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Alma & Perfil: dez anos celebrados em festa

Há noites, memórias, concertos que ficarão na retina de quem lá esteve, das testemunhas, muito mais que simples espetadores, de certas confirmações, certas ilações a tirar em momentos dignos de registo. Na passada sexta-feira, o Titanic Sur Mer, no Cais do Sodré, foi o espaço de eleição para a apresentação da reedição de Alma & Perfil, primeiro longa-duração de Praso, editado pela primeira vez em 2009, agora com uma nova roupagem visual e um lado B. Não há dúvidas: o MC não está “mal-acompanhado” e, com quase vinte anos de rimas e batidas, é ainda capaz de deixar a sua “alma e perfil” num concerto único em toda a sua carreira.

Há em Alma & Perfil um misticismo inegável, em crescendo desde 2009, quando Praso, prolífico MC e produtor sineense, publicou, de forma “artesanal”, o disco em que estreou no formato longa-duração, um dos discos que assumiu o valor do artista no hip-hop nacional como algo garantido, fruto das batidas e rimas que explora, dos temas que ecoam pela paisagem jazzística que tem vindo a compor, a solo e acompanhado enquanto Alcool Club. Parte dessa aura é consequência da iconidade de “1,86 do céu” ou “Qualquer coisa e um pouco de jazz”, que, respetivamente, abriram e fecharam o concerto, mas também surge do cunho pessoal de Daniel Jones, nítido em todas as faixas que compõe. E é assim que surge Subtil – com o apoio dos instrumentais do líder da ARTESANACTO, o rapper algarvio sucedeu ao gig tímido de Fred Mineiro e subiu ao palco na apresentação do seu Áquem-mar, LP de estreia do antigo 100Nome, que não desiludiu quem ali se deslocou para o ver – deu tudo o que tinha para dar e, ainda que a respiração o tenha ligeiramente traído, só pode ter saído de palco com a sensação de dever bem cumprido. Voltou minutos depois, como hypeman de Praso – Montana não esteve presente.

“Tanto Não Chega”, “Nada Disto é Meu” ou “Mistura” foram alguns dos temas iniciais e Tom e Mass, que já n’”A Receita”, de Subtil, tinham subido a palco, voltaram para entreter o público com os seus improvisos, a quem se juntou também Uno e, mais tarde, Splinter, para cantar um tema inédito de L.E.V, “Ciclos e Vícios”, álbum que mais uma vez Praso anunciou estar nas ruas dia 25 de abril. Por esta altura, o público que se aglomerava em frente ao palco do Titanic já estava inserido no mood boémio que habitava em todos os artistas, para Sara D. Francisco cantar – e como canta ela – o refrão de “Até Virar Pó” e, pouco depois, juntar-se a Praso para cantar, a’cappella, o aclamado tema “Equilíbrio”. Beware Jack também subiu a palco para rimar em “Fico como sou”, outra das apostas do MC de Sines para revisitar o passado.

Mas foi com Tom, Subtil e Uno a cantar com ele “Mal-acompanhado” que o público vibrou uma e duas vezes, no encore, saltou, cantou e assisitiu à festa musical que se fazia ali. Não tendo esgotado o evento, o consórcio hiphopiano presente deixou excelentes indicações e uma grande mensagem de parabenização a um dos melhores discos dos últimos dez anos. E Subtil, com a sua “Hell Coast”, fechou uma noite com “alma e perfil” de forma exemplar.

Para o registo: o que destacou Praso em 2009 com este disco não se perdeu, talvez nunca se perca, basta existir “qualquer coisa e um pouco de jazz” e haverá ouvidos para a música de Daniel Jones e, consequentemente, de todo o ARTESANACTO.

Foto-Galeria para ver aqui.

Artigo por Bruno Fidalgo de Sousa
Fotografia por Rodrigo Santos

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