queremos fazer isto chegar ao máximo de pessoas possível e dar a conhecer um pouco a nossa história, quem somos e pronto, basicamente é isso, mostrar às pessoas e acho que às crianças também, principalmente às crianças, que também podem fazer coisas noutros sítios sem ser na rua. Se calhar nós crescemos e não tínhamos assim tantos artistas nos quais nos podíamos inspirar, mas hoje em dia nós queremos sair cada vez mais e dar esse…fazer sentir às crianças, passar a essas pessoas que é possível e que também podem sonhar com isso, que é possível. O objetivo é esse.

Por onde é que passa ainda, na vossa opinião, o diálogo de ser necessária mais representatividade neste ramo artístico? O que ajudaria a trazer mais iniciativas como estas, mais exposições como esta, a sítios com mais visibilidade?
[Tristany] Termos acesso. E isso deixa de ser uma questão.
[Diogo“Gazella” Carvalho] Reivindicar, como tinha dito na apresentação, um lugar que já é nosso, ‘tás a ver, mas que muitas vezes não é dado e revindicá-lo. Nós temos que ter acesso, temos que ter espaço também para conseguir mostrar, para conseguir criar e ter, se calhar, também uma maneira de viver diferente do que normalmente é mostrado, ou que deixam mostrar só, que a linha de Sintra e todas as periferias não seja só um sítio para ir dormir, mas também um sítio para criar, para fazer acontecer, não só arte, mas todo o movimento, que deixem as pessoas também de lá sonharem e terem outra maneira de vida.
[Sepher AWK] Seja o sonho que for. Mostrar às pessoas que é possível sonhar.
[Tristany] E que não precisamos de ir para Lisboa para consumir cultura.
[Sepher AWK] Existe bué cultura na linha de Sintra. Na periferia. Bué. Bué lugares que ninguém conhece, então acho que é mostrar esse lado.

Pode ser que agora passem a conhecer também, e a mostrar um maior interesse.
[Sepher AWK] Sim, sim. Exatamente.

Por fim, gostava de perguntar a cada um de vocês se têm alguma peça preferida das que trouxeram para aqui individualmente.
[Sepher AWK] [risos] Olha, o filme do Diogo é o melhor filme de 2022, pá, lamento Scorsese, toda a gente aí…

Fica a dica.
[Sepher AWK] Chama-se Nha fidju.

E há algum sítio para ver esse filme, sem ser aqui?
[Sepher AWK] Venham à nossa exposição, fica aqui [no MAAT] até setembro, mas vai estar disponível no Vimeo, o Diogo há-de tratar disso.
[Diogo“Gazella” Carvalho] E estamos aí a tratar de umas coisas se calhar… Nha fidju. Fiquem atentos .
[Onun Trigueiros] A minha peça preferida do Sepher é a das camadas.
[Tristany] Eu gosto bué da 1995 do Nuno Trigueiros.
[Diogo“Gazella” Carvalho] E eu gosto muito das bandeiras do Tristany, que estão lá na entrada.
[Onun Trigueiros] Mas o Rappepa também é muito forte…

Uma das minhas peças preferidas é este vitral pintado no teto, que foi o Rappepa que pintou, certo?
[Onun Trigueiros] Exato, é isso.

ir ao céu e voltar: Dillaz apresenta novo álbum “oitavo céu” numa experiência inovadora no Planetário da marinha

Na passada quinta-feira a Hip Hop Rádio teve o privilégio de estar presente na apresentação do novo álbum de Dillaz “Oitavo Céu”, numa experiência tão inovadora que tão cedo não será esquecida: a convite da Sony Music Portugal, fomos chamados ao Planetário da Marinha, situado em Belém, para embarcar numa aventura imersiva, digna dos maiores parques de diversões lá fora.

Ao entrar na sala, uma cúpula semiescura com plateia similar à de um cinema -mas com um toque mais futurista-, era impossível desviar a atenção do objeto algo extraterrestre presente no centro do planetário, forte indicador do espetáculo que estávamos prestes a testemunhar, como se de um presságio se tratasse. Passado esse impacto inicial, era também possível ver, projetados no teto, o nome do álbum “Oitavo Céu” e o mítico número “75”, que qualquer fã do rapper reconhece de imediato.

Após uma longa ausência desde o tão aclamado álbum “Reflexo” de 2016 e do lançamento de alguns singles, que já deixavam água na boca, como “Galileu”, “Juvena” e “Maçã”- agora presentes neste álbum-, a ideia de estarmos prestes a ouvir finalmente um novo álbum de Dillaz enchia a sala de uma antecipação e euforia astronómicas.

O tão esperado mote de início do espetáculo foi introduzido pelo Comandante João Silva Ramos, em tom das mais amplas promessas que afirmavam que o que aí vinha era de uma grande inovação: seriam “imagens únicas” pois “antigamente esse projetor que está no meio era o que projetava as estrelas, agora não, agora podemos tirar os pés do chão e podemos viajar pelo universo” , neste que seria o primeiro espetáculo de sempre ali situado e com estes contornos. A partir daí, as poucas luzes que restavam foram apagadas e descolámos, a bordo de um foguete musical com rumo aos astros, para uma viagem intergaláctica que prometia ficar para sempre nas nossas memórias.

Sentados -ou quase deitados- em cadeiras reclináveis numa sala cheia de estrelas, literais e não literais, pudemos viajar pelo espaço, bem para lá do céu e desventrando as mais extensas e imaginativas galáxias, ao som de 12 temas de um álbum com o título mais adequado possível, “Oitavo Céu” , tendo começado precisamente pela faixa que lhe dá nome e certamente inspirou a localização para este evento.

As projeções apresentadas atuavam quase em forma de sonho, mostrando imagens idílicas e animações minuciosas -oriundas de material recolhido pelo sistema do planetário e montadas em tempo recorde por Luísa Correia- enquanto erámos embebidos pelos ritmos e batidas e tentávamos decifrar as letras das músicas, que muitas vezes se relacionavam com o que estava a ser apresentado.

Desde a abertura da terra ao meio -que em camadas revelou um efeito de coração- ao som da música mais romântica do álbum “Genebra“, a imagens relacionadas com a criação do homem e origem do universo, temas alusivos à tracklist deste álbum, esta viagem nunca parou de surpreender, tendo culminado em alguns momentos altos que gostaria de destacar: a apresentação em primeira mão do videoclipe para a faixa “Papaia” e o sample da voz de Allen Halloween, presente na faixa “Avioneta”, que gerou uma enorme comoção na sala, para finalizar em grande.

A arte de Dillaz, aliada ao incríveis dotes do Planetário da Marinha e de toda a sua equipa, fez daquele final de tarde de março noite cerrada, criando um ambiente propício para uma expedição pelo tempo e espaço, dignos de fazer inveja ao Jeff Bezos.

Nas palavras do Comandante João Silva Ramos “não tenho dúvida que este planetário, espero que corroborem depois esta opinião, vai ser, tendo sido renovado à cerca de seis meses, à medida que se vá tornando mais conhecido, vai ser uma das maiores atividades de Lisboa”. Não só corroboramos esta afirmação, como confessamos que este promissor conceito foi uma lufada de ar fresco para a indústria de eventos, tendo deixado um rasto de entusiasmo relativo ao futuro dos espetáculos ao vivo.

Quanto à maior estrela da noite, Dillaz, agiu de acordo e, assim como um asteroide, revelou-se apenas no fim, de rompante e com uma atmosfera em chamas à sua volta. Mesmo sem se manifestar muito, este artista mostrou que, de facto, sempre foi e será um artista inovador e a ter em atenção, tendo honrado as suas letras: quando chegarem ao sétimo céu, já ele está no oitavo, com todo um planetário a ver.

O álbum “Oitavo Céu”, assim como os videoclipes para as faixas “Genebra” e “Papaia” encontram-se agora disponíveis, nas plataformas habituais.

Aprender com Mixtakes: Profjam ao vivo no Coliseu dos Recreios

Depois de quase dois anos de aulas remotas e telescola, um dos “professores” mais respeitados pelo público voltou para dar a aula presencial mais aguardada dos últimos tempos.

Em tom de celebração dos seis anos da mítica “Mixtakes”, o ilustre Coliseu dos Recreios encheu-se com “alunos”, de olhos postos no professor e prontos para tirar apontamentos, num concerto que pôde ser interpretado como uma subtil aula de filosofia, não fosse esta talvez a obra mais introspetiva de Profjam, recheada de letras que não prescindem de algumas horas de estudo.

Antes do toque de entrada, o recreio, que já só chamava pelo “Super Mário”, foi animado por Osémio Boémio, que tocou uma fina seleção de hip hop estrangeiro, dando principal destaque a nomes como Mac Miller -cuja discografia se ouvia tocar, quase em surdina, assim que entrámos no recinto- e Joey Bada$$, preparando os presentes para o que se aproximava. Assim que o DJ set terminou, o barulho das acesas mixes foi substituído novamente por cânticos entusiastas, que chamavam o artista principal da noite: “Mário, Mário, Mário!”. Finalmente as preces foram ouvidas e quando as luzes se apagaram, todo o público acendeu.

Profjam estreou o palco nessa noite ao som de “Festa Privada”, apropriado à razão deste concerto tão especial, “tecendo as suas teias, já que o seu pensamento é seda.” e deixando explícito um aviso: “Vou a partir esta merda, partam comigo família!”. Não mentiu e a família ajudou, tornando este num dos concertos com mais poder que vi nos últimos tempos.

Continuando com a mesma energia, apresentou o tema “Hustle”, antes de ter confessado que tentou fazer um espetáculo à medida do público, por saber que esta foi uma obra que marcou muita gente. Não desprendendo desta nota mais emotiva, dedicou a próxima faixa “Divisões” ao seu falecido “irmão, que está no céu”, dando um significado ainda mais profundo aos versos: “E reza por mim na morte, porque ela não é o final/ É que afinal, não há final”.

Depois deste momento, Profjam decidiu apresentar a sua banda, que conta com Rivathewizard nas teclas, Gonçalo Lemos no baixo e Cecília Costa na bateria, aproveitando também para pedir um aplauso para o próprio público, que vinha com a lição na ponta da língua, repetindo todas as letras que o artista ia debitando.

Em tom de homenagem ao mesmo, proferiu a mensagem: “Façam barulho para vocês todos em comunhão. Não há divisões irmãos, ´tou aí com vocês, vocês ‘tão aqui comigo.”, antes de avançar para “4 Elementos“, outra faixa que causou uma forte comoção, assim que se ouviram os primeiros acordes. A performance desta música precedeu uma das maiores surpresas da noite, a presença de MC Hypnotik em palco, para cantar o seu skit presente nesta obra “Dope (Hypnotic Skit).

Por esta altura tornou-se evidente que o sumário seria seguido à risca e que nenhum tópico ficaria por cobrir, o que significa que se ouviriam, sem exceção, todos os temas desta obra. Assim, seguiu-se um conjunto de músicas entrelaçadas com lições de filosofia para refletir, que não deixaram ninguém indiferente:“Lodi Dodi”, “Além”, “Sinestesia”, “O Espectro” e “Bane”.

Estas faixas são, na minha opinião, algumas das que mais enaltecem o cariz introspetivo deste artista, que parece ter como principal objetivo deixar uma mensagem de que nem tudo é preto ou branco, não visse ele “o espectro completo da luz”. Quer seja através da utilização de samples de personalidades como o Pastor Charles Stanley ou o filósofo britânico-americano Alan Watts, ou de mensagens proferidas pelo próprio, Profjam com este disco procurou incentivar qualquer um a atravessar as adversidades e tentar fazer delas arte, como o próprio conseguiu, questionando cuidadosamente o mundo à nossa volta e acreditando que é possível ultrapassar o passado, focando num futuro mais brilhante, com uma mente aberta que busca mudar para melhor. Sabendo que “a vida é curta” e que essa foi uma das lições que aprendeu, o artista deixou também um apelo: “Não aceitem as respostas Dele sem pensar nelas primeiro.”

Em concordância com o tema e mensagens deste espetáculo e num momento poético -se interpretado-, o palco e as luzes mudaram, para revelar um espelho retangular, suspenso acima de Profjam e da sua banda, que refletia não só o palco, como parte do público e ocasionalmente outras animações.

Gostaria de destacar os momentos em que Profjam se virou para o espelho enquanto cantava, provavelmente para poder refletir -física e mentalmente- sobre tudo o que atingiu desde o lançamento deste projeto, estando não só perante um coliseu cheio para o ver, mas também de um “eu” que se reinventou perante adversidades e se encontrava ali, forte e pronto para continuar a espalhar a sua mensagem e inspirar os seus ouvintes.

O artista apresentou ainda as faixas “Trigo Limpo”, assinalando os seis anos do nascimento deste projeto, com berço em Londres e ainda a receber um carinho especial que se mantém até hoje, “Limpa-Fundos”, que admitiu ser uma das suas faixas favoritas e arrancou mais um coro da parte da plateia, e “Mikado”, onde pediu ajuda para que cantassem com ele. Claro que o público não desiludiu e, em tom de recompensa, pudemos experienciar a música “Lo-fi” a capella, num dos momentos altos da noite. Os versos repletos de significado, ainda bastante atuais “´Pó morto há respeito, imagina se aplicássemos/A lógica que o vivo tinha o direito ao me´mo!/Talvez o teu desenho passasse a ser tipo um Picasso/E a história que vem de ser humano não tinha h pequeno!” ecoaram por todo o coliseu e foram recebidos de braços -e mente- abertos, por uma plateia imersa em euforia.

Já na reta final cantou “Baudelaire” e uma das mais esperadas “Queq queres?”, que incendiou o coliseu de tal maneira, que por momentos se pensou que os fãs fossem saltar as grades e juntar-se ao artista em palco.

Mostrando que a “síndrome de MC” do artista continua bem ativa e com forte tendência a causar estragos, esta faixa fez os níveis de energia sentida atingirem valores exorbitantes, o que levou Profjam a admitir, algo emocionado: “Nunca imaginei que isto fosse possível, muito obrigado. Obrigado por terem vindo comigo nesta viagem do tempo, queq querem que eu diga?”

Seguiu-se um momento não menos importante e pessoal, que precedeu a apresentação da música “David”, no qual o artista se dirigiu à plateia para dar alguns conselhos:Queria relembrar que a vida não tem só um lado científico, tem um lado artístico, é o vosso poema que ‘tão a pensar na cabeça que cria uma história, pensa bem naquilo que ’tás a escrever na tua caneta todos os dias, vamos fazer desta vida uma obra de arte, criar uma cena bonita.” Como diz nesta música, “Trago de volta a esperança e entrego-ta nos phones”, agora ao vivo e certamente a inspirar ainda mais, o rapper apresentou por fim a última faixa de “Mixtakes”, “Malang Kalam”, mostrando que, de facto, “este puto sabe” e “tudo fará sentido na reta final”.

Não satisfeito ainda, todo o público implorava por um encore, enquanto entoava o nome “Mário” e a tão famosa frase “Só mais uma”. Para o maior deleite dos presentes o artista voltou, para repetir a “Queq Queres”, o que resultou num coro ainda maior do que da primeira vez que foi apresentada. É importante destacar a energia de Profjam que não abrandou nem por um segundo, mesmo após estes anos sem atuar, o que leva qualquer um a crer que este artista tem mesmo “Víris, Gula e Sam, Mundo, Allen Halloween” dentro dele e por isso cospe bué, afinal, é como andar de bicicleta e o flow e estofo de pulmões nunca se perdeu.

O artista despediu-se com “a gente já se vê outra vez” e abandonou o palco, deixando milhares de pessoas a tentar processar o privilégio que foi terem testemunhado este concerto ao vivo, muitas delas abraçadas ao vinil de “Mixtakes”, vendido ali pela primeira vez.

“Contem comigo enquanto o meu eu artístico viver. O que eu mais desejo é chegar com vocês a um sítio que nem sequer sei se existe, por uma rota que traço com uma caneta que tem tanto de bênção como fardo, em cima de um mapa velho e amarrotado que a Modernidade deitou fora.” – foram esta as palavras escritas por Profjam nas suas redes sociais, após encher o mítico Coliseu dos Recreios para dar a aula de uma vida. Este espetáculo foi um exemplo de que este artista, como manifestou na sua faixa “4 Elementos”, criou mesmo a sua escola e fez a sua turma e agora é um dos maiores sucessos do rap português, com um “bebé” de seis anos que não só já pode ir à escola, como está já mais que apto para ensinar.

Fotos por: Nayara Silva

Quem conta um conto acrescenta sempre um ponto: A história do Hip Hop Tuga regressa à Altice Arena

Em 2019 a Altice Arena recebeu um novo conceito que chamaria milhares de pessoas a um acontecimento que -embora já tivesse sido estreado no Festival Summer Fest- parecia um daqueles eventos únicos e imperdíveis, de fazer qualquer amante da cultura do hip hop largar tudo e ir. Também não era para menos, pois quem experienciou essa noite, como eu, nunca mais se esqueceu, não apenas pela injeção de dopamina que é ver quase todos os teus rappers preferidos uns a seguir aos outros, mas pelo sentimento de que estás a fazer parte da história, enquanto a mesma é contada (e vivida) à tua frente, na forma mais pura e tocando em todos os quatro pilares desta cultura, com writers a pintarem painéis e crews a mostrarem os seus melhores dotes de breakdance, ao som de alguns dos melhores DJs e MC´s de Portugal.

E é certo e sabido que a história se repete e, desta vez, repetiu-se mais cedo do que se podia imaginar.

A Faded voltou a conseguir a proeza de juntar mais de 30 nomes de MC´S, DJs, writers e crews, expressando assim os quatro pilares do hip hop na altice arena, sítio que normalmente associamos a grandes acontecimentos que arrastam multidões. Não sendo exceção à regra, milhares de pessoas dirigiram-se a tal emblemático local desta vez transformado em museu vivo, para uma visita de estudo dedicada à história do hip hop tuga. 

E a visita guiada começou pelos anos 90, mais concretamente 1992, com Gabriel o Pensador, um nome gigante de se presenciar que, embora possa não ser do conhecimento de todos, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da história do hip hop português.

Antes de se dar o boom da evolução do rap em Portugal, com o lançamento em 1994 do álbum “Rapública”, tomou lugar no Pavilhão Carlos Lopes o concerto de Gabriel o Pensador, que reuniu toda a comunidade do hip hop, contribuindo, mesmo que indiretamente, para a “validação” de que esta cultura não só tinha um público e comunidade considerável, como muito potencial para se tornar mais expressiva. Honrando esse caso, através das suas músicas -que começaram também a passar em programas de rádios portuguesas- este artista foi também um impulsionador para o estabelecimento da língua portuguesa como uma língua -e ferramenta- válida para a divulgação de assuntos importantes através das suas letras, como desigualdades sociais, racismo e todo o tipo de assuntos pertinentes, o que também potenciou a abertura, de certa forma, de um mercado para o rap em Portugal, depois de se revelar como um caminho viável. Há quem diga que este concerto foi o maior ajuntamento relativo a hip hop na altura, um fator crucial para chamar a atenção dos media e restante população na época para dar a aparência, neste caso, verdadeira, de um “peixinho a ficar grande”. *  E o resto é história.

Desta forma, chega a ser poético Gabriel o Pensador marcar presença num dos maiores acontecimentos de hip hop da atualidade novamente, todos estes anos depois.

Assim, agora pisando o palco desta famosa arena, depois de um importante discurso onde explicou a importância que o hip hop tem na sua vida, considerando-se um “viciado” nesta arte, o artista apresentou para uma sala quase lotada os seus temas “O Resto do Mundo” e “2345meia78”, sendo seguido de imediato por Black Company, grupo que se celebrizou precisamente no álbum “Rapública” com o tema “Não sabe nadar”, música escolhida para apresentarem nessa noite também.

E a partir daí desenrolou-se uma história, agora algo abreviada -caso contrário precisaríamos de talvez uma semana de residência na Altice Arena- dividida em atos recheados de talento e devoção à cultura, algo sentido da fila da frente, aos lugares sentados mais atrás.

No mesmo bloco de artistas e não abrandando na nostalgia para as mais variadas faixas etárias,  prosseguiram com Mind da Gap para abrir os anos 2000 com o tema “Todos Gordos”, seguidos de Sam the Kid e Mundo Segundo com a mítica “Não Percebes”, para assinalar 2002 e fechar o primeiro de cinco momentos que contaram também com a importante presença de DJ Nelassassin, DJ Bomberjack, DJ Glue, DJ Kronic e DJ Cruzfader, assim como as crews de dança, Zoo Gang, 12 Makakos, Momentum Crew e Gaiolin Roots -que iam acompanhando as mais icónicas rimas e batidas -e os writers Crack Kids Crew e Nomen & Dê.

Ainda a relembrar os “bons, velhos tempos” o segundo bloco também se encheu de artistas que cantaram músicas bem conhecidas da infância de alguns de nós.

Bezegol deu o mote com o seu tema “Quando Escrevo”, para abrir caminho para Expensive Soul com “Eu Não Sei” e “13 Mulheres”, músicas que nos marcaram, nem que seja pela mítica altura conhecida como “época dos morangos”, em triunfo das antigas séries infantojuvenis. Não desprendendo do tema, o artista que se seguiu foi Sam the Kid com a legendária “Poetas de Karaoke” e, ainda na categoria de hinos que ficaram consagrados para sempre, um dos mais aguardados nomes, Valete, pisou o palco ao som de “Roleta Russa”, perante uma plateia que sabia cada palavra deste som de cor e salteado. Fomos ainda presenteados novamente com Bezegol, Chullage e também Dealema, que apresentaram o seu tema “Sala 101”.

Já em 2014 e avançando para o terceiro conjunto de artistas, o espetáculo continuou numa forte nota, com o que considero ter sido um dos momentos altos da noite: Capicua decidiu declamar a capella o seu tema “Alfazema”, entoando para milhares de pessoas a empoderadora mensagem: “Contradições nascem com tradições opressivas/Como lições para sermos fracas e reprimidas/Sem auto-estima postas de lado como um talher/Não foi p’ra isso que nasci uma mulher/Não vou cumprir com a puta da expectativa/Não é para ela que oriento a minha vida”. Esta mensagem revela-se ainda mais forte sabendo que Capicua foi uma das apenas duas MC´s de rap feminino presentes neste espetáculo. A artista cantou ainda a sua conhecida música “Vayorken” antes de o espetáculo prosseguir com Tribruto, a representarem o Algarve, NGA ,também com um poderoso momento a capella da música “Tá Brinka com Kem”, juntando em palco outros membros da Força Suprema e Tekilla, que apresentou o tema “Sinónimo”, que partilha com outra das lendas presentes, Sam the Kid. Ainda houve espaço para a dupla Deau e Bezegol cantar o seu sentido tema “Como Seria” e, mantendo esta linha mais romântica e introspetiva, Bispo, com a faixa “Dinâmico”.

No próximo bloco foi chamado ao palco o emblemático DJ Cruzfader e a Crew Zoogang para interpretar, em forma de dança, os temas apresentados neste que foi um dos conjuntos de artistas que mais comoção gerou, tendo aberto com duas duplas de peso: Mundo Segundo e Sam the Kid e Blasph e Sanryse, ambas para continuar a representar 2015. Seguiram-se dois nomes que causaram muito entusiasmo ao virar o ano para 2016, Holly Hood com “Cobras e Ratazanas” e Dillaz com “Mo Boy”, ambas cantadas na integra pelo público, que emanava euforia, já prontos para receber outro conjunto que nunca desilude, Alcool Club. Constituído por Praso, Sanguinbom e Montana e ainda com a participação de Sara D Francisco, este grupo de Sines mostrou-se novamente como sendo um dos grupos de hip hop com maior presença de palco de palco vistas na atualidade, ao terem cantado “Qualquer coisa e um pouco de Jazz” e a recente faixa “Sítio onde nunca saí” em ambiente familiar, incentivando sempre a plateia a repetir as letras.

Também com uma forte presença de palco voltou Valete, este que foi um dos nomes mais mencionados quando se falava da falta de artistas cruciais na última edição deste espetáculo. Desta vez marcou presença e confirmou a hype, metendo o público, perante uma lenda, a cantar a plenos pulmões “Rap Consciente”. No final, o artista deixou ainda uma importante mensagem; depois de congratular Capicua e todas as mulheres presentes -ou não- que contribuíram para a história do hip hop tuga, aproveitou o momento para deixar um apelo: “Precisamos de mais mulheres a rimar. Homens, incentivem as vossas amigas, irmãs, namoradas.”. Não podia concordar mais. Embora seja um facto que o cartaz deste evento poderia ter contado com muitos outros nomes femininos, haverá sempre alguém que falta e não sabemos da disponibilidade dessas artistas, porém é um facto que é bastante escassa a oferta de rap feminino em Portugal e a visibilidade atribuída quando o há, nesta que continua a ser uma cultura e indústria muito gerida por homens, validando o facto de que não deve ser fácil penetrar o mercado e sentir-se apoiada. Também eu deixo esse apelo para alguma mulher que esteja a ler, para acreditarem no seu potencial e partirem para a luta, que haverá apoio sim, pelo menos deste lado. Há tanto que precisa de ser dito ainda.

Depois deste poderoso momento passámos para 2018 e pudemos contar ainda com atuações de Dillaz novamente, desta vez com “Clima”, Kappa Jota com “Tribo” e Papillon com a bonita “Impec”, que arranca sempre um coro de vozes da plateia e olhos marejados imersos em reflexão, enaltecendo o bonito que é quando a música vibra na nossa pele e nos faz sentir cada palavra como se tivesse sido escrita por nós.

Com o relógio já a assinalar algo como quatro horas de espetáculo, aproximámo-nos do último bloco de nomes, desta vez mais atuais, de 2019 a 2021, inaugurados por Phoenix RDC com o seu hit “Vencedor”, X-Tense com “P de Pablito” e Grognation. Embora este grupo tenha optado por cantar “Orelhas Quentes” e “Body” e não a famosa “Voodoo”, não deixaram de entoar a letra do refrão para deleite dos presentes, que repetiram verso a verso, como se de um mantra se tratasse.

Não abrandando no ritmo pisou o palco Julinho, um dos nomes mais esperados pela plateia -sobretudo mais jovem- ao som de “Sentimento Safari”, seguido de imediato por outro nome bastante esperado, Nenny, que apresentou a canção “Sushi”.

Que nem os filmes de Christopher Nolan voltámos novamente atrás no tempo com Nerve e o seu tema “Tríptico” e Capicua, de novo, desta vez com “Madrepérola”, para avançarmos mais uma vez e terminar o espetáculo com T-Rex que incendiou o palco com “Tinoni” e uma versão encurtada a capella de “Tempo” e ainda Vado Más Ki Ás com a canção “Vida Louca”.

Foi Nenny que fechou o espetáculo ao som de “Tekilla”, enquanto todos os artistas participantes se juntavam em palco, para celebrar mais uma noite de storytelling em frente a qualquer coisa como 10 mil pessoas.

Terminou assim mais uma edição da História do Hip Hop Tuga e a verdade é que, como diz o ditado, quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto. E ainda bem. A história desta cultura é demasiado extensa e rica para se condensar num espetáculo, por mais tempo que este possa durar, mas acredito que será sempre de uma extrema importância tentar fazê-lo e, por consequência, adicionar. Que venham nomes novos e mais underground, mais mulheres, mais “OG´s”, mas o facto é que irá sempre faltar alguém, o que devíamos considerar como um sinal indicativo de que crescemos mesmo muito desde aquele concerto de Gabriel o Pensador em 1994 e que o Hip Hop Tuga não só está vivo como se encontra em constante crescimento. Por isso, que se saiba que há sempre pontos a acrescentar e que o que se testemunhou ali foi, ainda assim, apenas a ponta de um icebergue tão extenso que chega certamente aos destroços do Titanic.

*Consultar a tese de doutoramento de Federica Lupati para mais informação sobre este assunto. Disponível aqui.

Masego ao vivo no Coliseu dos Recreios: UM espetáculo de magia COM O MAgo DO SAXOFONE

Uma das coisas mais bonitas de se experienciar em termos de concertos ao vivo no Coliseu dos Recreios é olhar em redor da cúpula, mesmo que por apenas uns momentos, e ver como as luzes se projetam nas extremidades da sala, enchendo a atmosfera de cor, contrastando com os vultos de mãos no ar de um mar de gente, como se de uma pintura se tratasse. Após uma espera -que pareceu infindável- para voltar a ver um coliseu cheio e mais leve de restrições, na passada terça-feira foi-nos devolvida essa poética visão, pelo encantador de multidões, Masego, que pisou este mítico palco acompanhado pelo seu saxofone mágico, pronto para contribuir para a pintura daquele quadro, num concerto que foi, de facto, arte em movimento.

A primeira estrela a iluminar o palco foi Mereba, que surpreendeu (e foi surpreendida) ao ter toda uma plateia que, embora ansiasse por Masego, estava de olhos postos nela, enquanto acompanhava algumas das suas mais conhecidas músicas e obedecia, com entusiasmo, a tudo o que a cantora propunha. Com um conjunto vermelho deslumbrante de mangas de rosa em todo o seu esplendor, a condizer com o seu cabelo em ilustre coroa e acompanhada da sua banda, a sua voz melódica, mas versátil, ia enchendo a atmosfera de antecipação.

Após este concerto, seguiu-se um compasso de espera que foi preenchido com algumas das canções mais populares que se ouvem tipicamente em saídas noturnas, o que fez os presentes parar de gritar “Masego” -apenas por breves momentos- e cantar as letras das mesmas, a plenos pulmões. E eis que o tão aguardado momento aconteceu: enquanto a banda presente em palco começava a tocar, ouvia-se um medley de algumas das músicas mais conhecidas de Masego, acompanhadas por um jogo de luzes que se mesclava com um fumo quase místico, de onde sairia em breve a presença mais desejada.

Masego desbravou, finalmente, o nevoeiro num macacão vermelho e chapéu a condizer, pronto para encantar qualquer um, ao som de uma multidão em êxtase que nunca esmoreceu. O artista não perdeu tempo e, assim que pisou o palco, procedeu a cantar algumas das favoritas do público, começando com “Navajo“, passando para “Queen Tings” – perfeita para homenagear as mulheres, neste que era o dia delas- e continuando com “Old Age” e “Lady Lady” até chegar a “Mystery Lady“, uma das suas mais conhecidas e atuais, que partilha com Don Toliver. Num dos únicos intervalos feitos entre esta entrega de hits, o artista aproveitou para dizer o quão bonitas eram as mulheres em Portugal e como andava a comer pão e queijo sem parar há dias.

Seguiu-se um conjunto de provas -como o próprio enuncia na sua canção, não apresentada nessa noite, “I do Everything”- de que o seu talento para tocar instrumentos não se estende apenas ao saxofone. Embora tenha encantado o público logo de início com solos deste mesmo instrumento, de fazer a alma querer sair do corpo, o artista de origem jamaicana mostrou dar fortes cartas no órgão, em temas como “Good & Plenty” e “Yamz”, onde fez uma especial demostração ao tocar de joelhos e com os pés, arrancando os mais sentidos gritos de apoio pela parte da plateia.

Houve vários momentos caricatos durante o espetáculo, que atribuíram um toque especial há muito não sentido. Fazendo-se acompanhar de um elevado número de adereços, o artista deleitou os fãs com momentos de diversão, destinados precisamente a entreter a plateia -não estivessem já entretidos o suficiente. Assim, fomos presenteados com malabarismo de frutas, que antecedeu o tema “Veg Out”e falhou na última parte, despertando o bom humor de Masego, o lançamento de rosas -já esperado- para o mar de pessoas aquando do tema “Passport” e um desfile de bengala enquanto bebia chá. Não satisfeito, o artista colocou ainda uma coroa, muito apropriada para cantar o tema “King´s Rant” e apresentou-nos também uma performance, na qual mostrou os seus dotes para a dança, envergando um avental de cozinha, para dançar ao som do remix do próprio da música já cantada “Mystery Lady”, que começa exatamente com a frase “Fetch me my apron, I’m finna cook” ou seja, “Tragam-me o meu avental, que eu vou cozinhar”. Neste caso, não “cozinhando” batidas, cozinhou um momento que certamente ficará na memória de quem assistiu. O artista incentivou ainda todas as pessoas a acenarem e a cantarem com ele o tema “Bye Felicia”, um tema algo empoderador.

Foram momentos como este que mostraram realmente o amor que o artista tem por atuar, algo que adiciona muito à experiência, do ponto de vista do público.

Destacamos ainda as músicas que mais agitaram os presentes, tendo em comum as batidas dançáveis e ritmos mais quentes: “Yebo/Sema”, “Prone” e a conhecida “Silver Tongue Devil”. Houve ainda um encore onde foi tocada a tão esperada “Tadow”, a música que pode ser considerada como a que atribuiu a Masego este nível de popularidade; podia ver-se inclusive um cartaz de uma fã, presente na fila da frente, que tentava informar que possuía uma tatuagem dedicada a essa música, enaltecendo o impacto da mesma. Este tema celebrizou o saxofone de Masego e a sua habilidade para o tocar de tal maneira, que a qualquer ponto do concerto a euforia subia de imediato, só de ver o artista dirigir-se ao instrumento; e também não é para menos.

Somos da opinião de que os solos de saxofone foram talvez a melhor parte de todo o espetáculo, tendo realçado o extraordinário talento deste multifacetado artista. Os solos deste instrumento em temas como “Bliss Abroad” e “Sides of Me”, onde o divinal som do saxofonerematou a a sua harmoniosa voz – e ainda alguns dotes de MC-, assim como em tantas outras músicas -destacando, claro, a “Tadow”- foram realmente a estrela do show, fazendo com que saíssemos do concerto a acreditar que se o espetáculo fosse “apenas” isso, o sucesso do mesmo seria semelhante.

Este foi um concerto onde parecia ser obrigatório levar um sorriso estampado no rosto e uma enorme vontade de dançar, indicações seguidas à risca por todos os participantes. Para além de talentoso, este artista é extremamente carismático, o que permitiu uma enorme sintonia com o público no decorrer de todo o espetáculo.

Masego expressou o seu amor por Portugal e prometeu voltar, deixando o público na expectativa de um regresso, mas a julgar pelas palavras do artista não há mesmo duas sem três e já foi anunciada uma nova data para o retorno de Masego a Portugal.

Todas as fotos são da autoria de Ana Antunes.

HHR @ ID NO Limits: Ao limite e mais além

Depois de vários adiamentos e mudanças no cartaz, como a pandemia tanto obrigou, o festival ID No Limits voltou finalmente a encher o Centro de Congressos do Estoril, com uma segunda edição que contou com cinco palcos e mais de 40 artistas. De 24 a 26 de fevereiro, o espaço encheu-se de artistas conceituados e uma enorme multidão, sob luzes néon e uma atmosfera algo futurista e tecnológica -honrando a imagem promocional do festival- para dar destaque à atualidade da esfera musical, com um mix de música urbana, eletrónica e contemporânea.

Esta mistura resultou num cartaz de luxo com ilustres cabeças de cartaz, onde o hip hop esteve muito presente: de Rejjie Snow a Regula, passando por Lex Amor, T-Rex e Mynda Guevara o género brilhou com todo o seu esplendor e a tua rádio esteve presente.

Embora o dia mais antecipado – especialmente para os fãs de hip hop- fosse o segundo dia deste festival, o primeiro também não prometia ser benevolente no que toca à corrida entre palcos. Com nomes como Nenny, David Bruno, L-Ali e Yuri NR5, foi necessário levar calçado confortável e muita energia e partir para a pista, pois não havia tempo a perder.

O concerto de Nenny foi o primeiro a que assistimos, no palco Grand Hall Cascais, um local que se encontrava repleto, evidenciando o considerável progresso que esta artista tem feito em termos de performance. A sua energia constante em palco cativa o público de uma maneira muito própria, com as suas músicas ritmadas, passos de dança e interação com a audiência, que canta de volta todas as músicas da cantora e não exclusivamente o seu hit “Tequilla”. Durante a sua música “Lion” pediu aos presentes para entoarem essa mesma palavra, adequando-se de forma perfeita a tudo o que Nenny é e representa: uma verdadeira força da natureza ainda com muito para dar, como a própria música indica: “Tou a reinar sozinha a construir meu proprio lema” e “Tiara é minha atitude, presença de leoa”.

 

Consideramos o próximo concerto que testemunhámos, Lex Amor, como a grande surpresa da noite. A rapper e produtora britânica com raízes nigerianas encheu o palco do Auditorium com uma potente energia, mostrando o verdadeiro poder da simplicidade e conexão com a plateia. Mensagens importantes  foram entregues através das suas rimas, com uma voz melódica e algo rouca, mas assertiva, que nos deleitou com músicas como “Mazza” , “Bones”, “Rocks” e “100 Angels”. Não faltou atitude nem flow em nenhum tema, sempre acompanhados pelo inebriante som do saxofone, nas mãos de Solaariss, que contribuiu (e muito) para a atmosfera sentida na sala e para as “good vibes” tão procuradas por Lex Amor, que as avaliava em percentagem através da receção do público, após a apresentação de cada tema. Começando no 7% e estando já a 70%  na penúltima música apresentada, pela atmosfera sentida e concerto incrível que foi, atrevemo-nos a dizer que chegou a mais de 100%, atingindo assim o derradeiro objetivo da artista.

Seguimos para o concerto de L-Ali, já a acontecer no Room 002 Eristoff, com uma plateia considerável e das mais efusivas e pesadas que testemunhámos neste primeiro dia de festival. Ao longo de temas como “Tanque”, “BABA” e ainda hits de Colonia Calúnia como “Silna” e “Mosa Rota”, a plateia ia ficando progressivamente mais agitada, tendo culminado em “Banghello!”, “UAIA!” e “Siri”, onde o entusiasmo era tanto que as grades da fila da frente foram deitadas ao chão, enquanto uma multidão empurrava e gritava de volta as letras, de uma forma extremamente dedicada -um especial shoutout aos funcionários e seguranças, que tão bem lidaram com a situação, sem que ninguém se magoasse.

A festa continuou com David Bruno, no Room 001 Super Bock, já com a sala cheia. Acompanhado dos seus fiéis entertainer-natos Marco Duarte e António Bandeiras, estava montado o espetáculo que nunca deixa de ser uma experiência diferente, por mais vezes que se tenha visto ao vivo. Sempre com novas histórias para contar ao público e seguindo a narrativa de um jovem artista extremamente orgulhoso das suas origens, nunca faltam as entoações “Marquito! Marquito!” em homenagem ao guitarrista, piropos a António Bandeiras e o típico “Gondomar! Gondomar!” entre os populares temas a que já estamos habituados como “Bebe & Dorme”, “Salamanca by Night” e “Doucement”, do seu mais recente álbum a solo “Raiashopping”, sempre acompanhados de conversa e muita animação. Estes concertos são também a única oportunidade que os fãs do artista têm para ouvir o tão consagrado tema “Lamborghini na Roulotte” pois, como proferido pelo próprio David Bruno: “Nem que me oferecessem um milhão de euros eu lançava isto nas plataformas!”, argumentando ser uma prenda para quem faz questão de o ver ao vivo.

Houve também tempo, no meio da intensa correria entre palcos – que certamente já deixava saudade- para visitar uma das maiores rainhas do rap crioulo em Portugal, Mynda Guevara, que se encontrava a incendiar o palco do Auditorium. Com músicas carregadas de significado, que servem como veículo para discursos sobre a luta feminina e batalhas interiores, a artista apresentou temas como “Tra pa fora” e “Valor Kez Ta Danu” para uma plateia que se encontrava sentada até ter sido mandada levantar para dançar nas últimas músicas. Obedeceram todos de bom grado, criando um bonito momento de celebração da música crioula.

 O concerto acabou num forte tom feminista, onde a artista pediu que todos se juntassem em frente ao palco, de punhos erguidos a gritar “girl power” e “Mynda Guevara”, no culminar de uma atuação empoderada.

Presenciámos ainda um pouco do concerto de Yuri NR5 a decorrer no Room 002 Eristoff, uma sala que estava completamente a abarrotar. Chegámos precisamente na altura em que estava a cantar o seu maior hit  “São Paulo”, numa sala cheia de caras familiares que entoavam a música de volta. Este concerto afirmou-se como uma prova do fenómeno que é este jovem artista em ascensão, que moveu um mar de pessoas totalmente investidas nas suas palavras e instrumentais que ficam no ouvido.

 

O tão aguardado segundo dia deste festival contava com nomes de muito peso: Rejjie Snow e Greentea Peng carregavam o título de cabeças cartaz, mas certamente não estavam sozinhos. Juntamente com Regula, xtinto, Sippinpurpp, T-rex e Lon3r Johny, este dia estava um verdadeiro banquete, novamente e ainda com mais intensidade, para os amantes de hip hop.

Começámos por assistir na integra ao concerto de Tristany, que se fez acompanhar da sua extremamente talentosa comitiva, constituída por Suzanna Frances, Black Fox, Ari.you.ok e Celio. Com um forte cheiro a incenso e um Auditorium bem composto, mais que um concerto este foi também uma experiência algo cósmica, envolta numa mística aura embrenhada com as bonitas melodias apresentadas pelos artistas e os cânticos de Tristany, que agiam muitas vezes como mantra também, repetidos a pedido pela plateia. Numa atmosfera de encontro, amizade e receção/envio de energias, este foi o concerto que mais se destacou no que toca a interação com o público, onde foram partilhados conselhos de paz, amor e amar o próximo através da linguagem mais comum a todos: a música.

Tendo também sido, na nossa opinião, um dos concertos mais bonitos de todo o festival, gostaríamos de destacar a performance das músicas “Rapepaz”, “Naxer du sol parte 2”, por serem músicas emprenhadas de sentimento, o que claramente transparece e se destaca pela performance em si. De olhos fechados a danças entre os membros, passando pelo bonito som de violino de Suzanna e vozes secundárias que pareciam vir de cima foi criada uma atmosfera que desenvolveu um enorme sentimento de pertença e amor pelo próximo, algo que Tristany nunca parou de incentivar ao longo de todo o concerto: “Amor em forma de matéria, amor projetado em alguém é aquilo que nos faz vibrar”.

Seguimos para o Room 002 Eristoff para ver xtinto, um artista progressivamente mais conceituado a cada dia que passa, algo totalmente justificável não só pelos seus lançamentos, como pelo concerto que apresentou. Embora estivessem a acontecer outros concertos de populares nomes ao mesmo tempo, como o próprio artista fez questão de frisar, a sala estava bastante composta e mais que pronta a cantar com o rapper todas as músicas que ia apresentando, com uma garra e flow de louvar. A plateia já ao rubro com a apresentação de temas como “Pentagrama”, “Android”, “Interlúdio” e “Saia”, que partilha com Stereossauro, foi levada à loucura quando xtinto chamou ao palco dois convidados: Harold, para cantar a sua música “Pontas” e Benji Price, para cantar os temas “Éden” e “Pó de Cosmos”. Depois desta sua prestação fica um claro entusiamo pelas próximas.

Sem nunca abrandarmos no entusiasmo, dirigimo-nos a passo rápido para o Auditorium onde atuava Regula, um dos nomes mais esperados da noite. Com a sala bem perto de atingir a sua capacidade máxima e com toda a gente em pé, encontrava-se no centro do palco uma das maiores lendas do rap tuga, a fazer o que melhor sabe fazer: apresentar os seus maiores hinos, com uma mestria que certamente intimida muitos, para uma legião de fãs a invejar, pois embora sejam algo longas e complexas as suas letras, todo o auditório as gritava de volta, enquanto fazia o sinal do gancho. Podia sentir-se um intenso calor humano à medida que Don Gula apresentava algumas das mais esperadas do seu reportório como “Langlife”, “Gana” “Mêmo a Veres”, “Casanova” e “Solteiro”, mas a sala incendiou de vez quando entrou Dillaz para se juntar ao próprio e cantar “Wake N Bake”. Destacamos este como um dos momentos mais altos de todo o festival, num concerto que poderia facilmente ficar para a história.

De seguida, acompanhámos a multidão que se deslocava para o Grand Hall Cascais onde iria atuar Rejjie Snow, uma das mais aguardadas cabeças de cartaz. Este pode ser considerado como um dos melhores concertos a que assistimos, não só pelo seu enorme talento para o rap, como pelo carisma apresentado através de animadas e muito frequentes conversas com o público, danças espontâneas, constantes tentativas de aprender a pronunciar a palavra “Cascais” e um grande entusiasmo no geral. “Désolé”, “Egyptian Luvr” e “23” foram as músicas que despertaram uma maior reação pela parte da plateia, também por serem algumas das mais conhecidas, mas a maioria dos presentes estavam prontos para cantar todas as músicas, extremamente emocionados por se encontrarem na presença do seu ídolo, num ambiente de animação e amor à música incrível.

O próximo concerto experienciado foi o da extraordinária Greentea Peng, cantora de R’n’B e neo-soul oriunda de Londres, que esgotou a capacidade da sala Auditorium. Com uma legião de fãs na fila da frente que envergava cartazes e presentes para oferecer à artista, Greentea Peng tem uma das maiores e mais fortes presenças em palco que pudemos testemunhar. Tendo como principais influências Lauryn Hill e Erykah Badu, não é muito difícil de imaginar o nível de performance que nos apresentou, cantando populares temas como “Mr. Sun (miss da sun)” e “Downers” apelidada pela própria como “a música pela qual vocês me conheceram, certamente”, elevando progressivamente o entusiasmo do público com uma voz fora do comum e indumentária a condizer.

 

Por fim, conseguimos  marcar presença no concerto de T-Rex no palco Grand Hall Cascais, um dos nomes mais conhecidos atualmente na esfera do hip hop português. Fazendo jus ao título, o artista atuou para uma volumosa plateia composta por fãs devotos, rasgando o palco com uma energia contagiante que nunca esmoreceu, ao cantar músicas como “Tempo” que partilha com Lon3r Johny, FRANKIEONTHEGUITAR e Bispo, “Volta” e um dos seus novos singles “Pra Mim”. Esta estrela em constante (e rápida) ascensão chamou ainda ao palco os integrantes do coletivo Mafia73, para cantarem juntos o tema “Tinoni”.

Não podemos deixar de mencionar ainda Lon3r Johny e também Sippinpurpp, que atuaram no palco do Room 002 Eristoff, em horários diferentes, mas com salas igualmente cheias, não fossem eles alguns dos nomes mais populares (e requisitados) atualmente.

A noite terminou com um DJ Set de Mike El Nite, onde o hip hop se encontra sempre presente e chama multidões.

Este festival contou ainda com mais um dia, dedicado maioritariamente à música eletrónica, com Dj Sets de nomes como Branko, Pedro da Linha e Major League DJZ. Este género musical esteve, no entanto, sempre presente no festival, através até da sua Silent Disco, uma “discoteca” onde cada um tinha o seu próprio par de headphones.

O ID No Limits voltou assim a estabelecer uma celebração sem limites, num sítio completamente transformado para acolher um cartaz eclético, mas harmonioso. Embora um centro de congressos não pareça, à partida, o local mais apelativo para um festival, tudo funcionou e encaixou no aparente tema deste evento: uma celebração das expressões musicais urbanas, contemporâneas e eletrónicas, com uma vibe algo metropolitana. É sempre agradável ver tantos nomes ligados ao hip hop em festivais com potencial para se tornarem cada vez mais populares, pelo cariz difusor destes eventos. Foram três dias sem limites para a celebração da música, reencontros e convívio, que vieram matar saudades da altura em que podíamos festejar livremente, deixando-nos extremamente entusiasmados para as próximas edições. É ficar atento.

 

Antù enche-se de arte, street wear e convívio

Na passada sexta-feira, dia 18, um dos locais culturais mais in, com localização privilegiada no Cais do Sodré, Antù, acolheu uma verdadeira festa, que contou com uma exposição de arte de Pedro Clemente, DJ sets e ainda uma apresentação da marca AFAP, uma nova marca de street wear.

O hip hop marcou uma forte presença neste evento, através dos quadros de Pedro Clemente, – resultantes da colagem digital de imagens relativas a grandes artistas de hip hop- das músicas tocadas nos sets, pela parte de nomes como DJ Nobrux e pela marca de street wear, também conectada ao género, não só pela presença de nomes como Kendrick Lamar em certas peças, como pelo facto de sabermos que este é um estilo intimamente ligado à cultura.

Esta marca, criada por Morgan Glandor, orgulha-se de fazer peças únicas, com stock muito limitado -apenas uma peça de cada- feitas à mão e utilizando a técnica de serigrafia, que pudemos experimentar no dia.

O ambiente sentido era eletrizante, fazendo vibrar cada metro quadrado do pequeno espaço, que se encontrava repleto de amantes à cultura. Todas estas manifestações de arte foram celebradas de uma maneira livre, com muita dança e convívio pelo meio.

É possível visitar a exposição até dia 26 deste mês de fevereiro. Podes também adquirir no espaço, temporariamente, as peças de Pedro Clemente – que retratam nomes como Mac Miller, Tyler, the Creator, Notorious B.I.G e Jorja Smith- e peças da marca AFAP.

Todas as fotografias são da autoria de João Beijinho.

ENTREVISTA HHR: BENJI PRICE

“Ígneo” é o novo álbum de Benji Price. A Beatriz Freitas entrevistou o rapper e produtor ribatejano numa conversa sobre lírica, pop culture e todo o processo por detrás da criação deste novo trabalho. A entrevista passou hoje, dia 18 de fevereiro às 19:00 no site e na app da Hip Hop Rádio.

Podes também ouvir abaixo e ainda noutras plataformas aqui.

Landim e Progvid apresentam “Programa” ao vivo no Village Underground

No passado sábado, dia cinco de fevereiro, o Village Underground recebeu uma das maiores lendas vivas do rap crioulo, Landim. Acompanhado por Progvid, que incendiou o local momentos antes com um DJ set, onde o trap e o drill foram estrelas, a dupla fez-se ouvir ao longo de quase duas horas de puro “rap da street”.

Num concerto que se anunciou com sendo uma apresentação do álbum “Programa”, editado em 2021, os presentes não puderam ficar desiludidos; de “Intro” a “Outro”, passando por temas como “Sauce”, “Tempu Pouko”, “#1”, “Lenda” e “Tévez”,  Landim, acompanhado dos pesados instrumentais de Progvid, encheu o palco de atitude e barras, mostrando ser, verdadeiramente, um real og do rap crioulo.

O artista aproveitou os vários momentos entre as músicas para dar ênfase a mensagens importantes de forte conteúdo social, o que contribuiu para uma maior interação com o público, sentida em toda a sala. Para além de ter aludido ao facto de alguns dos seus rapazes estarem presos e aproveitado o momento para passar uma mensagem de apelo à liberdade dos seus irmãos, destacamos o comentário relacionado a “Beija-Flor”, que explicou ser uma das mais importantes faixas para si, onde é feita uma homenagem a TWA; uma das suas grandes influências, assim como Allen Halloween, presente na casa nessa noite, que recebeu igualmente uma menção honrosa.

Houve também espaço para um especial comentário que procedeu “Blood”,- tema partilhado com Minigod, que também marcou presença em palco-, onde Landim proferiu um discurso sobre a importância de se manter fiel às suas origens e de propagar uma mensagem de autenticidade: “De onde eu venho são poucas as chances, ou és real, ou vais morrer a tentar ser real. Nós somos real n*****, respeito acima de tudo.”

A apresentação da música “Keeper” também não passou despercebida, com uma especial dedicatória do rapper a todas as mulheres: “Esta é para as minhas soldadas, mulheres guerreiras, ‘tou convosco.”

O artista contou ainda um episódio caricato sobre “Núvens”, antes da sua performance, relembrando o momento em que o seu “mano” Psyco Pdz, com quem partilha esta faixa, estava a dormir no estúdio e acordou quando ouviu o beat para a mesma. Nas palavras de Landim: “Não se dorme no estúdio”.

Numa segunda parte do concerto, o público foi brindado com faixas mais antigas, o que arrancou um elevado estado de euforia por parte do mesmo. Começando com o tema “Agrada só bó” e, logo de seguida, “Real Dimás”, Landim nunca abrandou o ritmo, impressionando com o seu flow e garra, sem nunca deixar de dar destaque às mensagens trazidas pelas sua letras, que reforçam a importância de nos relembrarmos da essência do rap e da sua cultura, como é o caso da letra desta última música mencionada, onde o artista frisa: “rap é uni tropas” e faz alusão a serem filhos de Ghoya, sobrinhos de Praga – constituinte do grupo Nigga Poison- netos de Halloween e sobrinhos de Primero G. Com esta afirmação é reforçada uma homenagem ao facto de Landim e talvez todas as suas maiores influências serem “produto di street”, assim como o rap, de uma maneira autêntica e que não deve alguma vez ser esquecida.

O rapper cantou ainda temas como “Digra”, “10 anu” e “Kruel” e terminou com “Na mó di Diós”, agradecendo ao público “maravilhoso” e deixando algumas palavras de incentivo: “Nunca desistam dos vossos sonhos. Não parem por ninguém, não deixem ninguém vos atrapalhar, sejam boas pessoas, sejam humanos, sejam bem-educados, que isso é que importa.”

Terminou assim um concerto de pura celebração do rap crioulo, da sua expressão, cultura e valores, num ambiente de lealdade ao género. A atmosfera sentida naquela sala é de realçar, pela entrega, não só por parte de Landim e Progvid e pela interação bem-humorada e quase familiar em palco, mas também pelo público, que não desapontou no que toca a apoiar e interagir com aquela que foi a apresentação do seu “primeiro álbum a sério”, como proferido por Landim – talvez por esta ser a estreia em longas-durações para ambos os artistas. Foi um real espetáculo para quem sente o rap na alma e no corpo, fielmente e desde as suas raízes.

O álbum “Programa” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.

Entrevista HHR: Wugori

Depois do sucesso com a estreia do seu EP “Mal passado, Bem Pensado“, Wugori, rapper e produtor oriundo da Amadora, não para de surpreender. A Hip Hop Rádio esteve à conversa com o artista, numa entrevista guiada por Beatriz Freitas, onde ficámos a saber mais sobre o seu processo criativo, influências e planos futuros. A entrevista passou hoje, dia 17 de janeiro às 21:00 no site e na app da Hip Hop Rádio.

Podes também ouvir abaixo e ainda noutras plataformas aqui.

Fotos por João Beijinho.

“God Bless MS” – viagem familiar ao Porto para o Natal (do Marginal)

Com o Natal à porta há quem decore a árvore, embrulhe as prendas e encomende rabanadas. TOM, M.A.C e Silab & Jay Fella decidiram dar um twist à tradição e, neste ano tão atípico, levar a Margem Sul ao Porto no ambiente mais familiar possível, com um concerto de deitar abaixo qualquer decoração. O Natal chegou mesmo mais cedo para todos os presentes, pela mão de Keso, que montou um real festival de hip hop na Invicta, um verdadeiro regalo para os maiores fãs do género.

Pois que se esqueçam as rabanadas, o bolo-rei e a aletria, o mais requintado banquete estava montado no emblemático Plano B -sob as luzes néon vermelhas que, mesmo que por coincidência, tão bem conjugaram com a quadra- servido por uma fina seleção de integrantes da icónica Mano a Mano.

E o que se viveu ali foi, da maneira mais crua, uma exibição de puro talento para o rap numa noite “100% Almadense”, onde o ritmo nunca abrandou, ao longo de quase três horas de espetáculo, com inúmeros convidados e surpresas.

Como apreciadora do género, a atmosfera sentida naquela sala era ímpar. Embora as reações efusivas se tenham iniciado logo a partir do momento em que o primeiro convidado, Mlk Mau Aluno, pisou o palco, quando foi a vez de TOM (Freakin Soyer) marcar presença, a plateia ganhou vida de uma maneira que me fez pensar em como será para o artista receber aquela energia de volta, sabendo que acts como os presentes naquela noite dão tudo, debitando letras com significado atrás de letras com significado, sobre poderosos beats, nunca deixando de fora a extrema interação com o público – algo que é um fator crucial e sobressai, quando falamos em concertos ao vivo.

Ao longo de temas como “Titã”, “VNNO” e “Coisas D’um Louco” a admiração crescia, vendo que a plateia repetia as letras como se os próprios constituintes da mesma as tivessem escrito, constituintes esses que variavam amplamente entre faixas etárias; um detalhe que certamente não vou esquecer tão cedo foi o senhor a meu lado, a quem eu, por estimativa, atribuiria uns nobres 60 anos, que tentava repetir, de forma entusiasta e ao longo de todo o concerto, as letras que ia apanhando e interagia com tudo o que lhe era pedido: de entoações a gestos de mãos.

TOM chamou ainda ao palco nomes como Vato, Silva G e Jay Fella, mostrando a sua versatilidade e cimentando o seu nome como um artista que é facilmente capaz de incentivar qualquer pessoa a querer vê-lo ao vivo várias vezes, quer pela sua impressionante presença em palco e pela maneira como o incendeia, como pela destreza que apresenta ao debitar as suas rimas, carregadas de duplo sentido, trocadilhos inteligentes e que contam histórias, mostrando, caso dúvidas houvesse, que o que ele faz “é hip hop memo! não é só ter umas dicas e umas funny punches”.

Ainda com as tábuas do palco a vibrar e sem qualquer tipo de intervalo, foi a vez de M.A.C tomarem o espaço de assalto, atacando com uma mistura de faixas do seu novo álbum “Sem Título” e temas mais antigos como “Criança” e “Deve ser da Guita!!!”, recebidos pela plateia com um carinho e entusiasmo possíveis de sentir a léguas. Destaco a participação de Amaura na bonita faixa “Hoje é dia” e também aquele que considero ter sido um dos momentos altos da noite: numa manifestação do expoente da tão apreciada interação com o público, o palco encheu-se do mesmo e, num clima de amizade e puro entusiasmo, foi cantado o tema “Chokolate Rocka”, a dezenas de vozes, naquilo que parecia uma reunião de família. Este foi um daqueles momentos de realização em que se pensa: “Hip hop é isto. Materializado aqui à nossa frente”.

Houve ainda um importante e merecido shoutout a Keso e a toda a organização do festival, por fazer acontecer este tipo de “cenas que batem cá dentro, para quem ama hip hop”, pois, como dito por M.A.C, este não é um festival só com uma ou duas atuações de hip hop, é hip hop puro durante sete dias, vivenciado por e para quem realmente sente a cena. É de louvar, por ser tão necessário, bem conseguido, e por, – possivelmente- poder inspirar mais pessoal a fazer o mesmo, por este Portugal fora.

Para finalizar esta exímia representação da margem sul, Silab & Jay Fella abriram a sua chegada ao palco com o tema Forty Five, para avisar – em tom de spoil – o que seria a sua performance, como a própria letra anuncia: “Cá na margem sul, we got/Got that atitude and style so dope/Dois oito forty five “. Não foi nada menos que isso, uma verdadeira festa cheia de atitude estilo block party -mas com nuances de r&b- ao som de êxitos desta dupla maravilha, que apresentou músicas como “Já Viste”, “MS Episodes”, “Dillinger, entre muitas outras.

Vindo de alguém que esperava há muito ouvir o bangerDrive” ao vivo, asseguro que não poderia ter sido melhor, por terem surpreendido com a chamada do próprio Blasph ao palco, artista este que nem tinha de cantar a sua parte da música se não quisesse, pois a plateia sabia de cor a letra e fez questão de a gritar ainda mais alto que o artista. Foi bonito. Ao ponto de Silab e Jay Fella terem admitido que “foram o melhor público até hoje” e “vocês estão de parabéns”. Talvez também por isso tivemos direito a ouvir algumas faixas ainda por lançar, uma delas intitulada “Flash”, que sairá em breve.

Terminou assim uma noite onde se revelou, para qualquer pessoa que estivesse a assistir, impossível ficar indiferente à energia e skill trazidas da margem.

O que experienciei foi certamente apenas um vislumbre do incrível que terá sido o festival Natal do Marginal, um festival montado por Keso com “79 artistas, 20 performances, 10 espaços, 7 dias, 0 financiamento público ou apoio municipal, 0 problemas.”, como escrito pelo próprio nas suas redes sociais.

Eventos como este acendem em qualquer amante de hip hop aquela centelha que relembra o quanto esta cultura significa para quem a vive, e a sorte que é poder experienciar acontecimentos como este, especialmente depois de um ano sem acontecer e ainda em tempos tão conturbados. Só serve para relembrar que não só o hip hop está vivo como – sim, atrevo-me a dizer – nunca irá morrer. Pode ter fases, pode apagar-se, voltar à luz, incendiar, mas voltará sempre das cinzas e em constante mutação -ou não- basta haver alguém, movido a paixão pela coisa, traduzido em dedicação. Há que apoiar, consumir, incentivar, criar se assim aprouver, e lá estaremos, para testemunhar noites memoráveis como esta. Que venham muitas, de todas as margens e em qualquer época. (Foi) Um feliz Natal (do Marginal).

Nerve, Blasph e IL-Brutto – Mensageiros do dilúvio a bordo do Titanic sur mer

Numa noite em que escapou à meteorologia adivinhar chuva, ocorreu dilúvio e todos os afluentes foram dar a Titanic Sur Mer, para estar na presença dos mensageiros do próprio: Nerve, Blasph e Il-Brutto, um concílio capaz de abanar qualquer embarcação.

Com uma fila notável para embarcar num navio que, desta vez, se presumia chegar a bom porto, as expectativas eram altas ao entrar no Titanic. Lá dentro sentia-se uma atmosfera que condizia bem com as cabeças de cartaz, já a ser pintada pelos endiabrados instrumentais de Il-Brutto -com direito ainda a um a capella de Freddie Gibbs sobre um beat seu.

Fomos assim embalados antes da tempestade, em águas que, no entanto, nunca se mostraram calmas, até aparecer o primeiro capitão da noite: Blasph aka Frankie Dilúvio.

Para apresentar a primeira música a título próprio: “O Meu Quarteirão”, fez-se acompanhar de Dani, envergando bandeiras de homenagem à Margem Sul e a Caio, um dos seus “irmãos” (como apelidado pelo próprio), perdido para a violência nas ruas, algo que “não acontece só na América”.

Seguiu-se a apresentação de uma panóplia de favoritos do público, constituída por temas como “Cantinho do Mal”, que partilha com Beware, a icónica “Rap D1 Gajo”, “Suspeitos do Costume” e ainda “Incandescente”, recebidas pelos presentes com um entusiasmo de louvar, ação concebida por Blasph, que retirou uns momentos de debitar clássicos para se dirigir à plateia. Num discurso sincero e despido de artifícios, sobre a importância de se saber reconhecer o bem que nos é feito, o artista agradeceu a quem o tinha ido ver e chamou ao palco alguém que lhe “fez muito bem”: TNT. Após uma acesa performance de “Fod** o Rap”, juntou-se o “guilty kid” Kulpado, formando assim 2/2 de M.A.C, para cantarem “Carga Nisso”, single presente no seu novo álbum “Sem Título”.

De volta ao foco principal em palco, Blasph refletiu sobre o facto de não dar um concerto há três anos, enquanto acabava a sua garrafa de Jack Daniels, em tom de celebração do retorno. O artista apresentou ainda os temas “Fardo”, “€uros Ramazotti”, “Nuvens Cinzentas”, “Doses” e “Ondulação”, antes do “Boa Noite” mais aguardado das últimas semanas: trata-se claramente da faixa “Buonasera”, assalto estilo royal flush, servido pelo trio assassino Blasph x Nerve x Il-Brutto. Fazendo jus à vibe da música, antes de pisar o palco, com a pujança de quem se propõe a separar as águas ignorando qualquer tubarão, era ouvida a voz de Nerve em ad-libs na parte de Blasph, como se viesse do além, lembrando quando nos thrillers se começa a ouvir a música que indica a proximidade de um assassino, antes do mesmo se revelar.

A sua súbita materialização em palco arrancou gritos, palmas e entoações de apoio fervorosas, combustível potente para o que foi servido nesta segunda parte do concerto, reservada ao próprio Nerve e convidados.

Tirando um momento para agradecer a presença do público, mesmo após as novas medidas face à pandemia, não poupou ninguém no que toca a “debitar matéria”, apresentando a sua melhor seleção de faixas prosseguindo com “Mínimo”, “Deserto”, “Lápide” e “´98 a capella, que faz sempre uma ponte ideal entre a menção a Carlos Paredes na música e a guitarra portuguesa ouvida no início da faixa seguinte, “Ingrato”, tema que partilha com Stereossauro.

Seguiu-se a apresentação de “Gangrena”, num ato de benevolência e com um tom algo humorístico, para com quem não segue o artista no Patreon, onde este tema se encontra disponível.

Ainda em clima de partilha e interação com o público, foram apresentadas três faixas reinventadas sobre instrumentais de Il-Brutto, sendo a primeira “Monstro Social”, um dos temas que mais incita o diálogo entre o público e o artista, e as restantes “Fumigajas” e “Pobre de Mim”, fundidas num medley que se destaca pelo seu cariz íntimo. O tom confessional da poesia a ser declamada sobre este novo instrumental lento e envolvente funciona como um contraste com as rimas habitualmente mais agressivas, sendo possível ter um vislumbre de Nerve enquanto poeta e declamador, caso dúvidas houvesse entre quem nunca frequentou uma sessão de Purga.

Aproximando-se da reta final, mas ainda com espaço para algumas surpresas, o artista brindou a plateia com “Subtítulo” e as tão aguardadas “Nós e Laços” e “100 problemas”. Celebrizada no programa “Primeira Vez”, esta última faixa conta agora com sucesso tal que com certeza consagra Nerve como o único rapper que alguma vez pôs uma plateia a tentar entoar a palavra “dimetiltriptamina”.

Antes de terminar, foi chamado ao palco o último -mas certamente não menos importante- elemento chave para encerrar o ritual, Tilt, juntando-se assim 3/3 de Escalpe na proa, prontos para agitar marés ao som de “Thomasin” e “Quezília”, nova faixa do trio mortífero, que ameaça um dilúvio por enquanto só possível de sentir ao vivo. Por parte de quem já ouviu, que se imagine uma escrita e instrumental de fazer cair uns quantos santos do altar.

A viagem concluiu-se ao som de “Tríptico”, ideal para quem acabou de sair do barco e precisa de chamar um táxi; um verso que suscita a entoação pujante de todos os presentes, progressivamente mais entusiasta a cada concerto que ocorre.

Finalizou-se assim um concerto repleto de rimas excecionais que, de facto, podiam virar regra. A performance dada pela parte destes nomes de peso demonstra um talento, que embora já se mostre mais à tona de fundas águas, continua a revelar apenas a ponta do icebergue para a mestria que possuem. Da escrita genial de Nerve e Tilt, aos instrumentais sem comparação de Il-Brutto e passando pela entrega de Blasph, fica bem claro que o que quer que seja que venha daqui não é passageiro.

Prova disso são as sessões, esgotadas ou não, onde se nota claramente que quem marca presença não só consome a obra, como a interpreta e reconhece a sua importância, validando a crença de que artistas como Nerve possam estar “a escrever em pedra“, no sentido em que o seu legado poderá prevalecer durante muitos anos. Não é – de todo- música de dança, mas certamente dá espetáculo e quem vai sai impressionado.

O próximo concerto de Nerve e Il-Brutto tomará lugar no Porto, no âmbito do festival Natal do Marginal. Bilhetes disponíveis aqui.