Hip Hop Rádio

HHR no Festival Iminente ’21: Quatro dias na Disneyland da cultura Urbana

Depois de alguns avanços e recuos e toda uma pandemia pelo meio, um dos mais míticos eventos voltou em toda a sua glória, para nos agraciar com o melhor que sabe fazer: enaltecer a cultura urbana. A Hip Hop Rádio marcou presença na décima edição do Festival Iminente, que decorreu entre sete a dez de outubro de 2021, quatro dias repletos das mais orgânicas expressões de arte, oferecendo exposições, instalações, graffiti, dança, tatuagens, e música…muita música.

Anteriormente realizado em Oeiras e depois no famoso Miradouro Panorâmico de Monsanto, este festival criado por Vhils tem agora uma nova casa:  Matinha, localizada num dos mais recentes e prolíficos focos de cultura em Lisboa, em constante expansão, o Beato, perto da Underdogs Gallery.

Desta vez com um tema relacionado com feira popular, fazendo alusão à diversão efémera, fugaz e elétrica da qual sentimos tanta falta, foi-nos proporcionado um recreio de arte espalhada, paredes outrora abandonadas vestidas de graffiti e outras obras de arte ocupando os espaços por artistas como Mariana a Miserável, Pedro Podre, Pipoca e OpenField, honrando um dos principais conceitos do festival: pegar em algo abandonado e fazer dele uma enorme instalação de arte, como tão bem sabe Vhils fazer.

Depois de mais de um ano a conter a vontade de atender a um bom festival, com copos reutilizáveis, pó, espaços cheios de gente e a correria entre palcos na esperança de apanhar todos os preferidos, o retorno teria de ser épico: e foi. Com cabeças de cartaz de luxo como Slum Village e The Alchemist, capazes de fazer qualquer hip hop head largar tudo e ir, a vasta oferta de performances não ficou por aí, podendo contar com mais de 50 artistas distribuídos ao longo de quatro dias cheios de cultura, na sua maioria esgotados, não diferindo muito das edições anteriores.

A festa nunca parou, tomando lugar em três palcos, para além de todo o recinto que respirava arte: Palco Gasómetro, com maior capacidade, o Palco Choque, uma literal pista de carrinhos de choque e o Palco Cine Estúdio, que nos matou as saudades de uma boa estufa de calor humano e entusiasmo.

Começámos o primeiro dia logo com uma grande voltagem de energia, numa data que parece ter sido estipulada para dançar, como tanto tínhamos saudades. Honrando o sentimento, a primeira atuação vista foi uma batalha de breakdance no Palco Choque, que mais tarde continuou no Skate Park. Acontecendo duas vezes por dia, as batalhas de breakdance revelaram-se como uma das mais entusiasmantes performances a não perder, reunindo sempre uma grande e entusiasta multidão para as ver, sempre acompanhadas pelo host Wilson e thebboywannabedj.

Não abrandando na energia e adicionando-lhe mais uns quantos volts poderosos, dirigimo-nos ao Palco Gasómetro para ver Pongo, num concerto que incendiou o palco, a plateia e todos os que poderiam estar a ouvir, mesmo que de longe. Este concerto foi a personificação de tudo o que mais sentimos falta, a energia radiante e unida de todos os presentes, o cantar em uníssono, a dança desenfreada, os empurrões, coros e pó levantado; tudo isto coordenado pela artista, que dançou e cantou incansavelmente, levando-nos desde hits como “Bruxos” -que apresentou no A COLORS SHOW – a uma nova versão de “Kalemba (Wegue Wegue)“, não fosse ela uma exintegrante de Buraka Som Sistema. A artista chegou a saltar do palco e ir dançar para o meio da multidão, tal não era a energia sentida, naquele que foi um verdadeiro grito desafogado de liberdade em forma de concerto.

 Seguiu-se Herlander, artista lisboeta que espalhou magia para uma também considerável multidão, desta vez no Palco Choque, e voltámos para o palco principal para ver outra das cabeças de cartaz da noite, Plutónio.

Não se afastando muito da energia sentida em Pongo, Plutónio veio devolver algo há muito em falta: um moshpit, ao som de “Cafeína”, um dos seus mais conhecidos temas. Este concerto serviu para mostrar que o público nunca parou de ouvir as músicas que mais gosta, como o próprio agradeceu pelo feito, tendo como prova disso o coro de vozes em uníssono, que respondia a todas as músicas apresentadas. Este coro explodiu em “Lisabona”, validando os versos: “Depois do coliseu, a única coisa que bateu mais que eu foi o corona”.

O ritmo não esmoreceu, passando desta vez para o palco Cine Estúdio com Scúru Fitchádu, numa performance de pura garra e calor humano, e seguiu-se o Palco Choque, que não estava menos cheio, onde uma multidão fez papel de carrinho, na área dos carrinhos de choque e se agrupou para ver DJ Glue. Este icónico DJ eletrizou todo o recinto, com remisturas de hinos do rap, do mais antigo ao mais recente, arrancando aplausos e gritos da plateia.

Em simultâneo estava a acontecer o concerto de DJ Shaka Lion no palco principal, numa onda mais reggae, naquele que foi um dia de triunfo para DJ’s. A noite acabou honrando este facto, de forma explosiva, com DJ Ride a causar estrago no palco Cine Estúdio, com uma destreza invejável, exibindo diversas técnicas de scratch e domínio da mesa de misturas.

Ainda a recuperar do dia um, seguiu-se o que considerámos o dia mais aceso do festival. Para além da promessa da enorme cabeça de cartaz reservada para este dia, The Alchemist, avizinhava-se um verdadeiro arraial de dança com nomes como Julinho KSD, Dino D´Santiago, Cintia e Holly.

Começando pelo concerto de Julinho KSD, naquela que foi a tão esperada apresentação ao vivo do seu primeiro álbum “Sabi na Sabura”, sentiu-se no ar toda a libertação após ano e meio de dançar em casa. Com convidados como Dino D´Santiago para cantar o tema “Kriolo” e Instinto 26 para cantar os hits “Gangsta”, “Sólido” e “Bandidas”, o público não parou um segundo, dançando ao som dos ritmos quentes e dançáveis de populares temas como “Mama Ta Xinti”, “Sentimento Safari” e “Hoji N´Ka ta Rola”. Este concerto terminou com uma roda, que levantou muita poeira ao som de “Stunka”.

De seguida dirigimo-nos ao Palco Choque para mais uma eletrizante performance, desta vez pela parte de Cíntia, que também fez uma multidão dançar ao som de populares temas como “Savana”, “African Queen”, “Grana” e um dos seus mais recentes singles “Je t’aime”. Este mesmo palco acolheria mais tarde HOLLY, que manteve em chamas todos os presentes, com ávidos remixes de obras como “Donda” de Kanye West, envergando uma sweat estampada com o nome e imagem de um dos grandes nomes do hip hop, DMX, falecido recentemente.

Este dia contou com uma das mais aguardadas e entusiasmantes performances: The Alchemist, uma verdadeira lenda no que toca a produção. Depois do aclamado álbum “Alfredo´s” que partilha com outro dos maiores nomes do hip hop atual, Freddie Gibbs, o artista preparava-se para atuar para um recinto cheio de pessoas que envergavam o merchandising da obra, em pulgas para ver um dos maiores produtores existentes, diretamente da Califórnia. The Alchemist encheu o recinto do Palco Gasómetro, onde fãs deliraram ao assistir a um puro espetáculo de mistura de poções, fazendo jus ao nome, obtendo as maiores manifestações de entusiasmo com a batida de “$500 Ounces”, ou qualquer outra faixa presente em “Alfredo´s” e beats que pareciam estar a ser cozinhados à nossa frente.

O penúltimo dia de festival não esmoreceu em termos de cabeças de cartaz de luxo, sendo o prato principal desta vez Slum Village, diretamente de Detroit.

A festa começou no palco Gasómetro com GHOYA, rapper criolo, que contou com leais fãs nas primeiras filas a cantarem os seus temas. Seguiu-se Tekilla no Palco Choque, que encantou mais uma vez com temas como “Sinónimos”, faixa que partilha com Sam The kid, “Love You”, uma das preferidas do público e mais canções do seu mais recente álbum “Olhos de Vidro”.

 O Palco Gasómetro foi ainda pisado por Chullage com o seu projeto Pretú, onde cativou toda a audiência com as suas letras carregadas de mensagem, sobre beats mordazes, alguns em colaboração com grandes nomes como Scúru Fitchádu e Cachupa Psicadélica.

 Mais tarde foi a vez de Nenny se estrear neste festival, para uma multidão enorme que ansiava a performance de temas como “Tequila” – também presente em A COLORS SHOW-, “Bússula” e “Sushi”. O principal destaque foi, no entanto, para a música “Dona Maria”, onde a artista chamou ao palco a sua mãe, acompanhada de vários familiares, para dedicar esta profunda canção, num momento que não deixou ninguém indiferente, em busca de lenços para toda a emoção sentida.

Sem grande tempo para recuperar de tanta emoção, seguiu-se um dos momentos mais altos da noite, Slum Village, que proporcionaram um concerto que ficará para sempre na história. A performance de conhecidos temas como “The Look of Love”, “Selfish” -que partilham com Kanye West- “Fall in Love” e inúmeras menções e homenagens a J Dilla vieram mostrar como se faz, num display assertivo de MCS old school, que sabem como levar uma plateia à euforia.

Seguimos para dar mais uma volta no Palco Choque onde atuou Carlitos Lagangz, rapper que deu uma aula de drill internacional aos ouvintes, colados a colunas que quase rebentaram com a agressividade das batidas.

A noite terminou com um DJ Set esgotado de Branko, que fez todo o recinto, na sua capacidade máxima, dançar ao som dos seus temas, não fosse também ele um ex-integrante de Buraka Som Sistema. A quem sobrasse dúvida, podia verificar por todo o merch, vestido pelos fãs presentes no recinto.

Não menos entusiasmante foi o quarto e último dia de festival, que arrancou com a performance de um dos mais icónicos gaienses, David Bruno, acompanhado pelos seus fiéis e talentosos comparsas, Marco Duarte e DJ António Bandeiras.

 Num trio apelidado por David Bruno como “Os power rangers de Rio Tinto”, com indumentária à altura, constituída por e somente um fato de treino, estes artistas brindaram-nos com as habituais histórias, interação com o público, crowd surf de António Bandeiras e o lançamento da regueifa e rosa de António Bandeiras, num concerto que nunca nos cansamos de ver, por ser sempre diferente, divertido e, especialmente, único.

A noite contou ainda com Pedro Mafama, na apresentação do seu novo disco “Pelo Rio Abaixo” e  Eu.Clides, que mostrou os seus dotes de cantor e produtor, tendo encantado todo o público do palco Cine Estúdio.

De destacar ainda a incrível e derradeira batalha de breakdance que ocorreu no Palco Choque, onde nem o público esteve a salvo. Os moves apresentados numa que foi uma das mais e impressionantes exibições de talento em todo o festival, acompanhados da reação efusiva de todos os que viram, vieram relembrar a relevância desta arte e a importância de se dar mais atenção à mesma. Um verdadeiro bónus em pontos de nostalgia, para quem cresceu a ver America´s Best Dance Crew, vidrado no ecrã.

Terminou assim mais uma edição de um dos mais importantes festivais para a nossa tão adorada cultura. Este festival de cariz nómada consegue ser pioneiro na sua essência e conceito, sendo assim importante enaltecer a excelente plataforma que oferece a um grande número de artistas, nas mais variadas vertentes. Depois de todos os contratempos sofridos com a pandemia e a ressacar há mais e um ano sem festivais, Vhils montou uma verdadeira Disneyland para a cultura urbana, onde certamente todos nos sentimos crianças livres e felizes outra vez, rodeadas de arte na sua forma mais pura e crua, durante quatro dias onde só apetecia gritar “finalmente”.

rEPORT SDC: HHR À CONVERSA C/ BISPO | PLUTÓNIO | iVANDRO | AJAXX

Estivemos à conversa com BispoPlutónioIvandro e Ajaxx sobre as suas carreiras, a volta aos palcos, o panorama atual da cultura Hip-Hop e tantos outros temas, que aconteceram durante a nossa passagem no festival Sol da Caparica.

Ouve abaixo esta emissão conduzida por Daniel Pereira

Vê ainda fotografias de alguns momentos Hip-Hop que aconteceram na edição deste ano do festival, por Nayara Silva e Bruno Marques.

Fmm sines 2022: há tanto hip-hop por esse mundo fora

Passados dois anos estivemos de volta ao festival mais multicultural de Portugal. Para a HHR, o final de julho é sempre de descoberta porque vamos a Sines, onde tem lugar o Festival Músicas do Mundo. Vem connosco e descobre o Hip-Hop, em toda a sua extensão mundial. | Por Daniel Pereira

É um facto que neste ano não tivemos nenhum rapper português presente no cartaz do FMM no entanto o Hip-Hop e a cultura urbana estiveram bem presentes.

O dia 27 de julho trouxe-nos Flavia Coelho Soundsystem e a cantora brasileira prestou uma atuação bastante enérgica em que o fast flow foi imagem (ou som) de marca. Logo de seguida foi a palco Dubioza Kolektiv, grupo bósnio, cheio de pujança, que mistura o rock, o punk e o rap.

No dia seguinte tivemos o “dia do Hip-Hop” que contou logo às 18h com Bia Ferreira num concerto cheio de “barras” que nunca mais acabavam, no bom sentido. A partir das 22h atuou James BKS, que acompanhado por Gracy Hopkins e Anna Kova e tantos outros músicos, apresentou uma autêntica “Hip-Hop Party” em que não faltou o hit “New Breed”. Seguiu-se Ana Tijoux, rapper franco-chilena, que deu um concerto que tocou, e cativou, todo o público presente no palco do Castelo.

No último dia de FMM tivemos Pedro Mafama, artista emergente português, que entrevistámos, e que te conta abaixo, em primeira pessoa, como foi o seu concerto, e muito mais…

O cartaz fechou com a atuação de Batida B2B DJ Dolores que contaram com várias músicas de rap “mixadas” com tantas outras sonoridades.

Adoramos o FMM e a comunhão que só este festival sabe fazer entre estilos. Afinal de contas Hip-Hop é isso mesmo: é união, é mistura.

Fotografias por Daniel Pereira e Carlos Pfumo

“É sempre uma honra, e uma responsabilidade ao mesmo tempo, trabalhar com alguém do calibre de Don Gula” – Supa Squad

“Abranda” é o single que traz de volta os Supa Squad e desta vez com uma participação de luxo: Regula. Estivemos à conversa com a dupla sobre este novo lançamento e não só… sabe mais abaixo. | Por Daniel Pereira

Qual foi o processo de criação deste novo single e o que permitem transmitir com ele?
Este tema foi criado em 2020, durante a pandemia, ainda sem a participação do Regula, e é um misto de espontaneidade no estúdio com a vontade de voltar ao Dancehall, sendo essas as nossas raízes.
É um tema que tenta mostrar como chegámos onde estamos, o nosso « status quo”, como culminação do hustle ao longo dos anos. Não chegou a ser lançado porque sentíamos que o som tinha um certo potencial que poderia não ser alcançado naquela altura. Então ficou na “gaveta“, por assim dizer.


Como surgiu o feat com o Regula?
Já desde o “System Ovaload” dos nossos primeiros singles, houve uma conexão com o Regula, ele gostou da vibe e até chegámos a participar num concerto dele, portanto já havia uma abertura para uma futura parceria. Numa das conversas com ele, mostrámos o som e foi um click para ele! Achámos que fazia todo o sentido e o resto é história!


Como se sentem em fazer um feat com um dos nomes maiores do rap nacional?
É sempre uma honra, e uma responsabilidade ao mesmo tempo, trabalhar com alguém do calibre de Don Gula. Mas sentimos que estivemos à altura e estamos todos contentes com o resultado final.


Podemos esperar novos feats com artistas hip-hop?
O hip-hop sempre se enquadrou bem nos estilos variados que apresentamos ao público, e sempre esteve presente ao longo dos anos no nosso repertório, portanto será sempre uma possibilidade, novas colaborações com artistas hip-hop!


Como será o futuro próximo dos Supa Squad?
Num período pós-pandemia, o objetivo é ir voltar à estrada e vincular os novos singles lançados assim como “recuperar o tempo perdido” com o nosso público. Preparamos também para lançar o nosso EP “Patrões”, cujo “Abranda” conta como quarto single do EP, e que irá incluir diferentes tipos de sonoridades e outras colaborações.

REPORT + ENTREVISTAS HHR | NOS ALIVE C/ BEATRIZ FREITAS

1 emissão: 12 entrevistas!

Estivemos no NOS ALIVE e hoje contamos-te tudo
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Beatriz Freitas esteve à conversa com muitos dos artistas que fizeram parte do cartaz e que vão revelar como foi a sua passagem pela edição deste ano do festival. E sim, temos algumas surpresas para ti: curiosidades, exclusivos, novos lançamentos e muito mais!

Uma emissão especial que conta com as entrevistas de:

Eu.clides – (02:18)

Dino D’Santiago – (10:00)

Amaura – (16:54)

Jura – (23:46)

Pedro Mafama – (27:34)

DJ Danifox – (34:02)

Lord XIV – (39:43)

Yuri NR5 – (44:28)

Holly – (52:02)

Russa – (56:55)

Da Weasel – (1:08:31)

Cintia – (1:10:53)

Ouve abaixo!


Edição de áudio por Nuno Mina.

ENTREVISTA + REPORT | MUNDO SEGUNDO, T-REX, XEG E CINTIA NO SUMOL SUMMER FEST C/ DIOGO MARCHANTE

Estivemos no Sumol Summer Fest e nesta reportagem trazemos até ti entrevistas a Mundo SegundoT-RexXeg e Cintia.

Com a condução de Diogo Marchante, falou-se não apenas sobre o festival, mas também sobre as carreiras, próximos tempos e algumas surpresas destes artistas.

Mais uma emissão imperdível que podes ouvir abaixo.

Foto-galeria por Bruno Miguel.

ENTREVISTAS ROCK IN RIO C/ BEATRIZ FREITAS & DANIEL PEREIRA

A HHR esteve nos quatro dias de Rock In Rio, maioritariamente no Palco Yorn da Chelas é o Sítio, que foi repleto de Hip-Hop.

Lá, a Beatriz Freitas e o Daniel Pereira estiveram à conversa com Valete, Kappa Jotta, 9 Miller, GROGNATION, Ary Rafeiro, Phoenix RDC, Vado, Eva RapDiva, G Fema e Malabá.

São dez entrevistas numa única edição imperdível que podes ouvir abaixo:

Fotografias por Daniel Guerreiro

Queima Das Fitas’22 (Coimbra)

Mais um ano, mais uma voltinha pelo mundo do hip hop na Queima das Fitas de Coimbra. À boleia, de Lisabona a Coimbra, o calor veio ao pendura com Plutónio, o primeiro artista a abrir o palco principal na cidade dos estudantes em 2022. A presença do artista veio homenagear a partida precoce do presidente da Associação Académica de Coimbra, Cesário Silva, que teve um acidente fatal de carro este ano. O artista escolheu para uma despedida digna, não por acaso, a faixa “Meu Deus“, escrita num momento da vida do cantor onde este também sentiu uma perda dolorosa assim como a cidade que este ano vestiu o luto.

Este ano, Dillaz eleva o publico até ao Oitavo Céu assim que pisa o palco no conhecido Parque da Canção. O sucesso do seu último album fez se soar pelo público que se demonstrou apto ao lembrar-se de todas as frutas na cesta do artista. Não faltou nem Maçã, nem Papaia, nem uns beats mais antigos para trazer a Saudade.

A cidade dos estudantes teve, também direito a hip hop internacional. Das ruas de Barcelona até Coimbra, Morad traz as suas influências latinas nas suas batidas frenéticas e nos seus paços de dança aliciantes que metem qualquer plateia a mexer. Foi uma noite a que ninguém disse Yo No Voy, porque claramente o recinto estava cheio para sentir os ares do nosso país vizinho.

O Palco secundário também nos trouxe uma noite dedicada ao hip hop, trazendo Heartless e Holympo, que começaram as suas carreiras aqui na cidade de Coimbra. A noite levou-nos a um campo de Girassóis guiados pela voz de Benji Price. Este, acompanhado por xtinto, levam-nos por uma viagem didática até ao Éden. Só para que no final da noite, nos sentássemos todos a ter umas conversas de balcão com os Alcool Club que nem com problemas de som, nem à acapela, deixam as garrafas ou de ser Nasty. Mas vamos ser Honestos, já todos somos parte do clube.

Após a atuação de Dino D’Santiago, foi a altura do hip-hop chegar ao palco principal na última noite da Queima das Fitas’22. Com saudades de Coimbra, Lon3r Johny chega na sua nave para abrir um portal novo onde levará todo o público à loucura seja de nave ou de GT3, aqui ninguém esquecerá o Drip.

Momentos depois, Profjam de Corona na mão (a cerveja, claramente) pisa o palco, após tempos inesquecíveis de pandemia. Com Mike El Nite atrás da mesa de mistura e na back do artista, a duo maravilha continua a dar o espetáculo das suas vidas, seja no Capitólio ou na Queima.
O artista leva-nos a Malibu, com saudades do verão, os estudantes já quase que saboreiam a Água de Coco do artista. Para espanto de todos, o System foi abaixo assim que Benji Price sobe ao palco para nos trazer os grandes hits da dupla, como a Finais. Lon3r também sobe mais uma vez ao palco para nos presentear com a Damn/Sky.

E já depois de ter o público à Vontade, Mário Cotrim declara todo o amor aos seus pais a uma família que foi conquistando ao longo dos anos. Claramente que para um grande final este traz-nos os seus mais recentes sons que na promessa trazem um album novo no dia em que se fecha o recinto da Queima das Fitas de Coimbra.

Campo (demasiado) pequeno para um Sam The Kid tão grande

Após dois anos e meio de espera, os fãs de Sam The Kid puderam, finalmente, voltar a sentir a magia de um dos principais nomes do hip-hop nacional ao vivo, juntamente com o toque especial dos Orelha Negra e de uma orquestra.

Um evento tão marcante e algo raro não podia começar de qualquer maneira, por isso foi Napoleão Mira, pai de Sam, a assumir os primeiros minutos do espetáculo, fazendo o que melhor sabe: declamando a sua poesia. Sobre o filho, sobre a ligação entre ambos, sobre a suas vidas de um modo geral, estava então dado o mote para o que se avizinhava ser uma noite épica.

E assim foi, “a partir de agora” era a vez do homem da noite assumir os holofotes. Com “decisões” ao nível do reportório que levaram tanto os fãs mais jovens, como os mais graúdos à loucura em 2h de concerto ou, segundo o artista, de “partilha da sua intimidade”.

No entanto, desde cedo se pôde perceber que esta não ia ser, simplesmente, a noite de Sam, muitos dos que o acompanharam na sua jornada e que o ajudaram a alcançar o seu estatuto estiveram presentes e fizeram a festa com ele, para além da importante e sentida homenagem ao falecido grande amigo Snake, onde foi possível ouvir-se uma gravação do mesmo a felicitar Samuel pelo sucesso do álbum “(Entre)tanto” em 1999.

 NBC juntou-se à festa para ajudar a relembrar aos presentes que na carreira de Sam The Kid, “juventude (ainda) é mentalidade” e que Chelas será sempre “o sítio”; se houvesse algum “tagarela” ou “cobardola” que ainda não soubesse que “Gaia-Chelas” é o eixo mais pesado do hip-hop em Portugal, com Mundo Segundo, esta dupla voltou a demonstrar porque é que continuam a percorrer juntos o país como duas das principais referências do rap feito em português; Slow J e Gson também se juntaram à festa e “para sempre” vai ficar na memória dos presentes a forma entusiástica como este trio foi aclamado pelo público – uma celebração autêntica; e os “mais pesados da capital” (Xeg, Regula, Valete e Sam The Kid) tiveram a audácia de protagonizar o momento mais inesperado da noite ao se juntarem para recriar a atuação dos mesmos, em 2012, naquele preciso palco.

Mas “sozinho”, Sam demonstrou ininterruptamente porque é que enche as principais salas de espetáculo do país. Com uma energia e presença contagiantes, o rapper de Chelas puxava por um Campo Pequeno que aplaudia efusivamente e cantava em uníssono as letras  fio a pavio de qualquer canção. Fossem temas mais enérgicos como “Não Percebes”, “Negociantes” ou “Poetas de Karaoke”, ou temas mais introspetivos e íntimos como “Retrospetiva De Um Amor Profundo”, “Hereditário” ou “16-12-95”, a sala era sempre “pequena” para conter o entusiasmo do público que acompanhava Sam The Kid na sua inigualável performance. O “recado” ficou dado, fosse a rimar, fosse a demonstrar beats de Orelha Negra ou até mesmo a mostrar adereços do famoso “Quarto Mágico” da Zona I, Sam “transpira” hip-hop e está num patamar elevadíssimo.

E “sendo assim” o fim do espetáculo chegou. Enquanto recebia um aplauso monumental (de pé) depois de tocar o som que “adora”, Samuel Mira agradeceu, muito sentido, a todos os intervenientes naquele bonito espetáculo, incluindo a orquestra, para o qual é um “orgulho” tocar com as vozes de apoio de David Cruz e Amaura. Neste momento ainda houve espaço para o artista se orgulhar de si próprio por ainda ter capacidade de rimar 2h ao vivo num grande nível de forma constante – “tou fat mas a rima tá forte”. E de facto, podemos confirmar, a grandeza foi muita para um pequeno campo que se foi encerrando com uma frase no ar: “só mais uma”.

Texto: Diogo Marchante
Fotografia: Beatriz Côrte

Estúdio Time Out encheu-se de uma jüradamor

Uma noite de quinta-feira que em nada influenciou a estreia absoluta de Jüra nos palcos, desta vez enquanto cantora. O Estúdio da Time Out, em Lisboa, foi o local marcado para o primeiro concerto da artista.

Assinalou-se, na passada quinta-feira, dia 19, o primeiro concerto de Jüra. O público aderiu em massa e encheu a sala do Time Out para ver a jovem artista, que apresentou pela primeira vez o seu EP de estreia, “jüradamor”. O ambiente fazia-se sentir e o público, fiel aos temas já conhecidos, como “diz-me”, ecoava em coro a arte escrita por Joana Silva.

O espetáculo arrancou com “És o Amor”, numa noite em que Jüra não só mostrou os temas da sua obra, mas também outras surpresas: foi o caso de novos temas – como “Fundo” ou “Bem Mais” – que já se encontram à espera de ver a luz do dia, mas também algo diferente, como “Telepatia”, acompanhada por António Souto na guitarra. Os dois trouxeram para o público uma versão que a artista já havia interpretado anteriormente e que se encontra disponível no Youtube.

Não parecia realmente que estava a acontecer ali a primeira exibição em palco de uma (agora também) artista de música. “A urgência falou mais alto”, dizia a artista sobre a necessidade de materializar sob a forma de música tudo aquilo que sente. A noite pautou-se sempre por um ambiente íntimo e vulnerável, em que Jüra tentava envolver todos os presentes nessa mesma atmosfera… e conseguiu.

Fotografia: Keveni Stphvne

“Jüradamor” já se encontra disponível nas plataformas digitais. De recordar também a entrevista de Jüra à Hip Hop Rádio, concedida na semana anterior ao concerto.