Hip Hop Rádio

A História do Hip- Hop Tuga: O Cliente nem sempre tem razão

Falta precisamente um mês para o evento mais importante da história do Hip-Hop Tuga. Fácil de perceber porquê: dia 8 de março o Altice Arena será o palco que irá juntar cerca de 40 nomes do hip-hop nacional entre DJs, b-boys, writers e MCs. Inédito? Sim. Enorme passo para esta nossa cultura? Claro. Então porque te queixas só porque o teu rapper preferido não vai lá estar? | Por Daniel Pereira

Há cerca de 10 anos era quase impensável que fosse existir um evento na maior sala de espetáculos do país virado exclusivamente para a cultura Hip-Hop de Portugal. Dessa altura para cá muito mudou e atualmente são raros os cartazes de festivais, semanas académicas, viagens de finalistas e qualquer outro tipo de evento que não conste com pelo menos um nome de hip-hop nacional e, por vezes, até internacional. 16 de julho de 2016 foi, para muitos, o dia que mudou de vez o paradigma nos cartazes dos grandes festivais quando Kendrick Lamar foi o cabeça de cartaz do SuperBock SuperRock e o único a esgotar os bilhetes no dia em que atuou. O concerto, claro está, foi memorável. Falo por experiência própria e do que pude presenciar: hip-hop heads ou não, todos ficaram pasmados com a atuação de K.Dot. Parece que foi ontem, mas 2016 foi há três anos e a partir daquele momento o género afirmou-se cada vez mais na música portuguesa.

Depois, veio o dia 30 de junho de 2017, um marco tão ou mais importante para o movimento. O Sumol Summer Fest tinha no seu cartaz “A História do Hip-Hop Tuga”. Sim, o evento do próximo mês não é totalmente inédito. Esta primeira versão contou com mais de 20 nomes que fizeram, fazem e continuarão a fazer história no hip-hop. No entanto, faltava algo. Faltava pegar em todas as vertentes da cultura. O único DJ era Nel’Assassin. De resto, eram todos MCs e, para mim, o grande ponto forte desta versão 2.0 é existir nomes, mesmo que não estejam em igualdade de número, que representem todas as vertentes do movimento hip-hop.

Quando o primeiro cartaz d’”A História do Hip-Hop Tuga”, em 2017, foi divulgado para o público houve algo que, talvez por ingenuidade minha, me surpreendeu bastante. Nas redes sociais e mesmo no boca-a-boca os comentários de ódio era superiores aos comentários elogiosos. As críticas apontavam ao facto de “faltar gente” ou “esse não merece estar aí”. Ora eu que simplesmente estava radiante pelo primeiro concerto a comprometer-se, através de vários artistas, a fazer uma retrospetiva da história do hip-hop nacional, estava completamente perplexo.

Haters há em todo o lado e há que saber lidar com isso, mas foi algo que me aborreceu bastante. Falo agora para uma dessas pessoas, que espero que também esteja a ler este artigo: tu que apontaste o dedo à organização por não trazer o Zé Manel (nome fictício que estou a dar ao teu rapper preferido) paraste para pensar se foi realmente culpa da organização? Sabes se não houve o convite? Sabes se houve e foi recusado? Sabes se houve e simplesmente o Zé Manel não pôde ir porque já tinha concerto agendado para esse dia? Não sabes. Nem tu. Nem eu. São assuntos relativos à organização e ao artista. O que eu sei é que cheguei a ver rappers que têm mais que lugar na história do hip-hop na área VIP enquanto “A História do Hip-Hop” estava a decorrer, portanto, neste exemplo, de quem é a culpa? Deixo a reflexão para ti. Cada caso é um caso e todos têm a sua razão para aderir ou não a eventos. Sim, estive neste primeiro evento e o que pude ver foi um público extremamente animado e feliz. Acredito que parte desse público pertencia à falange que falou mal, mas pagou bilhete e adorou o que viu porque o seu gosto pelo hip-hop e pela música ainda é superior ao seu ódio.

Em 2018 foi anunciado que o novo evento d’”A História do Hip-Hop” iria acontecer em 2019. Rapidamente o cartaz foi disponibilizado e quantidade e diversidade de artistas é superior em dobro à primeira edição. Ingenuamente, mais uma vez, acreditei que este cartaz seria abraçado por todos e de forma inequívoca. Basta aceder por exemplo ao evento no Facebook para ver que estou errado. As críticas ao facto de o Zé Manel não ir continuam, “faltam nomes da velha escola”, “Como é possível ir este?”, e são o repetir de um filme que já tínhamos visto. Há, no entanto, uma inovação com comentários como “O nome deveria ser ” História do HH e derivados” lol “. Se antes faltava muito gente, agora há gente a mais, gente que supostamente não faz parte. Vamos então ver, e vou meter apenas aqui os rappers:

Ace & Presto, Bispo, Black Company, Bob Da Rage Sense, Boss AC, Capicua, Carlão, Chullage, Dealema, Deau, Dillaz, General D, GROGNation, Holly Hood, Keso, Micro, NBC, Nerve, NGA, Piruka, Phoenix RDC, ProfJam, Sam The Kid, Sanryse & Blasph, Sir Scratch, SP & Wilson, Tekilla, Tribruto, Vado Mas Ki Ás, Virtus, Wet Bed Gang e Xeg

Não há um único nome aqui que não represente hip-hop. Sim eu compreendo que o teu rapper preferido não vá mas será que no teu dia-a-dia, tu que és fã de rap tuga não ouves nenhum destes nomes? Duvido. É óbvio que não são apenas estes nomes que fazem parte da história do Hip-Hop Tuga, para englobarmos toda a gente teríamos de fazer um festival que durasse um mês inteiro ou até mais, e isso é simplesmente impossível. Também não vão muitos dos meus rappers preferidos, mas isso não é motivo para eu dizer mal do evento. Há que elogiar o excelente e árduo trabalho da organização em juntar todos estes nomes mais os restantes das outras três vertentes, no mesmo dia, no Altice Arena. Infelizmente raros são os comentários a elogiar o evento mais importante da história do hip-hop nacional.

Vivemos numa era em que a tendência é criticar o pouco que está mal em vez de elogiar o muito que está bem. Se estavas à espera de ” A História do Hip-Hop Underground”, de “A História Do Trap”, de “A História do Boom-Bap”, de “A História do Storytelling”, de “A História do Gangster Rap”, ou outras segmentações, este evento não é para ti. A divisão da história não é toda a história do Hip-Hop Tuga. É a tua história do Hip-Hop Tuga. E isso é legítimo… mas só para ti. Não és só tu que vais estar na plateia.

“Não percebes o hip-hop”, está mais atual que nunca.

Leave a Comment